Quinta-feira, 10 de Março de 2011
Priscila Rêgo

Sim, agora é mesmo para terminar. Os três posts anteriores, acerca de desemprego, precariedade e salários, geraram alguns comentários interessantes que não gostaria de deixar passar em claro. Além do mais, preciso de um pretexto para fazer uma compilação da série para quem não tiver paciência para andar a percorrer o arquivo do blogue.

 

Os números que apresentei nos posts anteriores foram retirados da base de dados do Instituto Nacional de Estatística. Houve quem criticasse a opção de apontar a lupa a um grupo tão restrito como o dos jovens entre os 15 e os 24 anos. Mas eu fi-lo pela simples razão de que esta é a classe mais apropriada tendo em conta os dados disponibilizados. A alternativa era juntar a este grupo o segmento dos 25/35 anos, o que já me causaria alguma urticária.

 

As categorias são imperfeitas tendo em conta o objecto de estudo? Seguramente. E eu também teria preferido analisar os dados dos jovens entre os 22 e os 28 anos, mas a informação não cai do ar. A alternativa a dados parciais e incompletos não são dados perfeitos e completos, mas o preconceito e ideias feitas. Entre os dois caminhos, escolho, humildemente, o primeiro.

 

Há, aliás, uma virtude na utilização do segmento mais jovem. Ao revelar a situação daqueles que, teoricamente, estão em pior situação, ajuda a balizar a discussão e a mostrar as condições da “camada mais baixa”. O argumento de que a situação dos jovens não é tão má quanto se pensa sai reforçado pelo facto de se usar uma concepção restritiva de jovem: em princípio, uma concepção mais lata melhoraria ainda mais os resultados ao nível de salários, emprego e vínculos laborais.

 

E sim, é verdade que debati com a letra de uma música. Mas porque me parece que a ideia de fundo da música transmite bem as frustrações, críticas e anseios dos jovens licenciados que não arranjam emprego e saltam de estágio não remunerado em estágio não remunerado. Em todo o caso, o argumentário de grande parte dos precários é bem mais vaporoso do que a letra da música. Desse ponto de vista, até revelei boa vontade ao escolher o adversário.

 

Entretanto, nos últimos dias a “Geração Deolinda” foi alvo de intensa cobertura mediática. Apenas por curiosidade, fiz alguma revista de imprensa rápida e despretenciosa. Quem são os desempregados a quem a imprensa deu atenção? Bom, o grupo que está a organizar a manifestação da próxima semana é composto por três estudantes de Relações Internacionais. Na invasão do comício do PS, a “Porta-voz” era licenciada em Comunicação Social. E a reportagem em  vídeo do Expresso fala com um grupo aparentemente encabeçado por um “actor” e uma “estudante de psicologia” (a versão escrita acrescenta o caso de uma formada em arqueologia).

 

Sim, a amostra é o que é e não me passa pela cabeça fazer doutrina a partir dela. Mas bate certo com a teoria de que a “Geração Deolinda”, dos estágios não remunerados, precariedade e desemprego prolongado, é um fenómeno bastante mais circunscrito do que se pensa, medrando sobretudo em torno de licenciaturas ligadas às ciências sociais, artes e humanidades. Precisamente grupos que têm um acesso desproporcional aos meios de comunicação.

 

O Miguel Madeira avançou com uma explicação adicional muito interessante para o explicar o mediatismo deste fenómeno, que gira em torno da evolução salarial ao longo da carreira – bastante pronunciada no caso dos licenciados, o que gera um efeito “de comparação” nefasto. A ideia tem eco (muito ténue, admito) nalguns dos números que apresentei, nomeadamente no valor dos salários reais dos jovens: apesar de todo o discurso em torno dos maus salários, os jovens ganham hoje mais, em termos reais, do que há dez anos. Claro que “ganhar bem” e “ganhar mal” é um conceito relativo. Mas o meu palpite é que a maioria dos manifestantes ainda não se apercebeu disso.

