Sexta-feira, 30 de Abril de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Sem grande vontade de comentar o habitual, dei por mim a hesitar entre o comentário artístico-musical-cultural sobre Lady Gaga e o comentário artístico-musical-cultural sobre Justin Bieber. Porque não sou pessoa de pensar muito, decidi comentar artístico-musical-culturalmente ambos. Para deixar tudo desde já esclarecido, declaro ao leitor que de todas as coisas de que não percebo no mundo, a música é a que percebo menos. Sei que existem cantores, alguns vivos, e sei que oiço músicas, algumas mortas. Mais do que isso, não me perguntem. De qualquer modo, e porque isto é um blogue pouco sério, reservo-me o direito de comentar a Lady e o Delfim.

A primeira, uma vacalhona, perdoe-se-me o julgamento sumário, consegue concentrar, em cerca de quinze decímetros cúbicos, tudo aquilo que o comum mortal despreza: é feia como o raio, magra que dá cuidados e mexe-se de uma maneira que dificilmente rivaliza com os idosos do Lar Anos Dourados. A voz não comento, porque de gadgets não sei nada.

O segundo, uma criança que ainda nem deve ter entrado na puberdade mas que já foi alvo de lutas entre a elite musical do mundo que é o nosso – isto é como quem diz: entre o Usher e o Timberlake – parece que se esfrangalha todo – apesar dos gadgets – cada vez que diz baby – e ele diz baby muitas vezes.

Pessoalmente, e até porque padeço de condições mentais sobre as quais me escuso a escrever aqui, considero que poderíamos ter um bonito featuring entre os dois. O pequeno Bieber gosta muito de get alongar com moçoilas mais idosas – isto é, com treze anos – nos seus videoclipes e a Senhora de Gaga aprecia muito todo o género de javardice, por isso, não entendo como é que ainda não houve um poderoso videoclipe com muitos movimentos tcha-nan, um ou outro massacre fingido e t-shirts rosa choque. Factos inexplicáveis, estes.


Tiago Moreira Ramalho

O Maradona tem o blogue mais feio do mundo neste momento. Mas é que é mesmo o mais feio do mundo. Mais valia que parasse de escrever. A sorte é que leio tudo num daqueles coisos com nome estrangeiro – readers.


Bruno Vieira Amaral

Aquela ideia de vender ilhas à Alemanha era francamente idiota. Quando querem territórios estrangeiros, os alemães não têm o hábito de os comprar.


Tiago Moreira Ramalho

Hoje, e à semelhança de uns ministros analfabetos, todos falam em «ataque dos mercados». Nós, portugueses, temos de resistir ao «ataque dos mercados». Até a comunicação social fala em «ataque dos mercados». Meus caros, não há «ataque» nenhum. A culpa é toda nossa, enquanto colectivo. E enquanto não assumirmos isso muito claramente, e continuarmos a atirar as culpas para os «mercados» que «conspiram» contra nós, bem que podem os líderes dos principais partidos fazer «encontros», que isto não melhora. Aliás, se  isto mudar, se nada se fizer, só mudará para pior.


Quinta-feira, 29 de Abril de 2010
Rui Passos Rocha


Bruno Vieira Amaral

"Médicos multados em milhares de euros por escreverem a Sócrates em papel do hospital."

 

 


Bruno Vieira Amaral

António Tadeia citando Tomislav Ivic: "Aquilo foi um massacre de futebol defensivo."


Terça-feira, 27 de Abril de 2010
Bruno Vieira Amaral

Depois, fazem as perguntas - parece-me - com uma sanha persecutória que transparece e que fica mal à cordialidade e à isenção que um deputado deve ter nas suas intervenções públicas.

 

Assisti, durante alguns minutos, ao espectáculo televisivo da comissão parlamentar de inquérito. Foi vergonhoso. Mota Amaral ainda tentou moderar os deputados do Bloco e do PCP, mas sem açaimes ou tranquilizantes a tarefa era quase impossível. Aquilo não serve rigorosamente para nada. Ficamos a conhecer mais alguns cromos e vemos o indisfarçável prazer que sentem a enxovalhar os inquiridos. E é tudo. Estes deputados deveriam ter vergonha por nos obrigarem a aplaudir o silêncio de uma figura como Rui Pedro Soares e a lamentar que eles próprios não lhe sigam o exemplo.


