Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010
A Douta Ignorância

Vão finalmente ser divulgados os prémios que nós, pessoas importantes, atribuímos. Sabíamos que uma multidão de leitores os aguardava, por isso cá vão:

 

Prémio Personalidade do Ano: Tiago Moreira Ramalho, sendo que os restantes autores receberam menções honrosas;

 

Prémio Serviço de Apoio ao Cliente do Ano: Ensitel;

 

Prémio Empresa do Ano: BPN;

 

Prémio Banda Revelação: Zeca Sempre;

 

Prémio 'vou ali e já venho': Miguel Vale de Almeida;

 

Prémio 'sou tão uau e tal': Marta Rebelo;

 

Prémio 'acho o sócrates um génio': ex-aequo Eduardo Pitta e Emídio Rangel;

 

Prémio 'os economistas de todo o mundo vêm em sentido contrário': João Galamba;

 

Prémio 'ai, agora já sou boa?': a título póstumo a Maria de Lurdes Rodrigues;

 

Prémio Milf 2010: Gabriela Canavilhas;

 

Prémio Inovação do Ano: livros metidos em caixinhas apaneleiradas e por mais uns 10€;

 

Prémio Frase do Ano: «Fazemos assim: eu aceito dar explicações por cada muçulmano que raptar um filho a uma mãe cristã se o José Manuel Fernandes prometer enfiar uma banana no cu de cada vez que um padre for condenado por pedofilia, combinado?» Maradona.

 

Que todos os nossos leitores tenham um ano porreiro, pá.


Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010
Rui Passos Rocha

A garantia é de Passos Coelho:

 

The whole farm was deeply divided on the subject of the windmill. Snowball did not deny that to build it would be a difficult business. Stone would have to be quarried and built up into walls, then the sails would have to be made and after that there would be need for dynamos and cables. (How these were to be procured, Snowball did not say.) But he maintained that it could all be done in a year. And thereafter, he declared, so much labour would be saved that the animals would only need to work three days a week. Napoleon, on the other hand, argued that the great need of the moment was to increase food production, and that if they wasted time on the windmill they would all starve to death. The animals formed themselves into two factions under the slogans, 'Vote for Snowball and the three-day week' and 'Vote for Napoleon and the full manger'.

[...]

On the third Sunday after Snowball's expulsion, the animals were somewhat surprised to hear Napoleon announce that the windmill was to be built after all. He did not give any reasons for having changed his mind, but merely warned the animals that this extra task would mean very hard work; it might even be necessary to reduce their rations.


- Animal Farm


Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010
Rui Passos Rocha

Os dez mais vistos no YouTube.


Tiago Moreira Ramalho

«Donas de casa torrenciais. Pedem um cafézinho muito quentinho curtinho numa chávena escaldadinha porque são umas lambonas e não podem sair à rua por causa do frio e dos pés inchados e dos quebrantos e dos bicos de papagaio e do goto inflamado e das dores na junta e da bicha solitária e da astrite e da astrose e do lumbago e do monco caído e da espinhela partida. Compram doze não trinta carcaças bem cozidinhas porque veio ontem de Paris a-filha-que-está-casada-com-o-engenheiro e só gosta do pãozinho português que é branquinho e cozidinho e não é o pão que os franceses carregam nos sovacos todos suados que aquela gente nunca toma banho como nós os mais limpinhos e branquinhos e cozidinhos da Europa e as porcas das francesas molham a cara com panos húmidos e nunca se lavam por baixo. Ai que nojo. Querem um euromilhões premiado senhor Teixeira para ir ao Brásiu laurear a pevide no Léblon e ver a Bruna e dar um beijão ao Marcelo e fofocar com a Taís e cutucar o Dirceu e transar com o Maurício e ficar no bem bom com a Dulcineide a Débora a Renata e a Solange e cuspir nas fuças da jararáca que fazia de Rafaela no Viver a Vida.

São as nossas Sherazades. Mil e uma noites e café da manhã para dois — sem saber o que virá depois, bem bom.»

