Domingo, 28 de Novembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

É de uma ironia deliciosa que João Gonçalves, the one, aponte a qualquer outra pessoa que tenha a felicidade ou a infelicidade de pisar esta terra, o defeito de se julgar mais inteligente do que aquilo que na realidade é. É tão deliciosa a ironia quanto cansativas as picadas insistentes a quem, como eu, nunca fez nada para as receber. É a essência de João Gonçalves, que, de tão vincada e perturbadoramente imutável, deverá certamente ter precedido a existência (who knows?). Quanto ao resto, João, é simplesmente desinteressante discutir contigo. Lês o que queres ler e, quando assim é, vale pouco a pena. Mesmo quando o objecto é um simples título que não tinha ambições de fazer escola, mas simplesmente notar o quão perturbado parece o discurso citado – como parece, e não negamos a possibilidade de ser propositado, toda a restante carta. Continua a fazer, como fazes insistente e quase metodicamente, pouco dos outros, que na realidade estás apenas a fazer pouco de ti próprio.


Tiago Moreira Ramalho

«Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.»

 

Fernando Pessoa, Carta a Adolfo de Casais Monteiro (13 Jan. 1935)


Tiago Moreira Ramalho

Parte I

 

Parte II

 

Parte III


Sábado, 27 de Novembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

«It is the unwritten book which might have made the difference. Which might have allowed one to fail better. Or perhaps not.»

George Steiner

 

Digo muitas vezes, tantas que já nem sei se é a sério se a brincar, que a introdução de My Unwritten Books de George Steiner é a coisa mais bonita que já li. Encerra, em poucas, pouquíssimas linhas, a essência cobarde que reside em cada um de nós. Os livros que Steiner nunca escreveu são as declarações de amor que nunca fizemos, são o café que nunca combinámos, são o beijo que sempre tememos. Os livros que Steiner não escreveu são metáfora de todas as nossas frustrações, todos os nossos ‘se’, todas as nossas possibilidades passadas que gostaríamos futuras, na ilusão de que no futuro faríamos diferente. E a introdução de Steiner, que deveria ser conclusão, na verdade, é a elementar evidência de que somos incapazes de não pensar no que teria sido se tivesse sido. Obrigamo-nos a pensar que o mundo, o nosso mundo, teria sido melhor caso tivéssemos escrito o livro que não escrevemos, como se fosse possível fazer tal cálculo. Não é possível. Não sabemos, nunca saberemos o que teria mudado, seja para melhor, seja para pior. O que apenas nos deixa uma alternativa, que sendo única não deveria ter tal nome: olhar para a frente e deixar de pensar na maravilha de vida que nunca tivemos. Até porque - «or perhaps not» - a vida com o livro escrito poderia muito bem ser tão ou mais infeliz que aquela sem livro nenhum.

 

Texto publicado no Delito de Opinião, a convite do Pedro Correia.


Tiago Moreira Ramalho

Se é certo que o senhor Ricardo tinha ascendência portuguesa, não é menos verdade que os portugueses que vieram à frente não tinham nem têm uma fracção da sua racionalidade. Segundo um estudo europeu – e, leitor, nós temos uma certa desconfiança quanto a estes estudos, mas a verdade é que este confirma uma tendência que todos os nossos dias nos obrigam a ver – os portugueses não querem abdicar do Estado Social, mas, ao mesmo tempo, são o povo europeu que tem menos vontade de o pagar.  É fenomenal, leitor, mas gostamos de borlas, como se elas existissem.

O que nos trouxe aqui não é difícil de identificar. Uma constante lavagem cerebral por parte de uma certa elite política, nem toda de esquerda, que dissocia a despesa pública da cobrança de impostos. Para uma certa elite política, as duas variáveis são completamente independentes e uma não tem de atender à outra. Além desta, há ainda uma outra constante lavagem cerebral por parte de uma elite política que, em larga medida, coincide com a anterior, segundo a qual são aqueles que não precisam do Estado Social que o têm de pagar, ficando os beneficiários no conforto de quem recebe sem sequer perceber de onde.

O facto é que, continuando assim, e até porque as nossas vidinhas não são infinitas, como seria tão bom (ou tão mau), alguém, algum dia, terá de pagar. Se nós, por força das circunstâncias, se os nossos filhos ou netos, é a única incógnita. O resultado mostrará quanta ética ainda nos resta.


Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010
Rui Passos Rocha

Os tempos estão maus para cavaleiros do apocalipse. A queda do muro e o projecto europeu transformaram o continente num laboratório gigante onde dois tipos de bata branca, Hayek e Keynes, conjugam esforços para encontrar a fórmula da prosperidade. Após um século de malfadadas experiências, a sopa do bem-estar parece ser irremediavelmente liberal, faltando apenas quantificar as unidades de tributação e de regulação que devem ir para o caldeirão. O problema - aqui entre nós que ninguém nos lê - é que o tempo azeda as sopas; e não vale a pena congelar, caros soviéticos e cubanos. As rodas do tempo continuam a girar, já cantava o Bob Dylan.

