Domingo, 27 de Fevereiro de 2011
Priscila Rêgo

E com mais calma. Agora que a comunicação social terminou a sessão de masturbação colectiva com os números do desemprego, o ambiente está muito mais propício a algum pensamento crítico. Os jornais têm a teoria de que a letra dos Delinda retrata fielmente a realidade nacional. Descobriram-no nas primeiras estatísticas do emprego publicadas depois da música, curiosamente. Eu não sei. E, como não sei, fui tentar descobrir. Logo aí fiquei em vantagem.

 

Quando escrevi o post anterior, não tinha ainda acesso aos números oficiais do INE. Entretanto, consegui lançar-lhes mão, mas tratei-os de forma ligeiramente diferente daquilo que foi feito pela comunicação social. Em vez de apenas comparar taxas de desemprego (nacional vs. jovem), introduzi uma nuance: fi-lo para dois períodos temporais. Isto porque a letra dos Deolinda não diz que os jovens estão em pior situação do que os seus pais: diz que este diferencial aumentou hoje face àquilo que era regra. Daí que se fale hoje numa “geração Deolinda”.

 

O gráfico de baixo mostra a taxa de desemprego nacional e a taxa de desemprego jovem (dos 15 aos 24 anos – desculpem, mas para mim, e por muito que eu gostasse, quem tem 35 anos já não é jovem). Utilizei dados anuais para limpar alguma sazonalidade, inevitável em dados trimestrais, e para amenizar o facto de os erros de medição aumentarem quando a amostra é menor, como acontece com o universo dos jovens. Usei 1998 por ser o último ano em que Portugal cresceu de forma robusta. Assim, não há desculpas.

 

 

A taxa de desemprego é superior nos jovens? Sim. Isso é novidade? Hum… não. A taxa de desemprego cresceu de forma idêntica nos dois lotes. Há de facto uma diferença, mas demasiado marginal para justificar o alarido gerado na comunicação social (e para se ver a olho nu, já agora). O que também não me espanta: é raro o alarido ser despertado por alguma coisa tão substancial como números oficiais. A não ser, claro, os números de vendas de jornais.

 

Há outra ideia na música dos Deolinda: os jovens estão hoje pior do que ontem mas isso é particularmente verdade para os jovens licenciados – a tal história dos estágio de borla. É isso que acontece? Nalgumas cabeças, CLARO!!! (com caps lock e vários pontos de exclamação, caso contrário tem menos impacto). Mas o Instituto Nacional de Estatística tem uma opinião diferente. Ora vejam em baixo.

 

 

 

Comparei a taxa de desemprego nacional com a taxa de desemprego dos licenciados e a taxa de desemprego dos jovens licenciados. Entre 1998 e 2010, ela cresceu em todos os segmentos. De forma diferenciada? Não, da mesma forma: por um factor que varia entre 2,1 e 2,3 (não é possível saber isso com precisão através do gráfico, mas eu fiz os cálculos). Onde está a novidade? Não há. Confirma-se o que já se sabia: os licenciados têm melhor situação do que os não licenciados e os jovens têm pior situação que os mais velhos. O segundo efeito, aparentemente, supera o primeiro. Hoje, como ontem. E na mesma medida.  

 

Como se explica, então,  o sucesso da música dos Deolinda? Não tenho uma teoria definitiva, mas eu apontaria para o facto de a subida uniforme do desemprego produzir mais desempregados não licenciados e mais desempregados com licenciatura. Mas os desempregados com licenciatura têm mais poder reivindicativo e mais a ganhar: estágios profissionais para licenciados, bolsas de investigação para trabalhar numa universidade, um posto na Adminstração Pública. Não estão em maior número - só gritam mais. 

 

Este efeito será provavelmente exacerbado pelo facto o crescimento do desemprego se ter feito sentir sobretudo em áreas do saber com acesso privilegiado aos media: cinema, artes, letras, comunicação social, alguma educação, eventualmente Direito. Os engenheiros em boa situação profissional estão caladinhos nos seus gabinetes. Os jornalistas desempregados estão a endrominar a cabeça dos colegas que conseguiram emprego.