Tiago Moreira Ramalho

É, ou pelo menos deveria ser, chocante ver que, frente ao abismo que é termos 25% de probabilidade de falência enquanto Estado, as governantas da pátria continuam, em vez de dizer abertamente aos portugueses o que é preciso sem meias-palavras, a fazer os seus joguinhos. José Sócrates, que mete uma moedinha todos os dias ao seu santinho das crises internacionais que lhe valeu uma saída à inglesa das embrulhadas em que anda metido, nem aparece. Teixeira dos Santos, pensando-se político, tenta envolver os outros partidos em algo que é estruturalmente um problema dele e das suas decisões.

O caso é de simples compreensão: ou bem que as excelências que marcam os assentos de S. Bento com os doutos rabiosques tratam de assumir de uma vez por todas que estamos mesmo muito mal, ou corremos o sério risco de entrar em equilíbrio das Contas Públicas à força. E aí, bem que podem os camionistas, os maquinistas e os vendedores de bicicletas fazer as greves que quiserem que não haverá nada para ninguém.


Domingo, 25 de Abril de 2010
Rui Passos Rocha

 


 



Sexta-feira, 23 de Abril de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Só faz sentido um dia mundial para o livro se se criarem celebrações análogas, como o dia do talher, o dia da cama, o dia do copo e o dia do prato. Objectos que nos permitem satisfazer necessidades básicas têm de ser todos tratados de modo igual.


Tiago Moreira Ramalho

 

«É muito bonito - disse ela, quando acabou. - Mas é um bocado difícil de perceber. (Estão a ver, é que ela não queria confessar, nem sequer a si própria, que não conseguia perceber patavina.) - Parece que me enche a cabeça de ideias... só que não sei bem quais são! Porém, com certeza que houve pelo menos alguém que matou alguma coisa...»

 

Lewis Carroll, Alice do Outro Lado do Espelho


Rui Passos Rocha

Como se já não lhes bastasse terem de partilhar as mesquitas com o Abel Xavier, os coitados dos muçulmanos tiveram agora de ver um episódio do South Park em que Maomé se transmuta em urso. E depois, só porque um filho de Alá disse que esses filhos da puta americanos que fizeram o episódio deviam ser assassinados a imprensa ocidental, essa pêga, concluiu que o tipo incitou ao seu assassínio. A injúria, minha gente, a injúria: como se seu grandessíssimo cabrão, havias de ser brutalizado como naquele conto do Rubem Fonseca em que espancam o violador da miúda e lhe fritam os tomates ali mesmo, ao relento, fosse sinónimo de quero que sejas morto, ó palhaço. Longe vão os tempos em que a religião era amor.


Quinta-feira, 22 de Abril de 2010
Rui Passos Rocha

Tiago Danton, arruma lá o cadafalso e vai mas é montar o cavalo (eu sei que preferias que fosse o cavalo a montar o professor de Direito, mas faz-lhe lá esse jeito). Onde vês ridicularização do casamento gay eu vejo mera provocação, onde vês humilhação dos alunos homossexuais eu vejo apenas estupidez. Do professor: que eu saiba os animais ainda não têm personalidade jurídica, por isso pelo menos metade daqueles 12 pontos pode ser ganha com uma frase. Se é para despedir, que seja por esse motivo.


Tiago Moreira Ramalho

Então existe no nosso país um professor, com maiúscula, que se julga engraçado o bastante para colocar num teste de Direito Constitucional II – II! – uma pergunta que ridiculariza o casamento gay, associando-o ao casamento entre animais com o consentimento do dono e ao casamento entre homens e animais vertebrados – sempre senti uma atracção especial por lesmas, mas o professor, com maiúscula, nem um pontinho no artigo fictício lhes dedicou.

