Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010
Priscila Rêgo

O PSD diz que só aprova o Orçamento se a execução orçamental de 2010 der mostras de correr bem. É uma péssima ideia. Não é fácil perceber, através dos boletins opacos da Direcção-Geral do Orçamento, o verdadeiro estado das contas públicas. Além disso, o que aconteceu em 2010 não é da responsabilidade do PSD. Há pouco a fazer em relação a isso. Mas há muito por fazer em relação a 2011.

 

Por isso, proponho que o PSD apresente três condições simples para negociar um Orçamento com o Governo. O João Miranda é demasiado exigente. Pela minha parte, sugiro o seguinte: a) não haverá aumento de impostos; b) os mapas de despesa de todos os Ministérios terão inscrito um volume de gastos que será inferior em 5.100 milhões de euros ao registado em 2010, o que chega para reduzir o défice; c) o limite de endividamento líquido do Estado não permitirá um défice superior a 4,6% do PIB.

 

E é só isto. Quanto às rubricas a cortar e despesas a fazer, o Governo que se entenda.

 

 


Rui Passos Rocha

Isto é possível, mas falta-lhe qualquer coisinha: o PSD andou a fazer sinais de luzes para a necessidade de mudanças na Constituição e, quando obteve a atenção pretendida, não só se explicou mal como, ao dar a bandeira do Estado Social ao PS, foi obrigado a fazer marcha-atrás e a retratar-se. Tendo em conta que em 1984, apenas dois anos depois de uma revisão constitucional, cerca de 65% dos inquiridos numa sondagem não sabiam dizer quais as principais mudanças inscritas na Constituição (e esse era ainda um tempo de maior mobilização política), imagino que não seja agora particularmente complicado para o PS encostar o PSD às cordas do radicalismo e vencer eleições em nome de uma estabilidade ameaçada pelos revolucionários coelhistas. Para já parece simples: sem a abstenção do PSD, o PS vai assobiar para que o FMI traga o cacetete.


Priscila Rêgo

O “pacote de austeridade” do Governo é um excelente pacote. Não para o cidadão comum, que pouco vai beneficiar dele, mas para o próprio Governo, que com um tiro só mata dois coelhos de rajada. E o disparo tem ainda a vantagem de atirar muito fumo para a cara do eleitor. Já vi isto noutras alturas: treta, treta, treta. Mas vamos por partes.

 

O Governo tinha dois problemas orçamentais. O primeiro era a execução orçamental de 2010, que estava a correr manifestamente mal. O segundo era a sobrestimação do impacto de algumas das medidas apresentadas por altura do PEC 2. Nomeadamente, o seu efeito em 2011. Havia, portanto, dois objectivos: safar as contas de 2010 e preparar caminho para aumentar os impostos em 2011.

 

As medidas que o Governo quer enfiar a toda a força no Orçamento do Estado cumprem as suas funções na perfeição. Em primeiro lugar, enchem as manchetes dos jornais com a palavra “austeridade”. Na verdade, a palavra correcta seria “aldrabice”. O Governo vai controlar o défice de 2010 com um artifício contabilístico ignóbil, que devia fazer corar de vergonha o ministro das Finanças. Mas o ruído está criado: hoje, todos falam do impacto de cada medida de austeridade no bolso do pensionista, do funcionário público ou do contribuinte. O "caso PT" morreu, até que seja ressuscitado pelo Eurostat.

 

A apresentação de medidas de corte de despesa num pacote de aumento de impostos ajudam a ganhar margem negocial junto do PSD. O PSD já não pode negar um Orçamento: as medidas estão lá, e a consolidação orçamental será feita pelo lado da despesa, tal como era pedido. O Governo queria impostos: vai tê-los. Embrulhados num pacote muito bem tricotado, que o PSD tem agora menos margem para rejeitar.

 

Claro que um observador atento notará que as medidas de controlo orçamental são para inglês ver. A medida mais emblemática é o corte de salários da função pública. Qual é o impacto? Não conheço a estrutura salarial com suficiente desagregação, mas seria incrível que conseguissem reduzir a massa salarial em 5% cortando apenas os vencimentos de quem ganha mais de 1.500 euros. Soa-me a treta da grande, na linha daquilo que já aconteceu no ano passado. Depois, há medidas avulsas como a redução das transferências para as autarquias, menos prestações sociais, menos dinheiro para as empresas públicas, etc. Medidas que, aqui e acolá, já estavam presentes… no PEC 2. O Governo não fornece informação detalhada em relação às medidas, mas não é difícil perceber que serão, em muitos casos, uma mera recapitulação daquilo que já foi anunciado há quatro meses.

