Domingo, 7 de Novembro de 2010
Priscila Rêgo

... aproveito para deixar umas notinhas acerca da crise da dívida pública portuguesa. Se há coisa que me chateia profundamente é ouvir tanta gente falar sem conhecimento de causa. Não é que eu saiba muito. Mas pelo menos não engano o leitor. 

 

1) É verdade que os bancos com acesso aos fundos do Banco Central Europeu estão a financiar-se a 1% e a emprestar ao Estado português a 7%. Mas a comparação não faz sentido.  A cedência de liquidez do BCE diz respeito a maturidades reduzidas (frequentemente, apenas uma semana). Os juros de 7% cobrados ao Estado referem-se a obrigações do Tesouro que vencem daqui a 10 anos. É natural que a taxa de juro seja superior. Se o Estado estiver disposto a refinanciar a dívida todos os anos, também pode emitir Bilhetes do Tesouro e pagar entre 2 e 3% ao ano.

 

2) Já agora, nem sequer é verdade que os investidores internacionais estejam a cobrar juros exorbitantes para financiar o défice do Estado. Por uma razão simples: neste momento, já ninguém no estrangeiro compra a dívida pública tuga. Segundo dados do Banco de Portugal, praticamente toda a dívida emitida durante o ano de 2010 foi adquirida por investidores nacionais. Quem quiser demonstrar solidariedade para com o Tesouro pode sempre abdicar de uma parte dos juros quando comprar certificados de aforro.

 

3)  Os mercados querem isto, querem aquilo, estão a olhar para aqueloutro. Ouvi isto vezes sem conta na semana passada. Tretas. Não há um mercado: há milhares e milhares de investidores que se reúnem no mercado para fazer transacções. Quem acha que "o" mercado está a olhar para indicadores objectivos da economia real portuguesa esquece-se de que grande parte das decisões é tomada com base em análise técnica, não em análise fundamental. Para onde é que os investidores estão a olhar? Provavelmente, uns para os outros.

 

4) É exagerada a ligação que se estabeleceu entre a aprovação do Orçamento do Estado e a evolução das "yields" da dívida pública. Não porque a aprovação do documento seja irrelevante, mas porque ninguém sabe muito bem o que está lá dentro. A UTAO demorou duas semanas para produzir um relatório que expressa mais dúvidas do que certezas e hoje, quase um mês depois da apresentação do OE, ainda há imensa coisa que não se percebe quando se olha para os mapas de despesa. Não reconheço aos tipos das agências de "rating" ou analistas das casas de investimento qualquer vantagem comparativa que lhes permita, num prazo mais curto, produzir juízos mais bem fundamentados. Dizer que os juros sobem porque o mercado não acredita no OE é fazer guerrilha política com o random walk dos mercados financeiros.  


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Priscila Rêgo

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Vasco M. Barreto

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