Parece-me que aquilo que o dito professor, com maiúscula, poderia receber em troca, pela forma como ridicularizou a questão e, talvez, humilhou alguns alunos, era um tratamento especial de «what goes around comes around». Colocaríamos um conjunto de indivíduos homossexuais com estofo, um conjunto de cães – ou excitados ou raivosos – e, quem sabe, um cavalinho e faríamos um filme. Um filme indiano. No fim, só porque estas coisas convêm à saúde das instituições, convidávamo-lo a renunciar à regência da cadeira. Por causa da moral, digamos assim.

 

P.S.: A Douta Ignorância está disponível, tal como o concorrente Jugular, para receber emails de meninas de faculdades de direito. Têm de tirar más notas - podem adiantar o CV - porque as espertas, e baseio-me numa amostra considerável - costumam ser mais feias, e amigas já nós temos muitas. De qualquer modo, se as espertas quiserem tentar, connosco tudo bem. Somos bons a denunciar casos «que, tipo, são horríveis, 'tás a ver» e também somos bastante cavalheiros. Com jeitinho, até as convidamos para um banquete de salgadinhos.


Tiago Moreira Ramalho

O cavalheirismo de Jaime Gama é claramente de origem lusitana. Pretendendo que a sra. Inês de Medeiros tenha as viagens pagas para Paris – para Paris! –, apesar de ela não ter direito a elas, trata de pegar no dinheiro dos outros – no nosso, digamos assim – e paga. Uma espécie de Don Juan com um cheirinho a Robin dos Bosques. Pretende que a senhora possa ter uma cómoda viagem e não se faz esquisito, reservando-se o direito ao puro capricho, concedendo a prebenda, mas deixando desde já claro que isto não é assim sempre, ou melhor, não é assim para toda a gente.

Eu, por mim, que desisto do assunto, porque mais vale, desejo que o rabinho da sra. Inês de Medeiros vá muito bem acondicionado no aviãozinho que o povo português lhe vai pagar semanalmente só para se dar ao luxo – país de luxos – de a ter como representante na câmara alta, que é também baixa, por única. Desejo, também, que a sra. Inês de Medeiros dê jantaradas do grupo parlamentar que é o seu lá na sua maison parisienne e que, num novo exercício de demonstração pública de nervo puro, peça um financiamentozinho. Afinal, e como diz Jaime Gama, estas coisas, numa escala de um a cem, não interessam nada.


Rui Passos Rocha

«The young woman thinks if she can get the right curtains she can keep death and all attended problems at bay. But the young man knows that the only way to keep death at bay is to have sex pretty much constantly. Now, because nature's so clever, it makes the couple compromise by giving them children, so they never need to have sex again and then the children pull the curtains down - so there was nothing to worry about in the first place»

 

Dylan Moran (via Rulote)


Bruno Vieira Amaral

É só amanhã mas a minha contribuição já está aqui.


Terça-feira, 20 de Abril de 2010
Bruno Vieira Amaral

Todos sabemos que a ideia de um Deus misericordioso faz mais sentido quando temos as férias estragadas, mas o vulcão islandês não deixa de ser uma semi-tragédia. É verdade que temos o poder da Natureza, que inspira aos bloggers o mesmo terror que assaltava o homem das cavernas sempre que um raio rasgava o céu; é verdade que muita gente, à falta de uma crença sólida na divindade, redescobriu o misticismo que perdera para os ginásios, o facebook e os livros de Paulo Coelho (a ocorrência de uma epifania é mais provável quando estamos às portas da morte ou quando o nosso voo é cancelado); é verdade que o vulcão, tal como o terramoto no Haiti ou Bernard Madoff, é uma óptima desculpa para que se arrase o estilo de vida ocidental; é verdade que os prejuízos da aviação civil são enormes; é verdade que o Barcelona teve de ir para Milão de autocarro; é verdade que tivemos os inevitáveis directos dos aeroportos; é verdade que não faltaram reportagens com música melancólica que nos perguntavam: “É assim que a civilização ocidental vai acabar? À espera que a menina da TAP diga qualquer coisa?” É verdade que tivemos tudo isto, mas faltaram as vítimas. Quer dizer, quando o que mais se assemelha a uma vítima é um inglês gordo com ar de quem acabou de fazer turismo sexual na Tailândia, sabemos que o vulcão islandês é uma semi-tragédia. Um pirralho inglês, entrevistado pela RTP, confessou o seu incomensurável aborrecimento por ser obrigado a regressar de comboio à pátria e à X-Box . De todos os efeitos do vulcão islandês nenhum é mais revelador do que o tédio ferroviário daquela criança. O nosso tempo abomina a lentidão.