 

O mais curioso é que as medidas do lado da despesa não exigem passar pelo crivo do Parlamento. Leram bem isto: nada daquilo que o Governo se propõe a fazer no que diz respeito aos gastos do Estado obriga a nova lei. O PEC 3 é um pedido manhoso: aprovem a subida de impostos para que nos comprometamos a fazer exactamente aquilo que nos comprometemos a fazer em Maio. E, de permeio, esqueçam a PT. Aliás, aposto mesmo que a proposta de Orçamento do Estado não traduzirá as medidas de contenção de gastos em tectos de despesa nos mapas anexos. Business as usual, portanto.

 

E caimos todos que nem parvos.

 


Bruno Vieira Amaral

 

Com Burt Lancaster, em Sweet Smell of Success


Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010
Rui Passos Rocha

Como diria um conhecido, pouco há com mais valor do que pensar fora da caixa. É por isso que, no espírito altruístico que todos me reconhecem, aqui venho saudar a nobreza das afirmações de um trabalhador sindicalizado - naturalmente não nomeado pelo Público, ou não poderia o pobre homem com tanta futura proposta de emprego em think-tanks - que, contra as expectativas até das mais recônditas mentes, disse opor-se à abertura dos hipermercados aos domingos e feriados porque vai «causar prejuízos à economia» e «gerar desempregos».


Terça-feira, 28 de Setembro de 2010
Rui Passos Rocha

 

...tanto.


Domingo, 26 de Setembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

O governo que se chora pelos cantos do rectângulo luso, apelando ao entendimento, diálogo e ao popularucho «deixem-nos trabalhar», tudo pela estabilidade e assim, é o mesmo governo que, semana sim semana não, promete mandar a aliança pelo esgoto e bater com a porta. Como é que é possível que um país inteiro, numa situação como a actual, tolere que o governo eleito ameace demitir-se repetida e despudoradamente? E os mercados, já não interessam? E as agências de rating, os FMI e restantes Adamastores dos tempos modernos, não querem saber? A coisa é muito simples: se querem ir, pois que vão, agora não empatem, que já não há paciência.


Sábado, 25 de Setembro de 2010
Rui Passos Rocha

José Manuel Fernandes está preocupado com a apatia política dos portugueses. Uma apatia que, permitam-me o arrojo, é menina para engordar nos próximos tempos à conta da negociação-birra do Orçamento entre PS e PSD (leia-se Partido Social-democrata e Partido Conservador, respectivamente). Percebo e partilho a preocupação do ex-director do Público. Manuela Ferreira Leite, cuja frontalidade incensou antes da ascensão do ex-jotinha, foi quem mais fez nos últimos anos pela redução da apatia. Foi genial: lançou a piadola da suspensão da democracia durante uns seis mesitos que serviria para laboriosamente esvaziar o pântano e lá plantar umas buganvílias. Foi, como vimos, tiro (no pé) e queda - nas sondagens, claro. Não bastando o fantasma de Comba Dão, pouco depois a senhora espirituosa decidiu regar o viçoso jardim da democracia madeirense, provocando novamente o choque de meio país. Por nós, povo necessitado de mártires, deu o corpo à expiação. Poucos foram tão altruístas quanto ela, que por uns meses nos retirou do coma da apatia, polarizando a política. Agora, com os holofotes financeiros sobre o país, tanto rosas como laranjas, ocupados que estão a lutar pelo Kinder Surpresa, parecem interessados não apenas no retorno da apatia mas, ó figuras de Estado, em instigar sentimentos e comportamentos anti-políticos.