Não quer isto dizer que a carruagem matou Marx por atropelamento. No máximo cortou-lhe uns membros, mas passou ao lado do essencial: a ética. Aquilo que hoje temos como Terceira Via é um sistema económico capitalista regulado por um Estado que faz por garantir direitos laborais o mais de esquerda possíveis. Infelizmente para a direita, uma fraca regulação incentiva a ganância e a formação de oligarquias, em prejuízo da democracia e da qualidade redistributiva; e para mal da esquerda, a elevada tributação em vários dos países europeus, ainda que importante para a redistribuição, desincentiva o crescimento económico sem o qual essa redistribuição começa a falhar. Como parece estar a acontecer em Portugal.

Se se mantém válida a teoria de que os partidos agregam interesses sociais, a ausência de alternativas fortes ao sistema pode indiciar mera falta de imaginação de quem é contra, ou então um Estado Providência em retracção continua apesar de tudo a ser tido como superior às suas alternativas. Os dados sobre atitudes políticas dos portugueses dão-nos o que quer que seja que lá procurarmos: para uns, a insatisfação com o desempenho da democracia, com a classe política e com o funcionamento das instituições pode, como vão dizendo sociólogos, gerar uma revolta social (que, não tendo acontecer na Greve Geral, foi mais uma vez sinal de que o sistema despótico neoliberal aprisiona e aliena as mentes humanas, tornando-nos a todos autómatos, como diria o 5dias.net); para os outros, um escalonamento das atitudes demonstra que a insatisfação com o desempenho temporal do regime não se alastrou, para já, ao regime abstracto. A democracia liberal, com partidos e instituições kelsenianas, é visto como o melhor regime. O problema está em quem o governa.

Sem ideologias, este não é o Fim da História, mas parece um fim de ciclo criativo. Com os seus defeitos, o regime - fortificado pela lei única comunitária - resiste e continuará a resistir à dieta, tanto por mérito próprio como por demérito dos seus detractores. Pelo menos em Portugal, a menos que acabe em anorexia, o Estado Social continuará a ser apoiado. A consequência disso para a democracia e para a prosperidade das sociedades é discutível; mas para quem se situa na margem, mais do que apelar a revoltas estéreis seria importante pensar em alternativas. Que fossem, para variar, viáveis.


Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

A instituição nacional do "piquete de greve" é das figuras mais autoritárias que o democratizante Abril criou. Chamar-lhe vandalismo é simpatia.

Como o leitor deverá ter notado, mais não seja por, provavelmente, não ter conseguido chegar a horas ao trabalho ou, quem sabe, por ter realmente faltado voluntariamente ao trabalho, ontem houve greve. Daquelas em grande, pretensamente históricas, que reúnem, à mesma mesa, os já bafientos e empoeirados líderes das centrais sindicais.

Pessoalmente, tenho sérias dúvidas quanto à legitimidade de um "direito" à greve. Do que não tenho dúvidas absolutamente nenhumas é da legitimidade do direito, sem aspas, a não aderir à greve. Se toleramos que um conjunto de pessoas incumpra as suas responsabilidades contratuais como forma de manifestação política, tudo bem - a Nação lá sabe para onde caminha. O que não podemos, de todo em todo, tolerar é que as pessoas que não querem aderir ao protesto sejam a isso forçadas por intimidatórios e muitas vezes bárbaros piquetes de greve.

Sejamos objectivos: o piquete de greve é uma figura anti-democrática. Intimidar as pessoas para que adiram a um protesto é precisamente o mesmo que intimidar as pessoas para que não adiram, apenas varia o sinal. Mais, vandalizar propriedade alheia, como lojas, bancos, escolas, o que for, por forma a impedir os acessos é, mais do que anti-democrático, criminoso. Os senhores Silva e Proença estão muito satisfeitos consigo próprios. Deviam, no entanto, ter vergonha por liderarem organizações que dão cobro a este tipo de comportamentos.

 

Publicado no Expresso Online.


