Domingo, 31 de Outubro de 2010
Rui Passos Rocha

No dia em que um qualquer Carvalho da Silva dos bloggers tiver de propor uma lista de direitos a contrapor a um decálogo governamental para a blogosfera faça o favor de, como freio à selvática neoliberalização do mercado, lá incluir o direito temporário ao absentismo a quem não se sentir suficientemente inteligente para escrever coisa que se leia.


Sábado, 30 de Outubro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Só por causa das merdas, um dia destes compro os livros da Mónica Marques, leio-os e depois falo deles. Mas assim à bruta. Coisa para três, quatro linhas do blogue. Até lá, deixo-me estar quieto a falar sobre outras coisas e assim.


Tiago Moreira Ramalho

Não será por acaso que duas pessoas tão diferentes e com coeficientes de inteligência tão díspares concordam na proposição elementar de que Cavaco Silva é, na realidade, uma nódoa. Daquelas de gordura, que toda a gente nota e dificílimas de sair. Em cinco anos, cooperou estrategicamente, depois deixou de cooperar estrategicamente, pelo meio inventou umas escutas, fez uns comunicados, teve muitas vezes razão, outras tantas não teve nenhuma. Um verdadeiro bolo-rei político. No entanto, deparado com a inevitabilidade da urna, este vosso servo olha-se e pensa, com a mão na testa enrugada, em qual é a alternativa. E aqui é que começamos a dançar um verdadeiro folclore de angústia e tristeza. Uma das alternativas olha-se como um herói épico, apesar de nunca ter sido herói de ninguém, é admirado pelas ideias, que no geral desconhecemos, que daquela boca só saem odes à «esquerda», à «solidariedade» e coisas que tais, abstracções próprias de gente básica. Se é certo que Cavaco não é propriamente um poço de intelectualidade, no bardo nem um módico de pragmatismo encontramos. Além da hipocrisia tremenda de que é senhor, colocando-se me frente aos canhões umas vezes e atrás deles outras, enquanto assume uma pose de incorruptível. Um asco, o senhor. A outra alternativa, se é que é uma alternativa, começa logo por ter simpatias monárquicas, o que não é nada, mas nada estranho num candidato a Presidente da República. Diz que é muito bom cidadão. Todos concordamos. Trabalho de cidadania extraordinário. Não chega. Ser um bom cidadão não é sinónimo de ser um bom estadista, nem tão pouco é disso potenciador. Todos reconhecemos o trabalho de Fernando Nobre, mas, de facto, o cargo de Presidente da República não é bem uma comenda – disso já se dá ao metro. Além de que temos o bom velho problema de não saber de nada do que pensa, até porque já foi senhor de se passear por todas as cores do arco-íris político português. É triste, caro leitor-eleitor, mas dos três nenhum presta e votar num é engolir um sapo para que não se engula um elefante. Aqui nesta cadeira em que estou sentado, continua a pensar-se no simples branco ou em fazer um qualquer comunicado à nação no boletinzinho.

 

Adenda: O João Gonçalves publicou no seu facebook um comentário a este texto. Como gostamos de manter um certo círculo blogosférico independente dos facebookismos da moda, transcrevemos, até porque está uma maravilha, o comentário: «O post em anexo, que começa por classificar de "nódoa" o Presidente da República, sugerindo o voto em branco ou um post equivalente estilo "conversa apanhada no talho" a colocar no boletim de voto, é uma garotice irresponsável de efeito fácil que poderia perfeitamente ilustrar um episódio especial dos Morangos com Açúcar dedicado aos melhores alunos do "liceu". E ainda há quem gostasse que começassem a ser imputáveis aos 16 anos...» No essencial, diz tudo, mas não sobre mim ou sobre o meu texto.


Tiago Moreira Ramalho

«Cavaco, que mandou uma eternidade neste pobre país, resolveu por razões obscuras mudar da "magistratura de influência" para uma nova espécie de magistratura que ele chama "activa". Claro que em nome da sua dignidade e da dignidade do Estado não revelou o que entendia por "activa". Até porque a Constituição lhe atribui um papel essencialmente decorativo e Cavaco, coitado, não é De Gaulle. É só uma pequena parte da farsa política portuguesa.»

 

Vasco Pulido Valente, Público

 

 

«Ele [Cavaco], que é a política portuguesa em tudo que ela tem de pequeno: os amigos nos negócios, os truques palacianos, o Estado perdulário. Ele, que tão mal se dá com o que na política vale a pena: o confronto de ideias, a coragem de correr riscos, a ética republicana. Apresenta-se como o último garante moral da Nação mas é talvez o maior símbolo de tantos anos perdidos. Os mais importantes da minha geração.»

 

Daniel Oliveira, Expresso


Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Eu não sei o que acha o leitor (se quiser muito que eu saiba, pode dizer, que eu leio), mas a tagarelice orçamental cansa-me sobremaneira.


Tiago Moreira Ramalho

No outro dia, sem espírito para leituras longas e desatentas, fui à estante e peguei numa colecção de crónicas de António Barreto. A última de todas, creio – Anos Difíceis. António Barreto escreve sempre bem, em todos os sentidos, o que permite um elevado grau de certeza quanto à bondade da aposta. No caso, indo ao índice, onde não me consigo guiar, que os títulos são cada vez menos bons, que os editores acham sempre que percebem do que não percebem, acabei a ler as considerações de Barreto sobre a mentira na política. Poderíamos esperar a banalidade. Ai, os políticos, malandros, mentirosos, dizem isto, depois dizem aquilo, ai. Não. Era um texto sólido que, mais do que criticar os políticos, criticava uma sociedade, a nossa, que lhes permite tais luxos. Criticava uma democracia cujo Parlamento é uma inutilidade dispendiosa, em que liberdade de imprensa não é usada para escrutinar a acção do governo, em que o eleitorado nunca usa o voto para punir maus comportamentos. O ponto é precisamente este. A ocasião cria o ladrão e por muito que o povo, o eterno descontente, esbraceje, a verdade é que se houvesse consciência do que significa ter o poder na sua mão, a lamúria daria lugar a acção.


Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
Bruno Vieira Amaral

"O Tomás Vasques, esse, com aquele ar de quem sabe muito sobre da Guerra Colonial e que comeu muitas senhoras à conta disso, não consegue colar duas frases uma à outra. Palavra de honra, aquilo é gajo para ser menos articulado que eu: começa com uma ideia na cabeça e depois, ao iniciar o seu apalavramento vocal, aparenta ficar espantado pelo desinteresse do pensamento e, sem acreditar que algo tão bonito quando ele a pensou se transformou num pedaço de editorial do Semanário de Ferreira do Alentejo uma vez traduzido em linguagem sonora, empanca à procura de palavras que ornamentem um pouco tanta desidratação intelectual (sei, excepcionalmente, do que estou a falar); o resultado é um sudoku verbal, que ao jantar, se acompanhado por vinho e demonstrações de conhecimentos da geografia colonial, pode despertar os nossos instintos materno-exegéticos, mas em televisão, é zapping certinho. Enfim, nem todos nascemos para aquilo."


Sábado, 23 de Outubro de 2010
Rui Passos Rocha

Dois dias de visita ao Portugal profundo depois, sinto-me preparado para vascocampilhamente dar a mão ao país e fazer-me útil na governação de um povo baptistabastosmente carenciado de faróis. É na qualidade de investigador entre aspas apelidado de doutor (mesmo não o sendo) por toda a vivalma serrana do vale do Zêzere por quem me cruzei - e portanto uns degraus acima no magnificente escadote que empolou os líderes das duas maiores agremiações políticas deste canto da península, também eles com manhosas qualificações - que vos anuncio, futuros correligionários de um partido por criar (e que democraticamente liderarei por tempo indeterminado e até me cansar da vossa inelutável incompreensão): em matéria de política externa o Partido Melhor Português embeberia o seu essencial dos programas do BE e do PCP, nos quais está, como sabemos, claramente ultrapassado o facciosismo próprio de partidos burgueses e reaccionários, logo de direita. Vem isto a propósito do prémio Sakharov para Fariñas, o senhor greve de fome cubano, e das críticas dos dois partidos, ora porque o mundo seria melhor servido por um apoio à resistência heróica do povo palestiniano, que mais de setenta anos depois continua a responder com rosas, bandeiras brancas e pombos à bárbara e cobarde agressão israelita; ora porque havia "propostas muito mais urgentes" como a de Birtukan Mideksa, nome com que me deparo pela primeira vez na vida e líder da oposição na Etiópia, regime cuja democratização seria, está bom de ver, bem mais simbólica do que a de Cuba para aquela coisa a que chamam comunidade internacional.


Tiago Moreira Ramalho

Quem vos escreve percebe tanto da Constituição e das engrenagens institucionais da esterqueira como a sua tartaruga de estimação, mas quer parecer-lhe quem em toda a questão do Orçamento de Estado há um equívoco um tanto ou quanto escusado relativamente a quem deve agradar a quem.

Segundo julgo saber, quem tem de gostar do Orçamento de Estado é o Parlamento, um casebre que alberga os representantes eleitos do povo e assim. Ora, nestes dias cinzentos, o senhor primeiro-ministro está esquecido do detalhe e parece pensar que é o Parlamento, ou seja, o casebre que alberga os representantes eleitos do povo e assim, que tem de se vergar perante ele. Não, não tem. Se o senhor primeiro-ministro não apresenta uma proposta de Orçamento de Estado que agrada ao povo representado, então tem duas hipóteses: mudar ou sair. Houvesse políticos na Política e nenhuma outra alternativa seria possível.


Tiago Moreira Ramalho

A compra rotineira do pão alentejano na mercearia do bairro, um bairro melancólico, também, alcoólico, o que não tem mal, mas sem livraria, o que prejudica o ecossistema, pode constituir, ou melhor, frequentemente constitui uma aventura digna de epopeia, houvesse engenho e arte. Desejoso de dar o meu euro e vinte pelo transformado de água, sal e farinha, enquanto ouvia uma mulher que, com quarenta anos, dizia que tinha de aproveitar tudo agora, que outros quarenta não arranjava – o pessimismo reina no bairro –, levo um encontrão de um senhor de boné – sim, os homens do bairro apreciam a utilização de pequenos chapéus do Correio da Manhã ou da BP na cabeça –, que, com um saquinho na mão vem pedir um favorzinho à senhora da mercearia. Que lhe pesasse o peixe. Pesava seiscentos gramas, facto de que ele já desconfiava. Tinha a certeza aliás, assim que o pegou lá no hipermercado – sim, na mercearia só se pesa peixe, que comprar ‘tá quieto –, mas depois apareciam setecentos gramas na etiquetazinha. Bandidagem, é preciso é ter cuidado com aqueles bichos e assim. Claro que tudo isto decorria enquanto eu, com as minhas moedinhas na mão, observava o boné, e o sujeito que o carregava, a dar pulos de excitação com a história, elevando o tom rouco, preparando um motim contra a máquina capitalista que é «o dedinho» do funcionário da peixaria do hipermercado. A senhora da mercearia, piedosa, sabendo para que é que eu ali estava, traz-me o pãozinho, dá-me dois beijinhos, que há muito que não me via (pudera…) e permite-me uma saída airosa e discreta para o conforto do lar. É disto que se faz um bairro: uma cougar, um velho louco por peixe, uma merceeira piedosa, um jovem esfomeado e mato, muito mato que ainda nenhuma livraria ocupou.


Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010
Priscila Rêgo

Gabriel Silva, do Blasfémias, pede uma redução de 15% em todas as rubricas da despesa do Orçamento do Estado. Ou seja, um default parcial, com um corte de 15% no pagamento de juros da dívida pública.


Priscila Rêgo

Uma série de posts acerca da Divergência em Economia:

 

Divergência em Economia I

Divergência em Economia II

Divergência em Economia III

 

Escritos ontem à noite, sem acesso à net. Perdoem quaisquer erros de pormenor em relação a datas.


Priscila Rêgo

Vamos fazer um pequeno exercício de depuração. Em primeiro lugar, separar claramente o que é normativo do que é positivo. Em segundo lugar, eliminar os fenómenos de selecção adversa. Em terceiro lugar, abandonar a pretensão de obter um consenso completo em todos os tópicos em discussão, particularmente os que apenas têm vindo a ser estudados em décadas mais recentes. O que fica no fundo do balde?

