Sábado, 31 de Julho de 2010
Rui Passos Rocha

A própria ideia de uma personalidade é anti-cristã: o cristianismo refere expressamente que todo o homem tem uma alma indivisível, em contacto com o Supremo, a qual deverá por aprendizagem terrena apropriar-se da moral divina e sustentar as atitudes humanas. O Homem moderno, porém, estimula a sua personalidade, mesmo crendo na existência de uma ou, como escreve Tabucchi no Sostiene Pereira, de mais de uma alma dentro do corpo - sendo que, nesse caso, haveria uma alma hegemónica hoje e outra, possivelmente, amanhã. Uma ideia - esta das múltiplas almas - que não é mais do que a de personalidade, um conceito que esvazia o poder moral da religião.


Bruno Vieira Amaral

Publicado no i

 

“Criado no artificioso, na mecânica doméstica de um pensamento obsessivo, que passa de geração em geração na minha família, eu vivia afastado da Natureza e chegava mesmo a duvidar da sua existência.” P. 154

 

No centro de A Vida Verdadeira, romance de estreia de Vasco Luís Curado (n. 1971), está uma quinta cercada por um muro. Vergílio, o narrador, é o derradeiro guardião desse espaço ameaçado pela expansão urbanística. A visita dos agentes imobiliários empurra-o para uma sucessão de recordações, da infância à idade adulta, em que reflecte sobre a sua separação da vida verdadeira, de tudo o que acontece para lá dos muros e das palavras. Não sendo o que se designa de romance de ideias podemos dizer que A Vida Verdadeira é um romance em que as ideias delimitam a narrativa. A ideia mais forte, a âncora do narrador, é a do indivíduo enquanto portador temporário do testemunho da família, enquanto elo transitório de uma cadeia que o transcende. Nos atavismos e na preservação da memória, Vergílio prolonga o todo que é a família. A educação da criança enquanto disputa entre duas forças antagónicas, a domus e a polis, é a outra ideia-base do livro. A escola (símbolo do mundo dos homens) procura resgatar a criança das garras da protecção doméstica, ou seja, quer dar à criança referências do mundo exterior, enquanto que a mãe quer mantê-la num estado uterino. A escola é um útero masculino, berço de cidadãos. No caso do protagonista, é a força materna que leva a melhor. Demasiado protegido, ele está separado do mundo pela grade verbal erguida pela mãe. As palavras são mais importantes do que as coisas; não lhe servem para desvendar o mundo, mas para o manter a uma distância segura. Vergílio fica à beira-vida como em criança ficava à beira-mar, porque a mãe queria “transformar o mar num tanque infantil que não oferecesse perigos” (p. 26). A viagem que planeia com a irmã, e que não chegam a realizar, é o símbolo máximo do desfasamento entre o mundo enquanto verbo e a realidade empírica.

 

A Vida Verdadeira tem fragilidades como o recurso frequente a advérbios de modo, algumas expressões anti-literárias e inestéticas e histórias laterais que, não sendo más, não são embutidas de forma graciosa no conjunto. Mas com este romance, Vasco Luís Curado conquistou, pelo menos, o direito a uma segunda oportunidade para corrigir estas falhas menores.


Tiago Moreira Ramalho

Definir a Primeira Guerra Mundial como uma zaragata familiar pode parecer quase jocoso, mas, de facto, a realeza europeia, no início do Século XX, era perturbadoramente «familiar». Graças à esperteza de uma pequena família alemã, os Saxe-Coburg, que se relacionou de forma extraordinária com todas as casas reais europeias, tínhamos, em 1914 uma Europa cujas coroas se tratavam por diminutivos carinhosos. A própria rainha Vitória temeu pela saúde e sustentabilidade da família, defendendo, a certa altura, a entrada de «sangue novo», para que as novas gerações não sofressem de males como a hemofilia – no princípio do Século XX, sete membros da família sofriam da doença –, os quais estão intimamente ligados ao inbreeding. Para que o leitor se aperceba da dimensão do fenómeno, em 1901, quando a rainha Vitória morreu, havia sangue dos Saxe-Coburg nas casas reais da Grã-Bretanha, da Irlanda, do Império Austro-Húngaro, da Rússia, da Dinamarca, de Espanha, de Portugal, da Alemanha, da Bélgica, da Grécia, da Roménia, da Bulgária, da Suécia e da Noruega.