 

Luis M. Jorge


Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010
Bruno Vieira Amaral

Excelente post no Estado Sentido.


Bruno Vieira Amaral

Nisto das reclamações é esta a atitude a ter. Não desistir. Eu, que até vou comprar um telemóvel brevemente, declaro o meu boicote à Ensitel. E podíamos todos fazer uma linda corrente blogosférica a dizer "Eu não compro nada à Ensitel."


Arquivado em:
Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010
Bruno Vieira Amaral

Não vejo muita televisão, mas, impelido por uma força exterior ignota, não resisto a uma co-produção, sobretudo se for europeia. Quem não fica com água na boca ao imaginar o resultado dos esforços conjuntos dos melhores sonoplastas húngaros, das mais competentes maquilhadoras romenas e dos rigorosos produtores austríacos? Ainda melhor é quando juntam actores que não falam a mesma língua, numa Babel caótica e colada com o esperanto da dobragem. O elenco pode incluir Hans Morgenstern, Eva Kňồsèc e João Lagarto, numa sucessão multicultural de estrelas desconhecidas. Lá pelo meio, um nome reconhecível, capaz de por si só justificar a expressão “à frente de um elenco de luxo”. Era esse o papel de Omar Shariff em séries da RAI, como Pavilhões Distantes. No caso de Os Pilares da Terra, mini-série de co-produção germano-canadiana (é favor evitar piadas bélicas), o credor de prestígio é Donald Sutherland. Baseada no portentoso romance de Ken Follett, que eu, há coisa de cinco anos, não li, a série acompanha Tom, o Construtor, um antepassado do Bob, que tem a pancada de construir uma catedral. Houve um momento em que tremi de emoção benfiquista, quando Tom, ao apresentar o seu projecto ao prior, fala de uma catedral de luz e eu percebi A Catedral da Luz. Para quem não sabe, a história passa-se na Idade Média, com gente muito miserável e andrajosa (mas de dentição perfeita), monarcas pérfidos e monges sodomitas. Há envenenamentos e incêndios em mosteiros, mas quem pensar em O Nome da Rosa cheira mal. No final do episódio de ontem, havia boas perspectivas para se iniciar a construção da catedral, que deverá terminar, não sem centenas de peripécias emocionantes, lá para o oitavo e último episódio.


Rui Passos Rocha

Enquanto os políticos não se organizam em sindicato estou condenado a ler infinitos elencos do que há de bom na transparência e na democracia aberta. Também o Peter Singer (pouco menos capilarmente avantajado do que o Moita Flores, igualmente palrador sobre tudo e mais alguma coisa, mas com a diferença de o seu cérebro conter processadores que lhe permitem saber, em tempo real, o quão distante está de proferir cócó) é a favor de uma diplomacia transparente, com uma ou outra cortina para ocultar coisas como planos de democratização. Também o Pedro Lomba - em quem Singer naturalmente se inspirou - escreveu há tempos que a transparência não pode ser total, sob pena de alguns fins paretianos deixarem de poder ser alcançados por dependerem de processos cuja publicidade colocaria em causa esses próprios fins. De qualquer modo, imagino, mais afinação menos afinação a transparência seria o caminho para melhorar a representação: seria informativa, encurtaria o espaço para corrupção e clientelismo na política, a 'vontade geral' poderia finalmente ser medida a pulso. O que não vi ainda escrito - e por isso achei que o mundo precisava deste meu esclarecimento à uma da manhã - foi um só textículo sobre as implicações da transparência para as atitudes políticas. Sabe-se que as notícias negativas sobre a governação acentuam o descontentamento dos eleitores face aos políticos, aos partidos, às instituições; por isso, a multiplicação de WikiLeaks por aí fora pode ajudar a erodir a confiança que sustenta o regime - se continuarem a ser utilizados como um «school report card that only reports when a student is sent to detention, plays hooky from class, or fails courses, but does not register when she earns As in her course». Não me apontem já as catanas: a transparência deve prevalecer, até onde possível; de pouco serve uma confiança baseada em ignorância. Mas a transparência apenas existirá se não for minado o sustento do regime: a confiança que o eleitorado nele deposita. Mais importante do que discutir que actividades devem manter o selo secreto ou ser divulgadas será imaginar graus de abertura, de transparência, implementáveis paulatinamente e confrontáveis com as reacções populares. Não faltam jardins e bernardinos para contar despojos.


