Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011
Priscila Rêgo

Leiam este post acerca da possível vinda do Fundo Monetário Internacional (FMI). Depois, voltem cá e leiam o meu. Se o Miguel Madeira tivesse dito que a vinda do FMI não é garantia de que Portugal se safe, eu tenderia a concordar. Mas a afirmação, bastante mais forte, de que mesmo com o Fundo Portugal não se vai salvar parece-me bastante mais discutível.

 

O melhor paralelo que me ocorre para perceber esta situação é a de um ataque especulativo a uma moeda nacional. Se o Governo de uma pequena economia está a acumular défices orçamentais insustentáveis, pode gerar-se o receio de que, mais cedo ou mais tarde, ele recorra à emissão monetária para financiar esses défices. Neste caso, a ideia de que a divisa poderá desvalorizar no futuro levará os investidores a venderem, no presente, os títulos denominados na moeda em causa. O resultado é uma desvalorização imediata. Se houver muita dívida denominada em moeda estrangeira, é o caminho para o caos.

 

Mas há uma forma de combater este movimento: o banco central do país em causa pode usar as suas reservas externas para comprar a própria moeda e, assim, impedir (ou adiar, conforme as interpretações) a crise cambial. Esta estratégia é um pau de dois bicos porque se o ataque especulativo tiver fundamento o banco central acabará por esgotar as suas reservas e a moeda desvalorizará à mesma: os investidores vão continuar a vender até que o banco central "perca as munições". Mas se o Governo acabar por estabilizar as suas contas e não tiver de recorrer à emissão monetária, o ataque especulativo vai terminar e o esforço do banco central poderá, de facto, ter impedido uma grave crise monetária e cambial.

 

O FMI pode, neste caso, fazer o papel de banco central, garantindo o financiamento enquanto pomos a casa em ordem. Neste momento, o Estado português joga a sua sorte semanalmente nos mercados. O maior risco nem é que as taxas de juro se mantenham ao nível actual, mas que elas acabem mesmo por subir. No ponto em que estamos, basta uma má notícia acerca da execução orçamental. Se isso acontecer, voltamos à estaca zero: mais pacotes de consolidação, mais pressão, mais risco, mais juros, mais pacotes… e por aí fora.

 

Com o FMI, o Estado assegura o financiamento durante dois a três anos e pode concentrar-se em cobrir o buraco das contas, sem precisar de se preocupar com o que os mercados pensam da execução orçamental. Haverá menos pressão, mais certeza e, até, juros mais baixos. Além do mais, o cumprimento das medidas de consolidação seria muito mais bem monitorizado do que está a ser agora. Em 2013, poderíamos calmamente voltar aos mercados, pagar a dívida ao FMI e financiar os défices sem problemas de maior.

 

Claro que não há almoços grátis. A segunda opção comporta riscos para o próprio FMI: se Portugal não conseguir pôr a casa em ordem, é o Fundo que fica a arder nuns bons milhares de milhões de euros (os défices mais a dívida que vence entre 2011 e 2013). Mas a ideia é ver o que nos convém mais a nós, não é?

 

Adenda: Não ficou claro à primeira, mas espero que fique agora. A insustentabilidade da taxa de juro depende não só da taxa de juro e do crescimento nominal da economia mas também do montante de dívida a que a taxa de juro se aplica. Uma taxa de 7% pode ser sustentável se vigorar durante um ou dois anos; pode contudo tornar-se insuportável se se mantiver durante um período mais longo. O que o FMI permitiria fazer era "estancar a sangria" no momento actual: impedir novas subidas da taxa de juro e dar tempo ao Governo para fazer o ajustamento orçamental sem mai problemas. Com sorte, em 2013 os juros estariam de novo nos 3 ou 4% e a situação voltaria a tornar-se gerível.


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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

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Vasco M. Barreto

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