Domingo, 17.02.13
Tiago Moreira Ramalho

Aconteceu-me e, perdoe o dr. Ulrich, não aguentei, aguentei. Também tratei de arranjar nova casa. Solitariamente, como deve ser, por vezes. Chama-se Malconfort.


Domingo, 04.11.12
Priscila Rêgo

Mudei-me para o Parede de casa de banho. O wc é partilhado com dois amigos. Todos são bem-vindos. (Isto soa tão mal). 


Terça-feira, 18.09.12
Tiago Moreira Ramalho

A Douta Ignorância termina aqui. A troco de um café (que nem chegámos a pagar) trouxemos o Bruno Vieira Amaral para esta brincadeira. Porque foi isso que isto sempre quis ser: uma forma de nos divertirmos com meia-dúzia de frases pontuais, fossem elas publicadas no blogue ou trocadas nas caixas de e-mail. Tentámos fazer coisas sérias, entrevistas e afins, mas o trabalho inerente a tudo o que não tem por vocação única o puro gozo sempre nos fez deixar cair os 'projectos'.

Dois anos e meio depois deixamos aos historiadores dos séculos vindouros uma colecção (sim, com dois cês, que este blog começou antes de Vasco Graça Moura debater o novo Acordo Ortográfico com a extraordinária Edite Estrela) de duas ou três prosas menos simpáticas, incontáveis prosas profundamente ofensivas e um potencial desagrado em alguns corações particularmente atacados pelas peninhas douta ou ignorantemente atrevidas. Isto para não esquecer o texto fundamental do BVA sobre caralhos. Para que continuemos a receber o acostumadamente fabuloso rendimento que sempre daqui retirámos, o link para os posts da Priscila será um contador de ad clicks do Google. Caso queiram contratá-la para o vosso blog, saibam que A Douta Ignorância SAD detém 65% do passe. Quanto ao resto, não sabemos se deixamos saudades, mas vamos ter algumas.

 

RPR

TMR


Vasco M. Barreto

Termina aqui a minha muito pontual participação. Agradeço ao Bruno o convite, lamento que a minha última contribuição substancial tivesse sido sobre retretes e espero que a equipa se reúna uma última vez para pensar o país diante de umas cervejas. 

 

 

 


Bruno Vieira Amaral

Termina aqui a minha (muito intermitente) colaboração neste blogue. Obrigado a todos, leitores e camaradas de escrita.


Segunda-feira, 17.09.12
Rui Passos Rocha

1) Portugal vinha sendo apresentado como um caso de sucesso: os políticos apresentavam medidas de austeridade para combater a recessão e elas tinham o apoio tácito de grande parte da população, ou pelo menos a sua aceitação apática. Grande parte dessas medidas, inscrita no memorando de entendimento (assinado por Sócrates e com a aprovação de Passos Coelho), seria tida como inevitável e o seu cumprimento desejável para que continuássemos a receber os empréstimos da troika e evitássemos qualquer das alternativas que, por imprevisíveis ou indesejáveis, eram vistas como piores do que a deterioração do modo de vida.

Também a deteriorar-se vinha a opinião pública sobre a classe política. A perda parcial e temporária de soberania na formulação de políticas públicas não significa que os eleitores transfiram para a troika a responsabilidade por má governação. Todas as medidas, mas em particular as que vão além da troika, assentam num consenso frágil que implica progressividade na contribuição - quem mais tem mais deve dar. Passos Coelho desbaratou parte da pouca confiança pública possível com nomeações dúbias para cargos públicos e com o apoio aos desmandos de Miguel Relvas. E, pior, anunciou uma reformulação da TSU que não só inverte a tendência progressiva da contribuição como também não tem efeitos óbvios e significativos para a melhoria económica do país.

Grande parte dos que se manifestaram no sábado não está necessariamente contra as medidas exigidas pela troika, mas rejeita perder dinheiro em nome de políticas que considera injustas e que, pior, duvida virem a contribuir para o fim deste estado de coisas. António José Seguro vai votar contra o Orçamento de Estado, apesar de quase tudo o que lá consta ser praticamente inegociável; aquilo pelo qual deveria votar contra o OE, e que motivará uma sua moção de censura, é a proposta de alteração da TSU. Também Seguro está disposto a quebrar o consenso mínimo para se distanciar de um memorando de entendimento do qual pouco poderá negociar se chegar a líder do governo.

2) Hoje demorei 45 minutos a atravessar parte da Avenida da República (do Saldanha à rotunda do Marquês de Pombal) de autocarro. Tive tempo de sobra para observar que os polícias de trânsito deram prioridade aos carros sobre os autocarros, o que faz todo o sentido se o que se pretende é reduzir o tráfego automóvel e incentivar o recurso aos transportes públicos.

Uma das consequências da austeridade é a deterioração dos serviços públicos, com cortes em gastos e em pessoal. Mas esses cortes - ou racionalização, se preferirem ver a coisa só com o olho esquerdo - devem ser o mais consensuais possível: percursos com menos utentes devem ser reorganizados, trajectos optimizados, etc. O que não faz sentido é limitar o acesso automóvel ao centro da cidade e ao mesmo tempo fazer com que alguém demore o triplo do tempo a chegar do Saldanha a Alcântara pagando quase o dobro do que pagava há dois anos.

Fernando Henrique Cardoso dizia há dias que tempos de austeridade exigem líderes capazes. Para que estes possam encontrar uma saída para a crise, dizia ele. E, acrescento, para que estes minorem o mais possível os efeitos nefastos dos cortes, que só serão aceites se forem justos e inteligentes. Coisa que faltou nos últimos dias.


Sexta-feira, 14.09.12
Rui Passos Rocha

Estava a pensar escrever algo esta noite para justificar a minha adesão à manifestação de amanhã, mas teria pouco a acrescentar e nada a retirar ao que Luís M. Jorge escreveu. É essencialmente por isto que lá estarei.


Quinta-feira, 13.09.12
Priscila Rêgo

No Blasfémias, Rui Albuquerque baseia a sua argumentação contra o Governo numa evidência à vista de todos. Que é repetida tantas vezes que até fico com medo que alguém pense que é verdade. E daí insistir no tema.

 

O problema está em que, mais uma vez e à semelhança dos governos anteriores, este tem vindo a tomar medidas de fundo quase somente por via da receita, aumentando impostos que não têm servido para sustentar essas tais reformas necessárias a que te referes: a da estrutura operacional do estado (para o que conviria, de vez, definir onde o estado deve e não deve estar); dos custos salariais pagos para manter essa estrutura e as suas finalidades ditas sociais;

 

Sinto-me como o David Attenborough, quando desbrava a floresta e conduzia os telespectadores ao maravilhoso e desconhecido mundo da vida animal. Isto em baixo é a taxa de variação da despesa e receita: não tão exótico como os hábitos reprodutivos do coala australiano, mas aparentemente tão desconhecida como eles.  

