Quinta-feira, 19 de Maio de 2011
Priscila Rêgo

Mas algum daqueles senhores que fala de soberania alimentar (e são muitos) já ouviu falar de vantagem comparativa?


19 comentários:
De Nuno Gaspar a 19 de Maio de 2011 às 07:05
Certamente. E por conhecerem exemplos de alta produtividade na produção de alimentos em território nacional ficarão incomodados por nele ver crescer as balsas enquanto se aguarda que nos tragam o comer do outro lado do mundo. Sem soberania alimentar tem vantagem comparativa é na deflagração de incêndios.


De Luís Lavoura a 19 de Maio de 2011 às 09:19
Pois, mas o problema é que os povos que têm vantagem comparativa na produção de alimentos também muitas vezes não querem saber dela.

Por exemplo, os argentinos que decidem "congelar" a exportação de carne de vaca. Ou os indianos que decidem impedir a exportação de trigo.

A Priscila pode, do alto da sua sabedoria, provar que esses argentinos e indianos são estúpidos ao não perceber a vantagem comparativa que detêm. Mas o facto é que, se eles decidirem atuar assim, a Priscila fica com o prato vazio, e então a sua inteligência toda de pouco lhe servirá.


De PR a 19 de Maio de 2011 às 11:42
O Luís ainda não percebeu a teoria da vantagem comparativa.

Se os países que têm vantagem comparativa na produção de alimentos deixarem de os exportar, podem acontecer duas coisas: a) Portugal fica com vantagem comparativa na produção de alimentos, e passará a produzir-los; b) Outro país qualquer dos 170 e tal que nos acompanham vai ficar com essa vantagem e substituir-se-á aos anteriores.

Em qualquer dos casos, não se justifica lutar contra as importações e defender, à revelia dos consumidores, que Portugal seja auto-suficiente.

A mensagem profunda da vantagem comparativa não é que os países devem procurar activamente a sua vantagem comparativa e esperar que os outros se ajustem a ela. É que eles não devem distorcer o mercado com subsídios, restrições à importação e mecanismos semelhantes, porque só dessa forma vão perceber onde está a sua vantagem comparativa.

se devem ajustar uns aos outros. É que, independentemente do que os outros façam, para cada país é vantajoso não distorcer os mecanismos de mercado com subsídios ou restrições, porque só dessa for


De Luís Lavoura a 19 de Maio de 2011 às 11:58
É um facto que eu ainda não percebi a teoria da vantagem comparativa.

A mim parece-me que essa teoria pretende demonstrar uma coisa - aquilo que a Priscila designa por a sua "mensagem profunda" - e que todos os truques são válidos para chegar a essa conclusão.

Repare: se a Argentina e a Índia decidirem parar de exportar alimentos, é claro que o Brasil e a Ucrânia ficarão com vantagem comparativa na produção alimentar. Infelizmente, porém, também o Brasil e a Ucrânia podem decidir deixar de exportar. Mesmo que não decidam, o Brasil e a Ucrânia podem não produzir o suficiente para compensarem a perda das exportações argentinas e indianas.

A economia clássica é uma teoria muito bonita, mas que assenta em certos pressupostos. Um deles, é que só se aplica quando no mercado há um número tendencialmente infinito de produtores e de consumidores, de tal forma que, mesmo que N produtores decidam deixar de produrir, haverá sempre muitos outros para os substituir. Outro pressuposto é que não há limites físicos à produção - tanto se pode produzir trigo na Argentina como em Portugal, os solos têm igual qualidade, e pode-se sempre produzir trigo suficiente para o consumo de todos.


De PR a 19 de Maio de 2011 às 12:10
"É um facto que eu ainda não percebi a teoria da vantagem comparativa"

Pois... Mas é um facto que também ainda não desistiu de tentar mostrar que está errada. Se calhar anda a queimar etapas :)

Outro pressuposto é que não há limites físicos à produção - tanto se pode produzir trigo na Argentina como em Portugal, os solos têm igual qualidade, e pode-se sempre produzir trigo suficiente para o consumo de todos

A TVC baseia-se precisamente no pressuposto inverso: de que há diferentes dotações de terra, trabalho e capital. Se fosse tudo igual, não havia vantagem comparativa.

"Repare: se a Argentina e a Índia decidirem parar de exportar alimentos, é claro que o Brasil e a Ucrânia ficarão com vantagem comparativa na produção alimentar. Infelizmente, porém, também o Brasil e a Ucrânia podem decidir deixar de exportar"

Espero que não aplique esse princípio de precaução a todas as actividades. Ou ainda o vamos ver a esfregar dois pauzinhos para fazer calor, com medo do que possa acontecer caso deixe de haver quem produza luz, electricidade, aquecimento central e isqueiros.


