Quarta-feira, 30 de Junho de 2010
Tiago Moreira Ramalho

«Na Assembleia da República, no outro dia, o primeiro-ministro, afivelando o seu melhor sorriso chocarreiro, e com o tom gozoso e plebeu que põe habitualmente no exercício, dirigia-se à deputada dos Verdes chamando-lhe, entre outras coisas, "estalinista" e "pós-moderna". A simples máquina de palavras que ele é não é sem dúvida obrigada a dar-se conta da incompatibilidade dos conceitos, e o facto certamente não importa por aí além.»

 

Paulo Tunhas, i

 

Resta-nos rir, também, da conversa do mesmo primeiro-ministro, no mesmo dia, dirigindo-se à mesma pessoa, sobre o 1984 de George Orwell. Lembro-me da vergonha que senti pelo senhor, que notava-se perfeitamente que nunca tinha lido o livro, pois se o tivesse lido não colava a tese orwelliana ao lado dos argumentos das forças comunistas do Parlamento português. E depois também nos podemos lembrar, e sem dúvida rir, das incursões poéticas de José Sócrates, em tempos de campanha eleitoral, quando se botou a discorrer sobre Fernando Pessoa. Só escorria merda. Como diz o Paulo Tunhas, chegámos a isto.


Tiago Moreira Ramalho

 

Yes you do, don't you? Yes you do...


Tiago Moreira Ramalho

Parece que se nos acabou o Mundial de futebol. Nada deixava antever isto e a verdade é que perder nos quartos de final sabe a pouco. Mesmo tendo em atenção o facto de o Quim ter sido o guarda-redes medíocre, a goleada à Costa do Marfim e o empate com a Coreia do Norte, apesar, ainda assim, da derrota com o Japão, deixavam antever uma melhor prestação contra a Espanha, ontem. O golo do Katsouranis foi mais que motivo para três dias de luto nacional e para o regresso das guilhotinas, que se o país morreu em Aljubarrota, também deveria matar em Durban. O que mais desola é que a vida estava facilitada para as meias-finais, que a Suécia ainda não tem selecção de jeito. E, na final, lá nos encontrávamos de novo com a Coreia, para tirar as teimas ao admirável líder, que deixou fugir uns seis ou sete.

Agora é recuperar para o Mundial 2012, que vai ser no Brasil. Esperemos que nessa altura o Cristiano Ronaldo já não esteja lesionado e possa jogar e que o Scolari seja, finalmente, substituído, que bandeiras nas janelas ainda não ganham jogos e perder contra a Espanha, um brasileiro não compreende isto, é mau de mais.


Terça-feira, 29 de Junho de 2010
Bruno Vieira Amaral

Desta vez não tivemos epopeias nem o drama dos nossos grandes fracassos. Caímos, impotentes e sem estrondo, no anonimato dos oitavos. Uma queda à altura da mediocridade dos jogadores. Um fato fúnebre à medida de Carlos Queiroz.


Tiago Moreira Ramalho

O que aconteceu no Monte da Caparica, em Almada, nos últimos dias, tal como o que aconteceu noutros bairros suburbanos, é simples consequência de políticas que qualquer análise séria daria como criminosas. Ao longo das últimas décadas, a Câmara de Almada edificou dezenas de prédios de habitação social, verdadeiros guetos com bonitos nomes, desde «Pica-pau Amarelo» a «Bairro Cor-de-rosa», sem ter qualquer tipo de cuidado com a segurança do concelho. Vivem hoje largos milhares de pessoas nessas habitações, milhares que garantem bons resultados eleitorais, bem como uma boa redistribuição natural da riqueza por essas ruas fora. Não se trata aqui de qualquer preconceito, longe disso. O facto é que violência gera violência e se crianças são colocadas desde o berço em ambientes onde armas, drogas e crimes da maior variedade são o pão de cada dia, não conseguindo fugir de tais ambientes nem sequer na escola, então estão condenadas a uma vida igual à dos seus pares.

A política de habitação social na maioria dos concelhos urbanos e suburbanos em Portugal constitui um problema seríssimo de segurança pública. Concorde-se ou não com o modelo de Solidariedade Social, a verdade é que a criação de guetos não funciona em parte nenhuma do mundo. Infelizmente, a pulhice de meia dúzia de autarcas ávidos do seu pequeno poder impede qualquer tipo de discernimento. A pulhice dos autarcas e a correcção de quem os acomoda nas felpudinhas cadeiras.