Tiago Moreira Ramalho

No Expresso vem uma entrevistazinha com a Ministra da Educação, a que escreve. A coisa é francamente aborrecida, mas vale a pena realçar um ponto. Acontece que, na peça, se fala dos chumbos lá fora, no estrangeiro. E dá-se o exemplo da Finlândia, Suécia, Noruega e Dinamarca, onde as taxas de retenção não chegam a 1%. Depois diz-se que, vai na volta, é bom não chumbar, porque aos 15 anos a apenas 1% dos alunos faltam competências básicas de leitura. Percebeu, leitor? Nos países nórdicos, os alunos sabem porque não chumbam; não passam porque sabem. Já no jornalismo português, julga-se que tudo é uma questão de perspectiva. Não é.


Sexta-feira, 30 de Julho de 2010
Tiago Moreira Ramalho

 

Se calhar era feio, queres ver?


Tiago Moreira Ramalho

Claro que poderíamos, numa cambalhota epistemológica das da moda, afirmar que o processo está mal explicado. Que, na realidade, não se dá o caso de as fêmeas desgostarem dos génios, mas sim de desgostarem de machos que, por isso, acabam por se focar em actividades para-sexuais, como as artes e as letras, a fim de se completarem. O resultado seria o desmoronar de uma teoria fabulosa, pelo que não o posso aceitar.


Tiago Moreira Ramalho

Ao tornar-se evidente a preferência generalizada das fêmeas pelas bestas, os machos não bestiais acabam por, num mecanismo de auto-defesa, abandonar pretensões amorosas e, por consequência, reprodutivas. É aqui que a decadência da espécie de acentua, pois os únicos que nos poderiam salvar da selvajaria acabam por perder interesse na própria espécie. Tal como escreveu Pedro Mexia em tempos idos, do grupo composto por Kierkegaard, Machado, Nietzsche, Tchekhov, Kafka, Eliot, Beckett, Pavese, Cioran não houve descendência conhecida. E se aqui temos a Literatura e alguma Filosofia, podemos ir a mais alguma Filosofia, a três ou quatro ciências (das a sério, não as sociais, que são o oásis nínfico) e percebemos que a genialidade é, simplesmente, pouco atraente. Claro que não temos de nos preocupar. Não regressaremos aos seixos e à recolecção no espaço de uma geração e pode ser que, com o tempo, a espécie se aperceba que a zoofilia é algo a que só se deve recorrer pontualmente, para ver curiosidades satisfeitas.


Tiago Moreira Ramalho

Ultrapassámos, sem qualquer dúvida, o pico do nosso desenvolvimento. Que cesse Marx e o historicismo parolo. A prova evidente de que a humanidade está a querer recuar naquilo que a diferencia da restante bestialidade jaz, como todas as provas de tudo, nos padrões sexuais. Dirijamo-nos a um bar, uma discoteca ou uma repartição de finanças e vejamos quem são os machos que as fêmeas escolhem para copular. Indivíduos cuja massa muscular do mindinho consegue, sem grande dificuldade, ultrapassar, em dimensão e em competência reflexiva, a massa encefálica. Se durante muito tempo a dança de acasalamento humana se alicerçou no poder, hoje, a dança alicerça-se na proximidade ao irmão inferior – sim, Singer, vem cá bater a este especista. E se o fenómeno é tão evidente nos dias que são os nossos, é certo que a tendência é identificável há muito.


Rui Passos Rocha

O mito judaico-cristão de Adão e Eva pode ser interpretado, seguindo a Bíblia, como ilustração do que acontece aos homens que não obedeçam fiel e completamente a Deus - pecam e, por isso, terão uma eternidade pouco aprazível; ou pode ser visto como significando a atractividade da desobediência e da liberdade. Todas as religiões têm um cardápio de sanções para os impuros, mas é significativo um livro sagrado que não marginaliza a desobediência a ponto de a tornar assustadoramente implícita; a Bíblia inscreve-a precisamente na raiz da humanidade, como pecado original. Dizem que assim a dissuasão é maior, lendo sobre as consequências da desobediência; mas não será ilegítimo imaginar que o efeito também possa ser o oposto: o justo fazer-se pecador e justificar-se na culpa do casal primevo, que desgraçou irremediavelmente a espécie. E agora perdoem-me, que vou ali beber um suminho de maçã.