 

De forma pouco surpreendente, a verdade é que há um largo conjunto de questões em que a esmagadora maioria dos economistas responde de forma convergente. Vou dar apenas alguns exemplos: a) o comércio internacional é duplamente vantajoso; b) os controlos de preços e salários são geralmente ineficientes; c) os subsídios são geralmente ineficientes; d) o combate, por parte do Estado, às falhas de mercado, como monopólios, existência de bens públicos e externalidades, tende a aumentar a eficiência da economia; e) os mercados são mais eficientes do que sistemas centralizados na difusão de informação.

 

Há economistas que não concordam com isto? Há. Como também há biólogos que se opõem ao princípio da selecção natural como explicação principal para a evolução das espécies (o António Amorim, da Universidade do Porto, é um deles, salvo erro) e adeptos do SLB que acreditam que o Vale e Azevedo até era um tipo honesto e sincero. Mas a maior parte dos biólogos, benfiquistas e economistas está razoavelmente de acordo em relação à Selecção Natural, ao Vale e Azevedo e ao Comércio Internacional.

 

Eu sou um case study interessante. Não tendo formação em Economia,  absorvi as noções básicas de forma mais ou menos auto-didacta através de Economia (Samuelson) e Principles of Economics (Greg Mankiw). Também li um livro de Finanças Públicas de um grupo de professores do ISEG, um livro de Mercados Financeiros de um grupo de professores do ISCTE, Economia Internacional  (Krugman e Obstfeld) e, mais recentemente, Economia(s), de Francisco Louçã e um académico de Coimbra cujo nome agora não recordo.

 

Apesar do largo espectro ideológico que esta lista contempla, as divergências entre os manuais são mínimas. Até a malta do ISCTE admite os benefícios da especulação. E arriscaria mesmo dizer que há mais diferenças entre o Economia de Samuelson e o Principles do que entre este e Economia(s) – provavelmente devido ao facto de o primeiro ser já bastante antigo (oitava edição, se não estou em erro). Quem critica a falta de pluralidade nos media não está a pedir que se dê a voz a Louçã, o economistas, mas a Louçã, o político.  

 

Não estou a dizer que Mankiw, antigo conselheiro económico de Bush, e Louçã, líder do BE, tenham muitas semelhanças entre eles. Na verdade, é o contrário: apesar de todas as divergências, as diferenças esbatem-se quando se trata de fazer ciência a sério. A Economia é muito menos plástica do que a maior parte das pessoas pensa. E muito menos do que a maior parte dos políticos gostaria que fosse.

 


Priscila Rêgo

Isto explica uma parte da divergência entre economias. A outra parte explica-se pelo facto de muitas vezes se misturar crenças positivas acerca da Economia (economics) com ideias normativas acerca de como a economia (economy) deveria funcionar. Esta é uma confusão muito comum. A Teoria Económica permite perceber quais os efeitos do salário mínimo no desemprego, mas não permite saber se estes efeitos são desejáveis ou não. Isto é um julgamento puramente moral.

 

Em campos onde não haja grandes cisões ideológicas, isto não levanta problemas. A maior parte das pessoas concorda que o roubo é moralmente inaceitável, razão pela qual a existência de polícia e forças armadas não costuma ser um ponto de debate. Mas há zonas cinzentas em que há clivagens constante, como a questão de decidir se é mais importante o direito do rico a ter propriedade privada ou o direito do pobre a ter refeição em cima da mesa. Decidir a política redistributiva do Governo implica ter uma ideia positiva acerca do impacto dessa política e uma ideia normativa acerca do que é desejável. Frequentemente, a divergência é lida como emergindo de diferenças em relação à primeira ideia, quando na verdade resulta de diferenças em relação à segunda.

 

Há um efeito de selecção adversa que ajuda a propagar esta confusão. A maior parte das pessoas não tem, compreensivelmente, tempo, disponibilidade ou paciência para aprender a Economia dos manuais (tal como eu não tenho pachorra para aprender Direito ou Arte Moderna). O contacto que têm com a Economia é por isso maioritariamente feito através do discurso político – através de pessoas ideologicamente afastadas (o que amplia o efeito descrito nos primeiros parágrafos), com um interesse especial em evidenciarem essas diferenças e com uma tendência natural para martelar a Teoria até que ela se enquadre nos seus preconceitos ou justifique as suas políticas.

 

A ideia que isto passa é que a Economia é como as vaginas: cada uma tem a sua – e quem quiser dá-la, dá. Mas do facto de benfiquistas e portistas não se entenderem em relação às decisões do árbitro não se segue que não haja regras objectivas que norteiam o futebol. Simplesmente estamos a tentar inferi-las da pior forma possível.

 

Aliás, é curioso que esta diferença subtil passe despercebida à própria classe política. O debate em torno do salário mínimo é o exemplo clássico. A Esquerda diz que ele aumenta os rendimentos e não aumenta o desemprego; a Direita diz que ele só aumenta os rendimentos de quem não cai no desemprego. Isto é uma divergência em relação ao funcionamento positivo da economia. Mas a maior parte dos políticos apresenta a divergência como uma questão ideológica e de valores. Acontece que se a divergência fosse normativa, não estariam a discutir Economia, mas sim Filosofia Moral.

 

Há duas explicações possíveis para este disparate: os agentes políticos podem pura e simplesmente não perceber a diferença entre juízos normativos e positivos, o que é mau; ou talvez prefiram chutar a bola para o campo da ideologia na esperança de que isso os desobrigue de apresentar justificações racionais para as políticas que defendem. O que também é mau.


Priscila Rêgo

Mas afinal por que é que os economistas discordam tanto uns dos outros? Talvez seja porque a Economia é, de facto, uma ciência da treta, em que roupagens teóricas elegantes são utilizadas para legitimar posições meramente ideológicas. Uma alternativa possível é os economistas, ao fim e ao cabo, não discordarem assim tanto uns dos outros. Mas vamos por partes.