Bruno Vieira Amaral

Ronaldo, o Cristiano, afirma constantemente o desejo de ser o melhor do mundo, o melhor de todos os tempos, de se superar, etc. Bem, está na hora de deixar um conselho ao rapaz: show me, don’t tell me.


Tiago Moreira Ramalho

«The world is full of back-stabbing sons-of-bitches: such is the lesson of modern history.»

 

Paul Berman (retirado do livro Terror and Liberalism)


Tiago Moreira Ramalho

Quando a principal discussão em torno das SCUT’s  se prende a detalhes técnicos ligados aos estrangeiros e mais uns pinhões, em vez de se centrar no escândalo que constitui a obrigatoriedade de um chip em cada carro; quando o principal partido a zelar pelos princípios liberais de reserva de privacidade é o Partido Comunista Português; e quando toda a opinião pública se preocupa, essencialmente, com guerras regionais e defesas abstrusas de supostos regimes de excepção; quando tudo isto acontece, torna-se tristemente óbvia a debilidade mental da raça.


Segunda-feira, 28 de Junho de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Por muito que a gente goste da Constituição, a verdade é que a Constituição não tem bracinhos nem mãozinhas para esbofetear ministros descarados. A Constituição tem de ter quem a proteja. Por cá, diz-se, tem um órgão de soberania todo para ela, um órgão de soberania directamente eleito pelo povo. O actual ocupante, que tem demonstrado, por diversas vezes, a sua inutilidade, decidiu agora promulgar um diploma que contém a aplicação de impostos retroactivos sem sequer o enviar para o outro garante, o passivo, que é Tribunal Constitucional. Se é certo que a ousadia autoritária de Teixeira dos Santos foi digna do Terceiro Mundo, muito mais me assusta a cobardia do Chefe de Estado, o último reduto da nossa confiança nas instituições. Mais que perguntar para que serve a Constituição, é importante perguntar para que serve um quadro institucional que não a faz cumprir.


Bruno Vieira Amaral

"Não foi pai nem mãe a primeira palavra que lhe saiu da boca, mas sim cã, de cão, referindo-se ao galgo Doff com quem partilhou a primeira casa, um andar à Estefânia também habitado por um mocho (que viria a morrer tragicamente atrás do frigorífico), dois falcões, um gato e uma iguana."


Bruno Vieira Amaral

Ontem, ao ver o Argentina-México, já depois de testemunhar a destruição da Inglaterra, concluí, com enfática sabedoria de sofá, que os treinadores de selecção só precisam de fazer uma coisa: milagres. Diego Armando Maradona andava ali a pular de um lado para o outro, a abraçar substituídos, a beijar suplentes, a evitar escaramuças, a exibir as respeitáveis barbas. Nada mais lhe é exigível. À tarde, o douto Capello, mestre das tácticas, o semblante científico que faz a fama e a glória dos treinadores transalpinos, mesmo dos mais ineptos, viu a sua selecção ser esmagada, com requintes cirúrgicos, por uma Alemanha que poderia ser treinada, com iguais resultados, pelo Professor Neca. A Inglaterra teve coração. Só coração. E o coração só não chega, quando ainda por cima o árbitro é um Larrionda zarolho. Durante 90 minutos, a Inglaterra esperneou as suas limitações e, por momentos, isso serviu para equilibrar o jogo, mas não deu para mais. Não podia dar contra a simplicidade do futebol alemão. Se alguém tem dúvidas do que se fala quando se fala de “futebol vertical”, reveja os golos alemães. Não sei se a língua alemã admite diminutivos mas todo o seu futebol é a antítese de um: o rodriguinho. Löw ou Loew, o cantor pop Joaquim, é o único treinador dispensado de fazer milagres. A materialista Alemanha não acredita em Deus, não acredita na sorte, nem no azar, não acredita nas Caravaggios da nossa felicidade. A Alemanha não acredita, materializa. E vão oito quartos-de-final consecutivos, com crises geracionais, jogadores medianos e treinadores medíocres pelo meio. Não interessa. A Alemanha avança. A Argentina também. Com muito talento e com muita fé, com o deus Maradona no banco e onze apóstolos em campo. No Público, Luís Fernando Veríssimo diz que a arte de Maradona “é inspirar os jogadores.” Inspiração. Bonita palavra. Mais uma vez, a Alemanha é a única selecção que pode prescindir desse substantivo volátil, dos estados de alma, de jogadores que depois fazem anúncios a telemóveis “ouvi uma voz”, “era como se alguém me dissesse para chutar”. Nada de metafísicas. Nada de treinadores doutorados em táctica, basta um funcionário da Federação. A selecção como um corpo perfeitamente articulado, um desenho tão simples como o do primeiro golo: pontapé do guarda-redes, erro do adversário, potência no choque e precisão no remate. A Alemanha não falha e não precisa de milagres.