Tiago Moreira Ramalho


Tiago Moreira Ramalho

Esta carta, que me perdoe a Maria João Pires, é um total absurdo. A direcção da TVI tem o direito de escolher o que quer emitir e ninguém tem sequer o direito de lhe pedir explicações. Há um serviço a ser prestado, há clientes a usufrui-lo e ponto final. Não há doutrinação numa telenovela adolescente. Pedir esclarecimentos à TVI pelo facto de não emitir um beijo entre dois rapazes implica pedir esclarecimentos a todos os produtores de todas as telenovelas que houve em Portugal até ao dia de hoje, a quase todos os escritores portugueses – vivos ou mortos –, a quase todos os cineastas, et cetera.

Este tipo de acção serve apenas para descredibilizar as associações que assinam a cartinha. Falar em retrocessos civilizacionais e em atentado aos direitos humanos à conta da não emissão de um beijo num episódio de uma novela adolescente é um passe para a chacota generalizada. Um pedacinho de racionalidade, nada mais é pedido.


Quinta-feira, 29 de Julho de 2010
Priscila Rêgo

Henrique, penso que podemos dispensar o "cara" e o tratamento por "você". Isto é um blogue, homem.

 

Quanto à minha crítica, penso que não foi bem percebida. Eu não comparei a ADSE a um seguro de saúde privado: fiz uma analogia para tentar clarificar uma questão. E a questão é que a ADSE não é, em si mesma, uma vantagem ilegítima dos funcionários públicos. Todos os contratos de trabalho implicam uma compensação para o trabalhador. A ADSE é só uma parte do bolo. 

 

Saber se o bolo é justo ou não implica compará-lo na sua totalidade com o que é dado em troca (produtividade, neste caso). E ao colocá-lo nos pratos na balança convém levar todos os ingredientes em conta: remunerações, possibilidades de progressão, actualizações salariais, etc. O que não faz sentido é pesar as coisas 'aos bochechos' e compará-las à medida das conveniências.

 

Esta era a crítica à essência. No que diz respeito ao tom, dou-me por satisfeita com o mea culpa. Mas não percebo o desprezo pelo "Excel místico". Eu escrevo por prazer, sem preocupação em converter ninguém, quando posto acerca de naturalismo, religião ou livre arbítrio. Mas em assuntos verdadeiramente importantes espero que as minhas palavras sejam minimamente ouvidas, e por isso tenho algum cuidado em não ostracizar a audiência. Não é uma questão de fazer doutrina. É só que há coisas que demasiado sérias para serem levadas na desportiva.  

 

Dois beijinhos da Priscila.

 

P.S.- Não percebi bem a coisa do cinema australiano...


Priscila Rêgo

Henrique Raposo pergunta aqui por que carga de água é que os funcionários públicos têm o benefício ilegítimo da ADSE. Mas eu nem sequer tenho a certeza de que a ADSE deva ser vista como um benefício ilegítimo. Há imensas empresas que dão regalias não salariais aos seus trabalhadores, sem que tal seja considerado ilegítimo seja por que prisma for. A minha empresa, aliás, oferece-me ginásio pago e um seguro de saúde que com vantagens análogas às da ADSE. Não me sinto em dívida para com ninguém.

 

Por que é que o Henrique Raposo critica a ADSE e não o nível salarial da Função Pública (bastante superior ao que se verifica no sector privado, mesmo depois de controlar factores como os anos de experiência ou o nível de educação)? Suponho que seja devido à mesma razão pela qual se ouvem mais críticas aos bónus e aos carros e motoristas do presidente da Águas de Portugal do que propriamente ao seu salário: porque é mais visível. Salários altos, há aos montes. Mas carro de marca e motorista da empresa não é para todos. Como se o critério de aferição da justiça de um bónus fosse a sua distribuição estatística pelo resto da população e não a produtividade de que a recebe.

