Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010
Tiago Moreira Ramalho

De volta ao campo, que a vida na civilização cansa, e em harmonia com a ferrovia, que é uma garota bem jeitosa, mas um pedacinho desamparada, que os calmeirões só gostam de engatar o alcatrão, manias, tenho a dizer que não, não somos todos ciganos, mas que, sim, quando um inocente está preso só os cobardes podem andar nas ruas.

A deportação massiva de ciganos – perdoe-se-me não usar aquela palavra da moda, toda muito pimpona, mas cresci a ouvir ciganos (por vezes com sufixos e prefixos, digamos, pouco líricos) – por parte do governo francês dá vontade de ir mijar (ou pior) na campa do senhor Jefferson, para quem a França era a segunda pátria de todos nós, logo a seguir àquela que o destino nos reservou para natal. Acredito que uma medida semelhante, se aplicada por estas bandas, que isto é mais francês que o catano, apesar de lhes termos chutado o rabo há uns anitos, seria recebida com uma aceitação ainda maior que a pornográfica aceitação francesa. Apesar de sermos um país de tristes emigrantes que foram para trolhas com uma mão à frente e outra atrás, somos donos de uma especial arrogância nestas matérias. São os pretos de merda, os cabrões dos chineses, os filhos-da-puta dos indianos e, enfim, porque é deles que falamos agora, os ciganos do caralho.

De qualquer modo, abstraindo-nos nós do triste facto de haver muita matéria desperdiçada em humanos desnecessários – ai o misantropo, como ele anda!... –, a verdade é que só um Estado falhado pode permitir, até do ponto de vista constitucional, uma limpeza étnica como a que vemos hoje. É inconcebível que a França que inventou os Direitos Humanos e ajudou a dar à luz a União Europeia seja a mesma França que, tantos anos depois, suja as mãos, enviando cidadãos inocentes, muitos deles crianças, idosos, famílias inteiras, em aviõezinhos para a Roménia e a Bulgária com chequezinhos de valor variável – trezentos euritos para os adultos, cem euritos para a piquinada. Sente-se no ar o cheirinho dos velhos livros de História. Deixemos que esta gente brinque com coisas sérias, que acabaremos a chorar o desleixo.


Bruno Vieira Amaral

Publicado no i

 

Unha com Carne, Elmore Leonard, Teorema

 

“Não tinha paciência para os argumentistas que tentavam fazer descrições de cenas com um toque literário. Chamava-lhes argumentos Ó-pra-mim-a-escrever. Agora olha para o argumento dos irmãos Coen para o Este País Não É Para Velhos. É sucinto mas tem lá tudo, nem uma palavra a mais.” (p. 228)

 

Há uma frase no filme Chinatown que ajuda a perceber o consenso da crítica em relação a Elmore Leonard, basta que lhe acrescentemos os escritores: “Políticos, prédios feios e prostitutas tornam-se respeitáveis se duram muito.” Longevidade, despretensiosismo e adaptações cinematográficas por realizadores como Soderbergh e Tarantino transformaram Leonard em autor de culto: nem suficientemente bom para estar ao lado dos grandes, nem tão mau para ser atirado para o caixote do lixo. Aos oitenta e quatro anos, Leonard continua a escrever como sempre escreveu (um estilo expurgado de ornamentos), dentro do género que o popularizou (escrevia westerns mas quando o negócio passou de moda dedicou-se aos thrillers policiais) e até se dá ao luxo de recuperar personagens de outros romances, que é o que acontece neste Unha Com Carne, como se convidasse velhos amigos para uma grande festa. Jack Foley, o assaltante de bancos de Out of Sight, Cundo Rey, o criminoso cubano de LaBrava e a vidente Dawn Navarro, de Riding the Rap, são figuras resgatadas para este romance de amizades interessadas, traições e reviravoltas.

 

Não é difícil imaginar uma futura adaptação para cinema, mas a ligação entre a sétima arte e os livros de Leonard é duplamente parasitária. Se o cinema se tem alimentado da obra de Leonard, o próprio autor não dispensa os nutrientes do cinema. O que se vê não apenas na estrutura que facilita a adaptação (narrativa linear, capítulos curtos, muitos e bons diálogos, nada de descrições e psicologia), mas também nas personagens que citam Scarface ou Os Três Dias do Condor e que podem ser ex-vedetas e produtores de cinema, assaltantes de bancos e o lumpen do show-biz: strippers, videntes e partenaires de mágicos.

 

Tantas vezes louvado pelo realismo de diálogos e personagens, em Unha com Carne Elmore Leonard monta, uma vez mais, um jogo de espelhos em que a realidade se parece despudoradamente com a ficção. Se o leitor chegar ao fim a pensar “isto é como nos filmes” é porque os romances de Leonard devem mais aos códigos do policial (literário e cinematográfico) do que a qualquer forma de realismo. Os policiais são mesmo assim, como nos filmes.


Tiago Moreira Ramalho

Então parece que houve uma manifestação, assim daquelas na rua, para contestar, assim veementemente, a barbárie iraniana. E parece que, a seguir, um bando de idiotas, uns involuntários, os mais tristes, e outros voluntários, os mais confusos, veio chamar de idiotas os que lá andaram. Bando de idiotas, a protestar contra a lapidação de mulheres, não sabem o que é bom. Em mil nove e cinquenta e oito, quando eu andava a jogar nos descampados, levava pedradas e ainda aqui ando. Pois. É a lapidação de seres humanos e o toucinho. Coisas agradáveis, se levarem um pedacinho de açúcar. Quanto ao resto, façam favor de pegar num cabo bem grande e espetá-lo até que vos saia pela garganta. É que há limites para a estupidez, rapaziada.


Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010
Priscila Rêgo

Que faríamos nós se não fosse a regulação?