 

 

Eu sei que o Rui, e muito boa gente, pensa, tem certeza, sabe e não tem dúvidas de que a consolidação vem toda da receita enquanto a despesa não pára de subir. Não tenho por isso expectativa de que estes gráficos (a fonte é a Comissão Europeia) o façam mudar de opinião.

 

Mas para quem está habituado a pensar com algum respeito pela realidade, talvez isto dê uma ajuda.


Quarta-feira, 12.09.12
Priscila Rêgo

O Estado não pode subir impostos para cortar o défice, tem é de cortar na despesa.

 

Porquê?

 

Porque subir impostos corta rendimento. Aprofunda a recessão.

 

Mas cortar despesa também. As pensões são despesa pública e rendimento de quem as recebe.

 

Mas eu falo da despesa da máquina do Estado, não é a despesa das pessoas.

 

Mas a máquina consome basicamente salários e bens e serviços, que também é rendimento dos funcionários públicos e das empresas.

 

Ah, mas eu falo da despesa supérflua: fundações, institutos...

 

Mas as fundações e institutos também fazem despesa em pessoas e bens e serviços. O dinheiro não é atirado ao mar.

 

Claro, mas se fecharmos fundações estamos a libertar recursos para o sector privado.

 

Sim, mas o efeito é o mesmo: aprofunda a recessão. São pessoas sem emprego e bens e serviços sem procura. No curto prazo, ninguém vai pegar nesses recursos.

 

Sim, sim, mas o Estado aprende a poupar no desperdício.

 

Mas isso também é válido para a subida de impostos. As pessoas não começam por cortar na comida. Vão ao desperdício.

 

Claro.

 

E então?

 

...

 

Hum?

 

Mas se aumentarmos impostos, estamos a retirar rendimento às pessoas.

 

 

 

 


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Priscila Rêgo

A meta para o défice de 2013 passou de de 3 para 4,5% do PIB. São menos 1,5 pontos de receita que não é preciso subir ou de despesa que não é preciso cortar. Todos os keynesianos têm motivos para sorrir.

 

Para os outros, é indiferente. 


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Terça-feira, 11.09.12
Priscila Rêgo

Isto é tudo o que tenho a dizer acerca dele:

 

A despesa pública está a cair

Não há consolidação sem dor

Seja pela receita, seja pela despesa

Impostos no sector público é corte de despesa

A coisa das contribuições até pode ser boa ideia


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Segunda-feira, 10.09.12
Priscila Rêgo

Os posts anteriores são acerca da substituição do corte dos subsídios pela subida da TSU no sector público. Resta analisar o resto do 'pacote': subida da TSU para o trabalhador e descida da TSU para a empresa. 

 

 

 

 

 


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Priscila Rêgo

Os efeitos económicos da despesa pública no post anterior são efeitos de longo prazo, que determinam a produtividade de uma economia e, logo, o seu PIB potencial. Mas o debate que surgiu recentemente acerca do virtuosismo do corte de despesa em detrimento da subida de impostos tem muito pouco a ver com PIB potencial, produtividade e níveis de vida. 

 

 

 

 


Priscila Rêgo

Gerou-se um debate intenso em torno das novas medidas de austeridade, sobretudo a "troca" do corte de um subsídio pela subida da TSU para os funcionários públicos. O Governo trocou um corte de despesa por subida de receita? Bom, depende. 

 

 


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Priscila Rêgo

O Estado tem de cortar a sério na despesa pública e não subir impostos para sobrecarregar as famílias e empresas. O Estado deve:

 

a) Baixar salários na função pública (os funcionários públicos não são famílias)

b) Cortar na despesa social (os seus beneficiários também não são famílias)

c) Controlar custos (os bens e serviços que compra não são receita das empresas)

d) Cortar no investimento (porque este não beneficia nem famílias nem empresas)

e) Reorganizar a administração pública, fechar fundações, repensar funções na saúda e educação (porque isto não tem impacto nem em a) nem em b), fácil de ver) 

 

Como se vê, é possível austeridade sem dor.

 

 


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Priscila Rêgo

Era inevitável que a subida das contribuições para a Segurança Social e manutenção prática do corte dos subsídios da Função Pública gerasse uma saraivada de críticas. Assim de cabeça, consigo pensar num monte delas: distorção das relações laborais fixadas em contrato entre trabalhadador e empregador, insistência numa estratégia de retornos marginais decrescentes, eventual inconstitucionalidade e até pouca transparência

 

Eu esperava muitas críticas. Só não esperava que fossem deste género:

 

Esta gente não consegue mesmo cortar despesa, está visto.

É melhor desistir de pensar que alguma vez o farão.

 

Este é apenas um entre muitos exemplos de uma ideia que começou a pulular por aí nos últimos dias. Quem chegasse hoje a Portugal, e se informasse junto da blogosfera liberal, ficava com a ideia de que esta legislatura tem sido uma orgia despesista, alegremente financiada com subidas de impostos a torto e a direito. 

 

Mas vamos imaginar, por um momento, que a despesa pública é aquela coisa que o INE reporta à Comissão Europeia, e não aquela outra que alguns bloggers pensam que é. O que é que isso significaria? 

  

 

 

 

 

Isto aqui é a taxa de variação da despesa anual. Vêem aquela inflexãozinha ali em 2011? Não deve ser difícil: em trinta e tal anos, é a primeira vez que acontece. E em 2012 a despesa pública volta a diminuir. O número de 2012 é ainda uma previsão mas, tendo em conta as notícias recentes, até deve subestimar a verdadeira dimensão do corte.

 

Qualquer um pode dizer que o Governo devia ter cortado mais. Só não pode - pelo menos sem inspirar algumas ironias - reagir desta forma quando se corte mais do que o esperado; nem pensar que é pouco tendo em conta a nossa tradição. A blogosfera liberal arrisca-se a fazer o papel de jornalista desportivo em vésperas de Europeu: tira da cartola o slogan 'somos favoritos' e pede a cabeça do treinador quando não faz aquilo que nem os que vieram antes dele nem os outros 14 que lá estão conseguem - ser campeão. Tenham lá paciência. 

 

 

 


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Sexta-feira, 07.09.12
Priscila Rêgo

N'O Insurgente, acerca do BCE:

 

O BCE propõe-se troca activos de qualidade por lixo tóxico. O balanço do banco, que já devia ser uma coisa linda, não vai certamente melhorar. E um dia vai ser preciso varrer todo aquele lixo. Mais cedo ou mais tarde.

 

Hum... Ora vamos lá pensar. Eu não percebo muito bem a ideia de dizer que estão a ser trocados activos de qualidade por lixo tóxico. O BCE vai trocar euros por dívida pública. Os euros são os tais "activos de qualidade"?

 

Mas o ponto que queria discutir é mais o suposto problema do balanço do BCE. Uma empresa e uma família têm de se preocupar com a sua folha de responsabilidades, porque demasiada dívida pode obrigar a cortes abruptos na despesa mensal (para pagar a dívida) ou, no limite, a penhoras. O balanço é um problema grave por aquilo a que pode obrigar, e pode ser afectado pela dimensão das responsabilidades ou pela desvalorização dos activos. Mas um Banco Central não pode ir à falência: ele é a única entidade que pode livrar-se dos problemas simplesmente imprimindo dinheiro. A falência é quase uma impossibilidade técnica.

