Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010
Priscila Rêgo

Vamos fazer um pequeno exercício de depuração. Em primeiro lugar, separar claramente o que é normativo do que é positivo. Em segundo lugar, eliminar os fenómenos de selecção adversa. Em terceiro lugar, abandonar a pretensão de obter um consenso completo em todos os tópicos em discussão, particularmente os que apenas têm vindo a ser estudados em décadas mais recentes. O que fica no fundo do balde?

 

De forma pouco surpreendente, a verdade é que há um largo conjunto de questões em que a esmagadora maioria dos economistas responde de forma convergente. Vou dar apenas alguns exemplos: a) o comércio internacional é duplamente vantajoso; b) os controlos de preços e salários são geralmente ineficientes; c) os subsídios são geralmente ineficientes; d) o combate, por parte do Estado, às falhas de mercado, como monopólios, existência de bens públicos e externalidades, tende a aumentar a eficiência da economia; e) os mercados são mais eficientes do que sistemas centralizados na difusão de informação.

 

Há economistas que não concordam com isto? Há. Como também há biólogos que se opõem ao princípio da selecção natural como explicação principal para a evolução das espécies (o António Amorim, da Universidade do Porto, é um deles, salvo erro) e adeptos do SLB que acreditam que o Vale e Azevedo até era um tipo honesto e sincero. Mas a maior parte dos biólogos, benfiquistas e economistas está razoavelmente de acordo em relação à Selecção Natural, ao Vale e Azevedo e ao Comércio Internacional.

 

Eu sou um case study interessante. Não tendo formação em Economia,  absorvi as noções básicas de forma mais ou menos auto-didacta através de Economia (Samuelson) e Principles of Economics (Greg Mankiw). Também li um livro de Finanças Públicas de um grupo de professores do ISEG, um livro de Mercados Financeiros de um grupo de professores do ISCTE, Economia Internacional  (Krugman e Obstfeld) e, mais recentemente, Economia(s), de Francisco Louçã e um académico de Coimbra cujo nome agora não recordo.

 

Apesar do largo espectro ideológico que esta lista contempla, as divergências entre os manuais são mínimas. Até a malta do ISCTE admite os benefícios da especulação. E arriscaria mesmo dizer que há mais diferenças entre o Economia de Samuelson e o Principles do que entre este e Economia(s) – provavelmente devido ao facto de o primeiro ser já bastante antigo (oitava edição, se não estou em erro). Quem critica a falta de pluralidade nos media não está a pedir que se dê a voz a Louçã, o economistas, mas a Louçã, o político.  

 

Não estou a dizer que Mankiw, antigo conselheiro económico de Bush, e Louçã, líder do BE, tenham muitas semelhanças entre eles. Na verdade, é o contrário: apesar de todas as divergências, as diferenças esbatem-se quando se trata de fazer ciência a sério. A Economia é muito menos plástica do que a maior parte das pessoas pensa. E muito menos do que a maior parte dos políticos gostaria que fosse.

 


2 comentários:
De Miguel Madeira a 20 de Outubro de 2010 às 17:43
"Quem critica a falta de pluralidade nos media não está a pedir que se dê a voz a Louçã, o economistas, mas a Louçã, o político. "

Dois pontos:

- penso que os criticos da "falta de pluralidade" concetram-se sobreuto na parte macro-económica (p.ex., a "obsessão pelo déficit") que é exactamente a questão onde há mais controvérsia, mesmo puramente científica

- [este segundo ponto é capz de ser mais arriscado da minha parte] A existir uma "ortodoxia académica" entre os economistas, até não estará mais proxima da posição "a austeridade não vai resolver nada; so vai provocar uma deflação e aumentar o valor real da dívida pública - o que é preciso é uma politica expansionista coordenada à escala europeia, ou no mínimo que alguns paises auementem o seu deficit para compensar os que têm que reduzir o seu" do que da posição "temos que praticar uma austeridade dura para evitar a bancarrota"? Ou seja, não será a heterodoxia que está hiper-representada na opinião publicada/radiodifundida?


De PR a 21 de Outubro de 2010 às 18:10
Miguel,

Em relação ao primeiro ponto, referia-me às posições que o Louçã tem adoptado ao longo dos últimos anos, e não em relação às suas opiniões dos últimos meses. Penso que ele está longe de ser o porta-estandarte da esquerda durante a crise.

Em relação ao segundo, não tenho a certeza de que seja bem assim. Penso que tem razão se estivermos a falar do caso de economias como EUA, por exemplo, onde muitos economistas (Stiglitz, Krugman, etc.) têm alertado para o facto de os "bond vigilants" não estarem a penalizar os défices.

Mas se estiver a falar do caso dos PIIGS penso que está errado. Mesmo os "anti-austeridade" admitem que Grécia, Portugal e por aí fora estão numa situação em que não têm muita alternativa.

Mas, de novo, penso que a macroeconomia é o campo onde de facto há menos consenso.


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