Domingo, 3 de Abril de 2011
Bruno Vieira Amaral

À clássica pergunta se o eleitor compraria um carro em 2ª mão a determinado político eu respondo sempre que sim, desde que esse político não tenha experiência como vendedor de carros usados. Nos últimos dias descobri que Portugal não é, afinal, o país dos cafés; é o país dos stands de automóveis usados, semi-novos, com garantia e facilidade no crédito. Os vendedores não têm o ar higiénico e confiante dos colegas do imobiliário. Vê-se que têm muitas horas de contentores sem ar condicionado, muito sol das três da tarde na pele e no espírito, que transpira algo de réptil, muito pó da beira da estrada que lhes chega em nuvens carregadas de partículas de desencanto, muita conversa, poucas vendas, o que, tudo junto, faz com que sejam menos assertivos, mais desconfiados, com uma pontinha de desprezo na voz de cada vez que falam com potenciais clientes. Eles sabem que alguns carros de retomas não valem um caralho: estofos rasgados, retrovisores partidos, riscos e amolgadelas, grandes manchas de ferrugem. No entanto, mantêm-se ali, estátuas pacientes, a espreitar do interior dos pré-fabricados a ver se o cliente se demora, se vale o sacrifício de se levantar e de explicar, uma vez mais, os extras, as facilidades, a biografia do anterior dono, as virtudes de um veículo familiar, os custos de um carro a diesel. Quando se dão ao trabalho, entusiasmam-se. Não querem ouvir falar em pagamento a pronto, porque isso significa, regra geral, um carro baratinho: “pode dar esse dinheiro de entrada e fica a pagar uma mensalidade de 70, 80 euros, e fica muito mais bem servido com este carrinho / este aqui não tem nada a ver, estamos a falar de um carro completamente diferente, não é que o outro seja mau, mas este é um carro completamente diferente, é um carro para mais 10, 15 anos.” É então que nos arrastam para o mundo paradisíaco do crédito, das taxas de esforço, dos 48, 72 meses. Quando lhes fazemos ver que o crédito não é uma hipótese, desanimam, amuam, mostram-nos o pior carro do stand para que vejamos o que nos espera se insistirmos na loucura de não pedir o filho-da-puta de um empréstimo: “para esses valores só temos este aqui” e o carro é tão miserável que eu penso seriamente em comprá-lo como antítese da opulência que grassa nas nossas estradas. Em vez de um carro que simbolize a potência e o luxo, hei-de comprar um carro frugal, franciscano e, nas manhãs de Inverno em que tiver de o empurrar para que ele pegue, juro que não irei pensar nas facilidades bancárias dos vendedores dos stands.


1 comentário:
De José António Abreu a 6 de Abril de 2011 às 21:51
Os stands também lucram com os créditos. Nas vendas a pronto só ganham a margem de lucro que estiver reflectida no preço do carro.


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