 

Agora, se isto é tão simples, por que é que os BC não salvam as economias imprimindo dinheiro? Porque há o perigo de que a massa monetária em circulação alimente a inflação. Este é um perigo real - mas que é bastante diferente do perigo de um balanço de má qualidade. A qualidade do balanço do BCE só é relevante na medida em que limitar a sua capacidade de combater a inflação. Neste momento, não há nenhuma evidência de que estes limites tenham sido, ou estejam prestes a ser, atingidos.

 

Há ainda outra questão importante. A Zona Euro parece estar presa num 'mau equilíbrio', em que a perspectiva da insolvência alimenta juros elevados, e estes, por sua vez, alimentam o receio de insolvência. Se é isto que está a acontecer, a intervenção do BCE vai permitir repor a Zona Euro de novo num 'equilíbrio virtuoso, em que as taxas de juro descem, as perspectivas de insolvência diminuem e as taxas de juro voltam a descer novamente. E assim, como num passe de mágica, a "compra de lixo tóxico", por si só, tem o efeito de o transformar em "activos de qualidade".

 

 


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Priscila Rêgo

Ou, pelo menos, de dar uma vista de olhos ao mundo lá fora. No Blasfémias, Rui Albuquerque diz que não há Terceira Via.

 

Não há terceira via, como bem referia Mises, mas apenas duas alternativas possíveis para uma economia nacional: ou o mercado ou o socialismo. Pela primeira entende-se a livre troca de bens e serviços estabelecida directamente pelos interessados, sem coacção nem dirigismo público e político. No modelo socialista, a livre-troca, o mesmo é dizer, a liberdade individual, é condicionada e progressivamente substituída pela decisão pública, seja fixando limites directos à escolha individual ou objectivos e preços, seja condicionando os direitos de propriedade, por exemplo, por via do aumento progressivo das cargas tributárias. Cada medida tomada pela soberania ou segue no caminho do primeiro modelo (coisa naturalmente rara) ou no caminho do socialismo (tendência predominante).

 

Talvez eu esteja a ver mal a coisa, o que provavelmente decorrerá do facto de viver num planeta diferente do Rui. Mas, naquele que eu habito, a esmagadora maioria das economias desenvolvidas são algo que gira em torno da Terceira Via: economias mistas. Pelo contrário, aquilo que é raro, quando não mesmo inexistente, são as formas puras e "socialismo" e "mercado" que o Rui Albuquerque identifica. De onde raio vêm ideias como estas?


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Quarta-feira, 05.09.12
Rui Passos Rocha

Um país em que um historiador explicita, na sua obra, que o regime 'x' foi menos repressivo do que o regime 'y' por motivos que ele elenca deveria ser um país em que outro historiador, para quem o regime 'x' foi na globalidade mais repressivo do que o regime 'y', especificasse em que aspectos o foi e por que motivos a comparação faz pender a balança em seu favor. Esse também deveria ser um país em que outro historiador, que pensa de forma semelhante ao anterior e tem um percurso académico mais robusto que ele, aproveitasse a discussão para recentrar o debate, criticando um pelos indicadores com que ilustra o seu discurso menos crítico do regime 'x'  e o outro por basear a sua crítica do primeiro (para não falar da insinuação sobre as suas preferências ideológicas) numa ínfima e descontextualizada parte da sua obra. Mas não: o texto de Fernando Rosas no Público de hoje é uma tentativa de colocar o ónus da prova em Rui Ramos, quando deveria ser Manuel Loff (porque despoletou a discussão), com ou sem a ajuda de Rosas, a tornar a sua crítica mais sólida e obrigar Rui Ramos a responder de forma igualmente inteligente. É triste que a discussão de um tema importante por duas das pessoas que melhor o conhecem acabe em acusações e vitimizações.


Bruno Vieira Amaral

Cristiano está triste. Sabemos que Cristiano está triste porque Cristiano anunciou após o jogo do Real Madrid que estava triste. Disse também que as pessoas do clube conheciam as razões da sua tristeza e que não queria falar mais sobre isso. O anúncio da tristeza de Cristiano é, sem qualquer dúvida, mais uma jogada política do que um sintoma de verdadeira tristeza. Se há no mundo moderno alguém geneticamente impreparado para a tristeza é o craque madeirense. Não tem a ver com as quantidades obscenas de dinheiro. Messi, por exemplo, ganha tanto ou mais que Ronaldo e mesmo assim vê-se que há naquele olhar uma possibilidade de melancolia, de genuína tristeza. Em Cristiano até os 3000 abdominais por dia são uma forma de repelir qualquer investida das nuvens negras da depressão. O übermensch Cristiano é simplesmente incapaz de nos convencer da sua tristeza, sobretudo quando a anuncia cirurgicamente após um jogo de futebol. De Cristiano esperamos frustração e raiva perante as derrotas, mas a armadura de músculos e de gel tornam-no invulnerável, aos olhos do público, aos dramas mais subtis e vaporosos dos estados de alma. Não é uma questão de dinheiro. Aliás, é bem curiosa a reacção filistina dos pobres (os de espírito e os outros) confrontados com a anunciada tristeza de Cristiano: “Então o gajo ganha um milhão de euros por mês e tem a lata de dizer que está triste?” Sublinho que são estes arautos do senso comum que nos lembram constantemente que o dinheiro não traz felicidade. Qualquer pessoa, mesmo um jogador de futebol muito bem-sucedido, pode sucumbir ao demónio da tristeza (lembram-se de Robert Enke?). O que é obsceno nas declarações de Cristiano não é o dinheiro que ele tem em comparação com o que nos falta a nós. O que é chocante, pelo menos para alguém que, como eu, dá tanto valor à verdadeira tristeza, é a leviana utilização da tristeza como arma num negócio político-futebolístico. Não é o dinheiro de Cristiano que o torna indigno da tristeza que anunciou; é o fazer da tristeza moeda de troca, falso estandarte, arma de chantagem. Isso, sim, é uma tristeza e um insulto, não aos que não têm o dinheiro de Cristiano, mas aos que sofrem a tristeza real que lhe falta.


Domingo, 02.09.12
Priscila Rêgo

No último post do Tiago, um leitor comenta que o problema (da teoria económica, presume-se) está em assumir sempre a hipótese "com tudo o resto constante. Essa coisa não existe no universo". Esta é uma crítica recorrente, velha e errada à teoria económica, que vale a pena destilar um bocadinho melhor. 

