Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010
Bruno Vieira Amaral

Daqui

 

As pessoas já não se esmurram. Perderam o hábito genuíno de responder com violência às ofensas e aos apoucamentos de carácter. Guardam a vergonha no bolso interior do casaco, com mil cuidados para que não se amarrote, mantêm a ferida viva e quando chegam a casa escrevem um post sobre humilhação, com o título “Humilhação – algumas considerações”. A última vez que me lembro de ver uma discussão resolvida a murro fui eu o receptor do argumento final e o efeito foi tremendo; a discussão terminou ali e eu, embora sem o auxílio do meu maxilar, não tive pejo em reconhecer a superioridade retórica do meu oponente. Toda a gente recorda, mesmo os que lá não estiveram, a famosa “Disputa de Valladolid”, em 1550-1551. O combate opôs Bartolomé de las Casas a Ginés de Sepúlveda, e se os nomes lembram pesos-mosca cubanos e heróis de romances de cavalaria, a verdade é que estes dois espanhóis, pois era esta a nacionalidade dos infames, passaram meses a discutir se os índios tinham alma sem que nenhum dos dois tivesse tido a coragem de partir a boca do outro. No final, como seria de esperar, ambos reclamaram vitória. Alguns séculos depois, García Márquez e Vargas Llosa, duas consequências literárias daquela antiga discussão, consumaram, enfim, a violência anunciada; este encontro de uma face caribenha com um punho andino ficou conhecido como o mais célebre murro da literatura latino-americana. Depois do boom, o bonc! (é uma onomatopeia esquisita para soco, eu sei). O episódio ocorreu em 1976, na Cidade do México, na antestreia de um filme cujo guião tinha sido escrito por Vargas Llosa. Ao ver o companheiro, García Márquez exclamou um eufórico “Irmão!”. Vargas Llosa, menos eufórico mas mais certeiro, respondeu-lhe com um murro que deixou o futuro Nobel quase inconsciente. No cerne do desaguisado não terá estado a existência da alma dos índios mas, segundo consta, o corpo da mulher de Vargas Llosa, cuja existência aparentemente só oferecia dúvidas a García Márquez. Não há certezas. Como numa boa cena de um mau western, o peruano terá acompanhado o murro de uma justificação pouco clara: “Isto é pelo que disseste à Patricia” ou “Isto é pelo que fizeste à Patricia”. Dito ou feito, na forma tentada ou verbalizada, o atrevimento valeu a García Márquez um inquestionável murro, com direito a um lugar eterno nas discussões entre intelectuais hispânicos. E Vargas Llosa provou que também com os punhos se fala bom castelhano.


1 comentário:
De Lourenço Cordeiro a 11 de Outubro de 2010 às 10:57
Eheh; esse deveria ser um dos critérios para o nobel (ficou um por atribuir ao Norman Mailer).


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