Rui Passos Rocha

Alguns seres humanos com espírito de missão qwertyaram a sua indignação para com a casta corporativa da administração pública que - num período em que todos deveríamos dar as mãos pelo crescimento económico - decidiu vir para a rua engrossar a greve. Porque fazem o país perder dinheiro, e não-sei-quê, enquanto os pobretanas dão o lombo e alavancam o pouco que há para alavancar. Não fumaria o cachimbo da paz com um teórico da alienação, mas aos defensores da privatização-desta-merda-toda quero assegurar, abaixo assinado e tudo, que o vosso plano só sai favorecido por greves: na melhor das hipóteses, o grosso dos funcionários públicos não sindicalizados (quase todos) foi para a rua gritar não palavras de ordem mas de dor, tal era o peso dos sacos das compras que aproveitaram para fazer nos privados. E, vejam lá, pelo meio deram um dia de salário ao Rui Pedro Soares, perdão, ao Estado. Por outro lado, mais legitimidade deram ao governo para entregar o volante ao FMI - que inevitavelmente aumentará a competitividade cortando nos salários e na despesa pública com pessoal e com clipes. Não percebo porque não bateram palmas. Os partidos e as suas clientelas vão poder continuar a governar-nos, sosseguem; e desta vez com a palmadinhas nas costas da Alemanha. Afinal, mais pobre menos pobre iniciaremos a caminhada para uma melhor democracia, perdão, para maior prosperidade. A não ser que também vos cheire a fim de festa. Mas animem-se: teremos sempre Paris.


Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho


Bruno Vieira Amaral

“Relativamente à minha não adesão à greve, ela não significa, tal como tu avançaste, que esteja «feito com os patrões». Creio que neste momento seja muito mais oportuno fazer horas extraordinárias, em vez de fazer greve. E não me venhas perguntar «porquê» com o ar inquisidor do costume: são coisas que se sentem e acabou.”

 

O Café Debaixo do Mar, Stefano Benni, Ulisseia, trad. Sara Ludovico


Terça-feira, 23 de Novembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

É rara a minha viagem de regresso a casa que não me permite guardar um episódio na memória. Raríssima. O que, na realidade, é bastante bom, independentemente da miséria que constitui cada um deles.

Hoje, no autocarro, entrou um homem, claramente doente, com a estrutura óssea deformada dos pés à cabeça, com baba a pingar e olhos perdidos. Trazia por todo o corpo malas penduradas. Malas de senhora, mochilas de criança, tudo. Vergava-se perante o peso, mas não as largava. Nunca as larga, que já não é a primeira vez que o vejo. Pavoneia-se, na sua provável demência, com aquele conjunto imenso de acessórios, que não sei se roubados, se achados, não sei, aos quais acrescenta, além da vasta colecção de pulseiras que leva nos braços, uma carteira de senhora, que abre e fecha, todo torto, sem nunca meter ou tirar nada. A isto tudo, junta um fedor insuportável, provavelmente causado pela merda que lhe escorre pelas pernas e transparece pelas calças. E nós ali, e ele ali, todos ali, a cheirarmo-nos uns aos outros, nós a ele, ele a nós, até que ele sai, em pulos desengonçados, que não anda bem, como poderia, e nós continuamos viagem a pensar para onde irá, o que fará, ou se algum carro, à conta da sua distraída caminhada pela via rápida, o impedirá de voltar a cheirar quem quer que seja.


Tiago Moreira Ramalho

Geralmente o que o leitor vê por aí é propaganda a incentivar a participação nas greves. É natural num país que, mais que estruturalmente tombado para a esquerda, é estruturalmente tombado para a folga. Bem, nós, que somos essencialmente tudo o que um dirigente sindical colocaria no Inferno, lembramos o leitor que cada português em greve será um português a votar na entrada do FMI em Portugal. Cada português em greve será um português a apoiar um Estado pretensamente «social», mas que na verdade é um artifício publicitário que, ano após ano, encarece. Cada português em greve será um português a dizer que, na realidade, está muito bem como está, já que a greve pretende a simples manutenção da situação actual. E agora prendam-me ou assim.


Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010
A Douta Ignorância

O Pedro Correia deu-nos um prémio porque «merecíamos». Não colocamos, obviamente, isso em causa. Merecemos, e muito. No entanto, deparados com a inevitabilidade de dar o prémio a alguém, que é assim que a coisa se faz (é a lição número dois), decidimos, após longa reunião à porta fechada com muitos cinzeiros em cima da mesa e garrafas de vodka, dar o prémio a blogues que achamos que, lá bem no fundo, até merecem ser lidos, mas que não lemos nem que nos paguem. Enfim, cá vão:

 

31 da Sarrafada

A Pipoca Mais Doce

Blogue de Direita

Blogue de Esquerda

Cocó na Fralda

Darwinismo

José Maria Martins

Máquina Zero

Portugal Contemporâneo

Um Homem na Cidade


Tiago Moreira Ramalho

Lamento profundamente, no entanto, que, por um lado, se compare a divulgação desta escuta à divulgação das escutas no processo Face Oculta. Uma é uma básica revelação de um facto íntimo da vida de alguém; outra é uma séria denúncia do mau funcionamento de uma Justiça perturbadoramente politizada. Em ambos os casos há uma lei quebrada, é inegável. Mas enquanto se pode vislumbrar num dos casos alguma pertinência na violação da lei – sim, a violação da lei pode ser pertinente – no outro não se vê pertinência alguma além da satisfação da triste necessidade de espectáculo. Lamento, por outro, quem defende, sem grandes argumentos, que os não há, a publicação deste lixo, puro lixo, apenas porque dá jeito.