 

A Função Pública tem, mais coisa menos coisa, 600 mil trabalhadores. Leram bem, 600 mil. Alguns ganham mais do que ganhariam no sector privado. Outros, sobretudo os que estão no topo, ganham muito menos. Alguns progrediram na carreira com facilidade. Outros, estão a recibos verdes há anos, não têm ADSE nem progressões na carreira. Não chegam sequer a contar para as estatísticas. E todos, sem excepção, tiveram actualizações salariais inferiores à inflação durante os últimos 12 anos (só 2009 escapou à regra). Perante uma realidade tão vasta e diversa, começar a conversa a dizer que a Função Pública é uma casta de gente privilegiada que vive, literalmente, acima do resto das pessoas é capaz de não ser bom princípio. Imaginem, se voz faz confusão, que diziam isto dos banqueiros.

 

Eu gosto de ler o Henrique Raposo. Mas duvido que o tom que imprime à prosa, e sobretudo a ligeireza com que aborda tudo o que diz respeito à Função Pública, lhe tragam leitores fora do seu apertado reduto ideológico. O que é uma pena. A última coisa de que os liberais precisam é pregar aos convertidos.


Quarta-feira, 28 de Julho de 2010
Priscila Rêgo

O Daniel Oliveira está preocupado com a possibilidade de os portugueses poderem escolher entre Estado e privados no que diz respeito a serviços públicos. Como diz o Daniel, é uma questão de economias de escala: a metade dos utentes não corresponde metade da despesa. O argumento é igualmente válido para o mercado de televisões, carros, sapatilhas e beterrabas – mas o Daniel optou, compreensivelmente, por circunscrever as conclusões ao domínio da educação e da saúde. Mas a urticária ainda não me passou…

 

O argumento do monopólio é infeliz. Há evidentemente casos em se justifica um monopólio público devido à natureza do mercado. A propriedade de infra-estruturas de abastecimento (electricidade, água, etc.) é o caso clássico. Mas na esmagadora maioria das situações os benefícios das economias de escala (garantidas pelo Estado, se possível) são largamente ultrapassados pelo prejuízo de se fazerem à custa da extinção da concorrência.

 

Um princípio de precaução recomenda, aliás, que se siga a regra oposta. É precisamente nos mercados em que é mais provável aparecerem economias de escala que as regras anti-trust devem ser implementadas de forma reforçada. É aqui que a “Mão Invisível” do mercado pode dar lugar a um pé bem visível da empresa monopolista. É curioso que seja o Daniel Oliveira, que tantas vezes aponta o dedo ao poder do grande capital, a criticar o ataque a um monopólio. Talvez o problema não seja a concentração de poder, mas as mãos em que ele é depositado.

 

A argumentação do Daniel Oliveira é aliás reveladora dos perigos de deixar o Estado meter as manápulas onde quer. Num primeiro momento, um serviço é criado por questões de solidariedade. Mas, a partir daí, faz o seu próprio caminho: torna-se cativo de interesses privados, expande-se em função das pressões internas dos “produtores” (ao invés das preferências dos consumidores), degenera e acaba a exigir protecção da concorrência externa, fechando ainda mais o mercado. As oportunidades de reforma transformam-se sempre em pretextos para mais protecção.  


Bruno Vieira Amaral

Entrevista ao autor do livro O Assassino do Laser.


Bruno Vieira Amaral

“Hoje sou adulto e não sei nadar. Os outros, os que não foram tão protegidos, sabem nadar, o que lhes pode valer em situações críticas (perigo no mar, naufrágios, inundações). Se um dia me vir em perigo no mar, não estará lá a minha mãe para me proteger. Mas quando esteve ela foi imensa, total, infalível.”

 

Este excerto do romance de Vasco Luís Curado, A Vida Verdadeira, lembrou-me uma cena de O Livro do Riso e do Esquecimento*, de Milan Kundera. O rapaz é um péssimo nadador e, ao ver a namorada a nadar como uma profissional, tem um acesso de litŏst, uma espécie de auto-compaixão melancólica. Quando a rapariga sai da água, ele dá-lhe uma estalada com o argumento que ela correra um grande risco ao nadar daquela maneira. Na verdade ele não estava preocupado com a segurança da rapariga, mas o desembaraço aquático da namorada tinha sido uma humilhação tácita que ele não podia suportar.