Tiago Moreira Ramalho

Obviamente, soluções para o problema escasseiam. É difícil tirar do Parlamento uma decisão que está intimamente ligada ao Orçamento de Estado. E como o financiamento partidário não pode ser submetido a decisão referendária, tal como a Constituição, a única possibilidade seria uma forte pressão da sociedade, aliada a uma presença de grupos de cidadãos independentes na Assembleia da República, que levasse os partidos, ainda que a contra-gosto, a moderarem os excessos. Claro que num país em que ninguém quer saber de nada além da manchete do Record, é difícil.


Tiago Moreira Ramalho

Claro que o discurso pela redução do financiamento público é rapidamente rotulado como demagógico ou populista. Nomeadamente pelas partes interessadas, que, grosso modo, dominam o espaço mediático. A verdade, apesar do ruído dos grandes partidos, que são os maiores beneficiários, é que tem de haver uma redução das subvenções públicas. Que o desmame seja gradual, nada a opor – preferimos não ser acusados de semear o caos nas instituições partidárias. Mas tem de ser efectivo. Esta brincadeira de reduzir 10%, e ainda por cima transitoriamente, não interessa a ninguém. Na realidade, é quase ofensivo.


Tiago Moreira Ramalho

Imagine o leitor que a decisão sobre os salários dos polícias era tomada numa assembleia que reunisse apenas e só as forças policiais, de uma forma directa ou representada. Imagine, apenas para tornarmos a coisa cumulativamente absurda, que o mesmo se passava com professores, médicos, carteiros e canalizadores. Imagine, sei que custa, que todos aqueles que recebem dinheiro do Estado tinham na sua mão o poder de decidir quanto deveriam receber. Faz doer a cabeça, c’est pas, leitor? Pois, mas isto, caro leitor, é o que fazem os partidos políticos portugueses. Numa lei de 2003, que entrou em vigor em 2005, os partidos políticos decidiram aumentar os financiamentos do Estado em 700%. Repitamos com um ar um pouco mais assustado: 700%. O argumento era a velha banalidade da transparência, que o financiamento público é mais sério que o privado e tal. Balelas, claro está, pois a verdade é que não faz sentido que uma democracia tenha os seus partidos a financiar-se sem ser junto da sociedade, da população que representam. E, mais, toda a argumentação era profundamente hipócrita, pois ainda há pouquíssimo tempo os mesmíssimos partidos decidiram que sim, que o financiamento privado já era de muita virtude, e lá conseguiram juntar o sol na eira e a chuva no nabal. Hoje, claro, o Estado gasta dezenas de milhões de euros anualmente e em época festiva, que é como quem diz em época de campanha, a factura multiplica-se. Os benefícios são nulos: apenas mais e mais investimento em agências de comunicação, apenas mais e mais desigualdade à partida entre partidos instalados e novos partidos, apenas mais e mais do mesmo. Um quadro político-partidário estruturalmente estático. Agora, num destes dias, os senhores deputados lembraram-se do esforço nacional e lá sugeriram uma redução de 10% do financiamento partidário. Uns miseráveis 10%, rapidamente consensuais, que esta gente não se faz de mais do que simples fogo-de-vista.