Resumidamente, lamento uma gente que é incapaz, estruturalmente incapaz de escrutinar o trabalho da imprensa sem se deixar tolher pelas preferenciazinhas a montante. Comportamentos destes são estrada alcatroada para destinos menos recomendáveis.


Tiago Moreira Ramalho

Durante uns dias optei por não ler. Acontece que li sobre o assunto e, deparado com visões contraditórias, e para tirar qualquer dúvida, lá fui ao Correio da Manhã procurar a notícia sobre o que andou Edite Estrela a dizer dos seus colegas do Parlamento Europeu.

Objectivamente, aquilo é um exemplo acabado do que não é jornalismo. A divulgação despudorada de uma simples conversa entre dois amigos, uma conversa que, a atentar no conteúdo da notícia, não tem qualquer tipo de relevância para a coisa pública, é simplesmente repugnante. Edite Estrela não gosta de quem a acompanha? Seja ou não verdade, dificilmente será notícia. Supomos que a senhora Tânia Laranjo, a autora do texto, também não morrerá de amores por todos os seus coleguinhas de redacção. Digamos que só um jornal com uma linha editorial com um grau de inteligência (e não só) ao nível de uma amiba poderá considerar realmente que pequenas intrigas em grupos de trabalho têm relevância jornalística.

O problema é que enquanto este tipo de «produto» for procurado, dificilmente desaparecerá. Dificilmente se resolve com a lei aquilo que vem do costume. E é do costume que se vasculhe a vida alheia até à exaustão. Até que, um dia, a febre nos leve a demolir cada prédio e a colocar, em substituição, outros com paredes todas em vidro.


Tiago Moreira Ramalho

«São [as regras de cortesia ou de trato social] simples normas de convívio, destinadas a torná-lo mais agradável, como o dever de corresponder ao convite para um jantar ou para um passeio, agradecendo o convite ou justificando a sua não aceitação. A sanção correspondente ao não cumprimento de tais deveres não vai além da reprovação social do comportamento observado. Está aqui inteiramente fora de causa a ideia de coercibilidade.»

 

Inocêncio Galvão Telles, Introdução ao Estudo do Direito


Quinta-feira, 18 de Novembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Há um rapazinho cuja moleza o levou a deixar os estudos, mas cuja audácia, ou, se quisermos ser rigorosos, o espertismo, lhe trouxe um salário chorudo na Câmara de Lisboa. Nada que choque, no maravilhoso país dos 'assessores'.

A notícia é do Público e, ao que sabemos, ainda tudo continua na mesma. Pedro Gomes, um funcionário do PS que andou a saltar de um lado para o outro dentro do partido, e cuja experiência profissional e académica se resume a isso mesmo, recebeu a extraordinária proposta de fazer assessoria, coisa supimpa, à vereadora Graça Fonseca. O seu salário, aos vinte e seis anos e sem dois livros lidos, é de quase quatro mil euros mensais pagos em recibos verdes.

Como se isto por si só não fosse, já de si, um escândalo, acontece que o tal assessor Pedro Gomes tinha recebido um subsídio do IEFP para criar um negócio. O IEFP é mesmo amigo da malta, então enfiou quarenta mil euros na cuequinha de Pedro Gomes para que ele fizesse o servicinho de começar uma negociata qualquer - como se fizesse algum sentido que um negócio comece nestes termos. O Pedro Gomes recebeu as notinhas, agradado, claro, mas não fez negócio nenhum, que agora está de bem com a vida, com os seus quatro mil euros mensais pagos pela "amiga do povo", ou pelo menos de algum povo, Graça Fonseca.

Não condenamos o desgraçadinho do Pedro Gomes. Afinal, não foi ele que se passou os cheques. Dele sentimos mais uma espécie de peninha, que a coluna vai acabar a ressentir-se com uma vida a fazer de quatro. Condenamos, sim, a amiga Graça Fonseca, competentíssima vereadora que acha que os dinheiros públicos brotam de uma qualquer mística árvore das patacas e que, portanto, está tudo bem. Gostaríamos imenso de ler a sua carta de demissão. Condenamos, claro, um sistema que permite a entrega cega de dezenas de milhar de euros a quem quer "abrir negócios", como se essa fosse uma função do Estado. Adoraríamos ver o fim de tais "programas". Ou então não condenamos nada nem ninguém, porque, a bem da verdade, Pedritos e Gracinhas e demais "programinhas" há-os aos molhos e, suspeitamos, o povo até gosta, que pode ser que calhe algum. Remar contra a maré dá músculo, mas cansa muito.

 

 

Publicado no Expresso Online.


Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010
Rui Passos Rocha

Um gajo passa dias a estudar as atitudes políticas dos portugueses, como estão insatisfeitos e desafectos e tal, e lê teorias sobre o afastamento progressivo dos representantes em relação à sociedade, bem como dos eleitores em relação aos partidos. Há a percepção crescente de que os partidos do sistema são praticamente iguais; ou, na Europa, que não são como os partidos do pós-guerra, integradores e perfeitamente antitéticos. Obviamente, se esse gajo se ficar por aí vai concluir que shit happens: a sociedade mudou, os partidos adaptaram-se, a representação é diferente e as atitudes negativas são irremediáveis. Depois, o mesmo gajo vai ler sobre a comunicação social independente, sobre como ela molda atitudes, e poderá concluir cancioneiramente que gente como o José António Cerejo está a contribuir para o desgaste da política, para o anti-partidarismo, e merecia ser processada a bem da nação; ou então conclui que, porra, a esquerdice deveria ficar reconhecida porque finalmente a prática elitista de checks-and-balances é complementada pelo olhar atento do eleitorado, via imprensa. Há descontentamento porque há informação. Melhor democracia é um cidadão comum, de nome Luís M. Jorge, fazer um post a encaminhar olhares para mais um caso de clientelismo. Só lhe falta mesmo - para receber um subsídio meu - começar a falar de patronagem (parece que, apesar de tudo, somos os menos clientelistas da Europa do Sul) ou de cartelização (esta é para quem está a seguir o debate sobre a nova lei do financiamento aos partidos).


Terça-feira, 16 de Novembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

A pessoa de bem que se movimenta pelas redes sociais saberá seguramente que, por um motivo qualquer, toda a gente decidiu colocar imagens de bonecada que marcou as respectivas infâncias. Sendo eu de uma geração que foi mais educada pelas manhãs da SIC (os da SIC eram, de longe, os melhores desenhos animados) que pela família, foi seguramente difícil escolher. Acabei por optar pelo Dartacão. Tinha tudo. Era «do tempo dos reis e das rainhas», e o infante adorava toda a ideia à volta, apesar do republicanismo que já lhe corria nas veias; tinha uma bonita história de amor, que o infante sonhava para si; tinha aventura, a que o infante aspirava; tinha vilões, que o infante atacava; tinha tudo. O Dartacão tinha, simplesmente, tudo. Inclusivamente a melhor música de genérico que a memória guardou.


Tiago Moreira Ramalho

A crónica de Pedro Lomba, hoje, no Público está qualquer coisa superior. E ficamos por aqui.


Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Tornámo-nos, pela força das circunstâncias, que não divulgamos, leitores da publicação de regularidade mensal Prospect. O leitor mais atrevido está a sussurrar ao ecrã a pergunta que me faria a mim, caso a pudesse sussurrar a mim - «porquê?» Ora, achamos que este tipo de leitor, de duas uma, ou nunca leu a Prospect, o que nos faz temer pela sua qualidade de vida, ou, tendo lido, não percebeu a maravilha britânica que tinha na mão, o que nos faz experimentar o lamento profundo. Entendamos isto: os ingleses são um povo superior e as revistas inglesas estão cá para o demonstrar.

Existe uma página nesta revista, uma página em particular, que nos faz maldizer o destino que nos plantou aqui, tão longe da ilha. É a última. Trata-se do consultório da «tia Wilhemina», senhora assaz feia que aconselha ao mundo anglo-saxónico as melhores formas para tornar a vida, no mínimo, sofrível. Nesta edição temos um exemplo maravilhoso. Uma senhora confessa ter enganado o seu namorado na idade, pois, sendo mais velha que ele, não queria que ele soubesse. Anos depois, a mentira mantém-se, à custa de uma série de peripécias ocultadas, mas sucede que o namorado faz cinquenta anos e quer fazer uma grandiosa festa com a sua mais-que-tudo, que, supostamente, também os faz. A senhora, em desespero, manda um e-mail à tia, que, na primeira linha da resposta, cospe um brilhante: «I’m torn between pity and admiration». Apesar de feia, a tia bem que podia casar-se comigo. E não precisava de me mentir na idade.