Domingo, 22 de Agosto de 2010
Bruno Vieira Amaral

Longe de mim querer comparar Memento a O Último Ano em Marienbad, num exercício de cabotino filisteu. Memento quer ser percebido, ainda que se esconda sob um contorcionismo de argumento. Tem a profundidade intelectual de um puzzle. É uma obra de arte no mesmo patamar de um problema de sudoku. Já o velhinho filme de Resnais não está organizado de forma a ser percebido. É uma obra de arte que foge ao espectador até que este, e não a obra, se renda. É claro que o espectador pode fazê-lo de duas maneiras: mandando Resnais à merda e dizer que não percebeu nada do filme ou contemplando a obra sem querer à força traduzi-la para o seu (muitas vezes parco) léxico mental. Há obras de arte que existem e tudo o que são e podem ser é o lugar que ocupam no mundo. Dentro de certos filmes "percebíveis" há imagens que não se rendem. Penso em duas: o último plano em que aparece a personagem de Barbara Bel Geddes em Vertigo e a imagem final de Jean-Pierre Léaud em Os 400 Golpes. Não sei o que significam, mas sei que me dizem tudo aquilo que preciso de saber. 


Sábado, 21 de Agosto de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Começa a tornar-se corriqueira, o que é caminho andado para se tornar verdade oficial, a ideia de que existe um preconceito de classe relativamente a Pedro Passos Coelho. O Francisco José Viegas defende a ideia aqui e, noutros lados, outros a defendem, como é bem sabido.

Digamos que a coisa cai bem. De uma assentada, desqualifica-se o adversário, apodando-o de discriminadorzinho irracional, e, ao mesmo tempo, vitimiza-se o sujeito da conversa, Passos himself, além de se associar a figura a uma outra figura, a qual, regra, os que usam esta argumentaçãozinha não apreciam muito. Falamos aqui, leitor desatento, de Aníbal himself. Digamos que do ponto de vista retórico, melhor é difícil. Tirando o logos do discurso, está lá tudo, e como o logos, por estas bandas, é o que menos interessa, podemos dizer que está lá tudo ponto. A verdade, essa, fica para outro dia.


Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010
Bruno Vieira Amaral

Um bom professor vale anos de estudo de manuais obsoletos, compensa o convívio forçado com patetas incuráveis, justifica o tempo perdido em transportes para se chegar à faculdade. O bom professor é aquele que nos ensina o que só ele nos pode ensinar. O bom professor é aquele que, durante uma aula de História numa secundária dos subúrbios, discute Ian McEwan connosco. O bom professor é aquele que nos leva até Borges e, com toda a generosidade do mundo, nos empresta uma edição de Ficções. O bom professor é aquele que, a pretexto de uma matéria qualquer, nos convida para ver Ondas de Paixão. O bom professor é aquele que, no meio da estupidez geral de uma turma do nono ano, tem a coragem de se dizer fã de Debussy. O bom professor é aquele que sai do caminho estreito dos programas e partilha com os alunos um pouco do seu mundo, da sua experiência, do seu conhecimento, da sua perplexidade perante a vida. Alfredo Tinoco foi um desses professores. Recordo pouco das aulas dele, qualquer coisa sobre Museologia, mas não esqueço aquela tarde numa esplanada de Entrecampos em que afirmou, com um sorriso gaiato e a voz rouca de gigante, que era anarquista e que, por isso, não se dava ao trabalho de votar. Proclamou, ufano, a aversão ao bicho automóvel e confessou que não tinha carta de condução e que, mesmo a trabalhar no estrangeiro, encontrara sempre uma solução para esse problema que, na nossa época, equivale a uma deficiência. Esta simples lição sobre diferença ensinou-me mais do que todas as aulas sobre eco-museus e patrimónios. Infelizmente, não vou a tempo de lhe agradecer essa dádiva, porque o Professor Alfredo Tinoco, mestre gentil e grave, morreu esta semana. A generosidade, da qual fomos felizes beneficiários naquele fim de tarde, permanece comigo.

 

Bruno Vieira Amaral e Henrique Raposo


Quinta-feira, 19 de Agosto de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Passar férias no Portugal Rural implica certas cedências que a confortável vida suburbana evita. Uma delas é assistir de sorriso amarelo, que o agrado, quando não é genuíno, deve ser fingido, à programação dos canais de sinal aberto. Ora sucede que, de manhã, e eu hoje acordei de manhã, a menos que tenhamos um jornal, que não se vende por cá, ou um livro ao lado, apenas podemos optar entre os três programas do Goucha e os desenhos animados de má qualidade da RTP2 – se fossem de boa qualidade, vê-los-ia. Livro ao lado até tinha, mas a vontade era pouca, então acabei a refastelar-me na cama a assistir a um desses programas do Goucha, que, no caso, era apresentado por uma senhora grávida e um senhor careca. A determinada altura, mesmo antes de ir à retrete, o que me pareceu uma providencial coincidência, chega ao programa, a seguir à gritaria da dupla apresentadeira, a menina Ana Malhoa, senhorita que me divertiu nos tempos do Buéréré – sabes que começou no «a» – e que foi elogiada pelo apresentador careca por, entre outras coisas, não ter papas na língua. Fazia vinte e cinco anos de carreira – qual era a carreira não disseram – e, à conta disso, fez um documentário sobre si própria a que chamou, porque aquela cabecinha é um poço de subtileza, «Sexy – a História da Ana Malhoa». Havia choradeira, cantarolice, fatos apertados e botas gigantes. Uma obra digna de Óscar. Finda a apresentação do «documentário», a senhora grávida toca no assunto que mais arrelia Ana Malhoa: a reacção dos críticos. Valha-nos Deus, que a Ana passou-se logo. Irritava-a a ignorância de quem fala mal do seu trabalho sem o conhecer, dessas más-línguas que não compreendem as maravilhas que ela vomita em fatiotas de napa. Pronto, pronto, lá a acalmaram dando-lhe o docinho: um momento musical todo ele em play-back. Toda sorrisinhos, lá se levantou – ou alevantou, como preferir – a Ana e foi pular para o palcozinho. A seguir, o céu. O poema era de génio – para os padrões actuais – e a voz angelical – tão angelical como a de um barman de cinquenta anos. Despreocupada, ela continuava, a dizer aquelas coisas todas, provavelmente sobre alguém que lhe meteu a cornamenta ou alguém a quem ela a meteu, não interessa para o caso. O que interessa é que quando desliguei a televisão, para finalmente ir à retrete, dei por mim a pensar que o senhor apresentador careca, além de ter pouco do lado de fora da cabeça, também tem pouco do lado de dentro. É que mais valia que a Aninha tivesse mais papas na língua, que assim sempre se poupavam uns decibéis para as gerações futuras.


