Domingo, 10 de Outubro de 2010
Priscila Rêgo

O Miguel Madeira defende aqui (ou defendeu, há duas semanas...) a ideia de que o problema da economia portuguesa está nos salários. Concordo que há um problema com os salários – já lá vamos –, mas penso que esta resposta deixa grande parte do diagnóstico por fazer. Afinal de contas, por que é que os salários portugueses crescem mais do que os salários do resto dos europeus? Ou seja: os salários são um problema em si ou são apenas o subproduto – e a face mais visível – de um problema mais profundo?

 

Começo pelo mais simples. Há uma ideia muito batida na imprensa e na blogosfera, segundo a qual os salários dos portugueses têm crescido acima da produtividade. O indicador comummente usado para ilustrar este problema é o indicador de Custos Unitários do Trabalho (CUT). Em baixo, apresento um gráfico com os CUT de Portugal, Alemanha, Espanha e a média da Zona Euro. São retirados da base de dados da Comissão Europeia e apresentados no esquema base=100.

 

 

Este gráfico impressiona: os salários alemães crescem pouco enquanto as remunerações dos portugueses e espanhóis vão por ali acima. O problema é que este indicador não compara a produtividade com os salários. Compara o salário por trabalhador nominal com o produto por trabalhador real. Ou seja, apenas o PIB é deflacionado. Isto faz sentido para analisar a competitividade de um país inserido numa união monetária (onde vigora, na prática, um regime de câmbios fixos), mas não permite retirar a conclusão de que os salários crescem acima da produtividade. Para fazer isso, precisamos de olhar para outro lado.

 

 

O gráfico que coloquei em cima representa as remunerações deflacionadas (pelo Índice de Preços no Consumidor – inflação para os amigos) e o PIB deflacionado. Basicamente, comparei o crescimento do salário por trabalhador com o crescimento da remuneração por trabalhador para o período 2000/2010. Isto é embaraçoso. O que eu ia escrever aqui era: como prevê a teoria económica, os salários reais crescem em linha com a produtividade (sim, escrevi o post primeiro e fui procurar os dados depois; pensava que os conhecia bem). Mas o tiro saiu pela culatra: os salários reais em Portugal cresceram mesmo acima da produtividade.

 

Podia acabar o post aqui. Mas, como já escrevi um pedação e agora não me apetece deitar o trabalho ao lixo, vou chamar a atenção dos leitores para um facto adicional: a discrepância entre Portugal e a média da Zona Euro é maior no primeiro gráfico do que no segundo (embora isto não seja óbvio para o leitor, dado que apresentei os dados em formatos diferentes). Porquê? Simples: porque o primeiro incorpora o efeito preços. Em Portugal, os preços têm estado a crescer acima dos preços da Zona Euro. Os CUT crescem mais em Portugal porque o rácio salário real/produtividade é mais baixo mas também porque a inflação é mais alta.

 

Isto coloca uma nova questão: por que é que a inflação é mais alta em Portugal? Note-se que, se houver liberdade de bens e serviços, os preços tenderão a igualar-se em todos os países. E, mesmo que haja tarifas e custos de transporte, estes dois factores far-se-iam sentir no nível de preços, não no seu crescimento. Em princípio, a inflação deveria ser a mesma ao longo de toda a união monetária. Mas não é.

 

Penso que só há uma possibilidade para reconciliar os dois lados da equação. Se os preços dos bens transaccionáveis crescem ao mesmo ritmo em toda a Europa, então a diferença nas taxas de inflação deve vir da evolução dos preços dos bens não transaccionáveis. Bolotas, televisores, preservativos e carros têm o seu preço determinado exogenamente – mas o preço da electricidade, do gás, das telecomunicações, da habitação, é determinado endogenamente. E é esse que está a puxar a inflação para cima.

 

Podemos dar mais um passo atrás. O que se passa então com o sector não transaccionável? Consigo pensar em pelo menos três hipóteses: má regulação, que tem facilitado a exploração de sectores que são, muitas vezes, quasi monopólios naturais; demasiado regulação, que tem dificultado a entrada de novos players em sectores pouco competitivos; ou, finalmente, privatizações mal feitas, que conduziram a coutização do sector não transaccionável (é a hipótese do Ricardo Reis). Em qualquer um dos três casos, chegamos a fenómenos de rent seeking que terão acelerado a inflação portuguesa e gerando, no processo, perdas de competitividade. Sem o mecanismo de escape da desvalorização cambial, o resultado é o que se vê.

