Sábado, 3 de Abril de 2010
Bruno Vieira Amaral

Nelson Rodrigues, num dos seus típicos exageros, verberava os idiotas da objectividade. Na opinião de Rodrigues, era lícito que, numa notícia sobre um incêndio em que ninguém morrera, o jornalista inventasse um canário. Na notícia o passarinho cantaria até morrer, única vítima de um “sinistro medíocre”. A reportagem existiu mesmo e o seu autor foi Castelar de Carvalho, representante da “geração criadora de passarinhos”. A história comoveu os leitores, foi um “sucesso tremendo”. Rodrigues lamentava o fim desse jornalismo que não se resignava perante o cinzentismo dos factos: “o passarinho foi substituído pela veracidade que, como se sabe, canta muito menos. Daí porque a maioria foge para a televisão. A novela dá de comer à nossa fome de mentira.” A veracidade canta muito menos, é certo, mas as mentiras voam como passarinhos. Nelson Rodrigues conhecia bem os perigos do sensacionalismo, como se pode ler, não nas suas crónicas, mas numa das suas peças de teatro, O Beijo no Asfalto. Aquela defesa da mentira ao serviço de uma boa história não passa de uma boutade, a nostalgia de uma Idade de Ouro romântica em que os jornalistas saciavam “a fome de mentira” dos leitores.

 

Artur Domoslawski, biógrafo do jornalista polaco Ryzscard Kapuscinski, acusa-o de ter melhorado alguns factos para os tornar mais interessantes: "Sometimes the literary idea conquered him. In one passage, for example, he writes that the fish in Lake Victoria in Uganda had grown big from feasting on people killed by Idi Amin. It's a colourful and terrifying metaphor. In fact, the fish got larger after eating smaller fish from the Nile." Mas, neste exemplo, não há qualquer liberdade poética, há uma mentira. Kapuscinski pega em dois factos (os mortos de Idi Amin e o crescimento dos peixes) e estabelece entre ambos um falso nexo de causalidade. E quando um jornalista mente, por muito boa que seja a mentira e mesmo que não afecte a essência dos factos, já não está a fazer jornalismo. No Guardian, Neal Ascherson escreveu que Kapuscinski não era um mentiroso, mas sim um grande contador de histórias. Então os seus livros de não-ficção deveriam ser apresentados como ficção, que é o que defende o biógrafo de Kapuscinski. E essa não é uma questão menor. A forma como um escritor apresenta o livro cria um contrato com o leitor. Apesar de ser uma obra baseada em acontecimentos reais eu não espero que Crónica de uma Morte Anunciada, de García Márquez, seja um relato factual. Aceito que o escritor recrie, dramatize e subjugue os factos ao seu talento. Quando leio Viver para Contá-la, quero o talento mas dispenso a efabulação. Um é romance, outro é autobiografia. E a minha leitura é condicionada por esse elemento exterior. “Readers need to know what they are getting”, afirmou Timothy Garton Ash. Não é por isso que Kapuscinski deixa de ser um escritor extraordinário, mas podia ter lido o aviso de Mario Vargas Llosa em Conversa n’A Catedral: “É preciso ser-se maluco para ir trabalhar num jornal quando se tem algum carinho pela literatura, Zavalita.”


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