Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011
Priscila Rêgo

O Governo português, e o ministro da Economia em particular, referem frequentemente o facto de as exportações portuguesas terem cada vez mais conteúdo tecnológico (sem link, que não tenho pachorra). Hoje, no I Congresso para as Exportações, houve nova sessão de doutrinação. São as forças de mercado a submeterem-se às linhas estratégicas delineadas pelo Governo. Sócrates sonha, Vieira da Silva faz, a obra nasce. Uh...

 

Acontece que este resultado não é especialmente surpreendente. A abertura do comércio a Leste colocou Portugal a concorrer com economias especializadas em produtos de baixo preço (a China é o maior exemplo). Isto criou dificuldades às empresas que competiam nessa divisão. Mas abriu um mercado enorme a todas as outras que jogavam numa divisão acima, aumentando a procura pelos seus produtos. Não é sapiência. É o mercado.

 

E isto é a nossa maior tragédia. Os tipos que definem as grandes linhas da política económica nacional, que gizam os planos de investimento, que escolhem as prioridades, alocam recursos e mexem os cordelinhos ainda não conseguiram perceber uma das ideias mais antigas da economia: o conceito de vantagem comparativa. Citam Krugman e Stiglitz sem terem percebido Ricardo.

 

 


12 comentários:
De Luís Lavoura a 10 de Fevereiro de 2011 às 16:58
"abriu um mercado enorme a todas as outras que jogavam numa divisão acima, aumentando a procura pelos seus produtos"

Como é que a abertura dos mercados à China aumenta de forma tão determinante a procura pelos produtos portugueses de maior tecnologia? Não me parece de forma nenhuma claro.

E. mesmo que essa abertura de mercados aumente a procura por produtos de maior tecnologia em geral, como é que se garante que as empresas portuguesas que possam produzir tais produtos estão em condições de competir eficazmente com as suas congéneres alemãs?

Em suma, este post não me parece fazer sentido. O facto de Portugal deixar de ser competitivo em produtos de baixa tecnologia não garante, de forma nenhuma, que possa passar a ser competitivo em produtos de alta tecnologia - são factos independentes.


De Miguel Madeira a 11 de Fevereiro de 2011 às 01:16
"que possa passar a ser competitivo em produtos de alta tecnologia - são factos independentes."

De acordo com Ricardo, não - a teoria dele (que tem como uma das premissas que os factores de produção, como o capital e o trabalho, não se deslocam de uns paises para os outros) é que um pais vai sempre dedicar os seus recursos a produzir alguma coisa, logo se produz menos A vai produzir mais B.


De NG a 27 de Fevereiro de 2011 às 22:03
Qual é o A que a Alemanha produz menos?


De PR a 11 de Fevereiro de 2011 às 02:50
Luís,

O princípio não é fácil de entender porque as pessoas tendem a pensar na vantagem "absoluta" que um país tem na produção de bens e serviços. O génio de Ricardo foi ter percebido que o que conta é a vantagem comparativa.

Imagine que o Cristiano Ronaldo é mais rápido e eficaz que qualquer mulher a dias a limpar a casa. Deve fazê-lo? Se olhar para a vantagem absoluta, sim; mas o princípio da vantagem relativa diz que o Cristiano Ronaldo deve especializar-se naquilo que faz melhor - jogar futebol -, porque com o que ganha nessa actividade pode pagar a várias mulher a dias para fazerem o trabalho que ele, sozinho, faria melhor que qualquer uma delas. No final, ambos estão melhores.

Da mesma forma, o facto de a China ter uma vantagem comparativa na produção de bens "low cost" implica necessariamente que tem uma desvantagem comparativa na produçãod e bens "high tech". Ela tem menores custos na produção dos primeiros do que Portugal, pelo que as forças de mercado vão levá-la a especializar-se nesse segmento. Ao mesmo tempo, as forças de mercado vão levar Portugal a especializar-se num segmento de valor acrescentado mais alto.