Bruno Vieira Amaral

Nenhum de nós será virgem na experiência de ser convidado para um delito, tentação que, para os apreciadores do género, entre os quais me incluo, se nos oferece costumeiramente sob a forma de uma mulher que a literatura policial e poetas sem imaginação designam por fatal. Não será este o caso, até porque o convite me foi endereçado por um homem, ainda que em representação de um colectivo que inclui senhoras, senhoritas e, se posso confiar nos meus conhecimentos, um escritor. Confesso, portanto, que foi com o maior dos prazeres (exagero, é claro, como o confirma a primeira frase) que participei no delito e disponibilizo-me às autoridades para explicar os contornos da minha esporádica e deliciosa transgressão.


Bruno Vieira Amaral

Frase de Macedonio Fernández aproveitada por Julio Cortázar (Papéis Inesperados, Cavalo de Ferro): "São tantos os ausentes que se falta mais um, esse não cabe."


Quarta-feira, 18 de Agosto de 2010
Rui Passos Rocha

 

In Memoriam Dylan Thomas - de Stravinsky -, baseado em Do Not Go Gentle Into That Good Night, de Dylan Thomas:

 

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.


Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

 

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

 

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

 

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

 

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.


Bruno Vieira Amaral

Vi Memento uma única vez. Lembro-me que o filme foi apodado de original, inovador e ousado, adjectivos que me pareceram adequados porque, certamente por desatenção minha, não percebi nada. Também não percebi nada de O Último Ano em Marienbad e nem sequer me atrevo a dizer que é menos que genial. Gosto muito do Resnais de On Connait la Chanson, que é um filme para mentes mais convencionais e burguesas, mas Marienbad ultrapassa-me de tal forma que quando me pedem opinião sobre o filme repito uma frase que inclui “sensorial”, “onírico”, “cinemática” e “Robbe-Grillet”, mas já estou a preparar uma versão em que acrescento “nouveau roman” e “plasticidade”. Quanto a Christopher Nolan, pude comprová-lo ontem ao ver A Origem, tem ideias engenhosas mas sem qualquer substância. A Origem é um heist movie psicanalítico: sonhos dentro de sonhos, cofres como metáfora para os segredos guardados no subconsciente, di Caprio a repetir o papel de Shutter Island (se no início da carreira di Caprio era conhecido por encarnar personagens que acabavam sempre por morrer, agora é garantido que há-de ficar viúvo e atormentado pela culpa). A ideia de Nolan é tão original, inovadora e ousada que as personagens são obrigadas a explicá-la com tantos pormenores que o espectador médio é obrigado a perceber que a ideia é aborrecida, banal e vazia. É como se, atravessados todos os níveis do sonho (excitantes como uma montanha-russa com efeitos pirotécnicos), o espectador chegasse ao cofre e não encontrasse nada lá dentro. A ideia de Nolan seria excelente se ele não tivesse de a explicar. Quanto aos sonhos, continuo a preferir aqueles que começam ao som de uma harpa a estes que não se distinguem de um videojogo.


Segunda-feira, 16 de Agosto de 2010
A Douta Ignorância

Os autores deste blog agradecem à escritora Rita Ferro o destaque no Sapo. É para estas coisas que trabalhamos todos os dias, com muito sacrifício e muita humildade. Se vamos jogar de início? O mister é que decide.


Domingo, 15 de Agosto de 2010
Rui Passos Rocha



editado por Bruno Vieira Amaral em 16/08/2010 às 21:30link do post | comentar | ver comentários (2)
Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010
Rui Passos Rocha

«Os alemães capturaram cerca de 5,5 milhões de soldados soviéticos durante a guerra, três quartos dos quais nos primeiros sete meses a seguir ao ataque à URSS, em Junho de 1941. Destes, 3,3 milhões morreram de fome, frio e maus tratos nos campos alemães. Morreram mais russos nos campos de prisioneiros de guerra alemães nos anos de 1941-1945 do que em toda a Primeira Guerra Mundial. Dos 750 000 soldados soviéticos capturados quando os alemães tomaram Kiev, em Setembro de 1941, apenas 22 000 sobreviveram para ver a Alemanha derrotada. Por sua vez, os soviéticos fizeram 3,5 milhões de prisioneiros de guerra (na sua maioria alemães, austríacos, romenos e húngaros). A maioria deles regressou a casa depois da guerra.»

 

Tony Judt, no Pós-Guerra.


Rui Passos Rocha

E, já agora – e para terminar -, não há embargo, por mais estúpido, injusto e desumano que seja, que justifique uma lei de perigosidade.


Rui Passos Rocha

Talvez os extremos se toquem. Afinal, o partido nazi era Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Dos trabalhadores, não da burguesia (Hayek diz que foi precisamente a ausência de uma burguesia, minada pelo socialismo, que propulsionou o nazismo). Aliás, Fichte e outros ideólogos importantes para o fascismo eram socialistas, assim como o foram, inicialmente, as saudações militarizadas e os movimentos infantis, mocidades se preferirem. Mussolini, Laval e Quisling também começaram do lado esquerdo. Talvez os extremos se toquem. E não é o massacre desumano planeado pelo grupo de bêbedos e sociopatas nazis que, por si só, eleva aos mesmos píncaros todo o fascismo.


Rui Passos Rocha

Digamos, agora, que “pensar em termos de um sistema […] resolve de uma penada todos os problemas da humanidade” (Kolakowski) e que, se condimentado isso com a concepção do Estado como um instrumento de opressão de classe, até premir o gatilho a alguns parecerá justificável se à esquina entrevirem a redenção. Uma democracia - sem sarcasmo, porque assim é apelidada - “em que o estado é o único empregador, oposição significa morrer lentamente de fome” (Trotsky). Num tal tipo de democracia, em que por vezes é preciso “dar uma lição ao público para que não se atreva a pensar em resistência durante várias décadas” (Lenine), até a permanência de crianças no GULAG será concebível tendo em conta que o caminho para o socialismo ainda está a ser trilhado (mulher de Lenine). Nesta democracia, plebiscitária com vencedor predefinido, dificilmente não será “cada homem um mero agente, um mero número” (Tocqueville). E nesta forma de democracia, acreditar “em duas coisas que são absolutamente diferentes e talvez até contraditórias: liberdade e organização” (Halévy) poderá ser concebível, se se procurar liberdade na organização, o dilema de Rousseau. A crença é capaz de muito, até de imaginar um regime em que “os trabalhadores serão tão produtivos que trabalharão voluntariamente de acordo com as suas capacidades […] e cada um receberá [o seu salário] livremente de acordo com as suas necessidades” (Lenine). Até Hobsbawm, o grande historiador contemporâneo e comunista ortodoxo, cede no ponto em que “a possibilidade de ditadura está implícita em qualquer regime baseado num poder único, irremovível”. E as ditaduras, como vamos sabendo, não só “corrompem absolutamente” (Acton) como são tudo o que uma Humanidade pacífica deve evitar. Se uma (comunismo) é melhor do que outra (fascismo), podendo ser verdade é acima de tudo lateral.