Domingo, 26 de Dezembro de 2010
Rui Passos Rocha


Líriques.


Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010
Rui Passos Rocha


Bruno Vieira Amaral

Entre os meus livros de 2010, que eu também tenho direito a fazer a minha lista, habituado que estou a fazer listas de compras, destaco três: A Amante Holandesa, de J. Rentes de Carvalho, Zeitoun, de Dave Eggers e Clarice Lispector – Uma Vida, de Benjamin Moser.

 

Outros livros muito bons que suavizaram o dever de os ler: Silêncio (Shusaku Endo), A Cor do Hibisco (Chimamanda Ngozi Adichie), Peregrinação de Enmanuel Jhesus (Pedro Rosa Mendes), O Fio da Navalha (W. Somerset Maugham), Verão (J.M. Coetzee), Inverness (Ana Teresa Pereira), Unha com Carne (Elmore Leonard), Pecados e Seduções (John Updike), O Sonho do Celta (Mario Vargas Llosa), O Cairo Novo (Naguib Mahfouz), A Beleza e a Tristeza (Yasunary Kawabata), Papéis Inesperados (Julio Cortázar), Milagrário Pessoal (José Eduardo Agualusa), Parrot e Olivier na América (Peter Carey), Vício Intrínseco (Thomas Pynchon), A Literatura Nazi nas Américas (Roberto Bolaño), Uma Gata, Um Homem e Duas Mulheres (Junichiro Tanizaki). Para o ano há mais.


Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010
Rui Passos Rocha

The trouble with simplification is that things are complicated. The trouble with things being complicated is that we need to simplify them.

(Charles Crawford)


Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

O Salário Mínimo, mais que um problema económico, que o João Miranda faz o favor de enunciar nos termos certos, é um problema de Política. Daquela a sério. Leva-nos a pensar no significado da liberdade contratual, o qual parece bastante flexível porquanto o Estado diz, sim, são livres de contratualizar, mas calma lá. E podem vir todos pimpões dizer que este não é caso único, que não me fazem cair uma pestana – um princípio violado muitas vezes não deixa de ser um princípio. Leva-nos, também, a pensar na forma como o Estado se julga competente para dizer à população qual é a forma digna de viver, o patamar mínimo merecedor de respeito – em Portugal, pelos vistos, a vida com dignidade surge aos quinhentos euros mensais por membro activo do agregado familiar. Claro que aqueles que trabalham por conta própria, na sua tensão empregador-empregado, esquizofrenia poderosa, deveriam ser processados caso não gerassem tal rendimento. Afinal, os trabalhadores não podem ser explorados – nem por si próprios. E, por fim, é uma máscara. O Salário Mínimo é a máscara que faz com que os salários de um país não tenham uma distribuição normal, mas sim uma aberração de cauda levantada na base. Uma máscara que funciona de jeito igual às toneladas de subsídios sociais (estes, confesso, fazem-me menos comichão que o Salário Mínimo). É muito mais fácil impor por decreto o fim da pobreza que criar os decretos necessários para que ela finde naturalmente ou para que pelo menos se reduza de forma sustentável. E, afinal, para quê estarmo-nos para aqui a cansar?