Claro que este modelo é simples, não inclui mobilidade de factores, despreza economias de escala e exclui comércio intra-industrial, etc. Mas explica muito bem as forças subjacentes à especialização dos países.


De Luís Lavoura a 19 de Fevereiro de 2011 às 17:44
Essa teoria do Ricardo, perdoe-me que lhe diga, é um completo disparate.

(Percebe-se que o Ricardo a tenha feito - ele e o seu país beneficiavam diretamente dessa teoria. O que ele queria, e obteve, foi que a Inglaterra fosse a fornecedora universal de bens industriais - os outros paíse todos definhavam na agricultura.)

Na prática, o que se observa nada tem a ver com a teoria de Ricardo. O que se observa é que há muitos indivíduos ou países que não são competitivos a fazer nada, e que portanto definham na miséria.

O facto de a China se especializar em bens de maixa tecnologia e pretender importar bens de alta tecnologia, de forma nenhuma garante que Portugal seja capaz de lhe fornecer tais bens.


De PR a 23 de Fevereiro de 2011 às 01:57
Luís,

"O facto de a China se especializar em bens de maixa tecnologia e pretender importar bens de alta tecnologia, de forma nenhuma garante que Portugal seja capaz de lhe fornecer tais bens."

Imagine que China e Portugal são as duas únicas economias do mundo. Suponha que a China está especializada em produzir têxteis e que há apenas dois tipos de bens: têxteis e produtos industrais.

Ao abrir as fronteiras, a China vai vender têxteis a Portugal. Mas se vai vender têxteis, o que vai receber em troca?

De acordo com o Luís, nada garante que ela receba algo em troca, porque Portugal pode não ser competitivo em nada e assim "definhar na miséria".

Mas, de acordo com Ricardo, a China só estará disposta a vender têxteis se puder receber algo em troca. Ora, se ela é mais competitiva nos têxteis, Portugal só pode, necessariamente, fornecer bens industriais.

Esta é uma aplicação do argumento ricardiano, mas a teoria da vantagem comparativa é muito mais abrangente do que isto. Se o Luís tiver interesse, pode consultar um manual de economia internacional e passar os olhos pelos primeiros capítulos. É uma atitude céptica muito mais saudável do que dizer que uma das teorias mais consensuais em economia é "um disparate".

PS- O seu penúltimo parágrafo não faz sentido. A teoria da vantagem comparativa não diz que quem faz comércio fica rico. O que a teoria da vantagem comparativa diz é que ninguém fica mais pobre só por fazer comércio. Um mundo ricardiano é perfeitamente compatível com um mundo de Etiópias e Azerbaijões.



De PR a 23 de Fevereiro de 2011 às 02:03
Até podemos ir um bocado mais longe. Veja o seu segundo parágrafo.

"Percebe-se que o Ricardo a tenha feito - ele e o seu país beneficiavam diretamente dessa teoria. O que ele queria, e obteve, foi que a Inglaterra fosse a fornecedora universal de bens industriais - os outros paíse todos definhavam na agricultura"

De acordo com Ricardo, se a Inglaterra está a exportar mais bens de maior valor, então deve estar também a receber mais bens de maior valor (agricultura, serviços, whatever).

Logo, o crescimento económico inglês, mesmo que feito apenas no no segmento dos bens industriais, segue a par e passo do crescimento económico dos seus parceiros comerciais.

Empiricamente, confirmas-e que o crescimento inglês foi seguido pelo crescimento dos seus parceiros comerciais. E isto não é opinião, é um facto.


De Luís Lavoura a 23 de Fevereiro de 2011 às 12:00
(1) Eu nunca disse que alguém fica mais pobre só por fazer comércio. Pelo contrário, eu sou um partidário do comércio livre. Eu o que contestei - no meu comentário inicial - foi a sua frase de que, a partir do momento em que a China se especializa em produtos de baixa tecnologia, Portugal passa a ter a possibilidade de exportar produtos de alta tecnologia para a China.

