Quarta-feira, 2 de Março de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Temos o estranho hábito de, enquanto refastelados no sofá da sala, em frente ao televisor, esticar o dedinho, abanando-o, enquanto lamentamos a falta de vontade de trabalhar dos nossos compatriotas que, no geral (e também no particular) são essencialmente como nós. Falamos como se o trabalho, as horas de trabalho, a qualidade do trabalho e todas essas malandrices que aparecem nos manuais fossem fins em si. O sentido da vida para estes chefes de sofá é o trabalho, sendo o trabalho a medida de todas as coisas.

Obviamente, e o leitor percebeu logo pelo tom com que introduzi a questão, esta gente é avariada do miolo (que eloquência, a minha). Estes nossos grandes amigos esquecem-se que há factores, também eles económicos, apesar de às vezes lhes chamarmos «extra-económicos», a determinar toda esta bagunçada estatística.

Ao passo que no Japão a morte por excesso de trabalho é de tal forma comum que se inventou um termo específico para quando tal acontece e, acredite-se, foi criado o «dia da procriação», no qual os empregados têm de sair do emprego às sete da tarde para, enfim, copular; na Holanda, as mulheres trabalham geralmente 26 horas semanais porque culturalmente não confiam em serviços que cuidam dos seus filhos a troco de dinheiro. Será isto sinal de que os japoneses são uns tipos muito, mas muito activos e os holandeses um perfeitos molengões cheios de florzinhas? Não. Significa apenas que tomam decisões diferentes quando toca a decidir sobre o custo e o benefício de trabalhar mais uma hora. Os japoneses preferem racionalmente abdicar de tempo com as famílias para saírem antes dos chefes. As holandesas preferem virar costas ao emprego para irem cuidar dos filhos. Já os franceses, um povo superior, resignam-se simplesmente à evidência de que não serve de muito trabalhar sem gozar o rendimento gerado.

Tudo isto para dizer que essa lenga-lenga do português preguiçoso é conversa que não convence. A decisão sobre o número de horas a dar ao emprego deve ser tomada pelos próprios agentes. Se um português prefere sair às quatro da tarde e ir beber umas cervejas com a malta, dar uns miminhos à patroa ou ir ao jardim com os filhotes, é com ele. Estas decisões não têm bases morais, por isso não são certas nem erradas. São simplesmente frutos de preferências pessoais, que, como tal, têm mais é de ser respeitadas. Por isso, leitor, quando lhe disserem «vai trabalhar», diga, armado em criança, «vai tu» e mostre o dedo.


3 comentários:
De Luís Lavoura a 3 de Março de 2011 às 11:29
"A decisão sobre o número de horas a dar ao emprego deve ser tomada pelos próprios agentes."

Raramente é.

"os empregados têm de sair do emprego às sete da tarde para copular"

Digamos que vão copular porque lhes foi ordenado que o fossem fazer e não por sua própria decisão. A cópula não passa pois, neste caso, de uma forma diferente de trabalho. Em vez de se extenuarem a trabalhar vão-se extenuar a copular. Se é que são capazes de o fazer, dado que a cópula requer (pelo menos da parte do homem) mais do que a vontade consciente e não tenho a certeza de que muitos homens consigam realizar a cópula apenas porque lhes é ordenado que a levem a cabo, num determinado horário.


De Luís Lavoura a 3 de Março de 2011 às 11:31
"A decisão sobre o número de horas a dar ao emprego deve ser tomada pelos próprios agentes."

Em todo o caso, registo nesta frase um agradável (para mim) pendor anarquista, próprio, digamos, de um leitor de Noam Chomsky.


De شات كامات الصوتي a 7 de Novembro de 2013 às 11:18
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