 

O protagonista do romance de Vasco Luís Curado tem o nome de Vergílio e lendo o excerto que se segue percebemos porquê: “Sentia-me íntimo do mistério das coisas, seja isso o que for. Tudo, agora, repentinamente, me parecia claro, coerente, o Universo era uno e esplendoroso sem deixar de ser terrível. Pela primeira vez na minha vida, achava-me lúcido. E tudo porque me reconciliei comigo próprio.” Obviamente, Vergílio é vergiliano.

 

Outra passagem vergiliana é quando Irene, a irmã de Vergílio, reflecte sobre o próprio nome: “Quando pensas em mim […] eu sou um nome nos teus pensamentos ou um vulto, uma imagem? Pensas a Irene ou pensas em mim não com um nome? É que o nome capta a essência da coisa, torna-a individual e única.” Carolino, o Raskolnikov alentejano de Aparição, também mastiga as palavras (pedra, pedra, pedra) até ao caroço. O mesmo que Antoine Doinel faz em Beijos Roubados, de Truffaut, quando, em frente do espelho, repete o nome inúmeras vezes (antuáneduánel, antuáneduánel, antuáneduánel). A discussão poderia avançar para o racionalismo vs. empirismo / nominalismo (matéria que, tal como o sexo em grupo ou a filmografia de Bergman, me interessa, mas que não domino), ou levar-nos até ao poema de Jorge Luis Borges, El Golem:

 

Si (como afirma el griego en el Cratilo)
el nombre es arquetipo de la cosa
en las letras de 'rosa' está la rosa
y todo el Nilo en la palabra 'Nilo'.

 

ou a uma passagem de Orlando, de Virginia Woolf, em que @ protagonista descobre a diferença entre o verde na Natureza e o verde na Literatura. É sobre isto que Vergílio fala quando diz: “As rosas e as tulipas que deixei murchar só existem para mim enquanto palavras” ou “O real, para nós, era o verbal.”

 

A Vida Verdadeira tem também um episódio sobre a viagem enquanto cosa mentale, algo que dispensa a deslocação física para se realizar, para se tornar real. A viagem acontece nos preparativos. Há um poema, cujo nome a minha memória não quer recordar, de Fernando Pessoa, ou de um dos seus heterónimos, que conclui o mesmo. Sei que tenho isto apontado no último capítulo do livro de Fernando Savater, O Conteúdo da Felicidade, mas infelizmente estou na hora de almoço e muito longe dos meus livros.

 

* corrigido


Tiago Moreira Ramalho

 

O coiso (alguns chamam-lhe investigação) Freeport acabou e Sócrates, afinal, foi apenas caluniado, difamado, nada mais. Parabéns para ele e para os seus, que ninguém gosta da famelga no chilindró.

Além da inocência de José Sócrates, que, não fora sermos, a contragosto de tanta boa gente, uma coisa (alguns chamam-lhe Estado) republicana, já teria ganho cognome, também ficou uma vez mais provado que não passamos de uma simples terra de desconfiados. Ainda há pouco ouvi um senhor a gritar muito na televisão (não ouvi tempo suficiente para lhe perceber o nome) que somos obcecados na busca por criminosos, pensamos que isto é tudo corrupto e assim. É verdade. É tudo produto da nossa imaginação. Um povo inteiro cuja droga não permite a felicidade eterna mas sim a alucinação constante. Vemos criminosos onde eles não estão – nas autarquias, nos institutos e empresas públicas, nos governos ou nos parlamentos. E acabamos, caso após caso, sentença após sentença, mal vistos por andarmos a acusar gente que, no fim, não fez nada além de cumprir escrupulosamente, com elevado sentido ético, todos os postulados da lei.

Facilitemos. Em Portugal só há anjos. Somos um paraíso madisoniano. Fechem os tribunais, que tudo isto é coisa das vossas cabeças. Poupamos dinheirinho, que anda caro, e ainda podemos começar a falar de livros, em vez de falarmos de casos que percorrem gerações.