Tiago Moreira Ramalho

Ontem, de mochilinha às costas, porque há gente de bem que, dos vários pontos de vista possíveis, trabalha, e muito, fui passear, digamos que à hora certa, para o Bairro Alto. E tal, pessoas, olá, olá, tudo bem, como estás, o cabelo podia estar melhor, pobrezinha da criança, caralho para a complacência, e dei por mim a pensar no extraordinário fenómeno social, sim, porque eu sou um gajo todo virado para os fenómenos sociais, nomeadamente aqueles que são extraordinários, que se gerou em toda aquela zona. É impressionante como sem decreto ou imposição a própria ordem espontânea gerou uma segregação comercialóide absurdamente precisa. Il y a as ruas de metaleiros, de punks, de gays, de mais ou menos gays, de velhos, de miúdos, de Erasmus, de putas, de tudo. Nunca havendo misturas. É como uma feirinha de humanidade em que a pessoa de bem, alheada das várias formas de expressão da espécie, se pode informar com maior fiabilidade que na wikipédia, sobre as várias formas de ser humano. Nós, que somos essencialmente gente calorosa e tolerante, apesar de um pouco distante e avessa à diversidade, gostamos bastante.


Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010
Bruno Vieira Amaral

O que me ocorre dizer neste momento tão grave para o país é que o Público tem uma jornalista que se chama Jeniffer Lopes.


Quinta-feira, 23 de Setembro de 2010
Rui Passos Rocha

Salinger’s characters are like aspiring monks with no religion.


Terça-feira, 21 de Setembro de 2010
Bruno Vieira Amaral

Explicadas neste post muito bom.


Bruno Vieira Amaral

Entrevista ao autor da excelente biografia Clarice Lispector - Uma Vida.  Uma obra que concilia a paixão pela obra de Clarice com o rigor histórico e um enorme talento narrativo.


Domingo, 19 de Setembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

O senhor Taylor, indivíduo que, pela força das circunstâncias, já morreu, como quase toda a gente que interessa, disse aqui e acolá, apontando logo a seguir, a fim de publicar, que a ascensão de Hitler se deveu, em grande parte, à sua ingenuidade. Era um parvinho o senhor Hitler, portanto, e isso é que lhe valeu ser a figura mais odiada da História da Humanidade. Por cá, os nossos ingénuos, muito mais inofensivos, graças ao Senhor, parecem ter as respectivas ascensões baseadas em alicerces semelhantes. A estupidez dá votos e o desenrascanço é qualidade essencial para se ser homem de Estado. O estúpido actual, pelo menos, deve ter tirado muitas lições desta lição de Taylor.


Tiago Moreira Ramalho

Do ponto de vista constitucional, institucional e, até, no que respeita às liberdades democráticas, parece-me de franco mau gosto que se ande por aí a gritar aos sete ventos que a selecção vai ter o «special one» como treinador. Digamos que não recebi nem sequer uma mensagem de texto com tal proposta, pelo que considero um tremendo despautério esta inventona. No dia em que me quiserem a seleccionar jogadores para ir fazer recreio no estrangeiro, avisam-me directamente e eu logo pondero. Assim, não.


Sábado, 18 de Setembro de 2010
Rui Passos Rocha

Um ano depois, em 1976, Soares sonhava com um PS-charneira entre comunistas e conservadores (PSD e CDS), mas ficou preso na necessidade de coligações e, fivela apertada pelos burocratas-monetaristas, nas gadanhas de um General Presidente, nome de gente de douta ignorância, cuja iniciativa trouxe ao poder a única primeira-ministra e sósia capilar de Thatcher. Anos depois, e passada a azia com Cavaco, o líder histórico viu Guterres, o sr. da terceira via (nem esquerda nem direita, apenas boa e má gestão ó crápulas ideológicos), chegar finalmente ao centro e atirar o PSD para o frio táxi do CDS. Em 2008, já com Sócrates, agraciado pelas preces da carmelita Manuela Ferreira Leite, eis que de novo as águas do Mar Rosa se separaram e o PS alapou a socialista nádega no centro do espectro político - aqui, como atrás, refiro-me a como o eleitorado posiciona, em sondagens, os partidos entre 1 e 10. Em 2010, com 86 anos no bucho, Soares que procurou evitar a alternativa bipolarista (PS-esquerda vs PSD-direita), deve estar a revirar-se com a segunda alternativa, entrevista algures no horizonte: o PSD passista a reaproximar-se do regaço centrista, de onde o PS dificilmente descolará.


Rui Passos Rocha

O erro é primitivo. Em 1975, quando o deus-25 de Abril nos atirou a costela-Constituinte, um destacado dirigente socialista - não me recordo quem, mas não é dos notáveis - dizia que os deputados se encontravam na posição originária de Rawls, com incerteza praticamente total em relação ao resultado que dali adviria. Todos cobertos, deduzo, pelo famoso véu da ignorância. Hoje, mais de 35 anos depois, nem uma alminha - senão a minha, atormentada pelo pecado da espécie - veio a público dizer que para Rawls o véu da ignorância, quando despido pela oligarquia no poder, não deveria ser atirado para cima das massas.