Domingo, 27 de Junho de 2010
Rui Passos Rocha

O argumento de Miguel Sousa Tavares teria outra validade se fosse mais abrangente, aplicando-se também às escutas a Pinto da Costa ou a um qualquer traficante de droga. E teria outra validade se, também para esses casos, defendesse a não publicação das escutas mesmo que um qualquer Pacheco Pereira do sistema de Justiça acreditasse ser a publicação pela imprensa a única hipótese de se fazer justiça. Aparentemente – porque não me recordo de opiniões suas idênticas para outros casos que não o de Sócrates –, para MST o maior escrutínio inerente ao cargo de primeiro-ministro deve tornar os seus direitos mais dificilmente violáveis, não menos. Mesmo que o interesse público da informação sobre eventual corrupção de governantes seja muito superior, e proporcional à gravidade dessa corrupção, se comparada com outras. Mas há outro problema na avaliação de MST: o público quer ser informado não só das condenações, mas também das suspeições; sobretudo quando desconfia da qualidade da sua Justiça. Esta serve o povo; e os governantes também, daí a legitimidade do maior escrutínio.


Rui Passos Rocha

O texto de Miguel Sousa Tavares para o Expresso do último sábado lê-se com o gosto de como se ouve declamado o Adeus Português do O'Neill por um gajo com tabaco misturado no hálito matinal. Quer dizer: o tema é bom, o argumento é que já cheira mal. Afinal, é este o tipo de argumento que legitima o segredo de justiça, esse instituto tão nosso (e aparentemente a ser seguido por uma escola democrática também ela admirável, a de Berlusconi). Escreve Sousa Tavares que Mota Amaral fez bem em impedir que Pacheco Pereira trouxesse para a praça pública as escutas "avassaladoras" que supostamente comprometem o primeiro-ministro. E por aqui se fica. Nada acrescenta, do que se depreende que a sua publicação seria sempre - independentemente da gravidade do lá contido - o resultado de uma "tentação estalinista de suspender os direitos e garantias individuais em nome do 'interesse público'". E porque "ele foi eleito e os jornalistas e os magistrados não", publicar escutas que comprovem que Sócrates lesou os interesses do Estado é, isso sim, um atentado ao Estado de Direito. Porque a Justiça nada provou; e mesmo que a Justiça, assim mesmo com maiúscula, não funcione. E porque uma comissão parlamentar, que teve em mãos apenas parte das escutas, também nada provou. As escutas podem até indiciar um crime mas a sua publicação é ilegítima, porque a Constituição a proíbe. E a Constituição, como todas as pessoas de bem (desculpa lá roubar, ó Tiago) sabem, não pode ser ilegítima porque... porque é a Constituição.


Quinta-feira, 24 de Junho de 2010
Rui Passos Rocha


"The Road not Taken", de Robert Frost

 

[...] Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.


Rui Passos Rocha

 

Clube dos Poetas Mortos


Quarta-feira, 23 de Junho de 2010
Rui Passos Rocha

«Pangloss respondeu nestes termos: Ó meu querido Cândido! conheceste Paquette, aquela airosa dama-de-companhia da nossa augusta Baronesa; provei nos seus braços as delícias do Paraíso, que produziram estes tormentos do Inferno em que me vedes devorado; ela estava infectada, e pode ser que esteja morta. Paquette recebeu este brinde de um Franciscano muito sábio que havia subido à fonte, pois o apanhara com uma velha Condessa, que o tinha recebido de um Capitão de Cavalaria, que o devia a uma Marquesa, que o obtivera de um Pajem, que o recebera de um Jesuíta, que, quando era noviço, o ganhara em linha directa de um dos companheiros de Cristóvão Colombo. Quanto a mim, não a darei a ninguém, porque vou morrer. - Ó Pangloss! exclamou Cândido, que estranha genealogia essa! não virá ela da casta do Diabo? - Nada disso, replicou o grande homem; era uma coisa indispensável no melhor dos mundos, um ingrediente necessário: pois se Colombo não tivesse apanhado numa ilha da América esta doença que envenena a fonte das gerações, que frequentemente entrava a geração propriamente dita, e que evidentemente se opõe ao grande objectivo da natureza, não disporíamos hoje de chocolate nem de carmim de cochonilha.»

