Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

A Isabel Stilwell, pilar fundamental da elite intelectual portuguesa, acha que os recibos-verdes foram inventados pelo Estado. A seguir vai dizer-nos que lhe deu no outro dia a sensação de que a Terra gira à volta do Sol, esperem para ver.


Tiago Moreira Ramalho

Colocar a discussão sobre as revoltas na Tunísia, no Egipto e restantes levantamentos numa dicotomia entre homens fortes e islamitas é, podemos dizê-lo, uma simplificação útil ao colunismo internacional. Para quê especificidades, se podemos transformar o mundo num simples duelo entre dois futuros estanques?

O fundamental é que quem está a fazer borbulhar o Norte de África e o Médio Oriente não são os exércitos dos homens fortes ou os sermões dos líderes religiosos. São os jovens, muitos deles sem qualquer tipo de ligação religiosa, os grandes responsáveis. E se é certo que, no meio da revolta, a manipulação e o aproveitamento são possíveis, isso está longe de ser um dado adquirido. O único dado adquirido é que toda a região está a ter uma oportunidade rara de se libertar da opressão tanto dos exércitos como dos clérigos e sucumbir à simples e elementar democracia liberal.


Domingo, 27 de Fevereiro de 2011
Priscila Rêgo

E com mais calma. Agora que a comunicação social terminou a sessão de masturbação colectiva com os números do desemprego, o ambiente está muito mais propício a algum pensamento crítico. Os jornais têm a teoria de que a letra dos Delinda retrata fielmente a realidade nacional. Descobriram-no nas primeiras estatísticas do emprego publicadas depois da música, curiosamente. Eu não sei. E, como não sei, fui tentar descobrir. Logo aí fiquei em vantagem.

 

Quando escrevi o post anterior, não tinha ainda acesso aos números oficiais do INE. Entretanto, consegui lançar-lhes mão, mas tratei-os de forma ligeiramente diferente daquilo que foi feito pela comunicação social. Em vez de apenas comparar taxas de desemprego (nacional vs. jovem), introduzi uma nuance: fi-lo para dois períodos temporais. Isto porque a letra dos Deolinda não diz que os jovens estão em pior situação do que os seus pais: diz que este diferencial aumentou hoje face àquilo que era regra. Daí que se fale hoje numa “geração Deolinda”.

 

O gráfico de baixo mostra a taxa de desemprego nacional e a taxa de desemprego jovem (dos 15 aos 24 anos – desculpem, mas para mim, e por muito que eu gostasse, quem tem 35 anos já não é jovem). Utilizei dados anuais para limpar alguma sazonalidade, inevitável em dados trimestrais, e para amenizar o facto de os erros de medição aumentarem quando a amostra é menor, como acontece com o universo dos jovens. Usei 1998 por ser o último ano em que Portugal cresceu de forma robusta. Assim, não há desculpas.

 

 

A taxa de desemprego é superior nos jovens? Sim. Isso é novidade? Hum… não. A taxa de desemprego cresceu de forma idêntica nos dois lotes. Há de facto uma diferença, mas demasiado marginal para justificar o alarido gerado na comunicação social (e para se ver a olho nu, já agora). O que também não me espanta: é raro o alarido ser despertado por alguma coisa tão substancial como números oficiais. A não ser, claro, os números de vendas de jornais.

 

Há outra ideia na música dos Deolinda: os jovens estão hoje pior do que ontem mas isso é particularmente verdade para os jovens licenciados – a tal história dos estágio de borla. É isso que acontece? Nalgumas cabeças, CLARO!!! (com caps lock e vários pontos de exclamação, caso contrário tem menos impacto). Mas o Instituto Nacional de Estatística tem uma opinião diferente. Ora vejam em baixo.

 

 

 

Comparei a taxa de desemprego nacional com a taxa de desemprego dos licenciados e a taxa de desemprego dos jovens licenciados. Entre 1998 e 2010, ela cresceu em todos os segmentos. De forma diferenciada? Não, da mesma forma: por um factor que varia entre 2,1 e 2,3 (não é possível saber isso com precisão através do gráfico, mas eu fiz os cálculos). Onde está a novidade? Não há. Confirma-se o que já se sabia: os licenciados têm melhor situação do que os não licenciados e os jovens têm pior situação que os mais velhos. O segundo efeito, aparentemente, supera o primeiro. Hoje, como ontem. E na mesma medida.  

 

Como se explica, então,  o sucesso da música dos Deolinda? Não tenho uma teoria definitiva, mas eu apontaria para o facto de a subida uniforme do desemprego produzir mais desempregados não licenciados e mais desempregados com licenciatura. Mas os desempregados com licenciatura têm mais poder reivindicativo e mais a ganhar: estágios profissionais para licenciados, bolsas de investigação para trabalhar numa universidade, um posto na Adminstração Pública. Não estão em maior número - só gritam mais. 