Rui Passos Rocha

Mas pare-se lá o baile, que ainda não me escudo de eventualmente ser mentecapto: não extraio dali tudo o que há a extrair para afirmar se sim ou não “uma ditadura não é melhor do que outra”. As entranhas revolvem-se-me um pouco com frases incluíndo “ditadura” e “melhor”, mas avance-se; e passe-se ao lado da especulação sobre quão “melhor” ela será para que a frase mereça sequer ser escrita – presumivelmente foi-o porque bem “melhor” se a conceberá. Avance-se, então, deixando também de parte que, do lado daquele tipo de argumentação normalmente está um sovietismo anti-estalinista que, porém, agrupa nazismo e fascismo, transformando a comparação numa luta corpo-a-corpo entre Krushchev e Hitler, David e Golias. Porque não comparar Estaline a Hitler e Krushchev a Mussolini? Em qualquer dos casos o primeiro contou mais cabeças. E porquê ficarmo-nos por estes países? Estima-se em 150 milhões os mortos pelo comunismo no século passado. E porquê, se nos dizem que o problema do comunismo esteve, não estará, na prática, não lembrar o ideólogo Lenine, hoje sentado à direita de Marx num qualquer paraíso igualitário, quando também ele na prática foi de uma humanidade venerável? Ordenou ele: “1. Enforcai (e assegurai-vos de que o enforcamento tem lugar à plena vista do povo) um mínimo de cem notórios kulaks, homens ricos e sanguessugas. 2. Publicai os seus nomes. 3. Confiscai todos os seus cereais. 4. Nomeai reféns em concordância com o telegrama de ontem. Façam-no de uma forma que, por centenas de quilómetros em redor, as pessoas possam ver, tremer, saber, gritar: eles estão a estrangular e estrangularão até à morte as sanguessugas kulaks”. E porque não, por fim, lembrar que antes da II Guerra os Gestapo eram apenas 8 mil se comparados com os 350 mil da GPU? Na idade dos extremos, um foi horripilante, mas o outro abriu mais valas.


Bruno Vieira Amaral

A minha carreira como jogador de futebol durou dez treinos a lateral direito e um auto-golo. Ainda participei em dois ou três torneios de futebol de cinco, como avançado e como guarda-redes, mas sempre com o mesmo insucesso, à excepção de um improvável golo que só não considero genial por ter sido tão fortuito como um milagre; recebi a bola de costas para a baliza, marcado por um adversário, meti-lhe uma cueca e, à saída do guarda-redes, rematei cruzado e rasteiro. O pai de um miúdo da outra equipa deu-me os parabéns e, depois disso, refiz várias vezes aqueles movimentos na minha memória, mas com o passar dos anos fui perdendo precisão e calculo que, daqui a muitos anos, a única imagem guardada – porque a memória não quererá atazanar o corpo com lembranças daquilo que este já não poderá fazer - será a daquele homem de bigode a bater palmas e a incentivar-me. Este momento de glória obscura, porque ocorrido num ringue da gozável Baixa da Banheira, acompanha-me e quando hoje assisto a jogos dos infantis não deixo de sentir como aquilo que parece uma brincadeira para quem o vê de fora é tão importante, decisivo e grandioso para o miúdo que está dentro do campo. Quando entram em campo, as camisolas, os calções, as chuteiras, o símbolo do clube ao peito – a noção de representar um clube perde a conotação mercenária do futebol dos grandes e readquire o sentido primitivo de intérprete individual do colectivo, a magia simples de se ser parte de um todo – sérios como numa primeira comunhão, aquele jogo é para eles todo o mundo. Tudo o que existe é ali que existe, tudo o que lhes pode acontecer é ali que pode acontecer. Entre os miúdos há aqueles que aos oito anos já têm toda a parafernália das vedetas (fitas, cabelos, ademanes, impropérios) e há os outros que mais parecem homúnculos de futuros professores de geografia. Há tempos, observei um destes últimos. Pele protector 50, cabelo engomado, gordinho, perfeito para acolitar padres em paróquias do interior. Assim que o jogo começou, o meu preconceito foi triturado pela realidade. Não só era o mais inteligente (sempre no sítio certo), o mais tecnicista (nada de malabarismos, falo de pôr a bola redonda no pé do colega a vinte metros) e de uma rapidez que o seu aspecto rechonchudo não fazia adivinhar. Era o melhor jogador da equipa e nem sequer usava fitas no cabelo. Demonstrava uma tal segurança em tudo o que fazia que fiquei convencido que, qualquer que seja a profissão que venha a escolher, terá sucesso. Se vier a ser jogador de futebol, terá muito mais para recordar do que um golo solitário num festival de fracassos.