(2) De facto, o seu raciocínio ricardiano falha em dois pontos.

a) Portugal e a China não são os únicos dois países no mundo. O facto de a China pretender importar produtos de alta tecnologia não implica que Portugal seja competitivo nesses produtos - a China pode preferir importá-los da Alemanha, por exemplo. Ou seja, não podemos olhar apenas para o comércio entre a China e Portugal, temos que ter em conta países terceiros.

b) Mais crucial ainda, no nosso mundo atual, ao contrário daquilo que acontecia no mundo ricardiano (e mesmo nesse...), o captal financeiro move-se com grande facilidade de um país para o outro. Isto implica que Portugal pode continuamente importar coisas sem exportar nada (ou exportando pouco...) em troca. E, conversamente, a China pode continuamente exportar muitos produtos de baixa tecnologia sem que em compensação importe produtos de alta tecnologia. Temos portanto que se podem manter, por anos ou décadas a fio, desequilíbrios comerciais; a China vende produtos de baixa tecnologia a Portugal mas não importa nenhuns produtos de alta tecnologia de Portugal. Ou seja, Portugal é continuamente não-competitivo, mas mesmo assim consegue continuar a importar porque a China lhe empresta dinheiro para esse efeito.

Ou seja, a sua frase "a China só está disposta a vender têxteis se puder receber algo em troca" não é, evidentemente, verdadeira, tal como se verifica pelo gigantesco excedente comercial chinês - a China está perfeitamente disposta a vender têxteis recebendo em troca dólares que depois empresta aos países estrangeiros para que estes possam continuar a importar mais têxteis chineses, e assim por diante.

Infelizmente, teoria consensuais em economia são raras, e mesmo aquelas que reúnem bastante consenso são contestáveis e, por vezes, falsas. A economia não é uma ciência como a física.


De PR a 23 de Fevereiro de 2011 às 12:49
Luís,

Eu usei dois países porque torna mais fácil clarificar o conceito. Mas se usar três, quatro, cinco ou 195, vai chegar a resultados semelhantes.

Por exemplo, suponha que a China de facto prefere importar bens industriais da Alemanha. Isto gera um rendimento maior nos dois países, que terá de ser gasto nalgum lado.

No final, os ganhos do comércio terão sempre de "escorrer" para Portugal. A sua produção será determinada pelo tipo de bens (têxteis ou indústria) no qual tiver vantagem comparativa. Ou seja, o bem que puder produzir a um custo menor.

O seu exemplo do excedente comercial também é falacioso. Das duas uma: ou a China só exporta se puder receber algo em troca (a), ou não (b). Vamos agora explorar as duas se possibilidades.

a) Se sim, então o argumento ricardiano prevalece: para exportar têxteis, a China terá de importar outro tipo de bens ou serviços. Hoje, através do equilíbrio comercial, ou amanhã (um empréstimo pode ser descrito com comércio inter-temporal).

b) Se não, então isso significa que Portugal pode limitar-se a produzir notas, enviá-los à China e viver às suas custas para todo o sempre. Esta é uma óptima opção, porque não há nada que nós possamos produzir tão facilmente como pequenos pedacinhos de papel verde. Mas repare que o argumento ricardiano entra aqui pela porta dos fundos: no final, o comércio beneficia também Portugal (aliás, neste caso até beneficia apenas Portugal...).

Só não percebi o comentário final. Está a dizer que as teorias da física, ao contrário da economia, não são contestáveis nem podem ser falsas?


De Luís Lavoura a 23 de Fevereiro de 2011 às 16:16
Priscila.

repito que não é minha intenção abordar a questão de se o comércio internacional é ou não benéfico para Portugal. Eu apenas contesto a sua frase de que Portugal encontrará necessariamente mercado para os seus produtos de alta tecnologia.