Voltaire - Cândido, ou o Optimismo


Rui Passos Rocha

Por outro lado, e tendo isso em conta, seria suficiente para destronar a tese de Cavaco dizer que os seus dois acólitos, Fernando Nogueira e Dias Loureiro, têm (ambos) no bolso apenas licenciaturas em Direito pela Universidade de Coimbra.


Rui Passos Rocha

No célebre texto em que diz que «a má moeda expulsa a boa moeda», Cavaco Silva não se limita a vergastar Santana Lopes e o seu governo-recorde de quatro meses: diz que, recentemente, «os agentes políticos incompetentes afastam os competentes», donde resultam «menos desenvolvimento e modernização do país, mais injustiças sociais e maior desencanto dos cidadãos em relação à democracia».

Não se trata apenas de competência; Cavaco fala, afinal, da necessidade de «trazer de volta à vida político-partidária pessoas qualificadas, dispostas a servir honestamente a comunidade». Não há - entende-se - na política gente tão qualificada como houve em tempos, porque a «má moeda» está a desincentivar a «boa moeda» - que assim deixa de querer, como naturalmente quereria, correr o país em comícios-festas partidários.

Será? Olhando apenas para os currículos dos líderes (corrijam-me se houver erros), das duas uma: ou a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa é uma escola de elite europeia; ou talvez não possa ser dito que houve alguma vez uma «boa moeda» que se contrapusesse à «má moeda» de hoje. O exemplo de Sócrates (licenciatura em Engenharia Civil pela Independente; mestrado em Gestão de Empresas pelo ISCTE por concluir) não ajuda, mas Passos Coelho não fica a ganhar (licenciatura em Economia na Universidade Nova concluída em 2001, com 36 anos).

Da Faculdade de Direito da UL saíram Sá Carneiro, Pinto Balsemão (ambos só licenciados) e Freitas do Amaral (licenciado e doutorado). Mota Pinto licenciou-se e doutorou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Paulo Portas tem uma licenciatura em Direito pela Católica de Lisboa. Jerónimo, sabemos, é um antigo operário metalúrgico. E há ainda os outros engenheiros: Maria de Lourdes Pintasilgo (licenciatura em Engenharia Químico-Industrial, pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa) e Guterres (licenciado em Engenharia Electrotécnica - com distinção - no mesmo IST).

Vejo três casos que contrariam a tese de Cavaco; e um deles é... surpresa: Santana Lopes, que para além da licenciatura em Direito na UL passou pelo Instituto de Direito Europeu e pelo Instituto para a Investigação da Ciência Política e Questões Europeias da Universidade de Colónia. Sim, eu sei, isto não se compara com a licenciatura (com a mais alta classificação do seu ano) de Cavaco em Finanças no ISEG e o seu doutoramento na Universidade de York, a que se junta a passagem pelo Departamento de Estatística e Estudos Económicos do Banco de Portugal - coisa que, diga-se, não é qualquer um que consegue.

Mas há mais dois casos: Louçã, com a mesma licenciatura de Cavaco (e, como Cavaco, prémio para melhor aluno) e também mestrado e doutoramento no ISEG (ambos concluídos com distinção); e Durão Barroso, que se licenciou em Direito pela Universidade de Lisboa, concluiu um mestrado em Ciências Económicas e Sociais no Instituto Europeu da Universidade de Genebra e não concluiu o doutoramento iniciado na Universidade de Georgetown.


Rui Passos Rocha

«[...] Ontem, li a seguinte frase de Rui Tavares nesta página: "Um escritor aprende também muito nascendo e vivendo num país onde as elites são medíocres e mesquinhas e não aceitam que pode ter nascido um génio na Azinhaga, Ribatejo." Generalizando, eu acrescentaria que essas elites mesquinhas não são sempre as mesmas elites e que as elites culturais também são medíocres quando desprezam sistematicamente aquilo que um indivíduo é ou conseguiu por sua conta, erguendo-se acima daquilo que a sua condição permitia.

Querem um exemplo? Saramago, por exemplo, poderia desprezar Cavaco Silva com todas as forças, por causa de histórias antigas e presentes. Mas os seus percursos até têm interessantes pontos de contacto. E Saramago foi sempre malquisto por certas elites políticas e económicas, enquanto Cavaco Silva nunca foi bem digerido pelas elites culturais. Longe de mim reduzir um Nobel da literatura ao estatuto humano de Presidente da República e de calculador da nossa crise. Mas a nossa cegueira, diria também que a nossa mesquinhez, está em muitas vezes não reconhecermos que a disciplina e a exigência pessoal podem produzir realizações diferentes daquelas que valorizamos. Nem tudo é literatura.»