 

Finalmente, longe de mim defender que os jovens não têm razões de queixa. Eu penso que têm. Eles, os menos jovens, os adultos, os velhos e os idosos. Os motivos são bastante transversais ao longo de vários estratos etários, sociais e económicos. No caso dos jovens, a situação só me parece mais dramática por proporem soluções que tenderiam a agravar o problema para o qual estão a alertar. Às vezes, é preciso mais do que boa vontade e uns acordes de guitarra.

 


13 comentários:
De PROONTO TEMOS TODOS a 10 de Março de 2011 às 02:22
DIZ CURSO PRÉ RESIDENCIAL-BUT I HAVE A TALENT, A BEAUTIFUL THING -OBRIGADO PELA AMIZADE
I'm nothing special, in fact I'm a bit of a bore

-BUT I HAVE A TALENT, A BEAUTIFUL THING

'Cause everyone listens when I start to sing

I'm so grateful and proud

All I want is to sing it out loud

não me gravem os IPs

nem me ponham escutas


De Luís Lavoura a 10 de Março de 2011 às 10:55
Entretanto, o gestor da cadeia Pingo Doce queixa-se de que não consegue encontrar talhantes para os seus supermercados.

Na minha rua há um sapateiro que, segundo dizem, todos os dias ganha mais de 50 euros a reparar sapatos.

E a um canalizador ou eletricista, mesmo nos atuais tempos de crise da construção civil, nunca falta trabalho. Cobram dezoito euros à hora e só vão trabalhar para os clientes que quiserem.

E isto é assim em qualquer país avançado. Na Alemanha, quando lá vivi, as pessoas, incluindo doutorados, pintavam as suas próprias casas, porque o custo de um pintor profissional era exorbitante. E reparavam as suas próprias bicicletas, porque um mecânico profissional se recusava a fazer reparações que não fossem realmente complicadas (tinha trabalho a mais).

Para que andam as pessoas a tirar licenciaturas em sociologia, quando podem começar a trabalhar mais novos, não pagar impostos, e trabalhar tudo o que quiserem, como sapateiros ou canalizadores?


De A. Santos a 10 de Março de 2011 às 13:27
Até podia ficar só pela 4ª classe. Bastava saber ler e contar porque para pregar um prego e cobrar chega.

De uma constatação parte-se para conclusões filhas da phuta .

Eu andava a estudar engenharia e tinha uma loja de material eléctrico. Fazia trabalhos a pessoas que não sabiam passe o exagero, mudar uma lâmpada. Ganhava bem. Mas não se compara isto com ter uma formação de nível superior. Aliás se o meu amigo não fosse burro, percebia que um dos problemas principais é que o nosso modelo económico "ainda" é dos putos a cozer sapatos em casa. E que os nossos empresários (onde me incluo) é de baixa formação académica. Eu sei que o bronco do pingo doce tem a 3ª classe e é dos mais ricos do país. Mas digo-lhe uma certeza. Não foi só a trabalhar e para isso de facto é preciso mais do que um curso universitário. É preciso ter um grande estômago.
O que ligo é uma coisa. Os deolinda estão e durante muitos anos a ganhar muita massa à custa da geração que está habituada à papinha toda feita.


De jo a 11 de Março de 2011 às 20:14
Tem de me dizer onde é esse país onde um canalizador e um electricista aos biscates ganha furtunas. Porque não é o nosso. Por cada biscate que ganham estão n dias parados.
Os alemães devem ser muito estúpidos ou preguiçosos. O trabalho como pintor dá fortunas e eles não querem pintar.
Não há pachorra para idéias feitas!!!


De Cavaco empresário a 10 de Março de 2011 às 13:44
Eu sempre ouvi falar que nos EUA havia a facilidade de um empresário, chefe chegar ao pé de um qualquer trabalhador e dizer-lhe. Meu amigo passa pela tesouraria porque amanhã já não pegas ao serviço. E isto para mim era o significado de uma total precaridade. Não havia possibilidade do meu ponto de vista de planear, casar, ter filhos, comprar casa. Depois (em Portugal os neo-liberais pensam assim) como há este movimento então abrem-se mais vagas pelo que no saldo final desde que haja necessidade há emprego.
Só que segundo a experiência de uma professora que tive, portuguesa a viver nos EUA, quem despede uma pessoa sem haver razões fortes tem depois dificuldade em arranjar pessoas porque o passa palavra funciona muito bem.