 

Em primeiro lugar, há que baixar um pouco as expectativas em relação ao consenso que se pode alcançar em Economia. A habitual bitola de comparação é a Física, onde a divergência entre cientistas é de facto muito menor. Mas esta é uma comparação profundamente injusta. A Física está connosco há mais de dois milénios: antes de Eisenberg, Newton, Kepler e Galileu, já Aristóteles especulava acerca da força que faria movimentar os corpos. E isto foi no século IV a.C. Mil e oitocentos anos depois, Copérnico e os seus contemporâneos ainda não se tinham entendido em relação ao que girava à volta de quê – se a Terra à volta do Sol, se o Sol à volta da Terra.

 

A obra seminal da Economia, “A Riqueza das Nações” (Adam Smith), por outro lado, só foi publicada em 1776. E foi preciso esperar umas boas décadas até que David Ricardo – e, posteriormente, Stuart Mill – dessem mais um empurrãozinho ao seu corpus teórico. A autonomização da Economia enquanto campo científico próprio é ainda mais tardia: provavelmente, só arranca entre o final do século XIX e o início do século XX, com a criação das teorias do consumidor e do produtor (os verdadeiros building blocks da Economia).

 

E isto é tudo microeconomia. A macroeconomia – precisamente o campo onde as divergências são mais óbvias – aparece na Grande Depressão e só em 1937 (salvo erro) é que Hicks apresenta finalmente  o famoso IS-LM. Não é de espantar que o debate seja, por enquanto, tão inconclusivo: à luz das escalas de tempo envolvidas no processo de autonomização e amadurecimento das ciências, ainda mal nos sentámos para começar a conversar.

 

E não é só o debate que é recente. O tema em cima da mesa também é assumidamente complicado. A Física lida com as forças fundamentais da Natureza e com as partículas mais básicas que a constituem; a Economia, por outro lado, lida com pessoas que são constituídas por biliões e biliões de partículas em permanente interacção umas com as outras. É até difícil perceber por onde começar a investigar sistemas tão caóticos. E, ao contrário do que acontece em Física, é frequentemente inviável, financeiramente impossível ou moralmente repugnante levar a cabo experiências controladas. A Econometria foi criada em parte para ultrapassar este problema. Mas isto é uma solução de recurso, um second best. Quem sai à rua com gato não pode esperar caçar como se tivesse um cão.


Terça-feira, 19 de Outubro de 2010
Bruno Vieira Amaral

Há dias, enquanto os solavancos do autocarro transformavam a leitura de um livro de Georges Perec num duplo desafio gráfico, uma senhora contava como inadvertidamente engolira os pontos após a extracção de um dente. Histórias como esta são comuns. As pessoas gostam de partilhar com os outros as suas experiências clínicas, TACs (“uma TAC, não é um TAC”, ouvi de uma senhora preocupada com a precisão do artigo indefinido), endoscopias, colonoscopias, anestesias, pólipos, nódulos, traumatismos, diagnósticos, são palavras que flutuam na atmosfera eléctrica dos transportes públicos. Ao fim de treze anos de frequência diária, qualquer pessoa minimamente atenta está habilitada a realizar pequenas cirurgias, a receitar medicamentos e, com alguma dedicação, a passar credenciais. O programa Novas Oportunidades podia recrutar futuros médicos à saída do terminal rodo-ferro-fluvial do Barreiro. Não sei se é legítima a utilização deste material enquanto pasto para post. Desconheço se nós, utilizadores dos transportes públicos (não por consciência ecológica), estamos sujeitos a um código deontológico ou ao sigilo amador (profissionais são os padres, os médicos, os advogados e as empregadas de limpeza), mas suspeito que não. Não é a mim que aquelas pessoas se dirigem, embora em muitas se note o prazer da multiplicação da audiência – falam ao telemóvel ou com a vizinha do lado, mas também para essa entidade abstracta e tangível constituída pelos ocupantes de um autocarro, receptores involuntários desta estranha forma de confissão moderna. Somos um coro trágico e suburbano que, em vez de advertir, é advertido: tenham cuidado com os dentistas! A adequada lavagem do intestino é essencial para uma colonoscopia bem sucedida! Os talões de desconto do minipreço só podem ser utilizados na loja em que registaram o cartão! Etc. As vidas dos outros impõem-se-nos. Não podemos protestar porque, afinal, se não queremos ouvir tapamos os ouvidos. Então, é preferível fazer do que ouvimos uma novela radiofónica com personagens que vão mudando de dia para dia, mas cujas histórias, se nos dermos ao trabalho de as unir com um fio narrativo, têm uma unidade dramática que nos surpreende pela coerência: a senhora que ontem engoliu os pontos é a mesma senhora que amanhã há-de queixar-se dos uivos do cão dos vizinhos é a mesma que há duas semanas teve uma discussão com a colega de trabalho é a mesma que há dois meses sofria enxaquecas pavorosas é o rapaz que, caloiro na faculdade, diz querer alargar os seus conhecimentos musicais e que vai diversificar os gostos, numa manifestação de crença na evolução cultural do indivíduo, como aquelas pessoas que culpam a exígua biblioteca dos pais pela sua anorexia literária e que chegam aos trinta a fazer planos de leitura dos clássicos, em jeito de dieta para a engorda (cf. Robert de Niro em Raging Bull), etc.

 

 

 