Rui Passos Rocha

Sócrates disse que a verdade acaba sempre por vir ao de cima e os abrantes aplaudem. Já o sabiam; já conheciam a verdade há anos. Não mudaram o discurso ao longo de todo este tempo, tão certos que estiveram sempre da verdade. Palmas para eles, cuja verdade acaba de prevalecer em tribunal. Uma verdade que, a bem dizer, nada lhes interessou até hoje. Interessou-lhes apenas a verdade da tribo. Como diz o Andreotti de Il Divo, em política os conceitos de verdade e de mentira nada dizem; o que verdadeiramente importa é verdade da tribo do poder, porque assim se garante a estabilidade. Mesmo quando ela cheira mal.


Terça-feira, 27 de Julho de 2010
Tiago Moreira Ramalho

 

Aposto o que os meus meninos quiserem que no fim a criança sacou aquela loirinha girinha do fundo e mais umas quantas.


Rui Passos Rocha


Segunda-feira, 26 de Julho de 2010
Tiago Moreira Ramalho

 

Chegou hoje, lá do além-mar. Vou acabar um cáinesiano iluminado.


Rui Passos Rocha

Sintonizado com a máxima de Maquiavel, Salazar preferiu ser temido a ser amado. Não só a militarização da mocidade, herdada do Duce, mas também a retórica da situação não foram personalistas; foram nacionalistas. O mais foi provincianismo e repressão preemptiva. O Estado Novo foi, por isso, "um mal menor que se suporta, mas a que não se adere", como lhe disse Marcello Caetano em 1948. Consequentemente, a democratização não abarcou uma terapia de choque colectiva. Expurgado o poder da meia dúzia de comandantes da ditadura, o povo não precisou de sacudir o capote e pôde politizar-se em liberdade. Não foi assim na Itália e na Alemanha, onde a politização em ditadura foi extrema, o próprio pensamento foi colectivizado e, no caso alemão, o advento da democracia implicou a assunção da culpa colectiva. Talvez por isso nas sondagens os portugueses pareçam menos interessados do que os outros na democracia, enquanto regime garantista e processual, valorizando sobretudo os resultados da governação; e talvez isso também explique em parte a nossa aparentemente maior apatia e a menor capacidade de mobilização política.


Tiago Moreira Ramalho

O leitor faz assim: pega nas suas coisinhas, atira-se para um sítio sem Internet e pouco telemóvel com um conjunto de pessoas que não odeie. Não lê um jornal, não vê um minuto de televisão e foge da rádio. Se puder, durma no chão, deitando-se tarde e acordando muito cedo. As dores nas costas e os bocejos são os combustíveis da vida feliz. No fim, volte, um dia depois do previsto, perca, apesar do atraso, dois comboios, não leia sobre o que aconteceu nos dias em que se ausentou e fique uns dias a ressacar do alheamento radical.

Para rematar, o Henrique Raposo não tem lá muita razão nesta coisa. O sr. Gresham explicava que a má moeda quica o ésse da boa moeda. O mesmo se passa com o elogio. O elogio bajulador tem andado a quicar o ésse do elogio desinteressado, o que faz com que tomemos o todo pela parte. O segredo está em comer McDonnald’s ao pequeno-almoço, ao almoço e, porque sim, substituí-lo pelo H3 ao jantar.


Sexta-feira, 23 de Julho de 2010
Bruno Vieira Amaral

Preâmbulo

 

A sociedade deve caminhar para o socialismo, mas tendo o cuidado de fazer intervalos a cada dez minutos para se refrescar. Assim que chegar ao socialismo, deve apanhar o 45 para o aeroporto. Atenção aos carteiristas!

 

Artº 1º - O país, à medida das possibilidades de cada um, deverá manter-se rectangular e parcialmente asfaltado;

 

Artº 2º - A saúde deverá ser tendencialmente gratuita, embora todos os cidadãos devam estar alertados para os elevados custos das doenças. Qualquer pessoa que se lesione com gravidade enquanto muda lâmpadas não receberá apoios monetários do Estado. Como forma de compensação, será disponibilizado um secretário de Estado para acompanhar a evolução do paciente, que em caso algum deverá enervar o representante oficial queixando-se da vida e comendo aperitivos;

 

Artº 3º - O despedimento com justa causa só é permitido às quintas-feiras e durante o horário de trabalho. Motivos para despedimento por justa causa: apresentar-se no local de trabalho sem cuecas (funcionários das Lojas do Cidadão); práticas sexuais com recurso a maquinaria pesada (apenas aplicável no sector da construção civil e da grande distribuição); insultar o patrão quando este está de costas (serralharias e pequeno comércio); assassinar colegas de trabalho (banca e indústria têxtil);

 

Artº 4º - A educação é um direito de todos. Pessoas sem habilitações equivalentes à antiga 4ª classe serão deportadas ou, as que aparentem perturbações mentais, condenadas a escrever romances.