 

Este efeito será provavelmente exacerbado pelo facto o crescimento do desemprego se ter feito sentir sobretudo em áreas do saber com acesso privilegiado aos media: cinema, artes, letras, comunicação social, alguma educação, eventualmente Direito. Os engenheiros em boa situação profissional estão caladinhos nos seus gabinetes. Os jornalistas desempregados estão a endrominar a cabeça dos colegas que conseguiram emprego.

 


Sábado, 26 de Fevereiro de 2011
Rui Passos Rocha

Mais de um ano depois de ter encontrado o melhor título de livro, o Missionary Position do Christopher Hitchens (sobre a Madre Teresa), encontrei hoje a melhor dedicatória de livro: «a todos aqueles que não amam o poder», no Entrevista com a História de Fallaci. Só uma mulher com cojones faria em 1979 esta entrevista a Khaddafi.


Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011
Rui Passos Rocha

O problema do estilo versus substância é particularmente importante no caso de músicas de intervenção, como a dos Deolinda. A arte (no caso, a música) é tanto melhor quanto melhor for a descrição que faz de um ou mais objectos; a ciência, pelo contrário, é tanto melhor quanto mais distanciado estiver o observador do(s) seu(s) objecto(s) de estudo. Como disse António Damásio a uma das últimas LER, «a ciência e a arte, no fundo, têm a mesma finalidade», explicar algo. «A diferença é que na arte cria-se um objecto e na ciência tenta-se descobrir como é que o objecto funciona e está estruturado». Como? Com distanciamento, com a comparação do objecto com outros que se assemelhem, com sistematização e método. Normalmente é a arte que descobre e descreve algo e abre a porta a que a ciência o explique. A arte é mais forma do que conteúdo; a ciência é conteúdo antes de forma. Autores como David Foster Wallace fazem óptima arte porque se preocupam com o conteúdo («Probably the most dangerous thing about an academic education–least in my own case–is that it enables my tendency to over-intellectualise stuff, to get lost in abstract argument inside my head, instead of simply paying attention to what is going on right in front of me, paying attention to what is going on inside me»); e cientistas como Hans Rosling fazem óptima ciência porque se preocupam com a forma (ver aqui um e outro exemplos).


Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011
Priscila Rêgo

O problema não é bem com os Deolinda. São artistas. É compreensível que as preocupações de estilo se sobreponham às de substâncias. Mas a comunicação social, os opinion-makers e os economistas com acesso ao espaço mediático tinham o dever e a obrigação de não seguir o rebanho e alicerçar o respectivo discurso em algo mais sólido do que preconceitos e ideias feitas. Para bitaites, já cá estão os bloggers.

 

Eu não ouvi a música dos Deolinda, mas pela letra e pelo que tenho lido por aí (os jornais fizeram um extraordinário trabalho de apresentação da música como se de um paper se tratasse), parece-me que há três ideias subjacentes: a) a situação dos jovens no mercado laboral está cada vez pior; b) uma licenciatura não vale nada; c) isto é tudo uma grande merda. Para ilustrar isto, recorrem à imagem do jovem licenciado sem emprego, que salta de estágio não remunerado em estágio não remunerado.

 

Este retrato é verdadeiro? Utilizando esse óptimo instrumento de análise da realidade que são os conhecimentos pessoais, eu diria que é, mas apenas em parte. A maioria dos jovens licenciados não estagia de borla. Não conheço estudantes de medicina veterinária, engenharia, matemática ou gestão a submeterem-se a longos períodos de trabalho em regime de voluntariado (o que não significa que não haja casos pontuais; significa apenas que são estatisticamente pouco relevantes). O fenómeno pode, contudo, estar mais generalizado em áreas de baixa empregabilidade, onde a concorrência é maior e o salário de equilíbrio pode aproximar-se do zero nos segmentos com menos experiência laboral.

 

A minha teoria é que o segundo grupo tem um acesso desproporcionado aos meios de comunicação social, o que dá uma imagem distorcida do que se passa de facto no mercado laboral. Os políticos são sobretudo formados em Direito, onde o desemprego tem estado a crescer (parece-me que por barreiras corporativas à entrada na profissão, embora não domine bem este assunto). Os artistas mais novos, como os Deolinda, serão, presumo, formados em cinema ou algo relacionado com as Belas Artes. E os jornalistas, que são quem gere todo o fluxo informativo, são também uma classe a passar por provações cada vez maiores.

 

Mas, em média, os números não enganam: Portugal continua a ser um dos países em que estudar mais compensa. O diferencial, medido na probabilidade de cair no desemprego e na remuneração expectável, é um dos mais altos da OCDE. É uma desgraça que tantas vezes se ouça dizer o contrário: não há melhor forma de desincentivar o estudo, piorando ainda mais as perspectivas dos nossos jovens. Quem tiver mais apreço pelos dados do que pelo olhómetro pode consultar este estudo de Pedro Portugal, investigador do Banco de Portugal e uma das poucas cabeças que consegue falar com propriedade acerca de mercado laboral.