Terça-feira, 14 de Setembro de 2010
Rui Passos Rocha

Prosseguindo com os tesourinhos, aqui vai um de Narana Coissoró, deputado do CDS (como se vê, com o típico nome do machão nortenho de bigode), sobre os gastos de campanha para as legislativas de 1991: «Gastámos aquilo que é o máximo do limite legal. Mas todos sabem que toda a gente gastou muito mais. E todos dizem que gastaram o máximo legal».


Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010
Rui Passos Rocha

Isto com políticos parece que não vai lá: o descontentamento face aos partidos e ao modo corrente de fazer política é praticamente generalizado. Há alternativa? Enquanto não é por cá criado um Partido Melhor, como em Reiquejavique, notem-se pelo menos algumas ideias - para eventual futura aplicação: uma de alguém do Bloco de Esquerda, que decidiu criar no Facebook uma página para um macaco e assim concorrer em número de fãs com a de Paulo Portas; e a outra brilhantemente escrita por Guterres em 1984 para o Expresso: «Qualquer dos quatro grandes partidos poderia até colocar impunemente um atrasado mental a sexto ou sétimo candidato por Lisboa, desde que tivesse a precaução elementar de o manter suficientemente escondido durante a campanha».


Domingo, 12 de Setembro de 2010
Rui Passos Rocha

Domingo à noite, nada de especial para fazer, revisito um texto do João Pereira Coutinho sobre Cavaco Silva e noto que este meu superior hierárquico, justamente porque até hoje não teve dúvidas e raramente se enganou - apesar de não ocupar os seus olhos atarefados-com-coisas-mais-importantes com a imprensa portuguesa -, escreveu na famigerada Autobiografia Política (uma alminha que me envie pró e-mail um cachozito de citações dos dois calhamaços, pode ser?) que teve uma leve indisposição horas antes de Sá Carneiro se mitificar em Camarate. Ainda bem que temos limitação a dois mandatos; oráculo por oráculo, pelo menos o professor Karamba reeditaria a histeria em favor do Obama.


Priscila Rêgo

Suponha o leitor que é um jogador de futebol subitamente beneficiado por uma decisão incorrecta do árbitro. Fala ou fica calado? O Fernando Alexandre fez a pergunta e o Luís Aguiar-Conraria deu uma resposta que me pareceu aceitável.

 

(...) para mim a questão nem é de lealdade. É mesmo, quase, de justiça desportiva. O erro do árbitro faz parte do jogo. De certeza que o árbitro se enganou mais vezes ao longo deste jogo de que o Fernando fala. Se o árbitro for honesto, os erros tenderão a anular-se. Se os jogadores da Polónia corrigirem o árbitro sempre que este se engane a seu favor, então, no fim, o árbitro, sem ter culpa nenhuma, irá beneficiar a equipa russa.

 

Mas só à primeira vista. À segunda, parece-me que a ideia tem alguns problemas. São os seguintes.

 

Em primeiro lugar, os erros sérios e graves são relativamente raros. Num estudo do International Board (sem link) que cobria um período de três anos do campeonato inglês, chegou-se à conclusão de que os chamados lances decisivos, como penaltys por assinalar e golos mal anulados, acontecem, em média, uma vez por cada quatro ou cinco jogos. A ideia de que as más e boas decisões tendem a anular-se é errada: simplesmente não há tantos lances cruciais por jogo para o árbitro distribuir democraticamente as prebendas pelas duas equipas.

 

É possível argumentar que, apesar de estes lances serem raros em cada jogo, eles são muito comuns ao longo de uma temporada. Por exemplo, uma equipa é prejudicada num jogo mas, como há muitos jogos por época, no longo prazo não haverá prejudicados nem beneficiados. Mas este argumento passa por cima do facto de o futebol ser um jogo caótico em que um pequeno benefício no início da época pode ter um efeito enorme nos restantes jogos. Além do facto ainda mais óbvio de muitos troféus serem decididos por eliminatórias ou sistemas de bota-fora a duas mãos.