 

Artº 5º - Qualquer cidadão tem o direito de circular livremente no país desde que munido de um gerador e de um baralho de cartas.

 

Artº 6º - O Estado é não-confessional, embora possa recorrer ocasionalmente ao serviço de bruxos, exorcistas e técnicos oficias de contas. Não serão permitidos nos edifícios públicos crucifixos e fotografias autografadas de Tony Carreira.

 

Artº 7º - Ao completar 18 anos, o cidadão tem direito a uma habitação de três assoalhadas ou de duas, caso se chame Isidoro.

 

Artº 8º - O Serviço Militar é obrigatório para cidadãos com mais de 2,20 metros. Os restantes podem optar por serviço comunitário ou por duas semanas de férias numa das Pousadas de Portugal.

 

Artº 9º - Os símbolos nacionais – o hino, a bandeira, a RTP e a selecção de hóquei em patins – devem ser respeitados. Quando na presença de Fátima Campos Ferreira (ex-Fátima Matos Lima, para que não pensem que são duas pessoas diferentes), o cidadão deve manter-se agachado enquanto imita um gnu.

 

Artº 10º O serviço público de televisão não pode ser extinto. Em caso de ameaça de destruição do país, Paula Moura Pinheiro e Fernando Mendes deverão ser encaminhados para um bunker com comida enlatada para dois anos e discos de Marvin Gaye.


Quinta-feira, 22 de Julho de 2010
Bruno Vieira Amaral

A liberdade "é um luxo de que nem todos podem usufruir".


Tiago Moreira Ramalho


Tiago Moreira Ramalho

Apeteceu ao João Martinho conversar comigo. Isto, claro, é um pressuposto meu, dado que no seu texto apenas me cita e me diz engraçado, acusando-me, lá para o fim, de ser meio vazio. Ora, como nada disto é novidade, porque o texto já estava aqui publicado, o que fez da citação uma coisa inútil, e porque toda a gente sabe que sou engraçado e, também, brutalmente vazio, nada se retira daqui além de uma tremenda vontade de um bate-papo blogosférico, que os chats brasileiros estão fora de moda. Enfim, «Olá, João Martinho, como é que isso vai?».

Conversa feita, aproveito para estender um pouco o post que deu ao João Martinho o mote para entabular tão agradável conversação. Naquele pequeno post, com um número de caracteres facilmente identificável num processador de texto regular, não tive o objectivo de finalizar a discussão, mas sim comentar a própria discussão. Hoje, que já demos uma vista de olhos pelo articulado, podemos avançar um pouquito mais.

A proposta de revisão que, pelos vistos, não é final, tem vários pontos de interesse. O primeiro é o objectivo confesso: tornar a Constituição o mais neutra possível. E, para isso, são suprimidos artigos completamente absurdos como os que definem objectivos da política económica, como a industrial, a comercial, entre outras. Aparentemente trivial, esta supressão é bastante relevante, pois a verdade é que este tipo de texto é próprio de programas de governo e não de leis fundamentais. A higienização ideológica da Constituição é muito mais relevante do que as propostas de alteração do poder do Presidente e das relações entre órgãos de soberania, propostas que, muito provavelmente, não irão avante, mas que são as que estão a receber mais atenção. Tornar a Constituição um objecto menos polémico é condição necessária para que acabe este desporto que é a proposta sucessiva de alterações. A Constituição tem de ser uma referência estável para todos e não uma garantia anti-democrática de prossecução de um determinado programa político que se acha merecedor de imposição generalizada. E, já agora, um forte abraço para o João Martinho. Sou tão boa pessoa, caramba.