Bruno Vieira Amaral

Não costumo utilizar o blog para me queixar de maus serviços, mas quando estes são péssimos sinto-me compelido a fazê-lo. Até porque, se o não fizesse, seria uma desconsideração para com os CTT e para com os esforços dos seus funcionários na difícil tarefa de me irritar. A história, real, para mal dos meus pecados, que são poucos e não merecedores de tamanha punição, é esta: encomendei dois livros pelo Book Depository. No dia 16, quando cheguei a casa, tinha um aviso na caixa do correio que me informava das maravilhas do Siga. Bastava dirigir-me à estação dos correios mais próxima do meu trabalho e solicitar o reenvio da encomenda para esta estação. Assim fiz. Isto no dia 17. O prazo, dizem, é de 48 horas. Hoje, dia 22, continuo à espera da encomenda. Primeiro, porque não era possível inserir o pedido no computador, a funcionária dos CTT teve de enviar um fax. Na 2ª-feira, explicou-me a diferença entre Posto e Estação para justificar a demora. Na 3ª, liguei para o Posto de origem e disseram-me que a encomenda já não estava lá. Hoje, 4ª-feira, não sei onde é que está a encomenda, a funcionária diz-me que correio normal demora mais e que, clássico dos clássicos, a culpa não é dela, que fez o pedido logo na 6ª-feira. O engraçado nisto tudo é que a encomenda foi despachada de Inglaterra no dia 13 e chegou ao Posto no dia 16, enquanto que o maravilhoso Siga não garante que uma encomenda demore menos de três dias a percorrer o trajecto Barreiro-Entrecampos. Lá tive de fazer a reclamaçãozinha, perante o enfado da funcionária, que reconheceu o meu direito de reclamar, embora a expressão facial demonstrasse claramente que achava a minha atitude um tanto ou quanto exagerada porque, afinal, a culpa não era dela. Amanhã, dia 23, antevéspera de Natal, lá estarei na Estação de Correios de Entrecampos, à espera da malfadada encomenda, esperando não ser causa de grande incómodo para os funcionários que tão diligentemente se descartam de responsabilidades. É o sistema, como diria Dias da Cunha.


Tiago Moreira Ramalho

 

«Seria muito estúpido da nossa parte vivermos infelizes em nome de um ideal.»


Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010
Priscila Rêgo

No Ladrões de Bicicletas, Nuno Serra defende que a ideia de que a despesa pública portuguesa é elevada está errada porque o PIB real é muito superior àquilo que aparece nos números oficiais. O problema não está, portanto, no nível de gastos do Estado. O problema está no facto de haver quem ainda lhe escape às garras.

 

Num certo sentido, isto é verdade. Se houver mais receita, a despesa será obviamente mais fácil de acomodar. Mas pôr as coisas nestes termos pode ser enganador. Eu também não levo uma vida especialmente desregrada para a minha idade e compleição física. Mas, tendo problemas de costas, não tenho outro remédio que não seja ter cuidado com os esforços.

 

Também desconfio que as duas variáveis – cobrança fiscal e economia subterrânea – não são independentes. Taxas mais altas, sabe-se há algum tempo, tendem a incentivar a fuga aos impostos. As conclusões do estudo citado pelo Nuno Serra talvez sejam por isso menos surpreendentes se forem cruzadas com as de um outro estudo, desta feita publicado pela OCDE. O título é algo do género: "Portugal foi o país da UE onde a carga fiscal mais subiu".

 

Note-se que esta ideia já é, em parte, avançada pelos autores do estudo que o próprio Nuno Serra cita: “os autores justificam esse crescimento pelo aumento da carga fiscal e de outras contribuições, como para a segurança social”. Podemos espremer ainda mais a laranja, mas o único resultado será uma cobrança marginal cada vez menor e uma evasão fiscal cada vez maior. E, claro, um Nuno Serra muito mais indignado.

 

Finalmente, dois pontos importantes. Primeiro, note-se que o peso da economia informal em Portugal já é inferior ao que se regista nos países latinos, com os quais temos mais afinidades culturais (Espanha e Itália). Segundo, uma boa parte da economia informal que escapa às estatísticas diz respeito a pequenos negócios, criados por pessoas que de outra forma estariam desempregadas ou a trabalhar para um temível explorador capitalista por salários baixíssimos. Não é propriamente o BES que foge aos radares do fisco.