 

Em segundo lugar, não é verdade que um árbitrio honesto erre de forma equitativa. Os erros dos árbitrios dependem não só da curva de Gauss mas também de factores como o número de pessoas no estádio, a distância da bancada ao campo, a exstência do chamado "fosso", etc. Equipas mais pequenas tendem a ser mais prejudicadas, o que pode levar a um processo de feedback positivo em que os mais fortes são mais beneficiados, tornam-se mais fortes e são, por isso, novamente beneficiados.

 

Em terceiro lugar, a ideia de que um jogador não pode alertar o árbitro para um erro porque dessa acabará prejudicado depende do facto crucial de a outra equipa não seguir a mesma conduta. Mas, pela mesma lógica, podemos concluir que os jogadores de uma equipa devem tentar enganar o árbitro, pelo menos se adversário também o fizer. E isto levanta, não só um problema ético, mas também um problema prático que pode levar a uma "corrida às armas" das simulações. [Na verdade, pergunto-me frequentemente por que é que isso não acontece. O meu palpite é que se as simulações se tornarem demasiado frequentes o árbitro irá rapidamente "descontar" esse factor na sua arbitragem, permitindo um jogo mais duro em que nenhuma das equipas tem interesse.]


Sábado, 11 de Setembro de 2010
Rui Passos Rocha

Mais do que «the Cuban model doesn't even work for us anymore» (que, segundo um discurso mais recente de Fidel - e como qualquer alminha honesta teria logo descortinado à primeira, mas infelizmente o capitalismo torna-nos todos desonestos - significa afinal que «the capitalist system no longer works for the United States or the world», e que por isso «how could such a system work for a socialist country like Cuba?»), da entrevista ao ex-líder ficou-me sobretudo a marca da justeza e eficiência do modelo económico cubano: sabendo que um espectáculo de golfinhos estaria encerrado no dia em que o queria ver, respondeu «it will be open». Assim foi: não só pôde ver o espectáculo como todos os funcionários estiveram presentes, a trabalhar «voluntariamente». É admirável. Nem o mais avarento dos capitalistas imaginaria um modelo de funcionamento em que só se trabalhasse os minutos absolutamente indispensáveis. Os alegres funcionários cubanos, não só os da Baía dos Golfinhos de Havana, trabalham «voluntariamente» - como prescreveu, aliás, o profeta Lenine - e só quando a sociedade assim o requer. O «it will be open» de Fidel seria, num Estado oligárquico e explorador de matriz capitalista, mais um dos inúmeros sinais de abuso de poder; mas numa sociedade revolucionária de espírito igualitário, como a orgulhosa e «voluntária» Cuba, é óbvio que qualquer um pode gritar «it will be open» enquanto corta as barbas ao seu charuto.


Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010
Rui Passos Rocha

Como imortalizar um personagem literário: «I am the Raskolnikov of jerking off - the sticky evidence is everywhere» (Portnoy's Complaint, Philip Roth). Se a literatura portuguesa é má na cama, como há tempos dizia o Público, a judaica começa a parecer-me boa de punho.


Quarta-feira, 8 de Setembro de 2010
Bruno Vieira Amaral

O post tem de começar assim: eu não sei se Carlos Cruz é culpado ou inocente. Não sei. Ele diz que é inocente, o Tribunal entendeu que ele é culpado. Só não percebo o choque de algumas pessoas que o vêem a desmultiplicar-se em entrevistas e conferências de imprensa. Esquecem-se que os media que agora lhe dão tempo de antena, foram os mesmos que o condenaram antes da sentença; esquecem-se que o processo Casa Pia não é um mero processo judicial, é também, e muito pela presença de Carlos Cruz, um processo mediático, com regras próprias. As hienas (todos nós) que acompanharam o processo por envolver figuras da praça pública queriam agora, hipocritamente, que Carlos Cruz aceitasse com tranquilidade a sentença e não recorresse a todos os meios (a todos os media) para provar a inocência que sempre reclamou? Agora já estão fartos de ver o Carlos Cruz? Então façamos todos um grande favor ao nosso sistema judicial e que nenhum de nós comente os nomes que Cruz ameaça tornar públicos. Querem uma aposta que está tudo mortinho por ver a lista? Pois é, depois não se queixem que eles não saem da televisão. Carlos Cruz pagou o preço (no tribunal da comunicação social) de ser uma figura pública, agora vai apresentar a factura. Golpeado durante oito anos à vista de todos, não vai agora lamber as feridas para os curros. É óbvio que prefere morrer na arena, que o espectáculo não vai ser bonito e que ninguém vai desviar o olhar.