 

P.S.- Como terão percebido, a minha ideia original era que a perda de competitividade se teria dado única e exclusivamente devido ao efeito preço. Os dados, contudo, mostram que o efeito produtividade também existe. A perda de competitividade é, assim, um fenómeno duplo: inflação superior à média (algo que pode ser explicado por uma das três hipóteses anteriores) e desajustamento entre os salários reais e produtividade (algo que não faço a mais pequena ideia de como explicar). Chamo, ainda assim, a atenção para o facto de os dados sobre salários serem de qualidade duvidosa. Eu usei valores agregados, que têm problemas óbvios. Por exemplo, o aumento do salário médio pode resultar apenas do efeito de uma destruição de emprego grande entre os sectores mais mal pagos. É uma complicação...


14 comentários:
De Tiago Tavares a 11 de Outubro de 2010 às 03:01
Um bom artigo com ideias das quais estou inteiramente de acordo.

Só deixo apenas umas pequenas sugestões para tentar reconciliar a teoria económica com os dados reais.

1. alargar o prazo temporal de análise.

2. a teoria indica que o salário real deve igualar a produtividade marginal de todas as empresas. Se considerarmos uma parametrização específica (e convencional) para uma função de produção agregada, a produtividade média será proporcional à prod. marginal pelo que não haverá problema em utilizar o primeiro conceito. No entanto fará mais sentido deflacionar os salários com um índice de preços para todas as empresas, por ex. deflactor do pib, e não apenas para as empresas que produzem bens finais (reflectido no ipc).

3.há normalmente a tradição na macro quantitativa de excluir do cálculo da parte dos salários do pib de componentes ambíguas tais como rendimentos de proprietários ou impostos indirectos e subsídios. Um procedimento que eu não tenho a certeza se a UE faz automaticamente. (depois há ainda questões de qualidade de estatísticas na UE que me parecem muito às produzidas nos EUA)


De Miguel Madeira a 11 de Outubro de 2010 às 10:49
"Como terão percebido, a minha ideia original era que a perda de competitividade se teria dado única e exclusivamente devido ao efeito preço. "

Eu também estava convencido disso (por alguma razão até boldei o "nominais" à frente de salários).

"Isto coloca uma nova questão: por que é que a inflação é mais alta em Portugal? "

A minha teoria é que, numa moeda única, a taxa de juro nominal será também única; portanto, se por quaquer razão um país tiver uma inflação acima da média comunitária, temos um processo que se auto-alimenta: uma maior taxa de inflação leva a uma menor taxa de juro real, logo maior procura interna (e endividamento), o que por sua vez vai mantendo a inflação alta (até o diferencial de preços ser tão alto que o efeito "perca de competitividade e redução da procura externa" ser maior que o efeito "menor juro real e maior procura interna") - ou seja, numa moeda única a taxa de juro real tem um comportamento pró-ciclico.

Pondo a coisa de outra maneira - pegue-se naquele modelo AS/AD intertemporal com economia aberta que se aprende no segundo ano de um curso de economia e faça-se uma pequena alteração: tire-se as equações do equilibrio do mercado financeiro e, em vez disso, ponha-se uma taxa de juro nominal exógena. O resultado disso será algo muito parecido com a evolução do PIIGS.


De Miguel Madeira a 11 de Outubro de 2010 às 13:05
Vamos ainda por a coisa de outra maneira (ou se calhar da mesma).

Imagine-se que um país com uma dada taxa de juro adere a uma união monetária com uma taxa de juro inferior.

Numa primeira fase, essa redução da taxa de juro fará crescer o produto (via aumento da procura interna).

Como assim o produto ficará acima do produto potencial, a taxa de inflação vai acelerar.