 

Pedro Lomba, no Público de ontem


Tiago Moreira Ramalho

Manuel Alegre cansa-se dizendo que o papel do Presidente da República é o de ser um referencial de estabilidade, de esperança, de confiança. Mesmo que não haja motivos para as ter. É mais do mesmo. Manuel Alegre é candidato a embaixador de um, mais um, admirável mundo novo. Como se um Chefe de Estado autista nos valesse de algo. É precisamente o contrário: em épocas como as que vivemos, precisamos do realismo dos grandes estadistas. Não digo que Cavaco o tenha, mas Alegre, sem a mínima dúvida, não tem nenhum.


Terça-feira, 22 de Junho de 2010
A Douta Ignorância

 

José Eduardo Agualusa é o nosso primeiro entrevistado fora da blogosfera. É um dos mais importantes romancistas africanos, embora a sua obra possa ser considerada como um produto genuinamente atlântico. O regime angolano não beneficia da indulgência de Agualusa, ao contrário do A Douta Ignorância, um blog que não tem petróleo, que não silencia as vozes críticas (a não ser a de comentadores chatinhos) e que não entrega a gestão dos posts a familiares.

 

Os seus romances são transatlânticos, miscigenados, do manejo da língua à localização da acção. A lusofonia é identidade ou marketing?

Nem sei ao certo o que é a lusofonia, parece-me um daqueles conceitos elásticos, que cada qual entende à sua maneira. Os meus romances são, como é natural, um resultado do meu próprio percurso. Esse percurso foi, tem sido, escolha e acidente. 

 

Disse, a propósito do Acordo Ortográfico, que Portugal tem um «enraizado sentimento imperial». O que o leva a pensar tal coisa?

O alarido que o referido acordo provocou em Portugal. Participei em inúmeros debates sobre o mesmo e recordo-me perfeitamente de um deles, na casa Fernando Pessoa, durante o qual um imbecil na plateia começou a gritar "a língua é nossa!". É a isto que chamo sentimento imperial. 

 

Numa entrevista à Ler, falava com alguma condescendência sobre Mia Couto, felicitando-o por se libertar das doenças infantis do trocadilho e do neologismo. Há aí uma rivalidade latente?

Pelo amor de Deus, o Mia é tudo o que eu gostaria de ser se tivesse nascido em Moçambique. É o meu melhor amigo. Ele tem arriscado novas formas de maneira extremamente corajosa. O Mia é um caso raro de sucesso de público e de crítica a nível internacional. Podia deitar-se a dormir, mas prefere arriscar e tentar novas formas.

 

A fotogenia é fundamental para o sucesso literário?

O contrário. O sucesso, literário ou qualquer outro, é importante para o reconhecimento da fotogenia. 

 

Num inquérito da revista New Yorker a 20 vozes com menos de 40 anos, o único escritor lusófono citado como influência é o José Eduardo Agualusa. O reconhecimento dos pares é o mais importante?

Claro, embora dependa dos pares. 

 

Angola é uma democracia embrionária ou uma ditadura moribunda?

Tenho a sensação que é um país que caminha a passos firmes para uma ditadura sólida, para o que conta com o apoio de Portugal, e de muitas outras democracias ocidentais. 

 

Viver a maior parte do tempo em Portugal não o desautoriza enquanto voz crítica do regime? É mais fácil criticar quando se está longe?

O que caracteriza os regimes totalitários é precisamente isso  - é mais fácil critica-los quando se está longe. Não pretendo ser uma autoridade, apenas um cidadão preocupado com os destinos do seu país, e prefiro estar preocupado, mas livre, numa situação em que consiga expressar essas minhas preocupações, e ser escutado dentro e fora do país. 