 

 

  

 

 

 


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Sábado, 01.09.12
Tiago Moreira Ramalho

Apesar de já ter alguns dias, o que já permitiria, com jeitinho, a irrelevância blogosférica, este artigo do João Galamba (e, a propósito, o artigo que ele cita) contém, a meu ver, um conjunto de erros que é preciso esclarecer. Isto não sem antes dizer que a blogosfera, regra geral, não é o melhor sítio para se discutir questões tão técnicas, seja de que ciência for. A ciência económica, para a qual cada um parece ter uma predisposição ‘relvista’ para se auto-certificar, traz problemas acrescidos. Mas, como diriam nuestros hermanos, the damage is done, por isso vamos a isto.

Os custos de trabalho por unidade produzida (CTUP) não nos dizem, de facto, nada de relevante sobre os salários. Mas também ninguém credível na área de economia internacional seria capaz de o dizer. Os CTUP são, sim, e só quando analisados nas suas variações, um instrumento de avaliação da evolução da competitividade de um país, pela via dos custos do trabalho.

Sabemos de ciência certa que, com tudo o resto constante, baixando os salários vamos ter um ganho de competitividade (os CTUP baixam). O ganho de competitividade é trazido pelo facto de um dos custos de produção ser mais baixo e, por isso, os preços dos bens exportados poder baixar. O efeito é semelhante ao da desvalorização, sendo que neste último caso o que acontece é que em vez de uma diminuição do salário nominal, existe um desconto generalizado nos produtos exportados e uma quase certa diminuição do salário real. O fundamental é que um método nos torna mais competitivos por diminuir os custos dos nossos produtos, enquanto o outro nos torna mais competitivos por diminuir «artificialmente» o preço final.

A validade da variação de salários para ajustamentos de curto-prazo não invalida que o que é naturalmente bom para uma economia é, como diz o artigo da Vox, evoluir na sua tecnologia. No entanto, contrapôr as duas medidas é absurdo, pois uma diz respeito ao longo-prazo e outra ao curto-prazo apenas. Não é agora, no meio de uma crise como a que vivemos, que a indústria portuguesa vai virar radicalmente e que os nossos trabalhadores vão mudar as suas qualificações. Neste momento, é preciso um ajustamento rápido. E de facto diminuir salários é rápido (o que não significa que seja exequível).

E aqui chegamos ao ponto fundamental. Sim, os CTUP são um instrumento de medição da variação da competitividade. Sim, a melhor solução é melhorar a tecnologia, o que não exclui a pertinência de um ajuste de curto-prazo nos salários nominais. Não, não me parece que seja possível, nos dias de hoje, diminuir generalizadamente os salários através de uma medida centralizada, o que torna a discussão sobre os CTUP mais uma curiosidade científica do que um potenciador de mudanças políticas.


Quinta-feira, 30.08.12
Priscila Rêgo

Eu sei que já vem tarde - o post tem uns cinco ou seis dias - mas só agora li a pérola. Helena Matos cita um trecho de um texto que diz que "todo o argumento que tenta estabelecer uma distinção moral entre animais humanos e não humanos, tenta retirar aos últimos o direito a ter direitos somente por pertencerem a uma espécie diferente da nossa"

 

Vindo de onde vem (Esquerda.net...) eu até diria que é uma das coisas mais ponderadas, sensatas e razoáveis que se lê por aquelas bandas. Mas a Helena Matos extrai, daqui, que "Nesse caso é tão válido a nossa espécie retirar direitos como dá-los porque os animais per si são alheios a essa visão humanizada da sua vida. Por este caminhar as águias ainda são obrigadas  a optar pelo vegetarianismo e o BE ainda vai exigir um canal do  serviço público de televisão para vacas e RSI para as ratazanas altruístas".

 

Hum, como disse?

 

Ó Helena, os bébés e alguns deficientes mentais também são alheios a essa "visão humanizada" da sua vida. Isso não significa que tenhamos a liberdade de os espancar, violar ou matratar. Os direitos éticos não se fundam na reciprocidade. Isso não é ética nem moral nenhuma - é calculismo. E para promover o calculismo não precisamos de alterar a lei - acredite que cada um chega lá por si mesmo. 

 

E eu não sei o que o João Semedo acha do excerto do artigo em questão. Mas imagino o que ele acharia de um texto que começa a ironizar com uma trivialidade (que a distinção humano/não humano é um critério especista), passa para a conclusão de que só quem tem deveres pode ter direitos, e acaba a falar em RSI para ratazanas altruístas. Como ele é médico, talvez conseguisse identificar a patologia. 

 


Terça-feira, 21.08.12
Bruno Vieira Amaral

(Escrito a poucos dias do início dos Jogos Olímpicos)

 

Os puristas de sofá preparam-se para mais uma jornada de invocação dos nobres ideais do barão de Coubertin. Enquanto mais de dez mil atletas de todo o mundo cumprem o sonho de uma vida construído com o sacrifício de milhares de horas de treino, os profissionais da nostalgia e do “antigamente é que era bonito” maldizem a máquina de fazer dinheiro em que se tornaram os Jogos Olímpicos. No entanto, para os atletas, a consagração olímpica continua a ser o cume da carreira. Uma lesão ou uma queda que ditem a perda de uma medalha provocam lágrimas e desespero que não se podem justificar com os contratos que se perdem ou com os milhares de euros que não vão ganhar. No momento de competir, o dinheiro, o negócio, os patrocinadores, todos esses fantasmas que ameaçam a pureza da competição, desaparecem da cabeça dos atletas. Só há um objetivo: dar tudo. Mas nem sempre a cabeça dos atletas fica vazia ao ponto da concentração máxima. Por vezes, a cabeça atrapalha e anos de treino, de sacrifícios e de desejos evaporam-se num segundo, numa postura errada do corpo, numa barreira que não se consegue ultrapassar, num ensaio nulo, numa falsa partida. No momento da verdade, que separa os bons atletas dos imortais, alguns sucumbem à pressão e à ansiedade. Duvidamos que os seus cérebros, nesses segundos decisivos, estejam a pensar nos ideais desvirtuados de Coubertin. Naquele momento são eles a lutar contra os adversários por um lugar na história. E, frequentemente, quando os adversários já estão derrotados, o último e mais difícil obstáculo vem de dentro.