Rui Passos Rocha


"Summer 78", de Yann Tiersen


Quarta-feira, 21 de Julho de 2010
Rui Passos Rocha

Rui Ramos diria que, não fosse o sucesso tangencial dos bolcheviques - depois esticado com recurso ao chicote -, o comunismo não seria hoje muito mais do que um abrigo para o pó dos arquivos bibliotecários. E que, do mesmo modo, não fosse o nazismo (cuja sorte poderia perfeitamente ter sido o lixo da História, como documenta Henry Ashby Turner em Hitler: Thirty Days to Power) não falaríamos hoje do fascismo como fenómeno de massas do entre e pós-guerras. Duvido. O que diz Jorge Luís Borges sobre o solipsismo digo eu sobre o holismo: que "é inevitável logicamente"; não "porque ninguém pode acreditar nele" e porque "os seus argumentos não admitem refutação", mas porque "os seus argumentos não admitem refutação", sendo por isso mesmo que é possível "acreditar nele".


Rui Passos Rocha

É pena que Die Welle dê vontade de rir. Pena que se baseie nos três documentos existentes sobre a experiência de Ron Jones (dois artigos no jornal escolar e um texto do próprio Jones) e preguiçosamente se limite ao lá relatado. Pouco nos mostra sobre como, logo ao fim do segundo dia da experiência, toda a turma obedecia diligentemente aos ditames do ditador de serviço, o professor. Nem dez minutos são filmados mostrando o ambiente destas duas aulas. Somos obrigados a perceber, por nós, o porquê de ao terceiro dia já "a terceira onda se ter tornado o centro da existência" dos estudantes. Aliás, só lendo o texto de Jones é que se compreende porque prolongou a experiência mesmo quando "muitos estudantes tinham ultrapassado os limites": "If I stopped the experiment a great number of students would be left hanging. They had committed themselves in front of their peers to radical behavior. Emotionally and psychologically they had exposed themselves. If I suddenly jolted them back to classroom reality I would face a confused student-body for the remainder of the year. It would be too painful and demeaning for Robert and the students like him to be twisted back into a seat and told it's just a game. They would take the ridicule from the brighter students that participated in a measured and cautious way. I couldn't let the Roberts lose again." No final, onde Die Welle ensaia o suicídio de Robert e a prisão de Jones (ou melhor, dos seus imitadores na ficção alemã), na realidade Jones deixa a turma atónita e a chorar no auditório em que, depois de ter anunciado um comunicado do líder fascista nacional, nada surge e lhes dá conta da fantochada que programou. Que "trocaram a razão por regras" e disciplina fica patente, quer no filme quer no texto de Jones, mas nem um nem o outro exploram a consciência humana - por inabilidade e/ou por preguiça, em ambos os casos. O leitor e o espectador que concluam o que entenderem. Ou seja, nada, para além da repetição da pergunta que - curiosamente - despoletou a experiência de Jones: porque é que, depois de Nuremberga, o grosso dos alemães dizia nada saber sobre a maquiavélica governação nazi, quando foram coniventes com ela?


Tiago Moreira Ramalho

Há um artigo na Constituição (Art. 96.º) sobre as 'Formas de exploração da terra alheia'. Nem eu me lembraria de um outro sítio para regular esta questão.


Tiago Moreira Ramalho

Temos um artigo na Constituição (Art. 69.º) sobre a 'Infância'. O artigo seguinte (Art. 70.º, portanto) é sobre a 'Juventude'.


Tiago Moreira Ramalho

Temos um artigo na Constituição (Art. 67.º) sobre a 'Família'. A 'Família' é matéria de regulação constitucional. Que tempo, este que é o nosso.


Tiago Moreira Ramalho

Temos um artigo na Constituição (Art. 94.º) sobre a 'Eliminação dos latifúndios' e outro (Art. 95.º) sobre o 'Redimensionamento do minifúndio'. Precioso.


Tiago Moreira Ramalho

Temos um artigo na Constituição (Art. 79.º) sobre o 'Cultura Física e desporto'. O número 1 diz que 'Todos têm direito à cultura física e ao desporto'. Ainda vinha para aí alguém proibir-nos as corridinhas.


autores

Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

comentários recentes
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