Com a inflação a subir e a taxa de juro nominal fixa, a taxa de juro real vai descer, aumentando ainda mais a procura interna; mas, por outro lado, o aumento da inflação vai reduzir a competetividade e diminuir a procura externa. Diga-se que, a longo prazo, o segundo efeito será mais forte por uma razão - o estimulo à procura interna é criado por uma inflação alta, enquanto o desistimulo à procura externa é criado por preços altos; como, para uma dada inflação, os preços vão ficando cada vez mais altos ao longo do tempo, isso quer dizer que, para uma dada dose de estimulo interno, o desestimulo externo vai sendo cada vez maior.

Enquanto o produto for maior que o produto potencial, isto irá correndo mais ou menos assim (palpita-me que o "guterrismo" foi isso). A dada altura, o efeito externo fica mais forte que o interno e a economia entra em recessão, e em principio a inflação começa a diminuir; durante algum tempo haverá o pior de dois mundos - como a inflação está a diminuir, a taxa de juro real está a aumentar, reduzindo a procura interna; mas como durante algum tempo a inflação (ainda que decrescente) continua a ser maior que a inflação externa, a competitividade continua a degradar-se e a procura externa também a diminuir (o pós-guterrismo?).

Quando finalmente a inflação ficar menor que a do resto da união monetária, é que finalmente a procura externa começará a aumentar (embora correndo-se o risco de um ciclo vicioso de sinal contrário ).

No mundo real, o facto de ter havido uma crise económica internacional atrapalha um bocado este modelo tão giro (nomeadamente a descida dos juros do BCE levou a que os juros reais não tenham aumentado apesar da queda da inflação), mas penso que o mecanismo básico é este (atenção que eu não pesquisei dados nenhuns - fiz um raciocinio pruamente lógico-dedutivo que não faço ideia se corresponde aos factos)


De PR a 11 de Outubro de 2010 às 21:08
Tiago,

Tanto quanto sei, os dados que usei de facto expurgam essas componentes (é uma das vantagens dos dados da Comissão: os códigos do SEC95 estão lá todos e por isso é relativamente fácil perceber o que está dentro de cada rubrica). E também me ocorreu alargar o período de análise, mas pensei que um período de 10 anos fosse suficiente para "limpar" o ruído de fundo inerente a este tipo de dados macroeconómicos.

Só não percebo muito bem a ideia de deflacionar os salários pelo deflator do PIB. Para o fim desejado - perceber a evolução do poder de compra real dos trabalhadores - o IPC é mais apropriado. Ou não percebi bem o seu ponto?


De PR a 11 de Outubro de 2010 às 21:20
Miguel,

Gostei da teoria (apesar de a ainda a estar a mastigar os pormenores).

Mas parece-me que os "sintomas da recuperação" que seriam de esperar caso a teoria estivesse certa - inflação a abrandar e redução da dívida externa - estão a notar-se agora e não no pós-guterrismo.

Ou seja, ou o calendário está incorrecto, ou a teoria tem de ser trabalhada, ou eu não a entendi bem :)


De Miguel Madeira a 11 de Outubro de 2010 às 23:11
Pensando bem, vou criar mais um fase.

"Enquanto o produto for maior que o produto potencial, isto irá correndo mais ou menos assim (palpita-me que o "guterrismo" foi isso). A dada altura, o efeito externo fica mais forte que o interno e a economia entra em recessão, e em principio a inflação começa a diminuir"

Aqui há lugar para uma fase intermédia - a economia já está a crescer menos (devido à perda de competitividade), o desemprego já está a aumentar (ou seja, os jornais e a oposição já dizem "Estamos em crise!"), mas o produto continua acima do produto potencial (ou o desemprego abaixo da NAIRU) e a inflação a subir.

O que complica muito este modelo é que tem muita interacção entre as variáveis e as derivadas das variáveis.


De Miguel Madeira a 11 de Outubro de 2010 às 22:47
Além disso, não me admirava nada que a "inflação geral" seja menor que a inflação do IPC (já que suspeito que os bens não-transaccionáveis são largamente de consumo final); se for assim, deflacionar os salários pela inflação geral ainda iria dar um crescimento maior dos salários.


De Tiago Tavares a 12 de Outubro de 2010 às 00:31
PR,
Nao me expliquei muito bem.

Deixe-me dizer primeiramente que concordo com o que refere: para analisar o poder de compra dos trabalhadores a utilizacao do ipc parece-me a mais adequada (mesmo com todos os problemas da utilizacao de numeros indices simples).

