Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010
Bruno Vieira Amaral

A minha carreira como jogador de futebol durou dez treinos a lateral direito e um auto-golo. Ainda participei em dois ou três torneios de futebol de cinco, como avançado e como guarda-redes, mas sempre com o mesmo insucesso, à excepção de um improvável golo que só não considero genial por ter sido tão fortuito como um milagre; recebi a bola de costas para a baliza, marcado por um adversário, meti-lhe uma cueca e, à saída do guarda-redes, rematei cruzado e rasteiro. O pai de um miúdo da outra equipa deu-me os parabéns e, depois disso, refiz várias vezes aqueles movimentos na minha memória, mas com o passar dos anos fui perdendo precisão e calculo que, daqui a muitos anos, a única imagem guardada – porque a memória não quererá atazanar o corpo com lembranças daquilo que este já não poderá fazer - será a daquele homem de bigode a bater palmas e a incentivar-me. Este momento de glória obscura, porque ocorrido num ringue da gozável Baixa da Banheira, acompanha-me e quando hoje assisto a jogos dos infantis não deixo de sentir como aquilo que parece uma brincadeira para quem o vê de fora é tão importante, decisivo e grandioso para o miúdo que está dentro do campo. Quando entram em campo, as camisolas, os calções, as chuteiras, o símbolo do clube ao peito – a noção de representar um clube perde a conotação mercenária do futebol dos grandes e readquire o sentido primitivo de intérprete individual do colectivo, a magia simples de se ser parte de um todo – sérios como numa primeira comunhão, aquele jogo é para eles todo o mundo. Tudo o que existe é ali que existe, tudo o que lhes pode acontecer é ali que pode acontecer. Entre os miúdos há aqueles que aos oito anos já têm toda a parafernália das vedetas (fitas, cabelos, ademanes, impropérios) e há os outros que mais parecem homúnculos de futuros professores de geografia. Há tempos, observei um destes últimos. Pele protector 50, cabelo engomado, gordinho, perfeito para acolitar padres em paróquias do interior. Assim que o jogo começou, o meu preconceito foi triturado pela realidade. Não só era o mais inteligente (sempre no sítio certo), o mais tecnicista (nada de malabarismos, falo de pôr a bola redonda no pé do colega a vinte metros) e de uma rapidez que o seu aspecto rechonchudo não fazia adivinhar. Era o melhor jogador da equipa e nem sequer usava fitas no cabelo. Demonstrava uma tal segurança em tudo o que fazia que fiquei convencido que, qualquer que seja a profissão que venha a escolher, terá sucesso. Se vier a ser jogador de futebol, terá muito mais para recordar do que um golo solitário num festival de fracassos.


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