Rui Passos Rocha

Por graça (piada, quero eu dizer) de Nosso Senhor Jesus Cristo, acontece que a única tradução para português dji Portugau d'Um Dia na Vida de Ivan Denisovich foi feita pela sacrossanta Europa-América, esse portento. Uma tradução, diga-se, baseada numa edição inglesa, o que é desde logo promissor. Em virtude de coiso, acontece então que as 182 páginas do livro são esgalháveis em cinco-seis horitas, não mais porque dificilmente os olhos suportam tanto escarro verbal. E eis que a segunda obra de Solzhenitsin parece ter sido escrita por Passos Coelho entre um almoço em Lamego e um abraço, nessa noite, a Rajoy num comício do PP. Mas nem tudo é discurso. O conteúdo, esse sim da colheita do Nobel russo, fica muito aquém do geminado Se Isto é um Homem. Não por culpa do autor; por culpa da realidade: no que toca à arte do enjaulamento, os soviéticos lá foram sendo mais humanos do que os arianos. Não têm grande graça (piada, quero eu dizer) os banhos de 13 em 13 dias ou a centopeia regulamentar, que impunha aos prisioneiros o número certo de passos em que, antes e depois de se cruzarem com um guarda, teriam de tirar ou pôr o gorro. Mas tem bem menos graça (piada, quero ainda dizer) lembrar que os nazis cuspiam no chão quando se cruzavam com judeus, subalimentaram-nos, organizaram massacres arbitrários para uns (tu, tu, tu e tu já de frente para a parede) e assaram o grosso dos restantes. Como escreveu John Gray, o Holocausto introduziu uma nova categoria de moral. Com isto nenhum Solzhenitsin poderia rivalizar.


Quarta-feira, 11 de Agosto de 2010
Rui Passos Rocha


Tiago Moreira Ramalho

Quem não ler este artigo da Newsweek não é pessoa de bem.


Bruno Vieira Amaral

A literatura não se cansa de nos oferecer suicídios. Na vida real, conhecemos as histórias de alguns. Amigos, parentes, conhecidos que tomaram um último cálice de veneno, que se atiraram de um terceiro andar ou de uma ponte, que ficaram no meio da linha à espera do comboio, que deram o tiro de misericórdia. Um desgosto, uma doença terminal, uma vida incurável: nada parece ser suficiente para justificar o acto e, contudo, nenhum gesto parece tão racional, lógico, quando imaginamos os sofrimentos indizíveis que o motivaram. Não somos capazes de julgar um acto que não sabemos se é heróico ou trágico, cobarde ou corajoso, desesperado ou cruelmente lúcido. Talvez tenha um pouco de todas essas características.

 

Em 2003, Tad Friend publicou um artigo na New Yorker sobre os suicidas da Golden Gate, em São Francisco. Entrevistou um homem que sobreviveu ao salto e estas foram as suas palavras: “I instantly realized that everything in my life that I’d thought was unfixable was totally fixable – except for having just jumped.” Os suicidas bem sucedidos inspiram-nos desdém pelo egoísmo revelado, admiração pela determinação necessária para executar o gesto e uma estranha compaixão que resulta de não termos acesso ao derradeiro assomo daquela consciência. Queria apenas chamar a atenção? Será que se arrependeu? E no caso de não se ter arrependido, que valores podem justificar o atentado contra o bem supremo? O suicídio não tem sentido? Ou é o único clarão de sentido numa vida absurda? Confrontados com estas questões, somos levados a repetir o célebre incipit de O Mito de Sísifo, de Albert Camus: “Il n’y a qu’un problème philosophique vraiment sérieux: c’est le suicide.”

 

E, no entanto, os suicídios não são todos iguais. Na literatura, muitas vezes a finalidade do suicídio é oposta. O suicídio de Judas Iscariotes é ignominioso, uma morte adequada ao seu papel de traidor. Se Judas morresse às mãos de um dos discípulos ou, anos mais tarde, de morte natural, à traição faltaria o derradeiro opróbrio, a mancha final e eterna. Os evangelistas não brincaram em serviço e Judas tem direito a dois suicídios: Mateus escreve que Judas se enforcou e Marcos, nos Actos dos Apóstolos, afirma que Judas “adquiriu um campo com o salário de seu crime. Depois tombando para frente arrebentou ao meio e todas as vísceras se derramaram.” Muito diferente é o suicídio de Antígona, na tragédia homónima. Condenada por Creonte a viver emparedada, Antígona tira a própria vida quando o tio se preparava para revogar a pena. Ainda hoje, Antígona é um símbolo da luta do indivíduo contra a Razão de Estado e o seu suicídio um grito contra a tirania. Quando a desgraça se abate sobre Creonte (a mulher Eurídice e o filho Hémon também se suicidam) o seu castigo não é a morte mas “ter de continuar a viver” (Maria Helena da Rocha Pereira, Antígona, Ed. Gulbenkian, 1992) o que coloca em perspectiva a afirmação de que a vida é o bem supremo. No livro Atentar contra Si, o escritor Jean Améry (que se suicidou dois anos após a publicação do livro) analisa dois “suicídios” muito diferentes (desde logo porque um é ficção e não se concretiza e outro é real) para questionar aquela afirmação: o do segundo-tenente Gustl, personagem de um conto do austríaco Arthur Schnitzler, e o de uma empregada doméstica cuja história ocupou as primeiras páginas dos jornais durante a juventude de Jean Améry. A empregada atirou-se de uma janela alegadamente por não ver correspondida a sua paixão por um galã da rádio. Gustl pensa em suicidar-se por não se julgar à altura do “uniforme imperial”, depois de ter sido humilhado numa briga com um padeiro. Em ambos os casos, Améry detecta nas “personagens” a consideração de valores que se sobrepõem à própria vida. No caso de Gustl, o código de honra do exército, o significado do uniforme que enverga. No caso da empregada, “a voz maviosa do artista”, as promessas de felicidade que não se podem cumprir. O primeiro é um quase-suicídio político, relativo à polis, anti-antigoniano (a razão do corpo colectivo impera sobre o indivíduo). O segundo é pessoal, íntimo e sentimental, claramente wertheriano. No entanto, Werther (A Paixão do Jovem Werther, Goethe) é não apenas um suicida mas também, na definição de Améry, um suicidário, alguém que corteja a ideia da morte voluntária e que é capaz de produzir pensamento sobre o tema (Améry, ele próprio, é o exemplo do suicidário que, por fim, se suicida). Eis a síntese da teoria wertheriana: “A natureza humana [...] tem os seus limites: pode suportar a alegria, o sofrimento, a dor até certo ponto, arruína-se, porém, mal ele seja ultrapassado. Assim, a questão não é ser-se fraco ou forte, mas conseguir suportar a medida do seu sofrimento, seja moral ou físico. E acho tão estranho chamar covarde a quem põe fim à própria vida como a quem morre de febre maligna.” Werther, incapaz de lidar com a frustração amorosa e social, não morre de febre maligna. O seu suicídio, baseado na teoria que expôs, é o reconhecimento de que, em determinadas circunstâncias, a vida não é o bem supremo. Uma ideia que tem sido aproveitada pela literatura, das tragédias gregas ao romance do século XIX.