Domingo, 19 de Dezembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

O meu mundo é pequeno o bastante para que o percorra de autocarro. E para que o conheça no autocarro. No caso, o mundo era uma rapariga morena, de cabelo aos caracóis aloirados, pintados, suponho, que exibia o seu gosto musical através de um telemóvel cuidadosamente acomodado no intervalo dos seios, os quais exibia igualmente, sem grandes pudores e com alguma, admita-se, legitimidade. O passo era lento, seguro, acompanhado por um sincopado movimento das ancas. O corredor do autocarro era muito mais do que um espaço sujo e apertado para chegar aos lugares desocupados. Era o palco. E ela actuava. Cumprimentava os bonés e as calças largas dos amigos da infância, com aquele jeito de falar de quem parece ter a boca cheia. Então, estás bom, como se a resposta tivesse especial interesse. Sentada, sem poder continuar os movimentos sem cair no ridículo, substituía-os por outros que julgava sucedâneos competentes – um balão de pastilha rebentado devagar, um jeito ao cabelo, um eventual beicinho, um olhar atentamente distante. Depois tocou no botãozinho vermelho, cheio da sujidade das mãos que lhe tocaram antes. O autocarro, parado, abriu as portas e ela, com a sua musicalidade alojada nos mesmos sítios, desceu cada um dos degraus e foi, sem olhar para trás, à sua vida. Para um mundo diferente do meu.


Tiago Moreira Ramalho

«Por razões de saúde, Carlos Encarnação resolveu bater com a porta. ‘Estou farto deste governo’, disse o autarca de Coimbra, embora sem revelar se tenciona mover uma acção contra o eng. Sócrates por danos psicológicos irreparáveis.

Se não tenciona, devia: qualquer português que tenha vivido em Portugal nos últimos cinco anos é um sério candidato a stress pós-traumático. Ou, mais precisamente, a stress pós-socrático, uma estranha maleita que impede o cidadão comum de distinguir a fantasia da realidade. A única coisa que se lamenta na demissão do autarca de Coimbra é os portugueses não poderem ir com ele para o exílio.

Infelizmente, continuaremos a sofrer em silêncio, incapazes de bater com a porta e obrigados a suportar as 50, ou as 100, ou as 1000 medidas para salvar Portugal. Uma tortura de propaganda que irá durar até ao dia em que as tropas do FMI aterrarem na Portela, prontas para resgatar um povo do seu cativeiro. Só espero que, quando esse dia chegar, o dr. Encarnação regresse à pátria e traga com ele os enfermeiros.»

 

João Pereira Coutinho, no CM


Tiago Moreira Ramalho

Finalmente.


Sábado, 18 de Dezembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

 

Não sei se foi de propósito. Se calhar o senhor PTP queria dizer-nos que o senhor Rosa e a senhora Laranja mereciam perder as eleições porque não sabiam ler. No entanto o argumento parece fraquinho, visto que a moderadora do debate não era candidata e o próprio senhor PTP não devia estar ali só para aquecer. A questão fundamental é que, pelos padrões portugueses, estes senhores são cidadãos alfabetizados e, com jeito, até sabem elementos de matemática e umas merdas de «estudo do meio». A miséria, a miséria.


Tiago Moreira Ramalho

Não existem investigações «pertinentes». Muito menos quando falamos de investigações históricas. No entanto, a portugalidade é cheia de «pertinências» neste âmbito. Não será por acaso que, de um momento para o outro, tão vasta panóplia de vetustas personalidades s’alembrou de publicar o seu modestíssimo dizer sobre Camarate, Sá Carneiro e Amaro da Costa. É de lamentar porque, por um lado, são aproveitamentos próximos do bárbaro da comercialidade dos finados tão «respeitados», e porque, por outro, investigações feitas com tais propósitos são fundamentalmente toscas, mal paridas, digamos assim, coisa de semanas que o tempo, que apaga tudo, apagará de forma confrangedoramente rápida. Eles lá sabem.