 

Seul, 1988. Domingos Castro participa na final dos 5000 metros e há boas possibilidades de conseguir uma medalha, talvez a de ouro. A corrida inicia-se e, por volta do primeiro quilómetro, o queniano John Ngugi isola-se. Com três quilómetros percorridos, Castro vai atrás dele, passa o resto da prova a 30 metros do adversário, mas tem uma vantagem confortável para os outros atletas. À entrada da última volta, a medalha de ouro é uma miragem, mas a medalha de prata é quase uma certeza. Até aos derradeiros cem metros. Vindos de trás, com pontas finais poderosíssimas, Dieter Baumann e Hansjörg Kunze, deixam Domingos Castro no mais frustrante dos lugares olímpicos, o quarto. Em vez de focarem o vencedor ou os outros dois medalhados, as câmaras centram-se em Castro a andar de um lado para o outro, incrédulo e em lágrimas. Acabara de perder uma oportunidade única de conseguir uma medalha em Jogos Olímpicos. Ainda participou em Barcelona 92, tendo terminado a prova em 11º lugar. Acabou a carreira com uma medalha de prata nos campeonatos do mundo de 1987. Faltou-lhe aquela que perdeu nos últimos cem metros na corrida de Seul. Imagino que, de vez em quando, o corredor ainda refaça mentalmente o percurso e se empenhe num esforço retroactivo para não ser ultrapassado, para não perder a sua medalha. Apesar disso, o caso de Castro não foi de um bloqueio. Para todos os efeitos, realizou uma prova notável e um dos seus melhores tempos na distância. Os outros foram simplesmente melhores. Nem sempre é isso que acontece. Quatro anos antes da ocasião perdida por Domingos Castro, Fernando Mamede chegou aos Jogos Olímpicos de Los Angeles como o melhor atleta do ano nos 10 mil metros. Mais: chegou como recordista mundial. Mamede era um atleta de eleição. Talvez o melhor da sua geração em talento inato. Moniz Pereira disse recentemente numa entrevista ao Público: “foi um atleta único, nunca vi ninguém assim.” Mas, no momento da verdade, o atleta de Beja bloqueava. Sentia o peso da responsabilidade, o “medo cénico”, e todas as suas incríveis qualidades não chegavam para derrotar a sua fragilidade mental. Naquele que seria o momento mais glorioso da sua carreira, fracassou com estrondo. Desistiu a meio da final. Não conseguiu libertar-se. Ficou amarrado. A cabeça pesava de mais. Pensava de mais. Segundo Moniz Pereira, Mamede tinha um grave problema de ordem psicológica. “Durante mais de dois anos ganhou os meetings todos em que participou, mas chegavas às grandes provas, Mundias e Jogos Olímpicos, falhava. Começava a queixar-se com dores e a dizer que não era capaz...Estava mais bem preparado que o Lopes, mas o dia chegava e fraquejava. Ao fim da primeira volta já era último. No final, perguntaram-me se ele tinha acabado como atleta e eu disse para esperarem pelo próximo meeting da Suiça. Chegou lá e ganhou. Era cabeça.”

 

Em alta competição, pensar de mais é, muitas vezes, o caminho mais rápido para o bloqueio. No seu artigo A Arte do Fracasso, Malcolm Gladwell dá o famoso exemplo do “estoiro” de Jana Novotna na final do torneio de Wimbledon contra Steffi Graff, em 1993. A tenista checa tinha feito um torneio notável até aí, tendo deixado pelo caminho Gabriela Sabatini e Martina Navratilova. Na final, perdeu um primeiro set no tie-break e ganhou o segundo set por demolidores 6-1. No terceiro set liderava por 4-1. Estava a um passo da glória. Podem confirmar no youtube a qualidade de algumas jogadas de Novotna (http://www.youtube.com/watch?v=BTwN_kQc0Pc). Comparem-nas com o ténis praticado a partir desse momento. Não parece a mesma jogadora. Duplas faltas, bolas contra a rede, respostas disparatadas. Graff manteve o equilíbrio, ganhou os cinco jogos seguintes, o set e o torneio. Quando recebeu o prémio de consolação, Novotna não aguentou e chorou no ombro da Duquesa de Kent. Vemos as imagens e partilhamos a frustração, a tristeza e a impotência de Novotna, sem ninguém para culpar a não ser a sua cabeça, a incapacidade de resistir à pressão de estar tão perto de ganhar o mais importante troféu do seu desporto. Foi como se naquele momento de viragem a tenista se tivesse ausentado de si própria, tivesse começado a olhar de fora o seu extraordinário desempenho, a racionalizar os movimentos, e esse pensamento tivesse quebrado o feitiço da união natural entre vontade e acção. Gladwell, que neste artigo distingue o bloqueio do entrar em pânico como duas formas diferentes de fracassar, resume assim o colapso de Novotna: “Quando Jana Novotna fracassou em Wimbledon, esse fracasso deveu-se ao facto de ela ter começado a pensar novamente nas jogadas. Perdeu a fluidez, o toque. Fez duplas faltas nos serviços e falhou bolas altas, as bolas que exigem maior sensibilidade em termos de força e tempo. Ela parecia uma pessoa diferente – a jogar com a deliberação lenta e cautelosa de uma principiante –, porque, num certo sentido, ela voltara à fase de principiante: estava a contar com um sistema de aprendizagem que não usava nos serviços nem nas defesas desde que aprendera ténis na infância.” Este processo é tão simples e rápido quanto aflitivo para quem o vive. É como acordar de um estado de transe competitivo. De repente, há um bloqueio dos movimentos naturais, da memória muscular e o atleta regride para o patamar da “aprendizagem explícita”, um termo científico utilizado por Gladwell no seu artigo e que é equivalente a um leitor adulto ler este texto dividindo as palavras em sílabas. Naqueles momentos, mentalmente, os atletas regressam aos bancos da primária. Foi o que aconteceu a Lolo Jones na final dos 100 metros barreiras em Pequim. A atleta norte-americana não bloqueou no sentido de ter feito uma prova desastrosa. Mas numa prova tão rápida e tão técnica como esta, o mínimo deslize significa a derrota porque não há tempo para corrigir o erro. Jones partiu pior que a australiana, mas a meio da prova já liderava. Quando faltavam duas barreiras, a medalha de ouro parecia ter encontrado a destinatária. Porém, Jones tropeçou na nona e penúltima barreira, desequilibrou-se ligeiramente e isso foi o suficiente para ser ultrapassada por seis atletas. Em entrevista à revista Time, a velocista norte-americana disse que em determinado momento começou a ver as barreiras a sucederem-se a uma grande velocidade e lembra-se de ter pensado que não se podia descuidar na técnica. Foi então que bateu na barreira: “Sinceramente, eu devia ter relaxado um bocadinho e ter-me limitado a correr.” O artigo da Time refere, com base em estudos sobre este tipo de bloqueios, que nestas ocasiões, devido à preocupação, o córtex pré-frontal é inundado por pensamentos quando deveria ser o córtex motor, que controla o planeamento e a execução dos movimentos, a ditar as regras. Em vez de se deixar ir, de flutuar, o atleta começa a pensar, o cérebro entope, indeciso entre a reflexão e a acção, e os músculos, como soldados confusos com ordens contraditórias, hesitam. Basta um segundo e a batalha está perdida. (Jones acabou no maldito 4º lugar dos 100 metros barreiras em Londres).