 


55 comentários:
De Exilado no Mundo a 28 de Fevereiro de 2011 às 08:33
"Como se explica, então, o sucesso da música dos Deolinda?" Fácil. Tem uma letra que diz alguma coisa (certa ou errada é outra questão). Como a maioria das letras de músicas portuguesas não têm dito nada, esta ganhou notoriedade!
http://exiladonomundo.blogspot.com/2011/02/imprecisas-impressoes-musicais.html


De rabino a 28 de Fevereiro de 2011 às 17:47
No coliseu estavam quatro mil pessoas.Alguns já mobilizados politicamente,outros desempregados.Com a oposição, e jornais, fora do Coliseu,está feito o caldinho... .Hoje os licenciados,nomeadamente nas áreas economicas e financeiras,estão a ocupar lugares que no tempo dos pais,eram dos trabalhadores saidos do ensino tecnico e com outras responsabilidades a nivel de crédito ao cliente. Não me venham dizer que estão pior. Lembro que antes do 25 de Abril os Universitários eram 17000,e havia a guerra colonial que permitia muitos empregos...

.Há licenciados que era bem melhor para eles e para o pais... que fossem operarios especializados. A demagogia à maneira, é como queijo numa ratoeira diz a canção de protesto ....


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De Luís Lavoura a 28 de Fevereiro de 2011 às 11:46
Embora o trabalho efetuado neste post seja meritório, eu creio que ele não capta a totalidade daquilo contra o qual se protesta. É que, o problema dos jovens não é apenas o desemprego, é também o emprego mal pago, precário (em particular, os falsos recibos verdes), e sem direitos (nomeadamente, o que é diretamente relevante nessa idade, o direito à maternidade com proteção do emprego). Estas condições, além de afetarem sobremaneira a juventude, contrastam de forma aberrante com as condições dos empregos dos mais idosos, os quais são frequentemente muito estáveis e com muitos direitos.

Veja por exemplo o caso das jovens nos seus 20 ou 30 anos de idade que, mesmo tendo emprego, têm que ter todo o cuidado a tomar a pílula, pois sabem que, se tiverem um filho, perdem imediatamente o emprego a recibo verde que têm - e, mesmo que o não perdessem, o salário desse emprego não lhes daria para pagar as fraldas do bebé. E considere a resultante frustração dessas jovens.

Aos 20% de jovens que não têm emprego há que somar mais 30%, ou coisa assim, que têm um pseudo-emprego sem quaisquer proteções e muito mal pago.


De Inês a 4 de Março de 2011 às 17:44
...concordo inteiramente consigo. Acrescento-lhe isto : há muita gente entre os 50 e os 65 anos de idade, e mais do que se calhar se imagina, que vivem em condições laborais tão precárias como as pessoas da faixa etária dos 20 aos 30. O motivo deste protesto é transversal a toda a sociedade portuguesa, é intergeracional.


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De José Gil a 28 de Fevereiro de 2011 às 16:16
Vi o artigo sobre a musica dos Deolinda e do que está escrito, concordo plenamente. Será que era possivel fazer igual estudo (análise de gráficos de barras com o mesmo objectivo), para os cidadãos entre os 18 e os 45 anos?
Ou muito me engano, ou é nessa faixa etária que a humanidade (no mundo ocidental q que queremos pertencer), maioritariamente procria.
Independentemente das opiniões; mais luxo menos luxo; é nessa materia que se fundamentam as sociedades humanas e consequentemente o contrato social que nos rege a todos, o qual presume (ou deveria presumir) a noção de continuidade sustentada. Ou não...?
Agradecia resposta, (não estou a ser irónico). Mando cumprimentos a todos.

PS: O conceito de jovem associado a uma determinada idade, para mim, sendo coerente com o que escrevi; será até aos 45 anos. Aquilo que li (até aos 24 anos), parece-me um conceito tipico do pós-guerra no tempo em que se crescia a 8% ao ano, era-se de esquerda porque era chique e até o "rato mickey" ganhava dinheiro.