Domingo, 14 de Novembro de 2010
Rui Passos Rocha


Tiago Moreira Ramalho

Sabemos que o mundo da crítica, seja ela literária, gastronómica, cinematográfica ou o que mais o leitor se lembrar, é um mundo complexo. A crítica não é senhora para critérios universais e cabe ao crítico escolher os melhores a cada momento. Ainda assim, julgamos um pouco confuso que haja disparidades tão brutais de crítico para crítico como as de que vamos dar conta em seguida. Acontece que somos gente que gosta de ler o suplemento Actual do Expresso. Gostamos especialmente de ler a crítica cinematográfica, pois vamos pouco ao cinema e gostamos de acertar quando vamos. Ora, sucede que na semana passada, os críticos do Actual davam-nos conta que «A Rede Social», o novo filme sobre o Facebook e o seu fundador, era um dos grandes filmes da década, em linha com o João Lopes, que afirmou, mais coisa menos coisa, o mesmo. Diziam-nos também que «O Verão da Boyita» se situava na mediania das duas estrelas, sendo, seguramente, «simpático, mas distante do melhor cinema argentino recente». Pois qual não é o meu espanto quando abro o Actual desta semana e, Jesus, há toda uma reviravolta (provavelmente foram ver os filmes) e «A Rede Social» passa a ser banal, coisa corriqueira, cheia de falhas e apenas com um leve fundo de brilhantismo, coisa para duas estrelas (notável despromoção, relativamente às quatro da semana anterior), ao passo que «O Verão de Boyita» passa a estar, «pelo menos», avisam-nos, «dois palmos acima da mediania» (juro que se isto é um elogio, eu prefiro ser brutalmente insultado). A questão essencial é: em que irei eu gastar o meu tempo, agora que ganhei mais algum?


Tiago Moreira Ramalho

Não há-de tardar.


Rui Passos Rocha

Agradeço desde já aos «aterrorizados» economistas políticos (ah, o barbudo) franceses que carimbaram o manifesto anti-estado-de-coisas e pró-reviralho-desta-merda-toda por lá terem encaixotado o essencial dos argumentos da esquerda contra o sistema. Que sistema? Como todos sabem, este sistema macrocéfalo e explorador em que todos vivemos, uns na opulência e outros a chafurdar no miserável lodo. Que nem escravos. O texto é útil, não estou a gozar; é que não é nada comum, pelo menos nos antros por onde circulo, e enquanto não me atiro ao calhamaço do Kolakowski, ler-se mais do que os típicos «a oligarquia, aliada com os grandes interesses do capital, tem uma política de usurpação dos direitos adquiridos pelo suor dos trabalhadores e quer conscientemente empobrecer o grosso da população», ou o meu preferido «para solucionar esta crise temos de expropriar os exploradores e aumentar os impostos aos restantes capitalistas e ricalhaços da linha de Cascais, cujos salários, redistribuídos, bastariam para nivelar o rendimento per capita nos 2000€ até que os amanhãs comecem finalmente a assobiar». O texto fala da ascensão do neoliberalismo, da desregulação dos mercados, do consumismo desenfreado sem o freio da mão invisível do Estado, por aí fora. E diz uma coisa que, a bem dizer, me tirou o sono esta noite: não é que os cães tinhosos que negoceiam Obrigações do Tesouro português compram mais quanto mais altos forem os juros? Ao contrário do que li no economia para tótós ilustrado, parece que no mercado da dívida a lei da procura e da oferta não se aplica, valha-nos São Hicks: «quando o preço aumenta é frequente constatar não uma descida mas sim um aumento da procura». Minha gente, estamos condenados a ser comidos pelos predadores. Graças a Askenazy e amigos, agora sei que os juros da dívida portuguesa vão inevitavelmente subir para os 200% ou mais. Alguém impeça esta gente de negociar com a soberania aqui do canto; por amor à foice, alguém nos dê solidariedade e pluralismo, joão-rodriguesmente falando.


Sábado, 13 de Novembro de 2010
Rui Passos Rocha

Há por aí um entendido da língua portuguesa que me diga, a troco da minha honorífica gratidão, se por cá ainda se escreve penny como nos bons velhos tempos? Perdão se sou pudico mas, não fossem o cenário e as personagens londrinos, era capaz de jurar que tinha sido a Margarida Rebelo Pinto a escrever que a senhora Charlotte Bartlett quis pagar o coche com seis pénis.


Rui Passos Rocha

- Sou um homem da esquerda, mas da esquerda moderada. Serei um Presidente democrático, não serei um Presidente de facção. Porque na reeleição de Cavaco Silva, independentemente da sua intenção, há um risco.

- Qual?

- Desta vez ele é apoiado mais claramente pelo PSD e pelo CDS. Se não descolar desse projecto teremos um PR que deixará de ser de todos os portugueses.

- Porque é que Cavaco seria um Presidente de facção e o senhor não?

- Porque eu tenho uma posição clara sobre esses aspectos concretos da nossa democracia, o SNS, a escola pública, a segurança social... Qualquer governo que os tente pôr em causa, mesmo que seja o PS, terá a minha oposição. Não sei se Cavaco dá a mesma garantia.

 

Manuel Alegre no Expresso de hoje.