Tiago Moreira Ramalho

 

Pergunto-me se ser livreiro poderá contar como sonho profissional. Se não contar, o meu eu está condenado a uma vida de incompletude.


Bruno Vieira Amaral

A Islândia é a nação mais altruísta do mundo: partilha todas as desgraças que lhe acontecem.


Domingo, 18 de Abril de 2010
Tiago Moreira Ramalho

A tese é recorrente – aborrecidamente recorrente – e resume-se facilmente: alguém que, ouse defender que o Estado não deve privilegiar nenhum credo é, por meio de um silogismo de meandros tortuosos, na realidade, um tirano que quer a pátria feita um deserto incréu.

Agora é o Jorge Costa, muito suportado pelo João Gonçalves, quem denuncia a tramóia. Concidadãos – quase diz – alertai-vos para as pretensões desses danados que se insurgem contra a tolerância de ponto – um tema que já aborrece – pois são um bando de enviados do belzebu com o único intento de nos roubarem a fé, com maiúscula. Pois, Jorge Costa, não é bem assim. Que o Jorge Costa ache tolinhos os textos e as posições de pessoas como Hitchens, Dawkins ou Silva, Palmira F. Silva, quando tentam evangelizar ao contrário, tudo bem. Até podemos rir um bocadinho à conta disso, que eu também acho o folclore muito ridículo. Muito diferente é o Jorge Costa assumir que todos aqueles que defendem o princípio do Estado Laico são cópias ampliadas ou reduzidas da tríade infernal supra-citada. Aliás, atrevo-me, esse processozinho de intenções tão típico em alguns temas – como o da religião – padece, precisamente, daquilo que o Jorge Costa quer «denunciar»: é tirânico. Esse estalinismozinho de colocar a questão nos primários «quem não está comigo está contra mim» é do mais tirânico – e, infelizmente, do mais corriqueiro – que pode haver numa discussão. E, por abuso dos filiados, é um dos principais motivos pelos quais a direita conservadora portuguesa é o que é: nada. Julgando todos idiotas, continua a abusar das mesmas falácias, dos mesmos dedos em riste, dos mesmos julgamentos sumários de todos – e a palavra «todos» é importante, pois a generalização não tem excepção – os que não partilham da mesma «luz».

Resumidamente, Jorge Costa, é-me (a mim e, muito provavelmente, a uma boa parte daqueles que não consideram normal a tolerância de ponto concedida) completamente indiferente aquilo em que o Jorge, o João e todos os outros acreditam. Pouco me importa se são católicos, calvinistas, luteranos, satânicos, hindus, confucionistas ou o que mais houver. O que me importa, sim, é que à conta das vossas crenças – legítimas e com as quais, reforço, não tenho nada a ver – pretendam subverter as regras institucionais porque, enfim, dá jeito.


Bruno Vieira Amaral

 

The Searchers é John Wayne. No início, é o homem que regressa. No meio, é o homem que durante cinco anos procura a sobrinha raptada pelos comanches. No fim, é o homem que parte. A casa não é o lugar dele, é um abrigo temporário, um farol que lhe serve de referência. Ele é o homem que nos vira as costas nesse final assombroso. Fora de casa e longe da família, John Wayne é o símbolo heráldico do western: a solidão do indivíduo recortada contra o mundo.


Tiago Moreira Ramalho

Enquanto as beirinhas bicudas da minha cavidade bucal se aproximavam das orelhas – um sorriso – e o meu pescoço exercitava toda a sua musculatura num exercício de assentimento daqueles que experimentamos poucas vezes aos fins-de-semana, dei por mim a pensar que penso exactamente o que pensa o Vasco Barreto – um tipo que, note-se, pensa muito bem, como eu.