Ora o que devia acontecer, num lei que faz parte do mercado, é que se a chamada geração à rasca (à rasca está quem tem => 45 anos e com fracas qualificações) tem problemas com a precaridade devia ela própria criar os mecanismos de que ninguém aceitava um trabalho que não respeitasse um mínimo aceitável.
Um pequeno exemplo. Na construção civil existe a fama de que se ganha mal. Errado. Há muita gente que ganha fortunas. Porquê? Porque se numa empresa não lhe pagam por fora, não aceita e vai para outra. A empresa que não aceita pagar por fora fica sem mão de obra e o que é que acontecesse a seguir? Ou pára a obra ou tem que fazer o que os outros fazem.

Antigamente estas lutas faziam-se nos sindicatos. Hoje como os sindicatos têm má fama....


De lina a 10 de Março de 2011 às 14:42
geração á rasca é verdade, mas deviam lutar para acabar com este estado de coisas, reivindicam, façam ouvira vossa voz, denunciem ... este país de corruptos precisa de um abanão...são os jovens que devem fazer ouvir a sua voz... não se calem dentro das normas de valores e educação


De Miguel Madeira a 10 de Março de 2011 às 13:57
O que eu acho interessante é não haver licenciados em gestão de recursos humanos na amostra; porque acho isso curioso - porque a minha experiência quase pessoal diz-me que gestão de recursos humanos é dos cursos em que há mais gente aos "caídos", normalmente a trabalhar em empregos "de 12º ano".

Possiveis explicações:

- A minha percepção é enviesada por viver numa cidade em que há uma universidade privada com o curso de gestão de recursos humanos

- Os tais cursos de artes/ciencias sociais/humanidades têm mesmo mais acesso à comunicação social e por isso notam-se mais

- os GRH são menos "esquisitos" na sua procura de emprego


De Anónimo a 10 de Março de 2011 às 15:12
Para a frente homens da luta


De INZA a 10 de Março de 2011 às 16:01
O que existe cada vez mais é a GERAÇÃO NEM-NEM: nem trabalham, nem estudam! Começando pelo fim: estudar no ensino superior o quê? Cursos com nomes bonitos e só...por outro lado, com os cortes nas bolsas de quem realmente precisa, optam por deixar o estudo!Vá lá que alguns trabalham! Mas outros há que nem isso: depois dos cursos tirados chegam ao mercado de trabalho e pimba!Não há empresas que os queiram, ou por que não têm vagas para a área ou porque não têm empresários com a sensibilidade para perceberem que é necessário ter alguém daquela área. Mas há outras razões, cujos culpados são os sucessivos governos desde Mário Soares até hoje: liquidaram o sector primário, fundos europeus aplicados sem supervisão, burocracia excessiva, etc, etc. Resumindo: muita incompetência de quem decide!


De AlMachArab a 10 de Março de 2011 às 22:21
Eu trabalho numa espécie de polo universitário com mais inclinação para a bilologia, bio-tecnologia e afins. Apareceu-me 1 rapariguita que queria " defender 1 tese ". Perguntei-lhe: ok, mas onde é que a mandaram dirigir?.. Resposta: não sei, venho defender 1 tese. Enviei-a para o edifício principal...


De Luís Lavoura a 11 de Março de 2011 às 12:16
A tese da Priscila - que a "geração à rasca" tem essencialmente a ver com um setor de jovens que tirou licenciaturas que agora têm pouca procura (relativa à oferta), mas que tem muita facilidade em fazer ouvir a sua voz - é corroborada pela forma como essa "geração à rasca" e a sua manifestação estão a encontrar um eco desproporcionado na comunicação social (que é um dos setores mais afetados por esse tipo de licenciaturas), como é hoje observado num perspicaz post no blogue "Câmara Corporativa".


De João Nuno Martins a 11 de Março de 2011 às 19:22
A minha opinião:

http://www.publico.pt/Sociedade/joao-nuno-martins-por-que-e-que-nao-vou-participar-no-protesto-da-geracao-a-rasca_1484259?all=1#Comentarios


De دردشة صوتية a 7 de Novembro de 2013 às 11:16
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