Rui Passos Rocha

Saramago não teria querido Cavaco no seu funeral, mas certamente ficaria satisfeito com a presença de um Presidente - como reconhecimento máximo da sua importância para o país. Acontece que o Chefe de Estado é Cavaco e que um artifício institucional não apaga a personalidade. Por muito que apelem à sua despersonalização e a que ele procure o "interesse nacional" (seja isso o que for), o cérebro do Chefe de Estado é o mesmo que em 1993 censurou - por acção ou omissão - a candidatura do Evangelho Segundo Jesus Cristo a um prémio literário europeu. Seria justa a presença de um Presidente no adeus ao Nobel; mas não este: Cavaco e Saramago não quereriam cruzar-se mais. Nem mortos. E se Cavaco poderia ser obrigado - por dever profissional - a comparecer, neste caso o "interesse nacional" não se sobrepõe à vontade de Saramago.


Bruno Vieira Amaral

Publicado no i

 

“O Ideal seria a gente encontrar-se algures no Universo, respirando outro ar em que os eflúvios lusitanos sejam só os destilados pela nossa impossibilidade de sermos outra coisa.” Jorge de Sena (p. 124)

 

Ler a correspondência entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena pode ser um exercício de voyeurismo retrospectivo. Em vez de intimidades íntimas temos o país que era, e em alguns aspectos continua a ser, Portugal, de vergonhas destapadas e exibidas sob uma luz inclemente e fria, sobretudo quando é Sena a apontar o foco. Empurrado para o exílio por uma intelectualidade que o desprezava e que ele desprezava com tanto ou mais vigor, incapaz de se submeter à ditadura da mediocridade da “lítero-cambada”, Sena trovejava de ressentimento e de amargura. Em Sophia, que nunca saiu do país a não ser em turismo, a mesma intolerância à baixeza de alguns personagens, ávidos por “criar em nome do anti-fascismo um novo fascismo”, é expressa com a moderação magoada de quem teve de sofrer aquele Portugal na lenta agonia do quotidiano e que é ilustrada nesta passagem sobre os amigos que a desiludiram: “Eles não têm a menor noção do que seja lealdade nem seriedade. Felizmente consigo dominar-me e nem me zangar com eles. Creio que são dignos de dó. Talvez sejam casos onde a miséria material acaba por provocar a miséria moral.”

 

A distância de Portugal não atenuou em Sena o sentimento de injustiça, até porque no Brasil encontrou muitos dos defeitos de que tinha fugido com a agravante de ter de lidar com a desconfiança dos portugueses “exilados”, para quem era demasiado brasileiro, e dos brasileiros, que o viam como um “agente temível de portugalidade.” À injustiça, Sena respondeu, muito pouco portuguesmente, com obra. Os seus lamentos não eram estéreis; foram o combustível de ensaios, poesia, romance e traduções. Obras para deixar as orelhas da Pátria a arder, obras como as póstumas Dedicácias, em que os inimigos são nomeados e brindados com o sarcasmo virulento de Sena, autor cujo reconhecimento tem sido lento mas notório. Caso diferente foi o de Sophia, entronizada em vida e que preservou a sua poesia num templo impoluto, refúgio grego das tormentas cívicas.

 

Provas de uma amizade funda em que as emoções não turvavam a integridade intelectual, nem a independência crítica, estas são cartas de dois gigantes de um país “que se empequeneceu irremediavelmente”.


Segunda-feira, 21 de Junho de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Isto andava um bocado parado há uns meses. Agora parece que «voltou». Vai para a barra da esquerda. Quem não ler cheira mal.



editado por A Douta Ignorância em 22/06/2010 às 12:01link do post | comentar | ver comentários (3)
Tiago Moreira Ramalho

A decisão de Cavaco Silva em ficar nos Açores, com a família, no dia do funeral de José Saramago não interessa a absolutamente ninguém a não ser a quem, tão respeitosamente, se aproveita da morte de um homem para fazer baixa campanha política. A partir do momento em que as obrigações institucionais no que respeita à representação estão cumpridas, nada mais pode ser exigido. Muito menos respeito. A verdade é que ao longo dos últimos anos, seja justa ou injustamente, José Saramago desferiu terríveis ataques a Cavaco Silva – há um particularmente inspirado sobre o doutoramento Honoris Causa atribuído pela Universidade de Goa. Cavaco Silva, ao estar presente, abdicaria da própria honra e dignidade. Um Presidente, por ser Presidente, não tem de gostar de tudo ou de todos. Muito menos daqueles que não gostam dele.