Tiago Moreira Ramalho

O Instituto Nacional de Propriedade Industrial pagou 20.400 euros ao ISCTE para que lhe tratasse da conta do Twitter. Que o INPI decida ser modernaço, não temos nada contra. Aliás, o Twitter pode ter imensas potencialidades para o instituto (não sabemos exactamente quais, mas isso deve-se simplesmente à nossa falta de visão e assim). O que nos aborrece profundamente é esta depravação descarada de um instituto público contratar uma universidade para lhe tratar da conta do Twitter, pagando-lhe uma soma absurda, quando uma conta no Twitter é totalmente gratuita e facilmente se poderia colocar alguém do instituto responsável pelas actualizações da página. Claro que as notícias não trazem um nome que possamos responsabilizar, até porque nome nenhum vai ser responsabilizado. A pessoa que assinou o papelinho vai continuar a roçar o rabinho na mesma cadeira e, como ele, outros farão o mesmo de forma totalmente impune. Depois venham dizer-me que os ‘mercados’ é que me atacam.


Tiago Moreira Ramalho

A boa velha América, terra dos livres e assim, mantém, apesar das tentativas insistentes dos opositores, a deplorável «Don’t ask, don’t tell». Custa-nos a perceber a razão pela qual se apoiaria tal imposição. Colocada em termos simples, é a coisa mais absurda do mundo: homossexuais (homens ou mulheres) podem entrar no exército (o rebuçadinho dado à comunidade gay), mas não podem tornar público que são homossexuais ou ter qualquer tipo de relação homossexual no exército, pois caso o façam, serão conduzidos à saída, possivelmente empurrados com pauzinhos, para que a coisa não se contagie (toda a gente sabe que a madeira é um mau condutor da homossexualidade). Independentemente do absurdo que constitui, a lei consegue recolher apoios bastantes para durar há dezassete anos. O que não nos deveria chocar. A homofobia, independentemente do absurdo que constitui, é regra nas civilizações, ainda que com intervalos irregulares, há milénios. Temos, enquanto espécie, uma propensão estranha para cultivar a nossa própria estupidez.


Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

«As matérias de que Pedro Mexia trata derivam de vários saberes: arte, filosofia, religiões, cinema, e outros departamentos. Houve tempos em que tudo isto compunha uma mesma bagagem intelectual, que qualquer cavalheiro podia transportar sem ter de fazer declarações em diferentes alfândegas. Estamos hoje habituados a ver a erudição ao serviço de «teses», reduzida a um predicado utilitário, que valorizamos sobretudo como resultado de especialização e como ponto de partida de demonstração. Perdemos assim as noções mais necessárias. A erudição, como a plumagem de pássaros exóticos, é algo sempre excessivo para qualquer fim que se tenha em vista. A erudição real é necessariamente ociosa, vagamente injustificável. Agustina Bessa-Luís revelou algures que gosta de ler enciclopédias. É assim que se faz um erudito: não a estudar isto e aquilo, mas tudo. A erudição é um desperdício de tempo. Supõe a digressão, a distracção. O erudito é o Pedro Mexia, que, depois de ver O Processo do Rei de João Mário Grilo, vai para a biblioteca da faculdade procurar o dito processo (que exame terá sofrido com esse devaneio?). Ao contrário do especialista, o erudito não nos quer convencer: quer passar o tempo connosco, discorrer, perder-se, deambular, não ir a lado nenhum, como em qualquer conversa.»

 

Rui Ramos (do Prefácio ao livro «A Vida dos Outros» de Pedro Mexia)


Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Andamos há anos a ser atacados. É o que insistem em dizer-nos. O estado a que chegámos é puro e simples resultado de um ataque, que, por definição, terá sido premeditado e intencional, por parte de uma espécie de inimigo etéreo a que, a dias, chamamos ‘finança’, ‘mercados’ ou ‘especuladores’. Criámos este inimigo, ser que poderia ter sido retirado de uma qualquer mitologia neolítica, para não nos culpabilizarmos por algo que apenas nossa culpa é – meus caros, os governos são eleitos por alguém e o povo, soberano, é o último responsável pelo estado do país. Com a culpa longe, poderíamos manter a conveniente ilusão de que nada no nosso modus vivendi está errado, que os outros é que são maus.

Na realidade, os outros não são maus. São apenas menos estúpidos que nós. Temos que pagar bem para pedir dinheiro emprestado? Sim, temos. Porque simplesmente nenhum credor tem confiança na honorabilidade pátria no respeitante a saldar dívidas. A culpa da nossa miséria, da nossa falta de credibilidade não é dos outros, é nossa. Somos um país de má vida, de maus hábitos. Só quando percebermos este simples facto, poderemos perceber que o verdadeiro inimigo somos nós e que a acalmia só virá quando tivermos a inteligência mínima de parar a autofagia.


Tiago Moreira Ramalho

 

No fim do mês, no Maria Matos, o leitor poderá ter o prazer de me apertar a mão. Isto se eu não fugir, só para poder ouvir este gajo descansado.


