Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010
Rui Passos Rocha

Os progressistas originais contrapunham-se ao imobilismo dos conservadores, uma elite privilegiada que quereria manter a sua rede de privilégios e subjugar as massas. Para além da abertura democrática que defendiam, os progressistas queriam nivelar a sociedade por cima: gerar um modo de desenvolvimento económico que não só fosse igualitário mas próspero, dando um semelhante nível de riqueza a todos. Era esse o objectivo do marxismo; foi esse o grande objectivo de Lenine: retirar os grilhões à populaça, que, verdadeiramente livre, quereria trabalhar com o triplo do empenho e assim aumentar a produtividade. Não foi bem assim, como sabemos, e as sucessivas experiências do socialismo utópico deram mostrar da ruína deste modelo de desenvolvimento. Desde então, e sem a economia nas mãos (que entregaram ao neoliberalismo em troca de um reforço da redistribuição estatal), os progressistas ocupam-se de freios à economia de mercado: ora porque estamos a estragar o ecossistema, ora porque as desigualdades são enormes, ora porque os recursos do planeta são finitos, ora porque o modelo capitalista é ganancioso e contraria a procura da felicidade. Os progressistas são agora conservadores: até o crescimento económico lhes parece pecaminoso; acham que já atingimos níveis de vida mais do que suficientes, exagerados até, e que devemos voltar à comunidade fraternal de outros tempos, solidária e amiga da natureza. São os conservadores de ontem os progressistas de hoje: a nobreza identificada com a burguesia, que imagina a possibilidade de maior prosperidade, para todos em vez de apenas a elite. Apenas uma coisa não mudou: o igualitarismo é ainda supremo para os ex-progressistas, independentemente da prosperidade geral; o nivelamento deve ser feito por baixo. Para os progressistas de hoje, o nivelamento deve ser feito por cima. Para já o modelo capitalista triunfou, mas os ex-progressistas ainda procuram uma alternativa ao Fim da História.


18 comentários:
De jpm a 6 de Agosto de 2010 às 19:27
Rui,

em primeiro lugar, se queres escrever sobre as coisas tem atenção ao que querem dizer: penso que não é ao socialismo de Owen ou afins que te referes. Isso é que é o socialismo utópico.
Em segundo, isto é uma pessegada, um arremesso de caricaturas que nem sequer fazem muito sentido. Se os progressistas defendem um nivelamento por cima como podem combater o crescimento económico? Faz-me alguma confusão.
Terceiro, esta deve ser das caracterizações da disputa política ao longo de séculos mais pobrezinha que já vi.
Até poderia concordar com a ideia de que os progressistas de ontem são os conservadores de hoje. Mas se calhar valia a pena pensar se os conservadores de ontem não se transmutaram nos "liberais científicos " de hoje.


De jpm a 6 de Agosto de 2010 às 21:16
Mea culpa. No ponto 2, continuo a achar isto uma pessegada mas percebo que fiz confusão entre progressistas de ontem e hoje. No entanto, continua a não fazer grande sentido, esta ideia de que os progressistas de hoje defendem o nivelamento por cima e mesmo assim não têm por objectivo a igualdade. Ou os progressistas de hoje ou o dilúvio? A diferença entre os dois seria então apenas o crescimento económico. Não faz grande sentido...


De RPR a 6 de Agosto de 2010 às 21:20
Bem, acho que não me fiz entender; o texto não está muito explícito: o que é natural quando se tem a cabeça oca e se esgalha umas coisas em poucos minutos.

Não digo que os progressistas de hoje procurem nivelar por cima. Os progressistas de hoje, i.e. conservadores de ontem, querem progresso puro e simples, com aumento de riqueza para todos - independentemente do maior ou menor nivelamento.



De jpm a 6 de Agosto de 2010 às 21:34
Assim já faz algum sentido mas nesse caso : "Para os progressistas de hoje, o nivelamento deve ser feito por cima." devia ir com os porcos. Já agora, estás por onde?


De RPR a 6 de Agosto de 2010 às 21:37
Melhor do que apagado, penso que deve ser reformulado: os progressistas de hoje subordinam o nivelamento ao crescimento económico; ou se preferires, é para eles primordial o crescimento bruto em detrimento do relativo. Mas isso não significa que não procurem algum nivelamento. A diferença é que tentam nivelar por cima.

Em casa, bem longe da capital ou da tua cidade. Any idea?


De jpm a 6 de Agosto de 2010 às 21:42
Não dá para fazer tudo ao mesmo tempo: duvido que isso se chame nivelamento por cima.
Por nada, temos que marcar um jogo com o palhaço dali de baixo que me deixou enjoado para o dia todo.


De RPR a 6 de Agosto de 2010 às 21:45
Talvez possa em Braga até 19. Ou então, melhor ainda, fica pra Lisboa a partir de Setembro.


De RPR a 6 de Agosto de 2010 às 21:17
Zé,

1) Tens razão: socialismo real, para afastar confusões.

2) O que digo é que os progressistas defendiam crescimento económico e nivelamento por cima, mas que agora defendem nivelamento por baixo e um refreamento do crescimento.

3) Razão de novo: isto foi esgalhado em meia dúzia de minutos e o argumento - aquela treta de os progressistas de ontem serem os conservadores de hoje - nem é suficientemente enfatizado.