As figurinhas ridículas da nossa comunicação social enquanto perseguem o Presidente da República na sua viagem de regresso a Portugal deveriam constar nos manuais do que não se deve fazer quando se quer fazer jornalismo. O telespectador fica petrificado em frente à televisão perante o disparate de informar qual é o pack alimentício, quais são as leituras, quantas horas demoram, as piadas, as crianças, as paragens, enfim, todos os pequenos detalhes completamente desprezáveis na viagem da Presidencial comitiva. Como, segundo dizem, ainda falta uma pipa de horas para a chegada, pergunto-me se, ainda antes de chegarem a Badajoz, saberemos da frequência com que a Presidencial figura – e, quem sabe, da Presidencial esposa – se permite aliviar o corpo de uma ou outra crise de flatulência súbita. Um trabalho de fundo informar-nos-á de qual a marca de cigarros utilizada – à Carolina Salgueiro, ou lá o que é – para disfarçar as possíveis partículas de odor que eventualmente ocupem o veículo.

Meus senhores, se não têm notícias, usem o que gastam nessas «emissões» especialmente invasivas e desnecessárias em, por exemplo, investigação, reportagem, pesquisa. É disso que precisamos, e não de uma revista Maria feita no estrangeiro e com personagens reais.


Tiago Moreira Ramalho

Não me vou alongar. Vou apenas notar a mediocridade a que se resume a entrevista de António Barreto dada ao «i». Não pelo entrevistado, provavelmente a pessoa mais entrevistável e mais interessante que ainda temos no nosso país, mas pelo trabalho jornalístico. Perguntas más, mau tratamento do texto. Enfim, uma porcaria. António Barreto não merecia dar uma entrevista que não conseguisse ser lida até ao fim.


Rui Passos Rocha

Constou-me que o blogue de onde recebemos mais visitas é o Portugal dos Pequeninos (talvez sirvamos para descerrar os dentes de uns quantos alunos da aula diária de educação moral), o segundo melhor nome que pensámos dar a este poiso - logo depois de O Valor das Ideias, mas pensámos que o senhor bipolar, de sua graça Carlos Santos, já havia feito demasiado mal às acções do Millennium BCP em 2009. Ficámo-nos por A Douta Ignorância, a quarta opção, logo abaixo de Arrastão, por temermos ser ameaçados por gangues da Amadora, neo-nazis, a Diana Andringa e o Daniel Oliveira (por ordem crescente). Assim como assim, o Nicolau de Cusa já cá não está para nos dar um chuto. Quem está, e vai exercitando os tornozelos diariamente no blogue, é João Gonçalves - uma das poucas pessoas em quem encontro o paradoxo de ler umas coisas com qualidade e, nas pausas, defender Santana Lopes enquanto ouve Verdi. Escreveu o autor da Bertrand que «no dia em que a "igreja tal como a conhecemos" acabasse, era o homem, tal como o conhecemos, quem tinha acabado». Tem razão: nada seria como dantes. Vejamos a Holanda, o país com mais homens calvos por quilómetro quadrado, certamente por influência da Reforma. Para além de que andam todos de bicicleta, esses mariconços amorais e ganzados, e de que até o seu protofascista (todos os países que se prezem têm um) Geert Wilders tem ar de quem conseguiria o voto do Carlos Castro. Não esqueçamos também que o fim da Igreja seria trágico do ponto de vista político: para além dos clubismos no futebol, por estes lados ocidentais não há mais para onde olhar quando se procura partidarismo fora da política. Sem a Igreja, camuflar erros (belo termo para falar de pedofilia) internos passaria a ser apenas coisa de políticos, gente vil por natureza; mas com uma Igreja o erro também pode vir com batina e inspiração divina. Excepto quando esse "erro" se consuma, claro, porque aí a batina deve estorvar um bocadinho.