Terça-feira, 9 de Novembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Andámos semanas, meses a levar o senhor Judt por companhia nos transportes públicos. O ritual era sempre o mesmo: ligar o computador, abrir o ensaio, imprimir, agrafar, guardar, sair, ler. Curiosamente, só hoje, tanto tempo passado, li o primeiro dos textos, ‘Night’. Citemos a grande lição:

 

'The pleasures of mental agility are much overstated, inevitably—as it now appears to me—by those not exclusively dependent upon them. Much the same can be said of well-meaning encouragements to find nonphysical compensations for physical inadequacy. That way lies futility. Loss is loss, and nothing is gained by calling it by a nicer name. My nights are intriguing; but I could do without them.'


Tiago Moreira Ramalho

 

Irritou sobremaneira o Henrique Raposo que um conjunto de homossexuais impedisse o Papa-móbil de se mover com a exposição pública do, digamos, afecto que nutrem uns pelos outros.

Sucede que, se é certo que não apreciamos particularmente a transformação da homossexualidade numa bandeira, concedemos que as circunstâncias podem a isso obrigar. Não podemos comparar a demonstração de ‘orgulho gay’ à demonstração de ‘orgulho hetero’. Ou melhor, podemos, mas não vamos a grande destino. É como se nos EUA de há uns anitos se comparasse o significado do ‘orgulho branco’ e do ‘orgulho negro’. Vamos dizer que os senhores negros (pretos-valentões?) eram também uns exageradinhos nas marchas e tudo mais? Enfim, nós não. Parece-me que sobre a pertinência da demonstração pública estamos conversados. Só quando a demonstração pública da homossexualidade for natural para a mente heterossexual média poderá dizer-se que a homossexualidade em si é natural, pelo menos aos olhos da generalidade dos que não são. Sim, porque não me parece que o que estava em causa era a defesa de uma lei, mas sim a defesa de um certo tipo de igualdade anterior à própria lei.

Sobre a hipocrisia e cobardia não temos muito a dizer. Insistimos em achar que sobreviver vale mais do que protestar (perdoe-nos o leitor mais romântico, mas ainda não andamos com ideias de morrer por causas). É que independentemente de acharmos heróica a morte idealista, não somos ninguém para condenar quem não opta por esse caminho. Era o que nos faltava, isso de nos armarmos em apologistas do suicídio, não pelo absurdo da vida, mas pelo absurdo do establishment – há limites.

Não entendemos o porquê de, de repente, o Henrique Raposo ter ganho tanta agressividade relativamente ao ‘grupo’ em questão. Não lhe conhecíamos, nem sequer supúnhamos, especiais problemas destes. Esperamos que seja mesmo simples irritação, quem sabe devida à consideração pelo motorista do Papa-móbil que devia estar desagradado por não poder avançar. Caso seja mais do que isso, resta-nos lamentar profundamente.


Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010
Bruno Vieira Amaral

Lá voltámos ao normal com uma normal goleada anormal, ou seja, números inusuais mas nem por isso completamente inesperados (antes do jogo, um benfiquista temia que o Benfica fosse fazer de Feyenoord e apanhasse dez). Hulk era, e com razão, a grande preocupação de Jesus. É verdade que inventou, que mostrou medo, que encolheu a equipa, etc, mas também há quem o acuse de não ter reforçado o meio-campo com mais um trinco, o que, presumo, teria sido um acto de coragem. Enfim, saiu o Peixoto, o que é sempre uma boa notícia. Jesus quis apenas não desperdiçar o seu melhor homem, Coentrão, na inglória tarefa de tentar travar Hulk. Pôs lá um homem, David Luiz, a quem todos elogiam a velocidade, mas que à primeira investida do Givanildo ficou de gatas. Na segunda parte, Coentrão não ficou de gatas mas, ao jeito do râguebi, teve de se mandar às pernas do Incrível. Resultado: penalty. Sejamos honestos: mesmo que Jesus não tivesse inventado o resultado não seria muito diferente. O Porto deste ano é muito superior a qualquer equipa da Liga. O Benfica, repetindo erros antigos (sobretudo a definição tardia do plantel, com erros de palmatória como o empréstimo de Urreta, o desaparecimento de Shaffer e a não-venda de Cardozo), está a milhas do Benfica do ano passado. Acabou-se a pressão alta, a solidez defensiva, a rapidez nas (é como se chamam agora) transições. Podemos continuar a falar de árbitros, das escutas, do sistema, da fruta, das viagens, do futebol de alterne, do fora-de-jogo do Cardozo contra o Guimarães: o Porto responde com Moutinho, Varela, Falcão e Hulk. Aquilo dá para albergar equívocos como Guarín, Rolando e Sapunaru e, mesmo assim, golear. Não ponho em causa a idoneidade de Luís Filipe Vieira, mas um presidente que compra um guarda-redes por 8.5 milhões de euros não percebe um caralho de futebol. Pinto da Costa percebe. De há trinta anos para cá, é essa a diferença. Mais puta, menos puta.


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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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