 

Vejamos a situação oposta, o momento em que um atleta se transcende, chegando muito mais longe do que era expectável. Há um caso recente. Algumas semanas atrás, o tenista espanhol Rafael Nadal enfrentou o checo Lukas Rosol em Wimbledon. Nadal tem onze títulos do Grand Slam, este ano já venceu o torneio de Roland Garros e apesar de a relva não ser o seu território preferido já triunfou em Wimbledon por duas vezes. Nada, a não ser a ocorrência de uma lesão ou um acidente cósmico, faria prever a derrota do espanhol contra o nº 100 do mundo. Mas foi isso que aconteceu. Razões? Depois da derrota, Rafael Nadal, o campeoníssimo Rafael Nadal, pouco habituado a perder nestas circunstâncias, procurou justificações e só conseguiu dizer que o adversário tinha “respondido sem pensar”. Com bolas disparadas a mais de 100 quilómetros por hora, o tempo para se pensar não é muito. Responder sem pensar parece uma boa estratégia e, para infelicidade de Nadal, resultou. O que o tenista maiorquino disse é menos interessante do que o que se percebe das suas palavras. Para Nadal, o ideal seria que Rosol tivesse pensado mais, tivesse tido mais consciência do palco, do adversário e das suas próprias capacidades (claramente inferiores às de Nadal). Mas Rosol optou por se esquecer de tudo isso e por responder sem pensar. Resultado: derrotou um dos melhores jogadores de sempre. Mas talvez não tenha sido uma opção, talvez a libertação de Rosol dos pesos do pensamento tenha sido involuntária, talvez tenha simplesmente acontecido. Temos a ideia que para um jogador ganhar a um adversário que lhe é superior tem de o conhecer muito bem, tem de definir uma estratégia que explore os pontos fracos de quem está do outro lado e tem de elevar os níveis de concentração a um patamar budista para resistir à batalha. O que o resultado de Rosol prova é que, por vezes, basta deixar-se ir. Um tenista profissional, mesmo um que esteja no 100º lugar do ranking, como era o caso de Rosol, é um desportista de elevado rendimento, muito bem preparado técnica, física e mentalmente. Quanto mais pensar na distância que o separa do topo da hierarquia maior lhe parecerá essa distância. Quanto mais pensar no adversário mais pensará sobre as suas próprias limitações. Quanto mais pensar na vitória, maiores serão as probabilidades de sair derrotado. A solução é: não pensar. Jogar. Regressar a um estado uterino, irrefletido, de açção pura. Há dois problemas: o não pensar não garante a vitória (em 10 jogos, Nadal provavelmente derrotaria Rosol em 9, por muito que este não pensasse) e não pensar é muito mais difícil do que parece, porque depende de um esforço voluntário rumo a um estado que é quase de transe. Neste sentido, o não pensar é uma espécie de transe autoinduzido, sem auxílio de outra coisa que não seja a força de vontade. Como se vê, é um equilíbrio quase impossível entre a inconsciência e a vontade, entre o esforço para chegar a um estado e esse estado que é essencialmente “sem esforço”. Rosol transcendeu-se. Não apenas no sentido de ter ido além das suas capacidades, mas no sentido religioso de transcendência. Como se os pensamentos tivessem migrados para os músculos, ossos e tendões. O truque é não querer ser mais esperto do que o corpo no território deste. O pensamento é muito útil num jogo de xadrez ou na resolução de uma equação matemática. Numa prova de alta competição pode ser desastroso.

 

Será que o segredo é ser estúpido? Não. O segredo é ser inteligente e deixar que a parte de nós mais bem preparada para lidar com aquele desafio assuma o comando. Se eu precisar de alguém para pilotar um avião vou recorrer a um piloto de longo curso com muita experiência e não ao rapaz que se licenciou em Matemática Aplicada com média de 20. Às vezes, ser mais inteligente pode passar por se pensar menos, não mais. Num ensaio sobre o livro de memórias de Tracy Austin, David Foster Wallace surpreendia-se com a pouca sofisticação dos comentários da tenista sobre o seu próprio desempenho desportivo. Esta constatação é, de facto, muito pouco surpreendente. Se há bons romancistas e poetas incapazes de produzir um discurso interessante sobre os seus ofícios por que é que esperamos que alguém que não trabalha com palavras o fizesse? A desilusão de Foster Wallace com a superficialidade dos desportistas leva-o a concluir que essa superficialidade não é apenas o preço a pagar pela excelência desportiva, mas a sua condição necessária: no desporto, só quem não pensa no que faz poderá fazê-lo perto da perfeição. Isto é, obviamente, um erro. Se perguntarem a Diego Armando Maradona em que é que ele estava a pensar enquanto fintava metade da equipa inglesa para marcar o que é considerado um dos melhores golos de sempre, a resposta será sempre frustrante quando comparada com a beleza dos movimentos em si. A dificuldade em descrever por palavras um desempenho desportivo de excelência não afeta apenas os próprios desportistas. Poucas pessoas serão capazes de executar essa tarefa ao nível do que o próprio Foster Wallace fez com o ténis de Roger Federer. Pedir que um desportista de topo seja eloquente quando fala do seu desempenho, que seja tão leve e gracioso nas palavras como é em campo, é exigir a coincidência de dois tipos de génio tão diferentes na mesma pessoa que o mais próximo que consigo imaginar seria o de esperar que Einstein tivesse sido campeão olímpico nos saltos para a água. Não é estranho que os desportistas tenham dificuldades em traduzir para palavras os seus movimentos em competição. Essa não é uma dificuldade exclusiva dos desportistas nem é uma condição para um desempenho de excelência. O que parece ser uma condição para um desempenho de excelência é que no momento da competição o desportista não tente pensar como um escritor sentado à secretária à procura da melhor maneira para descrever o que está a fazer. É na capacidade de entrar em transe, in the zone, no momento de maior pressão, em que a memória fica desligada, em que o atleta não está de facto a pensar em nada, que os grandes atletas se distinguem. O facto de escreverem maus livros de memórias não explica o seu extraordinário sucesso desportivo. Diz-nos apenas que deviam ter ficado pelo desporto porque o génio de escrever eloquentemente sobre a excelência desportiva é quase tão escasso como o próprio génio desportivo.


Sexta-feira, 10.08.12
Tiago Moreira Ramalho

Hoje acordei para ir ao dentista e enfiei-me a seguir num carro durante horas a fio, com um termometrozinho a roçar-se constantemente no número trinta e cinco, para chegar àquilo a que muitos, com alguma propriedade, chamam de parvónia. Não estarei seguramente saudável, fresco, airoso e fundamentalmente lúcido. E apenas porque a loucura não raras vezes traz fortuna escolhi este momento (que se segue à entoação do «Hino à Alegria» de Beethoven ali no sino da igreja da aldeia, numa clara demonstração que o nobre povo das Beiras não precisa de guardar moscas num S. Carlos) para me debruçar – ó p’ra mim – sobre o que Seabra, Zita Seabra, veio dizer (ou não) à televisão e ao eterno Crespo, de quem, a propósito (ou não), é editora.

Debrucemo-nos, ora pois. Um elementar facto é que Zita Seabra insinuou que o PCP espiava órgãos públicos portugueses a mando da (ou em colaboração com, como o Politburo luso gostaria de pensar, caso tudo isto não passe de um deliriozinho seabrino) República Democrática Alemã. Não foi em momento algum dito que equipamento era usado ou onde era incorporado. Por isto, e ao contrário do que se possa pensar, as declarações não se desmentem a si próprias. Muito pelo contrário. São particularmente carentes de desenvolvimento por (i) serem proferidas por uma destacada funcionária do partido à época e por (ii) nos levarem a pensar que uma organização política, com representação parlamentar e que chegou a integrar governos durante essa década, estava ao serviço de um outro Estado e pronta a lesar Portugal. Às declarações não faltam, portanto, credibilidade, vinda de quem as profere, e importância, dado o conteúdo.