Sábado, 17 de Abril de 2010
Tiago Moreira Ramalho

 

O leitor atento certamente já identificou em mim, por ser óbvio, uma tremenda falta de gosto futebolístico. Não nego. Não aprecio o desporto, não aprecio os adeptos, não aprecio os praticantes. Leitor, nada no futebol me agrada. No entanto, admito que a outros – uns dois ou três palhaços, sem dúvida – agrade. E muito. Tanto que, quando um golinho é marcado, trocam linguadões à filme, para festejar. Isto foi o Gary Neville (uma pessoa que existe e que tem um irmão, António Neville, ou lá o que é, que também joga o mesmo desporto) e o Paul Scholes (este não sei se existe, porque não tive tempo de ir à viquipédia) num momento íntimo tornado público pelos malandrecos – dirty boys! – do Guardian. O que sucede, querido leitor, é que, deparado com este tipo de reacção a um golo – às vezes também trocam tau-taus nos tu-tus, mas isso não tem mal nenhum –, começo a imaginar o que farão grupelhos de calmeirões que despacham as moçoilas para «ir ver a bola com a malta». Imagino o que farão, afasto, depois, a imagem para longe e, no fim, rezo qualquer coisa meio improvisada para que tenham visto este spot publicitário que pessoas de bem fizeram com boas intenções. A protecção tem de vir em primeiro lugar. Sempre.


Tiago Moreira Ramalho

Da mansidão da tia de Louçã nada sei, mas da mansidão dos portugueses sei um pouco mais. Sei que é suficiente para aceitar o que hoje aconteceu no Parlamento sem um pingo de indignação.

 

O meu texto no Expresso Online.


Sexta-feira, 16 de Abril de 2010
Rui Passos Rocha

Acho admirável que as senhoras - para não dizer meninas (o que seria paternalista), fêmeas (demasiado animalesco para as dez da noite) ou género feminino (o rigor cansa-me) - busquem alternativas quando o mercado de trabalho pende para o sexo forte, melhor pago e tal. O que me faz coçar o frontispício é que monopolizem nichos de mercado emergentes como se, enfim, a igualdade por que vêm lutando não fosse uma coisa bonita. No mercado da estridência, por exemplo, não há Miguel Abrantes (por mais que se multiplique), Carlos Santos ou João Galamba que possa concorrer com Fernanda Câncio, Isabel Moreira ou - as para mim bem-vindas novidades - Marta Rebelo e Mónica Andrezo Pinheiro. Um mercado em emergência, dizia eu, mas um mercado com, aposto, procura crescente: afinal o grosso (também literalmente) dos homens procura estrogénio bem compostinho de forma mas não de conteúdo. É uma lei natural (que Strauss não percebeu, diga-se, mas eu e Mendel, por esta ordem, atingimos) que aquelas quatro mais-ou-menos-beldades obviamente conhecem e têm explorado à náusea, com a particularidade de colmatarem a secura argumentativa com o massacrar dos respectivos teclados, de tão iradamente os martelarem. Uma estratégia que atrai o másculo faro e multiplica o seu - delas - potencial copulativo (regra não aplicável, como é evidente, a espécimes de fachada duvidosa como Heloísa Apolónia ou Ana Gomes). Eu, que como se vê pretendo fazer disto tese académica, estou de momento particularmente interessado no caso de Mónica Andrezo Pinheiro, que está já, vejo, num segundo patamar evolutivo: tenta captar um público mais heterogéneo, composto não só pelos grunhos de sempre (e para isso os pontos de exclamação sucessivos são decisivos), mas também por licenciados da Universidade Independente (entusiasmáveis pela descrição de uma mesma biblioteca onde pontificam a genial Isabel Stilwell e o pobre coitado do Simon Schama).


