Segunda-feira, 11 de Abril de 2011
Priscila Rêgo

post anterior mostra o desemprego bruto. Não é de estranhar que Gestão, Direito e Economia tenham muitos desempregados: estes são também os cursos que produzem mais licenciados. Mas a qualidade de um curso mede-se pela probabilidade de ele garantir um emprego (taxa de emprego, que é um rácio), não pelo número de empregados que ele vai produzir.

 

A melhor forma de chegar a este indicador é cruzar o número de licenciados com o número de desempregados. O relatório do GPEARI faz isso, fornecendo um quadro com a) o número de diplomas passados nos últimos três anos por cada curso; b)  o número de inscritos nos centros de emprego formados nos mesmos cursos ao longo do mesmo período. E dá um bónus: explica se os inscritos estão à procura de primeiro emprego e e há quanto tempo estão inscritos.

 

Isto permite calcular uma taxa de desemprego tosca. É um número meramente indicativo, porque, em princípio, nem todos os desempregados estarão inscritos nos centros de emprego. E há que relativizar a sua importância, já que não fornece nenhuma informação acerca das condições dos licenciados que efectivamente estão empregados.

 

Este problema pode ser exacerbado por uma curva de Laffer de inscrição em centros de emprego algures aqui no meio: os licenciados em cursos com muito pouca saída podem sentir-se muito mais pressionados a aceitar empregos não diferenciados, já que têm menos perspectivas de encontrar emprego na respectiva área de estudos, o que distorce comparações entre licenciaturas. Ainda assim, é uma base de partida.

 

O primeiro gráfico de baixo mostra a taxa de desemprego de alguns cursos, incluindo a sua posição relativa na classificação geral. Coloquei os primeiros, os últimos, a média e alguns que, apesar de não se destacarem, são frequentemente apontados como pontos críticos de desemprego jovem (Direito e Arquitectura, por exemplo). O segundo gráfico apresenta a taxa de desemprego das várias áreas científicas.

 

 

 

Dois comentários a fazer. Em primeiro lugar, Direito e Arquitectura estão longe de ser o antro de desemprego que se ouve por aí. Estão pior do que a média, mas não estão sequer no pior tercil da tabela. A isto não deve ser alheio o facto de serem áreas dominadas por fortes corporações. Vou arriscar: dentro de alguns anos, o discurso que vemos agora ser aplicado a estas duas áreas passará a ser igualmente dirigido à Economia. Por enquanto, a Ordem ainda é recente (1998) e não deixou os tentáculos alastrar.

 

Em segundo lugar, há de facto uma diferença enorme nas taxas de desemprego das áreas das Ciências Duras e as mais “molinhas”. A linha “Total” (equivalente à média) divide o gráfico precisamente em duas metades: na de cima estão as Ciências Socias, Artes, Letras, Economia e Direito; na de baixo, Matemáticas, Engenharias e Saúde. É sete vezes mais provável um licenciado em comunicação (jornalismo, marketing, relações públicas e afins) estar desempregado do que um licenciado em informática.

 

É possível fazer uma brincadeira adicional. Utilizando os dados do GPEARI, calculei uma “taxa de desemprego agudo”. O primeiro valor é apenas a taxa de desemprego de longa duração aplicada aos jovens. Apenas retirei um ano ao denominador, já que não faria sentido levar em conta os licenciados que terminaram o curso há menos de um ano. O segundo valor é a percentagem de jovens que estão à procura do primeiro emprego – ou seja, que ainda não tiveram qualquer experiência laboral.

 

 

 

 

 

Eu evitaria interpretar estas números como taxas efectivas de desemprego, já que os valores apresentam incongruências substanciais relativamente aos dados do INE. Mas os diferenciais entre cursos, penso, podem ser utilizados de forma segura. Que é, ao fim e ao cabo, o mais interessante.


5 comentários:
De Tomas a 12 de Abril de 2011 às 00:17
Muito bom trabalho!

Isto devia ser de mostra obrigatória no 10 e 12 anos de escolaridade!

Muito bom mesmo...


De Miguel Madeira a 12 de Abril de 2011 às 13:46
"Estão pior do que a média, mas não estão sequer no pior tercil da tabela. A isto não deve ser alheio o facto de serem áreas dominadas por fortes corporações. "

O que é que não deve ser alheio - o desemprego ser alto, ou não ser tão alto como tudo isso?

Já agora, suspeito que o grande problema do Direito e da Arquitetura, não é o desemprego, é mesmo o emprego (isto é, o que mais irrita os formados nessas áreas não será tanto o rácio desempregados/empregados ser maior do que era tradicional; se calhar é mesmo o rácio empregados/independentes ser maior do que era habitual - por outras palavras, o problema aí não será muitos falsos recibos verdes, mas sobretudo poucos verdadeiros recibos verdes)


De PR a 12 de Abril de 2011 às 16:01
"O que é que não deve ser alheio - o desemprego ser alto, ou não ser tão alto como tudo isso?"

Expliquei-me mal. A "isto" - o facto de haver tanto alarido público em torno do desemprego de Direito e Arquitectura quando estas duas áreas estão longe de ser as mais penalizadas.

Não percebi muito bem o segundo parágrafo. Está a referir-se ao facto de haver pouco emprego independente?


De Miguel Madeira a 12 de Abril de 2011 às 16:43
A minha suspeita é que hoje em dia são muito menos (sobretudo entre os jovens recem-ingressados) os advogados e arquitectos com o seu próprio escritório e mais os a trabalhar em empresas do que há uns anos atrás (não tenho nenhum estudo que me diga isto - é apenas um palpite), e o mal-estar entre essas "corporações" até pode ser mais contra essa "proletarização" do que propriamente contra o desemprego.

Note-se que eles até podem protestar contra o desemprego e a precaridade, mas esses protestos são estimulados pelo descontetamento com a "proletarização".


De Jorge Afonseca a 23 de Abril de 2011 às 22:07
"(...)a qualidade de um curso mede-se pela probabilidade de ele garantir um emprego (taxa de emprego, que é um rácio), não pelo número de empregados que ele vai produzir."

De que forma esta afirmação pode ser verdadeira para todos os casos?

Partindo destes números não será justo admitir que há universidades/faculdades que devem de encerrar?


Comentar post

autores

Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

comentários recentes
Great post, Your article shows tells me you must h...
You’ve made some really good points there.I looked...
دردشة سعودي ون (http://www.saudione.org/) سعودي و...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
http://www.chat-palestine.com/ title="شات فلس...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
كلمات اغنية مين اثر عليك (http://firstlyrics.blogs...
o que me apetecia ter escrito. mas nao o faria mel...
good luck my bro you have Agraet website
resto 5resto ya 5waga
posts mais comentados
125 comentários
114 comentários
53 comentários
arquivo

Fevereiro 2013

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

links
subscrever feeds