Não creio que tudo isto se possa atribuir à falta de pudor ou ao ainda incipiente (em termos macro-históricos) contacto com as novas tecnologias que faz com que algumas pessoas quando falam ao telemóvel sejam inconscientemente transportadas para o quarto fechado da adolescência de onde faziam chamadas nos velhos telefones de disco. Há o rebento tímido de um pedido de simpatia que quando chega a flor é já um grito desesperado por atenção. Ali, nos bancos onde a chuva cai como lá fora, é só esse murmúrio, o estender de um laço de cumplicidade como quem diz “Vá lá, também tu sabes o que é isto, também tu és humano, também tu hás-de engolir os pontos”, e nós vamos e juntamo-nos à grande família da humanidade com o espanto e o orgulho da criança admitida na mesa dos adultos e à frente de quem o Tio Manel não tem pejo em dizer asneiras “queres lá ver que ele não sabe o que é isso?”, então não sei, c’um caralho, sei tudo, sou um de vós, partilhem as vossas intimidades, as doenças da barriga, falem-me de ovários, de tripas, de cancros na pila, de chagas na glande à conta dos serviços pouco higiénicos de uma femme de joie, eu sou um de vós. Percebem? Não é falta de pudor, é um convite para meter os papéis de sócio desse grande clube que é a humanidade, a jóia é uma historinha idêntica, todos nós temos uma desgraça não particularmente trágica que é o salvo-conduto nesta viagem de autocarro, conte-nos a sua, não se arme em fino, o senhor também se peida, lá vem o marxismo popular que nos diz que quando os ricos cagam também cheira mal. Não é falta de pudor - como fazer a hierarquia da intimidade? É mais íntimo o hemorroidal ou uma discussão com o chefe? O cliente que foi um ordinário ou um fungo na planta do pé? A loiça que não se lavou ou o hotel das férias de verão? A comida que o marido devora ou o pouco que o marido fode? Somos todos iguais – eis o que se descobre nos autocarros – um igualitarismo rodoviário, co-financiado pelo Estado, não vale a pena simular enjoos perante o que se ouve, a pornografia da alma é uma grande conquista das nossas sociedades, todos nus e de mãos dadas num reality-show ininterrupto – esta semana Vasquinho fica sem a mesada, o Dr. Onofre rebenta o cu da recepcionista em horário pós-laboral, o gajo do rés-do-chão farta-se de ouvir berlindes no andar de cima e despacha o vizinho com um tiro de caçadeira, o mini-mercado abre para a semana, há baratas nas imediações dos esgotos e muita merda de cão nos passeios, o filho da Cesaltina casa-se na semana que vem, a filha da Cesaltina divorciou-se na semana passada, a Cesaltina há-de matar-se um dia destes – e o autocarro lá vai, lá vai, teatro ambulante, lá vai, lá vai, senhoras e senhores, humani nihil alienum.


Rui Passos Rocha

 

As the present now
Will later be past
The order is rapidly fadin’
And the first one now will later be last
For the times they are a-changin’

 

[Aqui por Eddie Vedder, mas a original do Bob Dylan é que é.]


Sábado, 16 de Outubro de 2010
Bruno Vieira Amaral

"Na obsessão por fazer-se entender, até no amor, em 2003 escreve uma carta de 67 páginas a terminar a sua relação com Claire Thompson. A namorada lê 20. "Queria continuar, mas andava muito ocupada, sei lá. Ele é talentoso, mas as cartas dele podem tornar-se um bocadinho auto-indulgentes" (depoimento à "Salon")."

 

O resto do texto de Rui Catalão sobre David Foster Wallace é bom, mas a "notícia" citada foi publicada no The Onion, como se pode ler aqui. Convém não acreditar em tudo o que se lê na internet.


Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010
Rui Passos Rocha

 

Feito pelo 31 da Armada.


Rui Passos Rocha

Vítor Baptista disse que se tivesse vencido as eleições para a federação de Coimba não teria denunciado o caso em público, pelo bem do partido.


Priscila Rêgo

O aparecimento do Facebook reduziu a um mínimo histórico as sms que recebo no meu aniversário.


Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010
Rui Passos Rocha

A Priscila deixou-me a porta aberta, por isso vou aproveitar para dizer que, ao contrário dela, concordo com o Rui Albuquerque: "se tivéssemos a sorte" de que a Irmã Lúcia tivesse proclamado, por decreto divino, a Constituição americana como a que, enfim, mais nos aproxima da justiça celestial, então não teríamos hoje uma Constituição-lista-de-pedidos-ao-Pai-Natal (Rui Ramos). Uma vez que, pelo contrário, o melhor que nos legou foi um bisneto homónimo parece que, de acordo com a lenda, aconteceu uma ditadura, coisa para uns 48 anitos, e que essa ditadura foi derrubada por militares, gente que, vá-se lá saber porquê, não entoava o tratado do Locke ao marchar. Consta também que, do MFA, a facção spinolista era mais gaullista que o próprio, que Otelo era menino para meter a burguesia no Campo Pequeno, que o "companheiro Vasco" era um camarada exemplar e que Melo Antunes, o moderado de serviço, tinha redigido a secção sobre Forças Armadas do programa do PS em 1973 - um PS que, à data, via no marxismo "uma inspiração teórica predominante" e queria restringir a economia privada "aos domínios não decisivos" do desenvolvimento económico. Novamente por culpa da Irmã Lúcia, a caça ao fascista do pós-25 de Abril fez Sá Carneiro anunciar a criação de um partido que preencheria "o espaço vazio à direita do PS, no centro/centro-esquerda", e tentar aderir à Internacional Socialista. Com governos de transição que seguiam rumo à "destruição do capitalismo" (esta é de Mário Soares, ah pois é), o Presidente-gaullista foi esmagado na rua e substituído pelos gonçalvistas, os criadores dessa coisa liberalíssima chamada Conselho da Revolução - que veio aferir o carácter revolucionário da legislação. Depois disso, e porque o voto, parecendo que não, até conta qualquer coisita em democracia, PPD e CDS não conseguiram muito mais do que 1/3 nas eleições constituintes, contra os quase 60% da esquerdice. Daí até à Constituição foi um tiro - e outro pacto sobre a "via socialista" com os Founding Fathers do MFA. É estranho: com uma História de liberalismo, expansão da indústria e da classe média burguesa; com uma democracia florescente ao longo de todo o século XX; e com revolucionários tão kelsenianos como os do 25 de Abril, também eu acho um acaso que tenhamos acabado com uma Constituição socialista.