A Priscila, a avaliar pela sua frase "Isto gera um rendimento maior nos dois países, que terá de ser gasto nalgum lado.", parece acreditar na velha lei de Say. Mas, como sabe, há muitos economistas que não acreditam nessa (pretensa) lei. O facto de haver rendimento na Alemanha e na China não implica que passe a haver mercado para os produtos portugueses. Os alemães e os chineses podem decidir entesourar, ou então podem comprar cada vez mais produtos uns aos outros em vez de os comprar aos portugueses.

Como a Priscila sabe, na economia de Ricardo e Say não existe desemprego - as pessoas encontram sempre mercado para os produtos que queiram produzir. Os países também encontram sempre mercado para os bens que produzam. Infelizmente, porém, verifica-se na prática do dia-a-dia que há desemprego e que há países que não encontram mercado para os seus produtos.

No século 19, por exemplo, Portugal especializou-se a produzir citrinos e azeite, entre outras coisas, e foi assim ganhando (mal) a sua vida. Mas no fim do século começou a haver grandes plantações de olival na Andaluzia e de laranjais no Levante espanhol e Portugal perdeu os seus mercados. No entanto, contrariamente àquilo que a Priscila sugeriria, Portugal não passou por isso a ser mais capaz de exportar cortiça, por exemplo. O que aconteceu foi que, pura e simplesmente, o país entrou em grave crise de falta de divisas.


De PR a 24 de Fevereiro de 2011 às 19:47
Luís,

Sim, o argumento ricardiano admite a "versão fraca" da Lei de Say: os preços tendem a ajustar-se. Mas isso está subjacente a todo o raciocínio económico. Se o Estado aumentar as suas despesas para o dobro, penso que não dirá que isso não tem efeito nenhum na economia, dado que os preços são rígidos.

Podemos discutir a velocidade do ajustamento. Mas aí o meu argumento até sai reforçado, porque no comércio internacional uma parte do ajustamento não será feito via preços, mas via taxa de câmbio, muito mais rápida a reagir.

Em todo o caso, o fenómeno que gerou este post (a abertura do comércio à China) já tem quase 10 anos. Não é um fenómeno recente. Mesmo sem taxa de câmbio, o ajustamento já se fez via preços.

Finalmente, não conheço o suficiente acerca da História Económica de Portugal para me pronunciar com propriedade acerca desse caso que refere. Mas não me espantaria que o fenómeno tivesse sido provocado não pelo comércio internacional mas por alguma restrição imposta pelo Estado à balança de pagamentos (muito frequentes na altura). Mas, como disse, não conheço o caso.


De Luís Lavoura a 25 de Fevereiro de 2011 às 10:18
Esta discussão já vai longa e já vi que há diferenças fundamentais entre as nossas visões (com vantagem para a Priscila que é economista, eu não sou). Não desejo eternizá-la.

Aquilo que referi na história económica de Portugal vem no livro recentemente publicado de António José Telo sobre a Primeira República, livro esse que é muito bom. Não foi devido a nenhuma intervenção do Estado - a política económica e comercial portuguesa era essencialmente liberal e não-interventiva. Foi mesmo assim: Portugal entrou em crise por volta de 1870 devido ao colapso de boa parte dos produtos em que se tinha especializado no comércio externo.

É claro que em economia há sempre, cedo ou tarde, ajustamentos. Só que, muitas vezes, esses ajustamentos são desfavoráveis. O facto de a China entrar no comércio internacional implica um ajustamento e, ao contrário daquilo que a Priscila sugere, esse ajustamento não será necessariamente neutro (ou benéfico) para Portugal.

(Além disso, os ajustamentos podem ser lentos e, enquanto duram, implicam sofrimento.)

Quanto à lei de Say, estamos conversados. É uma das tais leis que desmentem o estatuto científico da economia.


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