 

No seu romance mais recente, The Humbling, Philip Roth elenca alguns suicidas em peças teatrais (Hedda Gabler, Jocasta, Ofélia, Fedra) para concluir que “what was remarkable was the frequency with which suicide enters into drama, as though it were a formula fundamental to drama, not necessarily supported by the action as dictated by the workings of the genre itself.” A estrutura dramática pede o suicídio. A literatura socorre-se da morte voluntária para punir os prevaricadores, para castigar os sobreviventes e para exacerbar o clímax. Neste sentido, Madame Bovary é uma descendente de Judas (as trinta moedas de prata que Judas recebeu certamente chegariam para pagar a dívida de três mil francos que é a gota de água que empurra Ema para a morte) e parente afastada da empregada doméstica de Améry. O seu suicídio é um castigo que não mancha as mãos de outros e resulta de ilusões amorosas de natureza muito distinta da paixão do jovem Werther. Os sentimentos nobres de Werther contrastam com a sensualidade pequeno-burguesa e um tanto reles de Ema, embora as personagens partilhem fraquezas de carácter. Enquanto Goethe “mata” Werther de uma forma limpa e digna, Flaubert “constrói” a agonia de Ema (que ele dizia ter sentido fisicamente) como um resumo da sordidez moral da personagem. Mas a grande diferença reside aqui: Werther escreve, Ema lê. Madame Bovary não é uma suicidária. O suicídio é apenas a resposta desesperada à situação em que caiu. A antítese do suicídio de Jeremiah de Saint-Amour, uma das mais fascinantes do vasto panteão de personagens inesquecíveis concebidas por Gabriel Garcia Marquez. “Nunca hei-de ser velho”, confidencia de Saint-Amour à amante. Refugiado antilhano, inválido da guerra, fotógrafo de crianças e xadrezista, Saint-Amour prepara o suicídio com método. O acto não nasce do desespero. É um projecto acalentado durante anos, planeado ao pormenor e executado sem falhas. Encerra-se em casa, fecha portas e janelas e vaporiza cianeto de ouro numa tina. Na porta deixa um aviso: “Entre sem tocar e avise a polícia”. Deixa uma carta de onze páginas ao seu melhor amigo, o Doutor Juvenal Urbino. A caligrafia é “esmerada”. O suicídio de de Saint-Amour, uma personagem secundária, ocorre logo nas primeiras páginas de Amor nos Tempos de Cólera. Por estes motivos, não pode ser lido como um “truque” dramático exigido pelas convenções do género romanesco. É apenas a afirmação serena mas resoluta, expurgada de todo o desespero, de que até na literatura a vida não é o bem supremo.

 

No Inferno de Dante, os suicidas habitam o sétimo círculo. Pier della Vigna é o primeiro encontrado por Dante no seu percurso. Della Vigna era secretário de Frederico II. Conhecedores da influência que exercia sobre o imperador, os nobres conspiraram contra Della Vigna, que acabou acusado de traição. No contexto da obra de Dante, este episódio equivale a uma absolvição de Della Vigna, vítima de uma acusação injusta. Para o tema do suicídio, mostra-nos que há coisas sem as quais não vale a pena viver. Um uniforme, a voz de um cantor, a honra, o respeito pelos nossos mortos, a juventude, a confiança daqueles que servimos e amamos, tudo o que nos pode parecer fútil ou desnecessário quando comparado com o bem que é a vida, é essencial para que alguns homens e mulheres insistam em viver. A vida e os livros estão aí para nos ensinar esta lição.


Segunda-feira, 9 de Agosto de 2010
Bruno Vieira Amaral

Alberto Gonçalves: "Além do mais, ver telenovelas é demasiado efeminado até para os padrões em causa." Alberto Gonçalves também diz: "[...] E democrática: da pequenina Footlight (especializada em musicais, uma preferência pessoal) [...]."


Tiago Moreira Ramalho

Haverá poucas torturas mais perversas que ouvir senhoras a falar de futebol. Uma senhora, ou rapariga, a falar de futebol é uma machadada que me dão no preconceito. O futebol é reles, suado, asneirento, sujo. As senhoras são delicadas, graciosas, cheirosas. Quando, no meio de rapazes, surge uma beldade dizendo «o Sporting é que é!» e começa a entoar cânticos e a dar pulinhos, fico com vontade de me kantizar e passar a viver exclusivamente para a biblioteca.

Haverá várias motivações para esta deriva das fêmeas do meu tempo. Podemos afirmar que a tendência radica numa espécie de indiferenciação dos géneros que domina a geração. É a igualdade a assumir patamares esteticamente desagradáveis. Podemos também afirmar que, pontualmente, tal coisa se deve à tentativa de a fêmea conquistar um macho mais rudimentar. E não nos esqueçamos da eterna motivação pela emancipação, motivação louvável, é certo, mas que leva muita senhorita a fazer palermice grossa.

Independentemente dos motivos, uma coisa é certa: há pouca sensualidade numa senhora que fala em «foras de jogo» e em «penalties»; que insulta o árbitro e levanta o dedo para o treinador; que bebe uma cervejola enquanto abre as pernas e curva as costas de frente para a televisão. Há uma música portuguesa, daquelas boas, que diz que não se pode amar quem não gosta da mesma canção. Enfim, senhoras, se querem o meu amor, nunca usem a expressão «onze inicial» numa conversa comigo.