Rui Passos Rocha

Enquanto Cavaco não se recandidata, Alegre faz-lhe a vez:

 

1) O candidato presidencial Manuel Alegre afirmou hoje ter informações de que estão a ser recrutadas crianças em escolas para levarem “bandeirinhas” para as visitas do Presidente da República a determinados concelhos do país. [daqui] --> O director da campanha de Manuel Alegre, Duarte Cordeiro, desvalorizou hoje as acusações do candidato apoiado pelo PS e BE. Segundo Cordeiro, as declarações do escritor, proferidas após a inauguração da sede de campanha em Lisboa, foram “em sentido metafórico”: “O que o candidato queria dizer era que há iniciativas cénicas num momento difícil, obviamente, numa perspectiva de montar cenários”, explicou. [daqui]

 

2) O candidato presidencial Manuel Alegre considerou hoje, em Coimbra, “um precedente gravíssimo” que um grupo de banqueiros tenha reunido com o líder do PSD a propósito do Orçamento de Estado para 2011. [daqui] --> Os banqueiros Faria de Oliveira (CGD), Carlos Santos Ferreira (BCP), Ricardo Salgado (BES) e Fernando Ulrich (BPI) já saíram do Ministério das Finanças, onde estiveram reunidos com Teixeira dos Santos. [daqui]


Tiago Moreira Ramalho

O director de campanha de Manuel Alegre é um poeta. Palavra. Depois da justiça solidária incarnada em carbono lusitano ter cuspido a acusação de Cavaco andar a recrutar jovencitos para as suas putativas acções de campanha (digamos que estes recrutamento aconteceram, mas, segundo me lembro, foi com aquele senhor que defende com unhas e dentes a candidatura do solidariamente justo senhor), o tal director de campanha-poeta veio, metaforicamente, que doutro jeito acabaria gozado, esperamos que esteja consciente do facto, dizer que tudo era metáfora e verso, que tudo era declamação – improvisada, quem sabe, desgarrada em comício.

Não nos interessamos particularmente pelo senhor Manuel Justo. Nunca lhe lemos nem prosa nem verso, até porque possuímos, de um ponto de vista muito pouco metafórico, como se houvesse pontos de vista metafóricos, enfim, o leitor percebe que apenas pretendemos apoucar a figura; até porque possuímos, dizia eu, prioridades. Em termos políticos, não vemos grande grandeza, além da física, e aqui não há metáfora, há apenas barriga, no senhor Manuel Solidário. O interesse é, denotativamente, fraquinho, é o que se conclui. No entanto, não lhe invejamos a sorte. Se até o director de campanha se atreve a versar sobre a sua sanidade mental, o que esperar dos restantes milhões de poetas, terra de poetas, deparados com tamanhas enormidades. Vá, justa, solidária e alegremente descansar, meu senhor, que o país, mal ou bem, não é uma metáfora de um verso seu.


Priscila Rêgo

 O Rui Albuquerque diz aqui o seguinte:

 

(...) é através da Constituição que se estabelecem as regras fundamentais da organização política, isto é, do estado, estabelecendo-se as suas funções e a sua capacidade de intervenção social, o que formata e condiciona, por acção ou omissão, positiva ou negativamente, toda a vida de um país. Se, por exemplo, tivéssemos a sorte de ter tido, em 1975, uma Assembleia Constituinte sensível aos valores da liberdade, em vez da Assembleia ideologicamente marcada pelo totalitarismo marxista e pelos valores do estatismo que nos saiu em sorte, não teríamos a Constituição socialista e programática que custou décadas de desenvolvimento ao país.

 

Mas será mesmo assim? Será que a Assembleia Constituinte, e a Constituição que criou, caíram do céu? Ou foram, por outro lado, uma resposta às ideias e preferências prevalecentes em Portugal em meados da década de 70?

 

Visto de outra forma: suponhamos que amanhã a Constituição aparecia completamente reescrita de acordo com uma matriz liberal. Os portugueses desatavam a cumprir os seus ditames ou, pelo contrário, exigiam uma Revisão Constitucional?

 

Ou seja, as instituições são endógenas ou exógenas? A maior parte dos economistas (e, já agora, o FMI e o Banco Mundial) tende a defender que a segunda hipótese. Mas eu tenho vindo a convencer-me de que a primeira está mais próxima da realidade.

 


Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

 

Iupi.


Rui Passos Rocha


Terça-feira, 12 de Outubro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Este desgraçadinho que vos escreve, dada a sua desgraça, anda particularmente alheado do mundinho em que vive. Ainda assim, mantém as orelhas relativamente desobstruídas e vai ouvindo uma coisinha aqui e acolá. Então não é que no Garcia da Orta, ali no Éden vermelho que por cá se foi fazendo, trocaram uns medicamentos e, com isso, escavacaram duas pessoas? Pois, o habitual. A seguir ao relato do desastre, oiço, aliviado, que os responsáveis pela barraca tinham sido punidos. Como? Com uma reprimenda. Isso mesmo: a punição que o Serviço Nacional de Saúde dá a médicos incompetentes é um ralhete. E para que não volte a acontecer, decidiram meter corzinhas nos frascos, não vá terem para lá gente que não devia lá estar a dar medicamentos às pessoas. E tudo vai bem, obrigadinhos.


Tiago Moreira Ramalho

Então não é que agora há um novo pugrama na televisão paga, num canal que não possuo, dadas as malandrequices dos exclusivos e dada a minha preguiça de mudar de serviço de três em três semanas (o ritmo a que surgem novos canais na televisão paga), sobre, ah, a literatura que se chama, precisamente, «Ah, a Literatura!»? Pois. Quem apresenta? O Pedro Vieira, que conhecemos por detrás das minúsculas e dos rabiscos engraçados – e aqui guardámos a ironia de má qualidade por um pequeno instante – e por uma senhora que, honestamente, desconhecemos, mas a quem reconhecemos as extraordinárias capacidades de se manter durante longos períodos de tempo estática do pescoço para baixo enquanto lê em ritmo irregular um papelinho longe demais, quem sabe, para que a coisa saia bem. Enfim, o leitor já compreendeu, até porque não é estúpido, ou pelo menos não é sempre, que aqui o meu eu que tenta cogitar não ficou particularmente impressionado. O conceito é muito catita, façam atenção. O Francisco José Viegas tem razão, no início do pugrama, quando diz que os programas sobre livros não têm de ser aborrecidos (como por exemplo aquela panhonhice da TVI24 chamada «Livraria Ideal», cujo propósito era dar asilo temporário aos «escritores» portugueses). No entanto, não ser aborrecido não é sinónimo de ser vazio. Ora, eu andava todo entusiasmadinho com a ideia de ler «Como Deus Manda» no Niccolo Ammaniti, até já tinha quem mo emprestasse e tudo, quando me meti a ouvir a parelha que apresenta a falar do bicho. E o que se dizia? Que começava com caralhadas e que a acção era num multibanco. Coiso e tal, redacção feita, Bom mais para o grupo, toca a ir para casa comer Oreos. Não quero ser mauzinho, longe de mim, que sou essencialmente um paz d’alma amigo de toda a gente, que sou, que sou, mas a verdade é que para dizer o que vem na contracapa, mais vale estar caladinho. Não se pedem teses de doutoramento sobre literatura italiana. Mas poderíamos pedir um bocadinho, um bocadinho só de sumo nestes dias desidratados?