Seria, por isto, de esperar que o PCP não fizesse pose de diva respondendo que as afirmações da «pessoa» não têm «crédito» nem «merecem comentário». O PCP foi acusado de uma prática gravíssima que coloca em causa a sua imagem pública (afinal, Zita Seabra é conhecida essencialmente por expor, com mais ou menos rigor, historietas internas do partido) e a reacção natural deveria ser um processo judicial. E porque isto não diz apenas respeito ao PCP, mas sim ao país,  deveria ser a própria PGR a avançar, caso não haja processos movidos pelas partes. Haja provas de tudo isto e ainda há muita gente viva para mandar para a cadeia. Inclusivamente, quem sabe, a própria Zita, que, a acreditar nas suas declarações, foi cúmplice de traição. 


Terça-feira, 07.08.12
Rui Passos Rocha

Todos queremos parecer muito inteligentes. Ou, no mínimo, todos queremos dar a entender que não somos idiotas. Custa perceber que em rigor devemos incluir "não sei" ou "acho que" em 90% das nossas frases; custa bem menos não usar essas expressões, talvez até convencendo-nos de que não é por orgulho que o fazemos mas porque seria, aos olhos dos outros, redundante fazê-lo. Mas isto provavelmente custa mais a quem menos faz por ser realmente inteligente, sendo a inteligência um critério mais qualitativo do que quantitativo - e fazer por ser inteligente implica saber como se deve fazê-lo, o que implica sentir atracção pela busca inacabada, para usar termos que farão João Carlos Espada rejubilar.

O texto de Elísio Estanque no Público de ontem é, para não variar, um exemplo de como é mais fácil encaixar a realidade, que é maçadoramente complexa, nas preferências pessoais. O texto tem o título sugestivo "Às portas do trabalho escravo" e reza assim:

 

«[...] Pode dizer-se que a luta é agora entre os "descomplexados competitivos" e os "preguiçosos coletivistas". As novas leis do trabalho são, portanto, o resultado de uma luta persistente dos primeiros contra o conservadorismo coletivista dos segundos (e contra o vírus sindical, que está moribundo mas não morto), visando a generalização do trabalho forçado, isto é, criando um amplo exército de famintos, uma nova força de trabalho disponível para o trabalho gratuito, que começa a emergir dos destroços da atual classe trabalhadora. Em vez da busca de compromissos que, desde o século XIX, o capitalismo industrial tentou estabelecer entre capital e trabalho, a linha dura que esta nova "internacional liberal" fortemente apoiada no capitalismo financeiro fez aprovar (e que, naturalmente, o Governo português foi dos primeiros a subscrever) retoma a velha ideia do "trabalho-mercadoria" como primeira prioridade a caminho do "Sol nascente" do hiperliberalismo competitivo. [...]»

Quase arrisco dizer que é também um exemplo de como o dito de Kahneman no post abaixo também se aplica a quem faz da investigação profissão, mas não posso estar seguro disso. E é também um exemplo de como o uso de palavras difíceis no discurso, para lhe dar uma roupagem inteligente, acaba por ter o efeito contrário: o de o interlocutor ficar com a impressão de que aquela pessoa não se saberia explicar em termos simples, no mínimo, ou está mesmo a tentar enganar os outros. Sobre isto, e para umas risadas, recomendo o livro Imposturas Intelectuais de Sokal e Bricmont e, como atalho, este paper de Daniel Oppenheimer.

Mas atenção que a realidade não é a preto-e-branco: o argumento da falta de honestidade intelectual aplica-se a quase toda a raça, talvez até a toda ela a espaços (sim, estou a incluir-me no lote). É a necessidade de não parecerem estúpidos que faz com que mesmo os que compreendem o método científico (no sentido de método para adquirir conhecimento o mais fiável possível) escorreguem: aconteceu com Orlando Figes, um dos especialistas da história soviética, e com Jared Diamond, um entendedor de como a geografia condiciona o desenvolvimento económico. Ambos quiseram embelezar as suas narrativas inventando uns estropiados cujas histórias de vida ilustrariam o declínio desta ou daquela civilização.

Curiosamente ou não, ambos se especializaram em realidades remotas: uma sociedade que já lá vai, no caso de Figes, e sociedades que ainda estão no sítio mas sobre as quais com sorte ouvimos falar meia dúzia de vezes por ano e devido a catástrofes naturais ou massacres (como a Papua Nova Guiné). Figes chegou mesmo a escrever na Amazon comentários negativos a obras de um seu concorrente, Robert Service; Diamond ficou-se por embelezar, ou até mesmo inventar (há um processo judicial em curso), citações - coisa que certamente chocaria o Sindicato dos Jornalistas, que tem a barriga cheia por a imprensa nacional não ter o hábito nem meios para fazer double-checking com as fontes. Diamond e Jonah Lehrer, que escreveram para a New Yorker, não tiveram essa sorte.

Elísio Estanque escreveu (como de costume) sobre aquilo em que se especializou (no sentido de "tema sobre o qual mais lê e escreve", mas acho que se percebe o que quero dizer com isto): o mercado laboral português. Fê-lo de forma henrique-raposiana, criando conceitos populistas para algo que é demasiado abstracto para poder ser falsificável, mas que obnubila e acicata quem se abespinha com facilidade (estou a ficar contagiado). O reverso da medalha é que - no caso de um como no do outro - escrever assim deixa um rasto indisfarçável de mau cheiro. Contra a tentação do pensamento estanque valha-nos o peer review.


Segunda-feira, 30.07.12
Rui Passos Rocha
"It is the consistency of the information that matters for a good story, not its completeness. Indeed, you will often find that knowing little makes it easier to fit everything you know into a coherent pattern"
- Daniel Kahneman, Thinking Fast and Slow

Rui Passos Rocha

A decisão do Tribunal Constitucional de considerar inconstitucional o corte do 13º e do 14º meses no sector público vai enformar as decisões do governo até ao final da legislatura. Por isso vale a pena ler o longo texto de Pedro Lomba no Público de hoje, em que contextualiza a decisão e termina lançando uma série de dúvidas:

«Devem os juízes constitucionais pretender "interpretar" a opinião pública para conduzir a sociedade em escolhas políticas fundamentais? Devem formular julgamentos subjectivos de igualdade proporcional sobre uma realidade económica que desconhecem? Não creio. Mas: se o Governo tivesse mostrado mais modéstia executiva na invocação da excepção financeira, teria recebido igual modéstia judicial do TC? Se o TC não tivesse dado sinais em 2011 de que não se intrometeria no debate político-económico, teria o Governo avançado com o corte dos subsídios como avançou? Se PS e PSD não tivessem atrasado a eleição dos novos juízes, teria a nova composição feito algo diferente? Se Passos Coelho não tivesse deixado cair o aumento de meia hora, iria o TC dizer que o sector público estava a ser sobrecarregado? Se os titulares de funções de soberania, como os magistrados, tivessem sido excluídos dos cortes, teriam os juízes que votaram em 2011 pela constitucionalidade mudado de posição? Se o pedido de fiscalização não tivesse partido sobretudo de deputados desalinhados do PS, faria alguma diferença? Nunca saberemos. Este texto destina-se só a pensar que estas dúvidas contrafactuais não são e não foram, neste contexto, irrelevantes.»


