Terça-feira, 19 de Outubro de 2010
Bruno Vieira Amaral

Há dias, enquanto os solavancos do autocarro transformavam a leitura de um livro de Georges Perec num duplo desafio gráfico, uma senhora contava como inadvertidamente engolira os pontos após a extracção de um dente. Histórias como esta são comuns. As pessoas gostam de partilhar com os outros as suas experiências clínicas, TACs (“uma TAC, não é um TAC”, ouvi de uma senhora preocupada com a precisão do artigo indefinido), endoscopias, colonoscopias, anestesias, pólipos, nódulos, traumatismos, diagnósticos, são palavras que flutuam na atmosfera eléctrica dos transportes públicos. Ao fim de treze anos de frequência diária, qualquer pessoa minimamente atenta está habilitada a realizar pequenas cirurgias, a receitar medicamentos e, com alguma dedicação, a passar credenciais. O programa Novas Oportunidades podia recrutar futuros médicos à saída do terminal rodo-ferro-fluvial do Barreiro. Não sei se é legítima a utilização deste material enquanto pasto para post. Desconheço se nós, utilizadores dos transportes públicos (não por consciência ecológica), estamos sujeitos a um código deontológico ou ao sigilo amador (profissionais são os padres, os médicos, os advogados e as empregadas de limpeza), mas suspeito que não. Não é a mim que aquelas pessoas se dirigem, embora em muitas se note o prazer da multiplicação da audiência – falam ao telemóvel ou com a vizinha do lado, mas também para essa entidade abstracta e tangível constituída pelos ocupantes de um autocarro, receptores involuntários desta estranha forma de confissão moderna. Somos um coro trágico e suburbano que, em vez de advertir, é advertido: tenham cuidado com os dentistas! A adequada lavagem do intestino é essencial para uma colonoscopia bem sucedida! Os talões de desconto do minipreço só podem ser utilizados na loja em que registaram o cartão! Etc. As vidas dos outros impõem-se-nos. Não podemos protestar porque, afinal, se não queremos ouvir tapamos os ouvidos. Então, é preferível fazer do que ouvimos uma novela radiofónica com personagens que vão mudando de dia para dia, mas cujas histórias, se nos dermos ao trabalho de as unir com um fio narrativo, têm uma unidade dramática que nos surpreende pela coerência: a senhora que ontem engoliu os pontos é a mesma senhora que amanhã há-de queixar-se dos uivos do cão dos vizinhos é a mesma que há duas semanas teve uma discussão com a colega de trabalho é a mesma que há dois meses sofria enxaquecas pavorosas é o rapaz que, caloiro na faculdade, diz querer alargar os seus conhecimentos musicais e que vai diversificar os gostos, numa manifestação de crença na evolução cultural do indivíduo, como aquelas pessoas que culpam a exígua biblioteca dos pais pela sua anorexia literária e que chegam aos trinta a fazer planos de leitura dos clássicos, em jeito de dieta para a engorda (cf. Robert de Niro em Raging Bull), etc.

 

 

 

Não creio que tudo isto se possa atribuir à falta de pudor ou ao ainda incipiente (em termos macro-históricos) contacto com as novas tecnologias que faz com que algumas pessoas quando falam ao telemóvel sejam inconscientemente transportadas para o quarto fechado da adolescência de onde faziam chamadas nos velhos telefones de disco. Há o rebento tímido de um pedido de simpatia que quando chega a flor é já um grito desesperado por atenção. Ali, nos bancos onde a chuva cai como lá fora, é só esse murmúrio, o estender de um laço de cumplicidade como quem diz “Vá lá, também tu sabes o que é isto, também tu és humano, também tu hás-de engolir os pontos”, e nós vamos e juntamo-nos à grande família da humanidade com o espanto e o orgulho da criança admitida na mesa dos adultos e à frente de quem o Tio Manel não tem pejo em dizer asneiras “queres lá ver que ele não sabe o que é isso?”, então não sei, c’um caralho, sei tudo, sou um de vós, partilhem as vossas intimidades, as doenças da barriga, falem-me de ovários, de tripas, de cancros na pila, de chagas na glande à conta dos serviços pouco higiénicos de uma femme de joie, eu sou um de vós. Percebem? Não é falta de pudor, é um convite para meter os papéis de sócio desse grande clube que é a humanidade, a jóia é uma historinha idêntica, todos nós temos uma desgraça não particularmente trágica que é o salvo-conduto nesta viagem de autocarro, conte-nos a sua, não se arme em fino, o senhor também se peida, lá vem o marxismo popular que nos diz que quando os ricos cagam também cheira mal. Não é falta de pudor - como fazer a hierarquia da intimidade? É mais íntimo o hemorroidal ou uma discussão com o chefe? O cliente que foi um ordinário ou um fungo na planta do pé? A loiça que não se lavou ou o hotel das férias de verão? A comida que o marido devora ou o pouco que o marido fode? Somos todos iguais – eis o que se descobre nos autocarros – um igualitarismo rodoviário, co-financiado pelo Estado, não vale a pena simular enjoos perante o que se ouve, a pornografia da alma é uma grande conquista das nossas sociedades, todos nus e de mãos dadas num reality-show ininterrupto – esta semana Vasquinho fica sem a mesada, o Dr. Onofre rebenta o cu da recepcionista em horário pós-laboral, o gajo do rés-do-chão farta-se de ouvir berlindes no andar de cima e despacha o vizinho com um tiro de caçadeira, o mini-mercado abre para a semana, há baratas nas imediações dos esgotos e muita merda de cão nos passeios, o filho da Cesaltina casa-se na semana que vem, a filha da Cesaltina divorciou-se na semana passada, a Cesaltina há-de matar-se um dia destes – e o autocarro lá vai, lá vai, teatro ambulante, lá vai, lá vai, senhoras e senhores, humani nihil alienum.


1 comentário:
De José Doutel Coroado a 19 de Outubro de 2010 às 19:32
excelente post!
uma crónica do quotidiano no seu melhor.
abs


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