Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010
Rui Passos Rocha
Por graça (piada, quero eu dizer) de Nosso Senhor Jesus Cristo, acontece que a única tradução para português dji Portugau d'Um Dia na Vida de Ivan Denisovich foi feita pela sacrossanta Europa-América, esse portento. Uma tradução, diga-se, baseada numa edição inglesa, o que é desde logo promissor. Em virtude de coiso, acontece então que as 182 páginas do livro são esgalháveis em cinco-seis horitas, não mais porque dificilmente os olhos suportam tanto escarro verbal. E eis que a segunda obra de Solzhenitsin parece ter sido escrita por Passos Coelho entre um almoço em Lamego e um abraço, nessa noite, a Rajoy num comício do PP. Mas nem tudo é discurso. O conteúdo, esse sim da colheita do Nobel russo, fica muito aquém do geminado Se Isto é um Homem. Não por culpa do autor; por culpa da realidade: no que toca à arte do enjaulamento, os soviéticos lá foram sendo mais humanos do que os arianos. Não têm grande graça (piada, quero eu dizer) os banhos de 13 em 13 dias ou a centopeia regulamentar, que impunha aos prisioneiros o número certo de passos em que, antes e depois de se cruzarem com um guarda, teriam de tirar ou pôr o gorro. Mas tem bem menos graça (piada, quero ainda dizer) lembrar que os nazis cuspiam no chão quando se cruzavam com judeus, subalimentaram-nos, organizaram massacres arbitrários para uns (tu, tu, tu e tu já de frente para a parede) e assaram o grosso dos restantes. Como escreveu John Gray, o Holocausto introduziu uma nova categoria de moral. Com isto nenhum Solzhenitsin poderia rivalizar.
O post está assombroso. Abraço.
De
Leonor a 12 de Agosto de 2010 às 12:42
O conteúdo deste post ultrapassa, em muito, a violência que o título encerra. Afinal fala-se, cruamente, de atrocidades reais - não metafóricas, como o título e o início do post levavam a pensar.
Vou lembrar-me deste texto durante muito tempo.
De ricardo a 17 de Agosto de 2010 às 12:38
Sobre o extermínio de judeus, os nazis ficaram com a fama, no entanto do outro lado o camarada Staline não era menos anti semita.
Foram organizadas no exército vermelho unidades especiais, onde eram incorporados os judeus e que eram utilizadas conjuntamente com presos políticos para avançar à frente das tropas e fazer explodir os campos de minas.
Ficou célebre um comentário de Staline em ironizava: "Hitler dá-se ao trabalho de perseguir os judeus, nós fazemo-los morrer como herois".
É claro que todos estes factos, à boa maneira sovietica, foram escondidos e camuflados administrativamente e, apesar dos relatos, desvalorizados durante décadas pela imprensa ocidental dominada pela "esquerda intelectual".
De Luis Ferreira a 28 de Agosto de 2012 às 08:22
Ah que alívio encontrar alguém irritado com a tradução! Como não li o original, só pude mesmo ficar chocado com a enorme diferença semântica entre a última frase do livro em português e em inglês. Para mim, é "apenas" a diferença entre um fulano chegar, ou não, ao fim da sentença! já para não falar de um gravíssimo erro tipográfico aí a 3/4 do livro em que a 1ª linha de um parágrafo está trocada com outra 1ª linha dois parágrafos à frente... uma obra tão boa merecia melhor tratamento.
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