Domingo, 8 de Agosto de 2010
Bruno Vieira Amaral

A onda pró-bolaño, cujo clímax português ocorreu por altura do lançamento de 2666, não é mais carneirista, imbecil e cansativa do que a onda anti-Bolaño que parece ter dado à costa agora. Não falo de apreciadores e detractores genuínos. Esses terão as suas razões. Os outros, os que surfam as ondas, têm ambos aspirações elitistas fundadas quer na superioridade do gosto e do embevecimento parolo com tudo o que é reconhecido no estrangeiro, quer na recusa mal-humorada de uma obra literária que acreditam ser impingida pelo marketing. No fundo, são sentimentos gémeos que encontram casa na disponibilidade de alguns para gritar periodicamente “Genial!” e na de outros para encolher os ombros e suspirar “Eu cá gosto é de ler mortos”, como se entre Goethe ou Cervantes, Rabelais ou Flaubert, Faulkner ou Pearl S. Buck não houvesse nenhuma diferença para além de terem morrido há muitos anos. Leiam. Leiam muito. Leiam a merda e os génios, leiam a merda dos génios, porque os génios também metem a pata na poça, desistam de livros a meio, releiam se já nada vos convence, mas leiam muito, sempre. E deixem o Bolaño em paz (leiam-no ou não, mas poupem-no às vossas guerras provincianas), que pode não ser tão bom como acreditam os admiradores, mas também não é tão mau como o pintam algumas “fashion victims” às avessas – não há criatura mais influenciável pelo marketing do que aquela que recusa um produto apenas por estar farta dos anúncios.


Sábado, 7 de Agosto de 2010
Bruno Vieira Amaral

Aqui. E com a permissão dos cavalheiros, chamo a atenção para o texto da Mónica Marques.


Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010
Tiago Moreira Ramalho

O Henrique Raposo acertou numa coisa com esta crónica: «O mercado é o mercado». Esta garrettice de dizer que para uns ganharem o que ganham outros têm de ganhar menos é um dos mais perenes disparates da discussão pública portuguesa. Vamos ver se nos entendemos: a PT e a EDP, independentemente das participações do Estado, que, diga-se, costuma votar contra certos salários, têm donos. Esses donos, venha lá quem vier, são quem toma a responsabilidade da empresa. E se esses donos querem dar aos seus gestores salários elevados, ninguém, repitamos com um sorriso, ninguém tem nada que ver com o assunto. Já os salários dos trabalhadores não costumam ser votados em Assembleia Geral, mas são simplesmente definidos pelo mercado. «O mercado é o mercado». Se há gente a trabalhar para a PT por setecentos euros, independentemente da nossa apreciação sobre o valor – afinal, porque é que um salário de setecentos euros é baixo, alto ou assim-assim? Quem define tal coisa? – é porque existe gente que considera que o seu trabalho vale setecentos euros ou menos. E, novamente, em relação a isso nada temos que dizer, nós que estamos de fora.

Salários mais altos? Qualquer ser racional gostaria. Até um ser irracional gosta de ter mais comida, melhor dormida e mais segurança. A questão é que as negociações salariais são negociações privadas e não há reflexão moral possível que se lhes possa arrancar, mesmo que queiramos muito.


Rui Passos Rocha

Os progressistas originais contrapunham-se ao imobilismo dos conservadores, uma elite privilegiada que quereria manter a sua rede de privilégios e subjugar as massas. Para além da abertura democrática que defendiam, os progressistas queriam nivelar a sociedade por cima: gerar um modo de desenvolvimento económico que não só fosse igualitário mas próspero, dando um semelhante nível de riqueza a todos. Era esse o objectivo do marxismo; foi esse o grande objectivo de Lenine: retirar os grilhões à populaça, que, verdadeiramente livre, quereria trabalhar com o triplo do empenho e assim aumentar a produtividade. Não foi bem assim, como sabemos, e as sucessivas experiências do socialismo utópico deram mostrar da ruína deste modelo de desenvolvimento. Desde então, e sem a economia nas mãos (que entregaram ao neoliberalismo em troca de um reforço da redistribuição estatal), os progressistas ocupam-se de freios à economia de mercado: ora porque estamos a estragar o ecossistema, ora porque as desigualdades são enormes, ora porque os recursos do planeta são finitos, ora porque o modelo capitalista é ganancioso e contraria a procura da felicidade. Os progressistas são agora conservadores: até o crescimento económico lhes parece pecaminoso; acham que já atingimos níveis de vida mais do que suficientes, exagerados até, e que devemos voltar à comunidade fraternal de outros tempos, solidária e amiga da natureza. São os conservadores de ontem os progressistas de hoje: a nobreza identificada com a burguesia, que imagina a possibilidade de maior prosperidade, para todos em vez de apenas a elite. Apenas uma coisa não mudou: o igualitarismo é ainda supremo para os ex-progressistas, independentemente da prosperidade geral; o nivelamento deve ser feito por baixo. Para os progressistas de hoje, o nivelamento deve ser feito por cima. Para já o modelo capitalista triunfou, mas os ex-progressistas ainda procuram uma alternativa ao Fim da História.


Bruno Vieira Amaral

Aproveito para republicar esta singela carta e aconselhar o leitor a comprar a edição de amanhã do jornal i, com textos inéditos de Francisco José Viegas, Hugo Gonçalves, João Tordo, Mónica Marques e V.M. Barreto sobre crimes reais.

 

 

 

Caro Serial Killer de Santa Comba Dão,

 

Folgo muito em saber que, para cometer os seus hediondos crimes, ter-se-á inspirado na obra-prima de Nagisa Oshima, O Império dos Sentidos. De início, pensei que você seria mais um daqueles psicopatas comuns que recebem ordens dos cães ou dos electrodomésticos; engano meu. Você pode ser um pouco abrutalhado mas, no seu íntimo, resiste uma centelha estética que normalmente não é associada a criminosos e, muito menos, a cabos da GNR. Por este motivo comecei, não a simpatizar, porque não simpatizo com pessoas que esquartejam outras e que guardam os restos em sacas de ração mas, a compreender as suas motivações artísticas. Digamos que eu estou para si como Stockhausen esteve para o 11 de Setembro. Estou certo de que compreenderá o que quero dizer. O que o torna único e especialmente digno de não ser apedrejado e arrastado desde Santa Comba Dão até à Figueira da Foz é a sua coragem ao assumir-se como adepto de cinema asiático. Você é uma minoria. As suas perspectivas podem não ser as mais animadoras neste momento mas eu antevejo-lhe uma pena levezinha, um indulto e, dê-lhe mais uns três ou quatro aninhos, um subsídio. O seu arrojo estético pode muito bem tê-lo resgatado das acaloradas arengas de Hernâni Carvalho e da minúcia científica de Moita Flores; você conquistou o direito a ser comentado pelo João Lopes. Você não é apenas mais um caso de polícia; você é um enigmático problema de semiótica. Gostaria muito de discutir consigo Kurosawa, sobretudo a multiplicação de pontos de vista em Rashomon, mas presumo que, nesta linda manhã de 6ª feira, você esteja mais preocupado em preservar a sua integridade física, objectivo que considero louvável e, até certo ponto, construtivista.


Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010
Tiago Moreira Ramalho

São os melhores textos, de longe, que o Luís Naves escreve – os da sua série «Emoções Básicas». Felizmente – felizmente! – abriu um blogue solitário só para esses.


Segunda-feira, 2 de Agosto de 2010
Rui Passos Rocha

Se não é vencedora, Cuba merece pelo menos uma menção honrosa no campeonato legislativo por uma lei sobre a peligrosidad, que prevê o encarceramento preemptivo de pessoas que, diz o Estado, poderiam vir a cometer crimes no futuro. Aparentemente a coisa dá-se assim: se alguém falha uma manifestação pró-governo, não está inscrito numa organização do partido (não é por falta de variedade, diga-se) ou pura e simplesmente está desempregado pode ser preso preemptivamente em prol do bem-estar social. Mas parece que a coisa pega-se: se alguém for visto junto de um tal parasita social poderá também ser detido preemptivamente. Então, e porque de bom humor estão os partidos comunistas cheios, parece que um senhor - de nome Digzan Saavedra Prat, já de si digno de suspeita, digo eu - passou em 2008 algum do seu tempo livre a descrever abusos de direitos humanos pelo Estado para uma associação clandestina cubana, uma espécie de Human Rights Watch de bairro. Vai daí, o sr. sapateiro foi preso por peligrosidad porque, segundo a acusação, tinha "ligações a pessoas de moral e conduta social reprováveis", era "um mau exemplo para as novas gerações" e, porque o melhor vem sempre no fim, "pensava que era bonito". Assim mesmo, minha gente: "Thinking he is handsome". Deus, o redactor dos pecados capitais, não poderia concordar mais.


A Douta Ignorância

Convidámos o escritor Vasco Luís Curado, autor do romance A Vida Verdadeira, publicado pela Dom Quixote, a escrever um pequeno texto sobre a guerra colonial, tema que também é abordado naquele livro. Pensamos que o drama dos antigos combatentes merece mais atenção do que aquela que lhe é dispensada; foi esse o motivo do convite feito ao Vasco e que ele prontamente aceitou. O Douta agradece-lhe a colaboração:

 

 

 

A guerra do Ultramar acabou há demasiado pouco tempo. Os combatentes, esquecidos pela sociedade e pelo poder político, têm uma coisa fundamental contra eles: milhares ainda estão vivos. Tem de passar tempo suficiente para se ter uma melhor perspectiva histórica, o que implicará que todos tenham morrido. Cruzamo-nos nas ruas, ou temos nas nossas famílias, pessoas que participaram no encerrar de um ciclo que Portugal tinha iniciado 560 anos antes, em 1415, com a conquista de Ceuta. Declarámo-nos cabeça de um Império tropical espalhado por quatro continentes, fechámos esse ciclo repentinamente e aderimos com entusiasmo à integração europeia. O País, empenhado em contar os quilómetros de boa estrada asfaltada até Bruxelas e Estrasburgo, quis esquecer-se daqueles que andaram a picar estrada de terra à procura de minas, em Nambuangongo, em Buba ou em Mueda. Os próprios também quiseram esquecer, porque as guerras impõem aos combatentes uma necessidade impossível de satisfazer: esquecer o inesquecível, reprimir o irreprimível.

 

Forças e tendências estruturantes da identidade, ou pseudo-identidade, portuguesa se conjuraram para dificultar a vida aos veteranos da guerra colonial. Achou-se que o colonialismo era uma missão atribuída por Deus, um dever nobre e altruísta de civilizar povos mais atrasados. Outras potências coloniais eram movidas por cobiça de lucros e montavam empresas de exploração comercial com nomes de países. Nós não. Deus tinha planos especiais para os portugueses e dizia-lhes para irem civilizar quem tanto precisava de ser civilizado. Assim, não havia condições mentais para se aceitar as mudanças políticas do mundo, e Portugal erigiu um ideal de defesa da civilização latina cristã em África contra a vaga liberal que apadrinhou os nacionalismos africanos a partir de 1945. A segunda tendência ou força que prejudicaria os combatentes foi negar-se que havia uma guerra nas colónias: era apenas um policiamento contra meia dúzia de terroristas estrangeiros a soldo dos comunistas. Se não havia guerra, como poderia haver stress de guerra, indemnizações, reconhecimento?

 

O ambiente de guerra adormece as emoções e leva a fazer coisas que noutras circunstâncias não se faria. Não há uma consciência individual, mas colectiva, cada um trabalha para objectivos que o ultrapassam. O problema é que depois se regressa à consciência individual e se assume individualmente coisas que tinham sido colectivas. O País, que durante a guerra não assumia a própria existência de uma guerra, a seguir ao 25 de Abril cometeu erros de igual monta: mandou-os para casa como se nada fosse, como se os 560 anos anteriores fossem uma nota de rodapé de um manual escolar ou um Padrão dos Descobrimentos para turistas fotografarem, deixou-os sozinhos com responsabilidades que tinham sido nacionais, não preveniu as consequências de se ter sido em tempos um combatente. O País, isto é, todos nós, não quis saber daquele combatente que, regressado a casa, dormiu um mês no bosque próximo com a faca de mato, ou daquele que de vez em quando acorda convicto de que aos pés da cama está um saco cheio de orelhas e dedos humanos, ou daquele que se levanta todos os dias às cinco da manhã e se senta no sofá da sala, a que chama o “canto da morte”, e recapitula a guerra e pensa em matar-se. O País é que foi combatente e reduplica à escala nacional a experiência individual. Assim como o combatente se apazigua aceitando as marcas físicas ou mentais como tatuagens que são parte indelével de si mesmo, o País, ou seja, todos nós, amadurece recuperando o seu passado e aqueles que enviou para o combate. Por isso é que temos de começar a fazer História agora, não num vago tempo futuro, e, em respeito pelos que combateram, ajudá-los num outro combate contra um duplo esquecimento: o que eles individualmente gostariam de fazer e não podem, e o que o País cobardemente lhes quer impor e não devia.

 

Vasco Luís Curado


Bruno Vieira Amaral

Este post da Carla.


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