De Luís Lavoura a 19 de Maio de 2011 às 12:22
Não se pode aplicar o meu princípio da precaução a todas as atividades, como muito bem a Priscila enfatizou mediante um exemplo extremo. Mas pode-se, sem inconveniente de maior, tentar aplicá-lo por vezes e em certa extensão. Por exemplo, eu em minha casa tenho um esquentador a servir uma casa de banho, um cilindro elétrico a servir a outra.

Precisamente por haver diferentes dotações de terra é que a teoria da vantagem comparativa é enganadora. Se, por exemplo, a Arábia Saudita decidir que o seu petróleo deve ser primariamente para o seu povo (o que é parcialmente verdade - o petróleo é vendido na Arábia a preços brutalmente subsidiados, de tal forma que é por lá gasto de formas completamente absurdas), isso é uma catástrofe para todos os outros povos, porque a vantagem comparativa da Arábia Saudita na produção de petróleo é virtualmente insubstituível.

Temos também que ter em conta que há certos setores - como a produção alimentar - em que a vantagem comparativa não se joga "a feijões", mas é sim uma questão de vida ou de morte. Ou a gente tem pão para comer, ou morre.


De P a 19 de Maio de 2011 às 13:13
É um mau princípio querer gerir a actividade económica de 10 milhões de pessoas com base nos insights que retira da sua economia doméstica. Mas noto, já agora, que se limitou a ter duas fontes de energia em vez de plantar as suas próprias batatas.

Quanto à vantagem comparativa, é chover no molhado. O Luís já admitiu que não a percebe mas, ainda assim, não tem pruridos em vergastá-la. Apontar os disparates um a um pode ser menos produtivo do que remetê-lo para este link: http://en.wikipedia.org/wiki/Comparative_advantage




De Nuno Gaspar a 19 de Maio de 2011 às 13:23
"É que eles não devem distorcer o mercado com subsídios, restrições à importação e mecanismos semelhantes"

Nem o contrário - Anestesiar os produtores de um país com subsídios, quotas de produção e burocracia para que outros, administrativamente, obtenham vantagem.


De Nuno Gaspar a 19 de Maio de 2011 às 22:37
"É que eles não devem distorcer o mercado com subsídios, restrições à importação e mecanismos semelhantes"

E também pode ir dizer isso aos maiores produtores mundiais, EUA, norte da Europa e mesmo o Brasil (é retirar o apoio do BNDES, Banco Público, e ver o que acontece às empresas exportadoras).
O Ricardo deve estar a dar voltas no túmulo com a ingenuidade de certos economistas.


De PR a 19 de Maio de 2011 às 23:53
Todos cometemos erros. Os EUA não são excepção.


De Miguel Madeira a 20 de Maio de 2011 às 01:34
Para a teoria da vantagem comparativa ser totalmente correcta, é necessário que se verifique pelo menos uma destas coisas:

- que os preços relativos no mercado internacional sejam mais ou menos fixos

- que a "fronteira de possibilidade de produção" não seja afectada pelo ponto dela onde escolhemos nos situar (imagine-se uma situação em que o facto de um pais, no momento t, produzir mais trigo e menos vinho, leve a que no momento t+1 a sua capacidade de produzir vinho diminua e a de prosuzir trigo aumente - nesse caso a ponto da FPP em que o país se coloca vai, gradualmente, "deformando" a FPP)

Se nenhum desses pressupostos se verificar, o abandono da agricultura pode levar a uma situação em que um aumento internacional dos preços agriculas leve, não a que "Portugal fica com vantagem comparativa na produção de alimentos, e passará a produzir-los" (porque a produtividade agricula pode ter ido descendo com o tempo ) mas sim a um aumento brutal de preços no consumidor.

No fundo, a TVC está muito ligada à ideia que, caso os preços se alterem, podemos simplesmente mudar para outro ponto na FPP mais adequado aos novos preços, esquecendo a hipótese de um dado padrão de especialização poder não ser alterável a curto/médio-prazo.


Há dias encontrei um post interessante (num blog que suponho andar perto da extrema-direita) sobre esse assunto (embora a uma escala mais micro-social):

http://akinokure.blogspot.com/2010/10/how-economic-specialization-led-to.html


De PR a 20 de Maio de 2011 às 02:11
Duas notas:

a) mesmo que o país tivesse apostado na agricultura, não vejo por que conseguiria evitar a subida de preço dos bens agrícolas. A não ser que estivesse isolado dos mercados internacionais, os produtores nacionais deveriam subir de forma idêntica os respectivos preços. Quanto muito, poder-se-ia dizer que o país estaria em melhor situação para cavalgar a subida dos preços.

b) o "impacto económico" de um choque de oferta agrícola será, em princípio, tanto maior quanto menor for a sua capacidade para desviar recursos da produção actual para a produção agrícola. mas isto também significa que uma política isolacionista será muito custosa [em termos de custo de oportunidade, claro].