Tiago Moreira Ramalho

Soldados britânicos recebem cuecas blindadas.


Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

 

Li uma série de críticas a este filme e, curiosamente, nunca li sobre ele. Tem um final infelicíssimo, apesar de mascarado. O filme está aqui: «Anne-Marie, pardon». Vá vê-lo, leitor, só para poder concordar comigo.


Bruno Vieira Amaral

Quando Nancy Astor disse a Churchill que, se fosse sua mulher, poria veneno no café dele, Churchill respondeu-lhe para a eternidade: “Se eu fosse seu marido, Nancy, bebia-o.” O que quero contar nada tem a ver com esta história, mas sempre quis começar um post com um episódio churchillesco. Adiante: muitas tragédias seriam evitadas se alguém acabasse com a fantasia plebeia do “sair da rotina”, coisa que nunca sai a menos de cem euros e que pode envolver jantar fora ou, para os mais ambiciosos, um acidente rodoviário. Grande parte da minha vida tem sido dedicada, com moderado sucesso, a não sair da rotina. É um esforço mal compreendido pela classe média porque normalmente implica comer frango quase todos os dias. Porém, não me arrependo. Lembro-me de duas ocasiões em que, apesar dos meus esforços, fui deslocado da rotina para sítios extravagantes e, para mim, até então desconhecidos: Barcelona e divórcio, que têm em comum uma intensa vida nocturna, embora a Cidade Condal esteja mais bem servida de transportes e raramente insista em ficar com metade dos nossos bens. No último fim-de-semana, inspirado pelo subsídio de Natal, resolvi levar a minha mulher até Évora, num passeio que tecnicamente pode ser considerado uma saída da rotina. Viagem tranquila, pouco mais de uma hora, pousada simpática e aqui vamos nós ver as maravilhas da cidade património mundial da humanidade. A Praça do Giraldo estava animada, mas eu todos os dias vejo o Terreiro do Paço e não me impressiono com praças de província. Andámos uns minutos à procura do famoso Templo de Diana até que o encontrámos na sua despida dignidade romana. É bonito, mas arejado de mais para local de culto. Só os romanos para adorar os seus deuses enquanto apanhavam pneumonias. Perto dali, fica a imponente Sé Catedral. Emociono-me sempre que observo a coabitação pacífica de culturas e tradições distintas: os carros estacionados em segunda fila mesmo ao lado da Catedral deixaram-me uma névoa nos olhos, mas afinal era do fumo dos charros catolicamente fumados por um grupos de jovens, calculo que autóctones. O jantar foi agradável. Regressámos à pousada a tempo de ver o Sporting a ser derrotado pelo Vitória de Setúbal, o que foi um simbólico e feliz regresso à rotina.


Tiago Moreira Ramalho

«E não sou só eu que estou com medo: a vizinhança também está. O filho da Dona Odete, machão encartado, receia que se conheça a sua aventura homossexual aos 17 anos com um primo de Setúbal. O dietista do 2.º esquerdo treme só de pensar que o mundo vai comentar o seu vício das trufas de chocolate belga. O intelectual do rés-do-chão tem ataques de pânico ao imaginar que os seus tertulianos amigos podem vir a perceber que, enquanto lê o seu Zizek, tem a televisão sintonizada no Dr. Oz.»

 

Eu não sei o que diz o leitor, mas a verdade, e caso o leitor discorde da verdade, temos um problema, é que isto é muito bom. E de onde isto veio há mais.


Tiago Moreira Ramalho

 

Convidaram-me para ir mandar uns bitaites e eu lá fui. O folhado de salsicha do bar lá em Queluz é fraquinho, mas até que nem foi mau de todo.