A verdade é que vi aquele pedaço e acabei por nem ver o resto, tal foi o desânimo da expectativa frustrada. Não sei se é aquecimento se não, mas já faziam uma merda de jeito, digamos assim em tom amistoso, para ninguém se chatear.


Tiago Moreira Ramalho

 

Via Vasco Barreto.


Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010
Rui Passos Rocha

Parece que o PCP condenou o Nobel para Liu Xiaobo dizendo - para variar no argumentário - que é «inseparável das pressões económicas e políticas dos EUA à República Popular da China». Mas isto não é nada. No ano passado, naquele programa dos Gato Fedorento sobre as legislativas, perguntaram a Bernardino Soares se preferiria viver na Suécia ou na Coreia do Norte. A resposta foi elucidativa: «Em Portugal».


Rui Passos Rocha

Infelizmente para a minha tensão arterial - já para não falar, falando, dos calores da colega Priscila - o mundo teima em ser complexo. Enquanto nem ela nem um dos dois cavalheiros comentadores deste seu post decidem alcançar um consenso, qwertymente resolvendo na blogosfera a mais suja luta na lama ideológica do último século e meio, capitalismo continua a significar batatas a murro com pasta de dentes e cera dos ouvidos para o reino iliberal, enquanto que para as gentes liberais engloba todo o cardápio da culinária italiana e portuguesa juntas. Para os primeiros é e, por mais que se o disfarce com ervas aromáticas, será intrinsecamente mau - apenas ligeiramente melhor do que o sistema feudal, porque mantém a mesma exploração mas em regime de pseudo-democracia; para os segundos pode ser uma porrada de grupos ideológicos distintos e por isso permite políticas bem distantes entre si, se bem que com um fio comum. Como, tantos anos depois, nenhuma das trincheiras deixa de lançar granadas à outra, os dois mundos-pensamentos (esta é do Orwell) continuam essencialmente irreconciliáveis, o que, novamente aqui evidenciando a minha mente simplória, não abona em favor da saudinha aqui do escriba. O problema - e finalmente pareço chegar a algum lado com esta treta - está em que, feliz ou infelizmente dependendo das cabecinhas pensantes, já que a Providência teima em limitar-se a arbitrar, apenas um desses mundos-pensamentos domina as culturas contemporâneas. O que torna, diga-se, esta brincadeira mais interessante quando se lê de uma entrevista a Jerónimo de Sousa (feita pelo Destak, esse portento) o dito de que «o capitalismo não será o Fim da História». Tretologia fukuyâmica à parte, o problema deste vosso servo está, leiam-me agora, no invariável nó intestinal após os dois segundos em que o cérebro quer adaptar a frase do capo do PCP ao mundo-pensamento liberal. Nesses dois segundos ocorrem-me sonhos de um mundo mais fraterno e tal, em que Wall Street seja um mercado de legumes e as galinhas tenham direito de protesto constitucionalmente garantido. Depois dá-se o tal nó, a bílis produz uma qualquer excreção nojenta enquanto me lembro do «prometo-lhe que Portugal não terá parlamentarismo» de Cunhal a Oriana Fallaci ou da sua chegada triunfante em 1974, a emular Lenine na Finlândia. Com anfetaminas vos digo, rebanho meu, finalmente (é agora que digo alguma coisa de jeito?), que o pós-capitalismo do camarada Jerónimo passa invariavelmente pelo marxismo-leninismo (ó Festa do Avante!, que tanto o apregoaste) substituto do capitalismo - quem sabe empalando os malditos kulaks das PME para criar o virtuoso estado de coisas em que o trabalho é pedido (sim, pedido, porque o sistema é virtuoso) a cada um «de acordo com as suas possibilidades» e distribuído «a cada um de acordo com as suas necessidades». Enquanto a tese marxista do valor laboral não é implementada, porque não o será enquanto os burgueses, esses exploradores, comandarem os destinos do povo explorado (eu, pobre de mim, incluído), perante tamanha injustiça social o líder do PCP espera agora o messiânico retorno da antítese bolchevique, agora recauchutada de cunhalismo. Infelizmente Marx, o patriarca da coisa, já não tem voz para gritar que as antíteses, como ele, não ressuscitam. Gritaria, imagina-se, que à inesperada síntese do Muro de Berlim se seguiu nova tese. Tivesse o barbudo, ó ironia, uma mão invisível e talvez pudesse com o indicador apontar a Jerónimo uma releitura do seu materialismo dialéctico. Quanto muito, a antítese provirá da síntese de Berlim; pouco resta do esmurrado marxismo-leninismo. Os amanhãs não assobiarão a Carvalhesa. E agora, meus caros, vou repousar antes de voltar a carregar o mundo às costas.


Domingo, 10 de Outubro de 2010
Priscila Rêgo

O Miguel Madeira defende aqui (ou defendeu, há duas semanas...) a ideia de que o problema da economia portuguesa está nos salários. Concordo que há um problema com os salários – já lá vamos –, mas penso que esta resposta deixa grande parte do diagnóstico por fazer. Afinal de contas, por que é que os salários portugueses crescem mais do que os salários do resto dos europeus? Ou seja: os salários são um problema em si ou são apenas o subproduto – e a face mais visível – de um problema mais profundo?

 

Começo pelo mais simples. Há uma ideia muito batida na imprensa e na blogosfera, segundo a qual os salários dos portugueses têm crescido acima da produtividade. O indicador comummente usado para ilustrar este problema é o indicador de Custos Unitários do Trabalho (CUT). Em baixo, apresento um gráfico com os CUT de Portugal, Alemanha, Espanha e a média da Zona Euro. São retirados da base de dados da Comissão Europeia e apresentados no esquema base=100.