De Miguel Madeira a 1 de Março de 2011 às 00:08
A definição de jovem é fundamentalmente "pessoa que já tem capacidade biológica para ter filhos mais ainda não é socialmente autosuficiente".

Por isso, ouviremos sempre (pelo menos enquanto existir o conceito de "emprego") na dificuldade dos jovens em arranjar emprego - é largamente isso que os define como jovens.


De PR a 1 de Março de 2011 às 00:17
Ora aí está um ponto que gostaria de ter sido eu a salientar.


De R Cardoso a 13 de Março de 2011 às 22:32
Jovem até aos 45 anos???
Acho que com alguma boa-vontade pode-se alargar até aos 55 anos. E quanto ao"era-se de esquerda porque era chique e até o "rato mickey" ganhava dinheiro." é simpaticamente naif.

R Cardoso


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De Pedro Malaquias a 28 de Fevereiro de 2011 às 16:55
Não consigo entender como é que realiza a análise em causa (quadro inicial) com dados relativo ao desemprego entre os 15 e os 24, quando a canção em causa, bem como o crescente desagrado com o status quo, tem por base i) o desemprego de recém licenciados, ii) os estágios não pagos ou com salários muitas vezes inferiores ao SMN e iii) os falsos recibos verdes.

O ponto i) não é analisado, na medida em que o recém licenciado terá sempre mais de 21 anos e o intervalo utilizado no primeiro estudo é bem maior. Os pontos ii) e iii) não se encontram incluídos na estatística, visto que estes "jovens" não são desempregados (são, simplesmente, muitíssimo mal empregados).


De Daniel João Santos a 28 de Fevereiro de 2011 às 22:12
raios! E eu que julgava que era só uma musica.


De Zephyrus a 28 de Fevereiro de 2011 às 22:32
É curioso constatar que os cursos de medicina dentária e enfermagem -onde o desemprego nos recém-licenciados não é novidade e já tem alguns anos- continuam a ter uma procura elevadíssima, ao ponto de enfermagem ter sido o segundo curso com mais candidatos em 2010. E segundo me consta, as vagas para enfermagem e medicina dentária no ensino superior privado continuam a ficar preenchidas. Há aqui qualquer coisa que não está bem nesta juventude...


De PR a 28 de Fevereiro de 2011 às 23:54
Obrigado a todos pelos comentários. Respondendo ao que me pareceu mais relevante:

"Aos 20% de jovens que não têm emprego há que somar mais 30%, ou coisa assim, que têm um pseudo-emprego sem quaisquer proteções e muito mal pago." - Luís Lavoura

Eu não penso que a situação de um segmento social possa ser captada apenas através da taxa de desemprego relevante. É óbvio que outros indicadores têm de ser levados em conta.

Mas foi apenas para este indicador em espécifico que a comunicação social olhou depois de serem publicados os dados do emprego. Eu limitei-me a refutar a imagem que foi criada, jogando no mesmo terreno, com as mesmas armas.

Já agora, e se me permite o palpite, penso que os dados dos salários e vínculos laborais acabarão mais ou menos por confirmar os dados da taxa de desemprego. Dados mais desagregados confirmarão, por sua vez, que a desigualdade está a crescer não entre os jovens licenciados e os velhos não licenciados mas entre os próprios jovens licenciados.

Isto é apenas especulação, mas estou a reunir dados para testar a hipótese.

"Não consigo entender como é que realiza a análise em causa (quadro inicial) com dados relativo ao desemprego entre os 15 e os 24, quando a canção em causa, bem como o crescente desagrado com o status quo, tem por base i) o desemprego de recém licenciados, ii) os estágios não pagos ou com salários muitas vezes inferiores ao SMN e iii) os falsos recibos verdes." - Malaquias

Eu usei os melhores dados disponíveis. Pura e simplesmente não há dados, pelo menos que eu conheça, e com a abrangência e robustez dos do INE, para o segmento que deseja.