Rui Passos Rocha

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Bruno Vieira Amaral

Assisti a cinco minutos do aguardado debate entre Francisco Lopes e Fernando Nobre. No canto vermelho, o Chico Lopes, homem do Partido, com aquela cara anódina de revisor da Carris, colou Nobre ao orçamento porque este se atreveu a dizer que era o orçamento possível (uma afirmação que está para a política como o “é a vida” está para a filosofia). A estratégia do candidato comunista ficou clara: colar toda a gente ao orçamento, incluindo o pobre Nobre e, quem sabe, até este vosso escriba que também considera este o orçamento possível, quando o desejável seria que fôssemos o Luxemburgo. No canto cor-de-rosa pálido, Nobre falou de crianças esfomeadas atrás de galinhas, ao que Francisco Lopes contrapôs com a sua experiência de ir para a escola descalço (para não enriquecer os empresários da indústria do calçado), evitando qualquer referência a perseguições a aves. Nobre perguntou a Chico Lopes se ele tinha estado em Beirute em 1982. Chico Lopes ficou de perguntar à mulher, que é quem trata dessas coisas lá em casa. Prevê-se um aceso debate entre Nobre e Alegre; como toda a gente sabe, de Argel a Beirute é um saltinho. Mas é bom que Nobre evite este tipo de argumentos com Cavaco. É que o actual Presidente da República esteve em vários congressos do PSD, que fazem Beirute-1982 parecer uma brincadeira de crianças (a correr atrás de galinhas ou não). Infelizmente, não pude seguir o emocionante recontro até final porque a myzentv estava a passar imagens de um regato.

 

Vencedor: atribuo a vitória por unanimidade a Fernando Nobre, por ter estado em Beirute, ao contrário de Francisco Lopes, que nunca se afasta muito da Soeiro Pereira Gomes.


Priscila Rêgo

Instituições, Orçamento do Estado e mentalidade tuga. No Delito de Opinião.

 

A maior parte dos economistas acredita que as instituições são exógenas. Desde Adam Smith que direitos de propriedade sólidos, tribunais imparciais e mecanismos de resolução de conflitos viáveis são vistos como o interruptor institucional que liga e desliga o crescimento económico. E esta é a posição standard de organismos como o FMI ou o Banco Mundial. Mas o crescimento resulta das boas instituições ou são os países com condições para crescer que criam boas instituições para realizar esse potencial?

 


Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010
Tiago Moreira Ramalho

Então não é que o Luís M. Jorge está coberto de razão? O termo é meu e eu nem me lembrava (tenho esta relação relaxada com as minhas palavras). De qualquer forma, está tudo bem.


Tiago Moreira Ramalho

Não duvido que este meu texto possa, como escreve o Luís M. Jorge, ter problemas. Não me parece é que tenha os «problemas» que o Luís aponta.

Tocando no primeiro problema, eu não referi os que apoiavam o regime pois coloco-os num «saco» diferente daqueles que simplesmente «compactuavam», nas palavras do Luís M. Jorge. A conversa pseudo-heróica é bem catita muitos anos depois, mas os meus avós, que não eram, de todo em todo, fascistas, tinham filhos para criar e não é de forma leviana que se pega numa arma e se vai para o Terreiro do Paço matar gente. Manuel Alegre não quer saber se hostiliza e o Luís M. Jorge acha que está tudo bem. Não posso fazer nada além de lamentar a objectiva insensibilidade e lembrar que um candidato presidencial o é para todos os portugueses, pelo que não é, vá, simpático começar na campanha por afirmar o seu, arriscamos, ódio a uma parte deles.

Relativamente ao segundo problema, não discordo que os políticos se distingam pelas respectivas biografias, o que me parece é que o «facto», que se presume «politicamente relevante» trazido por Manuel Alegre para a campanha não me parece fundamental, atendendo à «desproblematização» do primeiro «problema» que o Luís M. Jorge aponta ao meu texto.

Já no que ao terceiro problema diz respeito, parece-me que não é problema de todo. Aliás, o Luís M. Jorge até parece concordar comigo – é um franco aborrecimento que nos impinjam esse tipo de coisas diariamente. Eu disse que não apreciava a conversa alegrista, mas em momento algum disse gostar da apologia cavaqueira.