Bruno Vieira Amaral

Chico da Vinha esperou o primo e, com este montado numa égua, desferiu três tiros, dois dos quais lhe diminuíram a parentela, tendo o outro acertado no infeliz animal, que desgraçadamente se viu no meio da contenda familiar. Neste, como em muitos outros casos, há que procurar a mulher. E a mulher do caso tinha sido em tempos a do Chico, mas já não era. Como a lealdade era mais forte à família do que ao pobre do Chico da Vinha, a mulher foi viver com o primo deste, o tal que vinha sossegado na égua. Lembra-me esta tragédia alentejana um conto de Guimarães Rosa, Duelo. Aqui não há dúvidas, nem Capitus ambíguas. Silivana traiu o marido. Turíbio Todo, o marido, vingou-se. Atirou a matar mas acertou no homem errado, irmão de Cassiano Gomes, o tal que lhe usurpara o conjugal leito. Nisto, o traidor enche-se de brios e parte em busca do corno assassino para limpar o sangue fraternal. O corno, corajosamente, foge. Os dois homens andam num vai-e-vem de desencontros, já sem saber quem anda atrás de quem, até que o traidor feito caçador de maridos é traído pelo coração e bate as botas de ex-militar. A notícia da morte do rival alivia Turíbio que decide regressar a casa para a felicidade possível junto da mulher e dos seus grandes olhos de cabra tonta. Acontece que o marido não regressa a casa e mais não dizemos.

 

Entre o nosso Chico da Vinha da vida real e o Turíbio Todo do conto a diferença é pouca. Uma questão de pontaria. Chico matou o primo mas teve de disparar três vezes e quase que despachava a égua. Turíbio, a considerável distância, disparou uma bala certeira no homem errado. Na sombra, como sempre e já desde Tróia, ficam as mulheres e os seus grandes olhos.


Bruno Vieira Amaral

Na hora de almoço vou comprar cuecas.


Tiago Moreira Ramalho

Prossigo na exposição de fracturas – que se dane a Estatística Aplicada – porque, na realidade, eu sou só isto: fracturas e mais fracturas. Eu, que sou uma pessoa que lê blogues, mas que, enfim, tem limites, dei por mim a ler isto. A dona Mónica diz que «só lhe apetece dizer asneiras» porque «está zangada com o Sócrates» e porque não se quer «ajoelhar» em frente ao Papa – julgo que ele, pelos votos, iria recusar a oferta, dona Mónica. Claro que a dona Mónica, que diz que é escritora, diz, consegue juntar tudo isto, que está muito bem, muito certo, num post que, depois da gargalhada, nos faz ficar com um pitty smile em frente ao ecrã. Que diabo. Uma pessoa é pessoa bastante para ir para um blogue escrever, inclusivamente – deixemos, também hoje, claro que este «inclusivamente» serve apenas para dar ênfase à ideia que se segue, pois, na prática, não tem significado nenhum – com maiúsculas a bold, temperando tudo com muitos pontos de exclamação e com um jeito de miúda a quem o namorado meteu os corninhos – desculpe, dona Mónica, não fique tão zangada comigo como está com «o Sócrates» que eu não reajo bem quando as pessoas me «dizem asneiras». Façamos assim, dona Mónica, que eu já ando nisto dos blogues vai para umas três semanas: quando estiver muito irritada, muito, muito, muito, como parece estar no texto, trate de, primeiro, ligar a um amigo, pedir o número de telefone da Isabel Moreira ou fazer uma sessão de uma arte marcial qualquer e depois, só depois, caso ainda lhe restem forças, é que escreve uma merda qualquer lá para o blogue. Muito bom não há-de ser, que julgo que não desperdice as inspirações de escritora num blogue desses, mas sempre há-de ser menos ridículo.


Tiago Moreira Ramalho

Sou de uma escola blogosférica – está tudo bem, Maradona – segundo a qual quando existe uma fractura, tal fractura deve ser exposta. E bem, querido leitor. Ora sucede que a minha extraordinária fractura, que me está, confesso, a dar a volta ao miolo, está toda ela relacionada, sim, com os blogues da Sábado.

Os blogues da Sábado começaram há muito, muito tempo, num dia que talvez estivesse chuvoso, com uns vídeos meio tolinhos feitos com os «coordenadores» – Jesus!, that’s living –, a saber: Marta Rebelo, uma pessoa que existe, e Rui Castro, uma pessoa que também existe. Fotografias, filmagens, um pedacinho de flirt, para adoçar, e lá foram eles à vida blogueira. Convidaram pessoas e tudo. Escuso-me a falar da maioria das pessoas, porque não exponho assim tantas fracturas – sou um senhor, um senhor. Ora, sucede que os blogues, ambos os dois, são terríveis. Ilegíveis, feios, desinteressantes e, mais, vítimas das zangas da Marta Rebelo, uma pessoa muito zangada e com uma grande densidade intelectual, que faz entrevistas com grande qualidade e que, enfim, parece que comete uns erros de português – todos os cometemos, ó Marta, mas basta o que basta.