Domingo, 29.07.12
Tiago Moreira Ramalho

A crítica, seja ela do que for, deve servir mais o propósito da gradual redução da estante que o seu acelerado crescimento. Há aqui algum exagero, mas, ainda assim, uma crença genuína no fundamental.  A crítica deve servir de filtro e deve o crítico, mesmo que por vezes de forma injusta, impermeabilizar de tralha inútil o consumidor. Porque se tudo for bom, e cada vez mais tudo me é apresentado como bom, o crítico torna-se inútil, um mero divulgador com performance menos interessante que um singelo anúncio numa auto-estrada qualquer. Abra-se um suplemento cultural por estes dias e contemple-se o fenómeno. Na música, quase tudo é corrido a quatro estrelinhas para cima, que nunca se sabe onde estará escondida uma grande obra-prima e é sempre bom pertencer ao grupo dos que a «encontrou». Já a literatura, fôssemos nós viajantes vindos do futuro, diríamos numa das fases mais profícuas e de maior qualidade de que há registo. No cinema o fandango não é diferente. E assim se tornam inutilidades impressas muitas daquelas páginas onde pululam exércitos de gente para quem a escolha, essa puta velha, não é coisa com significado sério. As excepções, aqueles que se dão liberdades de dizer, com seriedade e rigor, que o que leram, viram ou ouviram é uma abismal bodega, rareiam, e encontrá-las, essa tarefa hercúlea, vai sendo cada vez mais dispendioso.


Tiago Moreira Ramalho

«Não é que me lembre, mas quando as férias eram largas e simples como um tapete largo e simples, como uma mesa larga e simples, havia quem, nas mais diversas latitudes, gastasse as horas mortas do Verão a escrever postais ou cartas, um hábito dos bons que se foi perdendo, com graves danos para a saúde da nossa caligrafia e para a reconstrução futura da memória que interessa e de que hoje não cuidamos, atarefados na partilha pouco parcimoniosa de fotos bizarras e de vídeos de gatinhos com tudo e gatonas sem nada. Muitas vezes, porque o mundo é vasto e os CTT não eram mais rápidos que a sua própria sombra de três letras, a missiva só chegava à caixa de correio uns dias depois da pessoa-remetente regressar à casa de partida e após ter ido beber um café ou uma groselha com a pessoa-destinatário, ocasião não raras vezes aproveitada, pela primeira, para relatar as suas aventuras no estrangeiro ou no Portugal marítimo, abusando nos detalhes e exibindo as 36 fotografias que comprovavam parcialmente o testemunho. Esse fenómeno de desfasamento temporal era quase sempre comemorado com um telefonema da pessoa-destinatário à pessoa-remetente, em que a pessoa-destinatário, depois de abreviar a conversa com um dos progenitores da pessoa-remetente, exclamava: "Olha, chegou hoje o teu postal!" Por incrível que pareça, nada disto entristecia quem quer que fosse. "Ah, chegou hoje? Está bem." Não era mentira nenhuma. Regra geral, aquilo estava mesmo bem. Éramos todos belos e bonitos. E feios, muito feios.»


Daniel, no Rulote.


Terça-feira, 24.07.12
Tiago Moreira Ramalho

Um website que promove encontros amorosos entre homossexuais foi abaixo por excesso de tráfego quando chegaram a Londres as primeiras comitivas olímpicas. O Grindr, um espacinho criado para que o homossexual carente possa encontrar, com alguma facilidade e rapidez, um companheiro, um compincha ou simples amizades, ficou fora de serviço, para grande consternação colectiva. E disto se retira uma de duas: ou estão os londrinos particularmente curiosos sobre as putativas habilidades olímpicas e na tradução destas em benefício sério para a relação amorosa (benefícios que não serão, com tanto aquecimento, despiciendos), ou estão os atletas olímpicos preocupados com a falta de motivação que lhes poderá trazer a satisfação solitária durante duas longas e extenuantes semanas. Isso tudo, ou uma simples coincidência que traz os Jogos Olímpicos desta segunda era para um imaginário bem mais próximo dos da primeira.


Tiago Moreira Ramalho

Este texto de António Araújo, como quase tudo o que escreve António Araújo, é um monumento.


Sábado, 21.07.12
Tiago Moreira Ramalho

O jornalismo de investigação está numa época áurea. Ainda hoje vi, num noticiário, uma jornalista a «investigar» as ofertas de emprego nos centros do IEFP. Chegou a jornalista à conclusão extraordinária que há gente com o ensino básico a ganhar mais que engenheiros. Isto porque encontrou um empregador que estava disposto a pagar 800€ por um mecânico e outro que apenas pagaria 600€ a um engenheiro. Dois casos e uma generalização. E de gente com estudos superiores. Não admira que se receba mal.


Sexta-feira, 20.07.12
Rui Passos Rocha

Morreu um historiador fascista que teve o mérito de conseguir gerar em muita gente o interesse pela história do país e o demérito de o fazer efabulando. Que é melhor não saber do que saber falsidades, como alguém disse, concordo; mas que seja melhor não saber do que saber meias verdades discordo. Hermano Saraiva contou historinhas e pode ter ajudado a fazer muitos nacionalistas de livro fechado, mas também cozinhou em muitos o interesse por procurar saber mais. Isto não é serviço público, mas é qualquer coisa. O que não é nada é lembrá-lo só pelo que foi depois ou antes dos cravos. Fora isto, eu e as minhas amêndoas de caju estamos à espera dos textos de Rui Ramos e Fernando Rosas sobre o senhor. Só para ver se este continua a ser o melhor dos mundos.


Terça-feira, 17.07.12
Priscila Rêgo

O Filipe Faria (d'O Insurgente, como de costume) iniciou um debate (I e II) acerca da "falácia naturalista" e das implicações políticas das descobertas recentes da sociobiologia. O que gostava de comentar não é tanto as suas afirmações acerca da importância que a genética tem para explicar o comportamento humano, mas mais as conclusões que ele extrai destas afirmações. Em particular, o seguinte:.

 

(...) o cancelar de algumas limitações do homem passarão certamente pela evolução da tecnologia genética; o que não implica que neste campo o igualitarismo ético tenha de ser necessariamente aplicado. Porém, no mundo onde habitamos, sem essas tecnologias futuristas e independentemente da moral igualitária, a desigualdade natural é o destino.

 

 

 



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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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