De jpm a 6 de Agosto de 2010 às 21:23
Também li o comentário na diagonal, por isso a confusão. Entretanto, rectifiquei. Mesmo assim, no teu argumento não há compensação: os liberais, vá, defendem o crescimento económico e o nivelamento por cima. Os outros, a estagnação e o nivelamento por baixo. Fosse essa a opção e não havia choque, os últimos seriam apenas mentecaptos.
Acho que o principal eixo de discussão teria que girar mais ou menos à volta da discussão entre ganhos brutos e relativos num bolo que não é estável. Assim muito toscamente


De RPR a 6 de Agosto de 2010 às 21:30
Não acho que seja essa a dicotomia. Diria que ambos os lados defendem crescimento económico, uns menos regulado - os que menos se interessam com nivelamento e se preocupam com crescimento bruto - e outros mais regulado - que têm também noção de que daí resultará um menor crescimento bruto. Ambos os lados acreditam que o crescimento relativo será maior se implementado o seu ideal. Ainda assim, concedo que os primeiros serão menos sensíveis a um menor crescimento relativo se o crescimento bruto for significativo.


De jpm a 6 de Agosto de 2010 às 21:24
E já agora, socialismo científico para ser mais preciso


De PR a 6 de Agosto de 2010 às 20:31
"Em segundo, isto é uma pessegada"

Diria mesmo mais, é uma verdadeira punhetada. O que, de certa forma, tem algo a ver com o «pêssego».


De Miguel Madeira a 7 de Agosto de 2010 às 00:49
Eu penso que percebo o que o RPR quer dizer, mas também acho muito confuso. Imagino que a tradução seja algo como:

"progressistas de ontem" = marxistas
"ex-progressistas" ="esquerda alternativa"
"conservadores de ontem" = liberais e conservadores
"progressistas de hoje" = sociais-liberais, liberais e liberais-conservadores

(imagino que os sociais-democratas fiquem a meio caminho entre "ex-progressistas" e "progressistas de hoje")

É isso?


De RPR a 7 de Agosto de 2010 às 01:34
Não é bem assim o que tenho em mente:

Ex-progressistas: marxistas (até queda do muro)
Ex-conservadores: liberais e conservadores (até advento da social-democracia)

Progressistas: liberais, conservadores e sociais-democratas
Conservadores: socialistas radicais e libertários de esquerda


De RPR a 7 de Agosto de 2010 às 01:35
Se bem que aqui o "progressismo" é uma variável económica, que é, como disse, a variável histórica preponderante.


De Miguel Madeira a 7 de Agosto de 2010 às 02:31
[Isto que vou escrever agora pode parecer bastante divagante...]

Acho que, nesta questão, é conveniente distinguir entre o que podermos chamar de "estoicismo" ("devemos controlar os nossos desejos") e "epicurismo" ("devemos ter poucos desejos") - o conservadorismo tradicional é sobretudo "estóico", enquanto há uma forte corrente "epicurista" naquilo a que o RPR "conservadores" (sobretudo na tendência lbertária)

Porque é que isso é relevante? é que há uma grande diferença entre achar que "temos que renunciar a grande parte dos nossos desejos e compreender que o potencial do crescimento económico é limitado" e achar que "além de ser limitado, o crescimento económico é uma perda de tempo - viveríamos muito melhor se usássemos os aumentos de produtividade para obter o mesmo trabalhando menos - em vez de obter mais trabalhando o mesmo - e usar os tempo livre para nos dedicarmos a actividades que nos dessem satisfação intrínseca; além de destruir a natureza, esse tal de crescimento só serve para nos tornarmos em engrenagens da máquina industrial desprovidas de individualidade"; é que a segunda posição (que, reconheço, perdi mais tempo a descrever que a primeira) continua a acreditar num nivelamento "por cima", o que mudou foi apenas a definição de "cima" (em vez de ser "podemos dar a toda a gente a qualidade de vida da classe média-alta", passou a ser "podemos dar a toda a gente a qualidade de vida dos «intelectuais boêmios»"=


De PR a 7 de Agosto de 2010 às 11:54
Eu penso que nem os próprios progressistas, conservadores ou whatsoever têm posições assim tão estruturadas... Por exemplo, o Friedman dizia que o apoio aos mais pobres [a razão original para a criação da Segurança Social, Saúde e Educação públicas, etc.] era um objectivo perfeitamente legítimo. Mas acrescentava que era libertário porque pensava que esse objectivo seria muito mais facilmente atingido numa sociedade minarquista. [Isto é quase uma "social-democracia" de princípio conjugada com um "liberalismo" instrumental].

Enfim, onde quero chegar é que um termo tão lato como progressistas e coisa do género é demasiado lato seja para o que for (a não ser que interpretemos "progressista" no sentido estrito e/ou num contexto concreto).


De jpm a 7 de Agosto de 2010 às 14:49
Estou com o PR (este). E acrescento, além de pessegada ainda cabia aqui charutada.

Primeiro, não se quer discutir coisa alguma neste texto.
Em segundo lugar, custa-me discernir entre as várias tendências de esquerda um paralelismo com os advogados do regresso a uma sociedade agrária em quem o Marx malhou tanto (de qualquer das formas, caso existam, não são novidade, sempre existiram).

Depois, faz-me mais alguma confusão que uns sejam analisados à luz das ideias e outros da praxis. Os que combatem o progresso, como aqui foram definidos, defendem um modelo substancialmente diferente;até nisso a divisão do Rui vem ajudar. É pois, um bocado complicado vir falar do seu projecto.

Por último, a questão da opção entre ganhos relativos e absolutos descura a questão de estarmos a falar de um todo que é dinâmico, em que uma mudança nas partes provoca mudanças no todo, uma mudança na forma em que estas se organizam, idem...

Discutir isto precisa de mais de quinze linhas e certamente não fecha com uma conclusão.


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