Terminando, que é tempo, com o quarto problema, optamos por remeter, novamente, para a «desproblematização» do primeiro «problema». É que, afinal, isto anda tudo ligado e, apesar dos problemas, o raio dos textos tendem a ter um argumento, mesmo que dos mauzinhos, lá por baixo.

Quanto às opções de voto, o Luís M. Jorge devia, para usar uma expressão do Maradona, estar mais atento à minha obra. É que, ó Luís, aqui o problemático já disse cobras e lagartos do candidato cuja «pulsão hagiográfica» o «repugna».


Rui Passos Rocha

Não ouso especular sobre as implicações de altares sacrificiais como o uiquiliques para o agravar do afastamento dos cidadãos em relação à política. Deixo isso para socialistas franceses. Por mim, reduções de confiança e deferência causadas pelo esventramento diplomático, em nome do deus-transparência ou de outro, parecem-me até coisa boa. Mau é se o estraçalhar servir para legitimar violações de direitos humanos, seja onde for. Também não ouso problematizar o conceito de jornalismo científico criado por Assange. Não quero contribuir para o desemprego de investigadores a soldo da FCT, até por solidariedade/cobardia corporativa. Apenas me parece pouco imaginativo e, vá, um bocadito conservador de mais, defender o direito universal a informação o mais verídica possível e ao mesmo tempo criticar a WikiLeaks por fazê-lo apenas com dados da diplomacia americana. Dizem que pode fragilizar a América e preferem a rolha. Estes costumam ser os gajos que acreditam na expansão da democracia pelo exemplo e pela persuasão.


Rui Passos Rocha

Como é óbvio, nada tenho a apontar a um sistema educativo que ressuscita potenciais delinquentes e os transforma em prodígios com média de 20, dando-lhes Novas Oportunidades. Consequentemente, estou também a favor da ideia do MCTES de dar a estes casos de sucesso vagas específicas (como as que já existem para maiores de 23) no acesso ao ensino superior. Não são comparáveis com esses que por aí passam anos a estudar só para, pobres imbecis, acabarem com médias sempre inferiores às dos prodígios, a quem um só exame basta para condensar as suas brilhantes capacidades. Por São Plano-Nacional-de-Leitura, só por má fé é que uns quantos bastardos decidem pôr isto em causa.


Rui Passos Rocha

Foi de génio esta de a Atlantic ter ontem publicado, através do El País e de um site fraquito chamado WikiLeaks, um rol de artigos de uma edição portuguesa experimental. É pena que o mercado tenha defecado no projecto sem sequer ler os textos do tal Stephenson, o jornalista correspondente. Enquanto a imprensa indígena compete pelo prémio Escrita Mais Insípida 2010, lamento que a edição-teaser da Atlantic do lado de cá não tenha captado a atenção. As gentes preferiram ler versões sensabor dos originais noutros media. Ainda assim, e porque a imprensa muito suave de cá do sítio não nos desperta assim os sentidos (a não ser que se considere a sonolência um sentido), aqui copio uns chuchos:

 

- "Canny Pedro Santana Lopes", cujo "widely disparaged government" o tornou "tainted with the stench of defeat", não é carismático, "but that is not seen as a particular hindrance in Portuguese politics".

 

- Sócrates "was midwife to the Lisbon Treaty in late 2007" e António Costa é "competent but abrasive".

 

- "PSD backbenchers argue so much about whether the party should promote 'more tax cuts' or 'better tax cuts' that no one really knows - least of all the PSD parliamentarians themselves - the party's position".

 

- "Polls indicate that most voters think all politicians are corrupt, so specific allegations - like those facing PM Socrates - are not a bar to office"


Tiago Moreira Ramalho

 

Sabe tão bem quando levamos expectativas altas para uma sala de cinema e não saímos desapontados. Mas tão bem, caro leitor.


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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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