No entanto percebi que o objectivo do seu segundo grafico comparar salarios com produtividade. Eu apenas estou a tentar dizer que se quisermos levar a teoria neoclassica mais 'a letra entao devemos utilizar um indice mais geral do que apenas o indice de precos finais. Isto porque nessa teoria cada empresa iguala o seu produto marginal (do trabalho), contabilizado monetariamente pela uniade a que vende, ao seu custo marginal, ie, o salario. Em simbolos para uma empresa i:

max piy(k,h)-wh-rk=>y'=w/pi

Ao considerarmos todas as empresas, observamos que umas operam no sector dos bens finais (ipc) enquanto outras operam no sector de bens intermedios. Dai a relevancia da utilizacao de um indice de precos que englobe toda a producao nacional, por ex o deflactor.

Apenas referi este problema porque o Ed Lazear, enquanto CEA do pres Bush, foi confrontado com essa discrepancia, tendo-a resolvido com a aplicacao de um indice de precos mais em conformidade com a teoria.

Miguel,
Porque nao incluir tambem na sua analise um efeito de diferenciais de produtividades entre sectores transaccionaiveis (expostos a concorrencia) e sectores nao transacionaveis um pouco ao estilo do efeito Samuelson-Balassa?


De PR a 13 de Outubro de 2010 às 12:14
Tiago,

Ah, ok. Tudo esclarecido, então. Não tinha pensado nisso, mas de facto faz mais sentido utilizar os índices de preços relevantes para o produtor, e não para o consumidor.

Miguel,

O "passo intermédio" torna a teoria mais "testável". Quando tiver tempo, vou tentar ver se bate certo com os dados. Deixando de parte o efeito Balassa Samuelson, que não saberia como integrar num modelo simples, desenhado em cima do joelho :)


De Miguel Madeira a 14 de Outubro de 2010 às 00:28
"Não tinha pensado nisso, mas de facto faz mais sentido utilizar os índices de preços relevantes para o produtor, e não para o consumidor. "

Acho que isso depende muito de qual for o "objecto epistemológico" da discussão; p.ex., se se estiver a discutir "A perda de competitividade dos últimos anos é devida aos trabalhadores estarem a abocanhar uma parcela muito grande do rendimento nacional ou tem a ver sobretudo com a evolução da repartição do rendimento entre as várias facções da burguesia?" penso que o IPC é mais útil (para ver se os altos salários são reais ou apenas refletem os altos preços praticados pelo que noutro sítio (http://ventosueste.blogspot.com/2010/03/as-contradicoes-no-seio-da-burguesia.html) eu chamei de "burguesia compradora").


De Miguel Madeira a 14 de Outubro de 2010 às 00:30
mudando de assunto, nos blogues do SAPO não se consegue fazer links "jeitosinhos"?

[e, já agora, e mudando completamente de assunto, chegou a ler os meus posts sobre a tal questão das externalidades da educação?]


De PR a 14 de Outubro de 2010 às 11:22
"mudando de assunto, nos blogues do SAPO não se consegue fazer links "jeitosinhos"?"

Talvez, mas eu nem no wordpress os consigo inserir. Uso sempre o esquema manual de copy-paste do url inteiro.

"chegou a ler os meus posts sobre a tal questão das externalidades da educação?"

Sim, e até cheguei a ensaiar uma resposta. Mas depois passou tanto tempo que acabei por nem publicar (como estou sem net em casa, levo os posts para casa numa pen e escrevo por lá; mas depois tenho de voltar ao trabalho e postá-los lá, o que é uma trabalheira).


De Miguel Madeira a 14 de Outubro de 2010 às 12:32
Pelos vistos não se deve conseguir mesmo:

http://antiga.ajuda.sapo.pt/comunicacao/novosblogs/utilizacao_do_servico/Coment_rios_aos_posts_artigos_.html

"Posso inserir html nos meus comentários?

Não. Não é permitido qualquer html nos comentários. "

[embora me deia a impressão que algum código se consegue - neste comentário vou tentar usar negrito e itálico]


De Miguel Madeira a 14 de Outubro de 2010 às 12:46
Só agora é que reparei que o link acime se chama "antiga.ajuda" - ou seja, já está desactualizado.


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