Domingo, 20 de Junho de 2010
Tiago Moreira Ramalho

His first major success was the rollicking love story “Baltasar and Blimunda.” Set in 18th-century Portugal, it portrays the misadventures of three eccentrics threatened by the Inquisition: a heretic priest who constructs a flying machine and the two lovers who help him — Baltasar, a one-handed ex-soldier, and Blimunda, a sorceress’s daughter who has X-ray vision.

 

Do obituário do New York Times


Tiago Moreira Ramalho

Era uma vez um homem que nasceu pobre e se destinou a morrer grande. Morreu-nos no outro dia. Por todo o lado fazem-se julgamentos do legado. Alguns julgamentos políticos são justamente feitos ao político. O político Saramago era um ser detestável. Mas nesta altura, como em todas, aliás, porque nunca quis misturar o político com o artista, lamento a perda de um homem que me deu das melhores frases que já li. Um homem extraordinário por se ter feito da forma como se fez. Um homem que, apesar da pele dura, muito dura, como dizia na apresentação de Caim, não convenceu a morte a uma pequena e desejável intermitência. Se vai ser lembrado, se daqui a cinco mil anos o leremos, se os outros preferem a estupidez, a cegueira de julgar a obra pelo que à obra não pertence, não quero saber. Quero apenas agradecer, como se tal fosse possível, o simples facto de Saramago se ter lembrado, um dia, de escrever um livro e de ter repetido a façanha umas quantas vezes.


Sexta-feira, 18 de Junho de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Hoje fui à Trama. Não resisto a saldos de livros. A pessoa de bem ainda pode lá passar amanhã, para pechinchas fabulosas. Tal como avisam no blogue, vão saltar para um outro lugar. Claro que nós, aqui, porque somos fantásticos, vamos avisar assim que acontecer, com pormenores de localização e, com jeitinho, se estivermos ainda mais bem-dispostos do que é habitual, um mapinha com uma setinha, para encaminhar o leitor distraído.


Bruno Vieira Amaral

"But Algeria seem to have hit upon the effective tactic of kicking the ball deep to Carragher and then waiting for it come back to them in a better position."


Bruno Vieira Amaral


Bruno Vieira Amaral

A menina entra na farmácia, calçãozinho de ganga, dezasseis anos, quem a pode culpar?, acompanha a avó ou a tia, e toda ela é um movimento de desconsideração juvenil não só pela velhice, que a tolera e até é capaz de admirá-la nostalgicamente, mas por aquela idade em que a celulite, as estrias e todas as gorduras localizadas têm de ser combatidas com minutos de cirurgia, horas de ginásio ou anos de uma personalidade vincada e aparentemente insensível aos julgamentos exteriores. A menina pode não saber que a leveza é passageira, mas essa inconsciência só a faz mais leve, porque nada pesa mais do que a consciência da morte e os irreparáveis estragos que a mesma provoca à nossa pele quase-mediterrânica. No rosto da menina não há sequer anúncio de rugas de sabedoria: o fermento da beleza é a ignorância, da verdadeira beleza, e não daquela que as pessoas que escrevem decidiram consagrar na esperança de chegar aos cinquentas mais sábias e mais belas, e não apenas mais sábias, mais velhas e mais feias, como manda o Tempo, na sua absoluta indiferença às considerações humanas e aos efeitos temporários do botox. A menina sai da farmácia de braço dado com a senhora, e eu não sei se é a beleza que se apoia no Tempo, se é o Tempo que se ampara na beleza, se aquele procura vitalidade e esta, consolo, sei que a senhora não tem bengala e o corpo viçoso, inquebrável da menina também serve e sei que a menina ignora tudo isto e que, por isso mesmo, também serve.


Tiago Moreira Ramalho

Sobre os feriados, não há volta a dar: ou se acaba com eles ou então deixa-se estar como está. Essas ideias tolas, completamente tolas, de transferir feriados para dias específicos, a bem da produtividade, servem apenas para desrespeitar as celebrações. E se as celebrações não merecem respeito, sejam elas quais forem, então as suas existências, ou os seus patrocínios pelo Estado, devem acabar. Não há paciência para discussões de nadas.


autores

Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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