 

 

Este gráfico impressiona: os salários alemães crescem pouco enquanto as remunerações dos portugueses e espanhóis vão por ali acima. O problema é que este indicador não compara a produtividade com os salários. Compara o salário por trabalhador nominal com o produto por trabalhador real. Ou seja, apenas o PIB é deflacionado. Isto faz sentido para analisar a competitividade de um país inserido numa união monetária (onde vigora, na prática, um regime de câmbios fixos), mas não permite retirar a conclusão de que os salários crescem acima da produtividade. Para fazer isso, precisamos de olhar para outro lado.

 

 

O gráfico que coloquei em cima representa as remunerações deflacionadas (pelo Índice de Preços no Consumidor – inflação para os amigos) e o PIB deflacionado. Basicamente, comparei o crescimento do salário por trabalhador com o crescimento da remuneração por trabalhador para o período 2000/2010. Isto é embaraçoso. O que eu ia escrever aqui era: como prevê a teoria económica, os salários reais crescem em linha com a produtividade (sim, escrevi o post primeiro e fui procurar os dados depois; pensava que os conhecia bem). Mas o tiro saiu pela culatra: os salários reais em Portugal cresceram mesmo acima da produtividade.

 

Podia acabar o post aqui. Mas, como já escrevi um pedação e agora não me apetece deitar o trabalho ao lixo, vou chamar a atenção dos leitores para um facto adicional: a discrepância entre Portugal e a média da Zona Euro é maior no primeiro gráfico do que no segundo (embora isto não seja óbvio para o leitor, dado que apresentei os dados em formatos diferentes). Porquê? Simples: porque o primeiro incorpora o efeito preços. Em Portugal, os preços têm estado a crescer acima dos preços da Zona Euro. Os CUT crescem mais em Portugal porque o rácio salário real/produtividade é mais baixo mas também porque a inflação é mais alta.

 

Isto coloca uma nova questão: por que é que a inflação é mais alta em Portugal? Note-se que, se houver liberdade de bens e serviços, os preços tenderão a igualar-se em todos os países. E, mesmo que haja tarifas e custos de transporte, estes dois factores far-se-iam sentir no nível de preços, não no seu crescimento. Em princípio, a inflação deveria ser a mesma ao longo de toda a união monetária. Mas não é.

 

Penso que só há uma possibilidade para reconciliar os dois lados da equação. Se os preços dos bens transaccionáveis crescem ao mesmo ritmo em toda a Europa, então a diferença nas taxas de inflação deve vir da evolução dos preços dos bens não transaccionáveis. Bolotas, televisores, preservativos e carros têm o seu preço determinado exogenamente – mas o preço da electricidade, do gás, das telecomunicações, da habitação, é determinado endogenamente. E é esse que está a puxar a inflação para cima.

 

Podemos dar mais um passo atrás. O que se passa então com o sector não transaccionável? Consigo pensar em pelo menos três hipóteses: má regulação, que tem facilitado a exploração de sectores que são, muitas vezes, quasi monopólios naturais; demasiado regulação, que tem dificultado a entrada de novos players em sectores pouco competitivos; ou, finalmente, privatizações mal feitas, que conduziram a coutização do sector não transaccionável (é a hipótese do Ricardo Reis). Em qualquer um dos três casos, chegamos a fenómenos de rent seeking que terão acelerado a inflação portuguesa e gerando, no processo, perdas de competitividade. Sem o mecanismo de escape da desvalorização cambial, o resultado é o que se vê.

 

P.S.- Como terão percebido, a minha ideia original era que a perda de competitividade se teria dado única e exclusivamente devido ao efeito preço. Os dados, contudo, mostram que o efeito produtividade também existe. A perda de competitividade é, assim, um fenómeno duplo: inflação superior à média (algo que pode ser explicado por uma das três hipóteses anteriores) e desajustamento entre os salários reais e produtividade (algo que não faço a mais pequena ideia de como explicar). Chamo, ainda assim, a atenção para o facto de os dados sobre salários serem de qualidade duvidosa. Eu usei valores agregados, que têm problemas óbvios. Por exemplo, o aumento do salário médio pode resultar apenas do efeito de uma destruição de emprego grande entre os sectores mais mal pagos. É uma complicação...


Rui Passos Rocha

«Os revolucionários de hoje são os reaccionários de amanhã»

Robert Michels


Tiago Moreira Ramalho

A bomba foi anunciada e agora está tudo com os bracinhos encostados à cabeça, mãozinhas apertadas, gemidinhos, ai-ai, Jesus nos acuda. José Sócrates diz que se demite dia 29 de Outubro. Tudo porque o PSD vai, tal como disse desde sempre, chumbar o Orçamento dado o aumento dos impostos. O discurso oficial será o da intransigência de Passos Coelho e da vitimização do senhor engenheiro, como já todos antecipamos. O discurso não-oficial, o daqueles a quem, enfim, resta uma réstia de discernimento, será o da intransigente incompetência do governo que ora se quer escapulir. Tentemos ser minimamente objectivos: a crise financeira internacional tem cerca de três anos, a necessidade de consolidação orçamental, consolidação séria, estrutural, tem quase quarenta e, ainda assim, apesar de tudo, a despesa pública não parou de crescer, graças ao keynesianismo iluminado de quem nunca leu sequer a tabuada do ratinho. Mesmo quando o país aparece no grupo dos dez com maior risco de bancarrota – amiguinhos, bancarrota – o governo continua com os bolsinhos do tesouro descosidos.

Espero, honestamente, que Passos Coelho não mude de ideias. Que se vá, o governo, que se vá. Mantê-lo ligado à máquina da piedade política seria apenas alimentar ainda mais o monstro que foi criado e que tem vindo a ser alimentado, ao longo dos anos, pelos tristes macaquinhos que ocupam os raminhos da savana que é a comunicação social portuguesa. Agradeçamos-lhes também a eles, que, as mais das vezes sem necessidade absolutamente nenhuma, ajudaram a legitimar isto. Hurray!


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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

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Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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