Eu próprio participo num blogue alojado dentro de um jornal e, senhores, que diferença. Nunca vi naquele blogue a utilização de pontos de exclamação múltiplos ou a multiplicação de posts que, na realidade, são mails que os autores preferem tornar públicos, talvez para tentarem criar alguma profundidade nas personagens de ficção que na realidade são.

O melhor que a Sábado, que é uma revista de um tipo de qualidade que nos escusamos a dizer, poderia fazer era alterar o formato. Neste momento estou a pensar assim numa série, daquelas da moda. Uma espécie de morangos com açúcar, mas com cabelos brancos e pessoas gordas em que as diferenças entre gangs não estão na roupa, na conta bancária, nas práticas religiosas, mas sim nisso de ser de «esquerda» (a Marta Rebelo sabe muito da «esquerda» e da «direita», nomeadamente acerca dos aspectos dos nativos de cada uma das tribos – é ler-lhe a obra) e da «direita». O Maradona, lá no meio, ainda era capaz de inovar e meter-se, porque ele gosta muito, a ler livros ou assim.


Bruno Vieira Amaral

Agora temos o Presidente da República a levar puxões de orelhas do magnificente homólogo checo. E a sorrir aquele sorriso protocolar entre a vergonha e a raiva. Tenho pena de Cavaco. Antigamente não se faziam estas desfeitas aos Chefes de Estado, mas isto de andar de mão estendida enquanto se gasta o que não se tem não granjeia simpatias. Desta vez foi o checo, outros se seguirão. Recomendo ao Professor Cavaco que saia menos de casa para evitar semelhantes enxovalhos. O alargamento da União Europeia colocou-nos no nosso devido lugar, o de ciganos da Europa.


Quinta-feira, 15 de Abril de 2010
Tiago Moreira Ramalho

 

Tivesse eu o mínimo de jeito para essas novas artes da comunicação, e era rapazinho para, inclusivamente – e deixemos desde já clarificada a situação de este último «inclusivamente» ser completamente dispensável no contexto da frase –, escrever um tratado sobre a imagem aqui mesmo, agora mesmo. Chamaria a atenção para o facto de Cameron ser o único a olhar para a fotografia, o que implica uma espécie de contacto-visual-que-não-é-bem-mas-que-dá-para-o-gasto, enquanto os outros olham para o lado; poderia referir o ar cansado de Brown e o ar distraído, apesar de leve, de Clegg; alertaria, sem qualquer dúvida, o leitor para o facto de Cameron ter a fotografia mais luminosa e a pose mais propagandística, conjugando tudo isto com a belíssima posição do meio pela qual todos lutam. Enfim, leitor, poderia fazer uma série de coisas, tivesse eu o mínimo de jeito para essas novas artes da comunicação. Como não tenho, deixo-lhe a imagem, porque a arte contemporânea é mais da sensação que da razão e porque não quero estragar o negócio a ninguém.

 

Porque aqui não fazemos posts às custas de ninguém, fazemos questão de informar que a imagem foi retirada de uma notícia do Guardian. Do Guardian. Quase que usei um ponto de exclamação.


autores

Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

comentários recentes
Great post, Your article shows tells me you must h...
You’ve made some really good points there.I looked...
دردشة سعودي ون (http://www.saudione.org/) سعودي و...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
http://www.chat-palestine.com/ title="شات فلس...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
كلمات اغنية مين اثر عليك (http://firstlyrics.blogs...
o que me apetecia ter escrito. mas nao o faria mel...
good luck my bro you have Agraet website
resto 5resto ya 5waga
posts mais comentados
125 comentários
114 comentários
53 comentários
arquivo

Fevereiro 2013

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

links
subscrever feeds