De Miguel Madeira a 1 de Março de 2011 às 00:40
Objecções:

a) comparar 1998 com 2010 é pouco relevante para uma comparação intergeracional (li em tempos que a diferença entre 2 gerações é de 15 anos, logo aí estaremos ainda dentro da mesma geração); e atendendo que a conversa é muito "esta geração está pior que a geração dos seus pais" o "esta geração é a primeira que vai viver pior que a dos seus pais", a comparação devia ser feita com os pais dos actuais jovens, para aí há 25 anos atrás. Para a população em geral 1985 foi um ano mau (nesse ano nos subúrbios de Portimão o escudo foi parcialmente substituído pela lata-de-conservas-de-sardinha como moeda) mas é possivel que tenha sido bom para os jovens licenciados

b) dizer que o desemprego entre os jovens subiu na mesma proporção que o desemprego entre os não-jovens é uma forma de ver a coisa; mas outra forma pode dizer que o emprego entre os jovens decresceu numa proporção superior do que entre os não-jovens (o emprego juvenil desceu de 90 para 79% - uma redução para 0,88 - e o geral de 95 para 89% - uma redução para 0,93)

c) neste post, faltou a comparação entre jovens licenciados desempregados e jovens não-licenciados desempregados (onde, eu contrário do que eu esperava quando fui à procura dela, dá uma taxa de desemprego mais elevada entre o licenciados jovens do que entre os não-licenciados jovens)


De Miguel Madeira a 1 de Março de 2011 às 09:55
Acho que há um ponto que também pode contribuir um bocado para o efeito Deolinda - suspeito que a diferença entre o vencimento de um licenciado em principio e em fim de carreira é muito grande (enquanto que a diferença será quase nula entre os não-licenciados, sobretudo no sector privado).

Ora, para a maior parte das pessoas, um "emprego de jeito" é um "emprego que me permita ter um estilo de vida igual ao que me habituei". Assim, temos:

- um não-licenciado filho de não-licenciados começa logo a ter um emprego aceitável, em que ganha mais ou menos o mesmo que os pais

- um licenciado filho de não-licenciados começa logo num bom emprego

- um não-licenciado filho de licenciados começa num mau emprego, mas aceita isso como uma inevitabilidade e como o resultado das suas falhas pessoais

- um licenciado filho de licenciados, tendo as mesmas habilitações que os pais, vai arranjar empregos "piores" (i.e., menos pagos) do que os pais.

Ora, há medida que uma sociedade vai evoluindo, a propoprção de licenciados-filhos-de-licenciados vai aumentando na população total (embora não necessariamente na população licenciada) ampliando o sentimento de "estamos a viver pior que a geração anterior"


De Zephyrus a 1 de Março de 2011 às 16:21
Há muitos empresários sem licenciatura (alguns apenas com o sexto ano «antigo» ou mesmo com a quarta classe) que ganham mais no final do mês que médicos especialistas ou gestores de topo. Conheço um empresário que há quarenta anos era pastor, tem a quarta classe e actualmente é dono de uma panificadora que exporta e tem 50 empregados.


De Miguel Madeira a 1 de Março de 2011 às 17:22
Bom ponto - no meu comentário estava-me a referir apenas a pessoas que vivem exclusivamente ou quase de rendimentos do trabalho.


De efe a 14 de Março de 2011 às 00:11
Miguel Madeira: Concordo com o seu ponto de vista mas acho que o problema não reside exactamente no facto do recém-licenciado começar a trabalhar ganhando muito menos do que a geração anterior de licenciados, em fim de carreira. Porque, isso, os jovens compreendem e aceitam. O problema é que, hoje, é apresentado a esses jovens um futuro estático em matéria de progressão salarial. Portanto, a permanência ad aeternum num salário miserável. Esse é que é o problema que a sua equação levanta. Sendo certo que existe o outro, basilar, o da falta de postos de trabalho, em contra-ciclo com o aumento da oferta de profissionais habilitados. E também é verdade que esta realidade incide mais nos licenciados nas áreas das ciências sociais e humanas do que nas áreas das tecnologias e das ciências exactas.


De شات بنات جنان a 4 de Dezembro de 2014 às 17:53
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De Bruno Faria Lopes a 1 de Março de 2011 às 18:02
Cara Priscila,

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Abraço,
Bruno


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