Terça-feira, 7 de Setembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

A crónica que o Pedro Lomba assina hoje, no Público, é um belo retrato de uma certa cultura que, de uma forma ou de outra, se vai mantendo. Eu era ainda um petiz que, sendo certo que não jogava à bola, brincava aos legos, mas lembro-me perfeitamente do choque que foi a inclusão do nome do Carlos Cruz, o amigo Carlos Cruz, o Carlos Cruz lá de casa, no processo Casa Pia. O Carlos Cruz pedófilo era algo que não cabia na cabeça de um sem número de pessoas. Não era possível que alguém que se nos afigurava como um ser tão gentil, tão amistoso, fosse, a seguir, um violador de crianças, pelo menos a acreditar no que diz a Justiça portuguesa.

Hoje já não vivemos tanto da caixa do Carlos Cruz, mas outras caixas, com efeitos iguais, foram criadas. Um mundo em que apenas conhecemos o lado bom da vida, o lado bom das pessoas, um admirável mundo em que ninguém é mau, ninguém é perverso nas horas vagas. Carlos Cruz é uma lição para todos nós, uma lição que nos entra pelos sentidos e nos avisa que nem os nossos vizinhos podemos conhecer bem, quanto mais as pessoas que estão lá longe, nas fotografias das revistas e talk-shows televisivos.


Rui Passos Rocha

«Almighty God, I am sorry I am now an atheist, but have You read Nietzsche?»

 

John Fante - Ask The Dust


Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010
Rui Passos Rocha

Tem razão quem diz que não há mais esquerda nem direita. Ontem, por exemplo, foi-me extorquido um preço de direita para entrar numa festa de esquerda, ali no Gulag do Seixal. Por sorte, posso já enviar a factura dos 16,5€ ao Clube das Repúblicas Mortas, sociedade científica que me convidou para o trabalho de campo. O objectivo era simples: comprovar a mais que lógica tese do Henrique Raposo (no último Expresso) de que boa parte do desempenho eleitoral do PCP se explica pela antipolítica, o oposicionismo a tudo o que é sabiamente centrista na centrista estrutura política ocidental. Centrismo esse que é, pelo contrário, tão pró-político que até para mobilizar as jotas não faltam notas de 50€. Ainda dizem que os partidos não dão nada a ninguém. Pelo contrário, a massa anti-sistémica é tão raivosa que até se dispõe a passar uma quinzena a trabalhar, sem nada lhes encher os bolsos, para uma festa partidária. E lá estão eles, no último dia de pena no campo de concentração, pela quinquagésima vez a saltar e assobiar a Carvalhesa, braços entrelaçados, sorrisos e beijos. Como é antipolítica a última marquise estalinista da Europa. São eles a praga da democracia, do sentimento de pertença a um colectivo e um ideal, esses descontentezinhos cujos representantes parlamentares, demagogia das demagogias, se ficam pelo salário pré-parlamentar. São antipolíticos, porque político é quem é sistémico. Eles, que orbitam fora da caixa, são os do contra, os do discurso destrutivo. São um empecilho. Sem eles, quantas mais notas de 50€ haveriam para jotinhas engravatados.


Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010
Rui Passos Rocha

Ao contrário do senhor que me semeou há coisa de um quarto de século ali perto do Tâmega, região sabidamente de gente impoluta, não estive em vias de me fazer ao Direito após saber da cotovia do Harper Lee. Bastou-me, para afastar da mente o dito mister, que teorias como a eugenia, o darwinismo social e o antropologismo criminal não fossem - a infâmia - base da jurisprudência. Lá iremos, quero pensar. Até lá, pecado humano, apenas no sofá posso fazer das fisionomias prova criminal. E há caras, digo-o com ciência, que não enganam. Por mim, que sou tolerante, o Hugo Marçal partilharia cela e cama com o Mário Machado.

 

Adenda: o João Gonçalves, que pouco se dá a brincadeiras, reservou-se o direito de interpretar literalmente o que acima escrevi. Vejo que a escola de desqualificação da Câmara Corporativa não instrui apenas uma cor política. Bom fim-de-semana em Abrantes.


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Vasco M. Barreto

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