Ou seja, apesar de a TVA ter alguns problemas, penso que os argumentos contra ela têm, em termos práticos, muito pouca relevância.


De Nuno Gaspar a 20 de Maio de 2011 às 03:04
a) É simples. Se o país tivesse apostado na agricultura, a subida de preços dos bens agrícolas contribuiria fortemente para o crescimento do PIB. Na situação de dependência em que nos encontramos, essa subida de preços contribui para a sua contracção.

b) ninguém está a defender políticas isolacionistas, nem tampouco a reclamar mais recursos. Não atrapalhar com políticas erráticas como aquelas a que o sector assistiu nos últimos 30 anos já seria bom. E não fazer menos do que aqueles países que mandam às malvas teorias económicas com 300 anos para defender os seus interesses e, a mal ou a bem, apresentam excedentes comerciais e aumento da riqueza dos seus cidadãos.


De PR a 20 de Maio de 2011 às 17:21
"É simples. Se o país tivesse apostado na agricultura, a subida de preços dos bens agrícolas contribuiria fortemente para o crescimento do PIB"

E se os preços tivessem descido, contribuiria fortemente para a contracção do PIB, ora essa. É a lógica da batata.

"E não fazer menos do que aqueles países que mandam às malvas teorias económicas com 300 anos para defender os seus interesses"

O Nuno diz que colocar subsídios e protecções é uma forma defender os interesses de um país, quando é precisamente isso que está em discussão.

Mas, se não se deixa persuadir por argumentos, pode ir perguntar aos tais países que geram excedentes. No Japão, por exemplo, a protecção ao açúcar é vista mais como um cancro a extirpar do que uma protecção da economia local. Protecção, protecção, só mesmo de quem o produz.


De Nuno Gaspar a 20 de Maio de 2011 às 18:44
"E se os preços tivessem descido, contribuiria fortemente para a contracção do PIB, ora essa"

Não. O contributo da produção nacional pode ser maior ou menor mas é sempre positivo. A parcela importações pode ser maior ou menor mas é sempre negativa.

"O Nuno diz que colocar subsídios e protecções é uma forma defender os interesses de um país,"

Não digo isso. Digo que não o fazer quando os outros fazem e ficar a pensar que os outros são mais competitivos devido a vantagens comparativas naturais é ingénuo. E conduziu à situação em que estamos.

Mas, já agora, diga lá. Quais seriam as nossas vantagens comparativas? Cantar o fado no Bairro Alto para o turista chinês?


De PR a 20 de Maio de 2011 às 20:41
"Não. O contributo da produção nacional pode ser maior ou menor mas é sempre positivo".

É como dizer que o PIB não cai se vendermos menos, porque o seu contributo é sempre positivo. Se o preço dos bens agrícolas cair, pode crer que essa parte da produção vai cair.

Digo que não o fazer quando os outros fazem e ficar a pensar que os outros são mais competitivos devido a vantagens comparativas naturais é ingénuo

E é uma ingenuidade que mantenho com prazer enquanto o Nuno se limitar a repetir preconceitos sem avançar argumentos relevantes.

"Mas, já agora, diga lá. Quais seriam as nossas vantagens comparativas? Cantar o fado no Bairro Alto para o turista chinês?"

A sua ironia é um pouco infeliz. Sabe quanto é que o turismo pesa no PIB grego?

Mas isto lembra-me uma estória engraçada. Quando a Índia entrou em processo de liberalização, no início da década de 90, perguntaram a Jeffrey Sachs o que é a que a Índia ia produzir para os americanos. A resposta foi: "Não sei, isso será o mercado e a vantagem comparativa a dizer". Da plateia veio uma gargalhada de escárnio acompanhada pela ironia: "Pois. Vamos exportar software, quer ver?!".


De Nuno Gaspar a 20 de Maio de 2011 às 20:59
A sua história é, de facto engraçada. Acho que vai mais ao encontro de quem acha que as vantagens comparativas se constroem do que daqueles que as julgam a sair duma rifa.


De Miguel Madeira a 20 de Maio de 2011 às 11:47
"mesmo que o país tivesse apostado na agricultura, não vejo por que conseguiria evitar a subida de preço dos bens agrícolas. A não ser que estivesse isolado dos mercados internacionais, os produtores nacionais deveriam subir de forma idêntica os respectivos preços."

Pois, mas aí uns portugueses ganhavam e outros perdiam, enquanto da outra maneira perderiam quase todos.


De TMR a 19 de Maio de 2011 às 09:52
Como te adoro, Priscila.


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