 

Claro que a situação dos jovens pode de facto estar pior do que há 10 anos. Mas era bom que algumas destas ressalvas, pontos e interrogação e notas de precaução fossem incluídas nas peças e artigos acerca da "Geração Deolinda". Por que é que tal não acontece? Gostava de acreditar que é por ignorância ou falta de formação. Mas não creio que seja. Provavelmente, é porque vende menos jornais.

 

 

 

 

 


Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011
Rui Passos Rocha

A propósito do texto de há dias:

 

[...] Montaigne’s literal self-centeredness has more in common with the self-portraits of the Renaissance painters who created the form (one element in an evolving complex of ideas about Man and his place in the universe), than with the compulsive exhibitionism of today’s Facebook or Twitter users. For Montaigne it’s a matter not of self-display to the world, but of self-discovery in the world and through engagement with it. Writing in the way he does is essential to that process, as he quietly contemplates the workings of his own mind. He has none of the blogger’s fear of silence or the desperate modern need to connect and communicate.


Rui Passos Rocha

Os contratos de arrendamento imobiliário poderiam ser mais flexíveis. Em vez de nos ficarmos por um valor fixo, uma alternativa seria que o valor médio fosse, a partir do segundo mês, reduzido ou aumentado, dependendo de factores contratualizados -assim, em vez de se pagar sempre, vá, 500€ por um apartamento esse valor cairia 10% (para 450€) ou subiria 10% (para 550€) dependendo de terem ou não sido feitos estragos. O bom arrendatário beneficiaria de um desconto, que não tem por se ter instituído o preço médio; e o mau arrendatário seria penalizado e teria de tratar do problema gerado. A prazo isto levaria a maioria a baixar o preço inicial, ou médio, dos arrendamentos, porque haveria um incentivo para não estragar. Mas há dois aspectos a ter em conta: este modelo implica não só uma inspecção inicial mas também que o proprietário visitasse o apartamento uma vez por mês, por exemplo; e há a possibilidade de o custo para compor algo ser superior ao benefício da redução de preço, que aconteceria caso o problema fosse resolvido. Alguém tem ideias?


Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011
Rui Passos Rocha

Vamos todos combinar uma coisa: prosperidade em direitês mede-se ao euro, mas em esquerdês requer sobretudo esquadro ideológico. As lentes com que lemos PS, PSD e CDS-PP são distintas daquelas com que devemos ler PCP e BE, sob pena de impulsivamente tomarmos estes últimos como cínicos e críticos destrutivos. Quando PCP e BE falam de «uma alternativa democrática de esquerda» falam mesmo de uma alternativa, coisa sem maquilhagem, que é democrática e de esquerda, a ponto de - dêem-lhes rédea longa e verão - poderem até ser iliberais e anti-parlamentares.


Priscila Rêgo

 

Músicas que só uma mulher pode postar sem que toque o alarme de mau gosto.


Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011
Rui Passos Rocha

«If your daily life seems poor, do not blame it; blame yourself, tell yourself that you are not poet enough to call forth its riches»


Rui Passos Rocha

90% do que é escrito nos blogues não teria sido assim publicado se os seus autores, em vez de despejar às três pancadas, o retivessem como rascunho durante um dia. Contra mim falo. Os blogues são tanto melhores quanto mais os seus textos forem retocados antes de publicados.


Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011
Rui Passos Rocha

O PSD quer tanto reduzir o Parlamento em 50 deputados que até já encomendou um estudo Manuel Meirinho, um tipo que rejeita a redução: «Portugal não tem deputados a mais, muito pelo contrário. Quando comparamos a situação portuguesa com a de países com uma dimensão populacional equivalente à nossa verificamos que o rácio indica claramente que a dimensão do nosso Parlamento não é exagerada, muito pelo contrário: temos um Parlamento pequeno. Além disso, uma redução significativa da dimensão do nosso Parlamento poderia contribuir para comprimir a proporcionalidade (dependendo do figurino de círculos), reduzir a representação territorial e social, bem como contrariaria a ideia de aumentar a qualidade da representação (pois o aumento do rácio vai em sentido oposto). Por isso, recomendaremos apenas uma redução de um deputado, para evitar empates» (p. 205 - Para uma melhoria da representação política: A reforma do sistema eleitoral, com André Freire e Diogo Moreira).


Bruno Vieira Amaral

Parece que o grandiloquente Rogério Alves, o tal que se alegrou com a goleada que o Benfica sofreu no Dragão, faz parte de uma lista qualquer. É bom sinal. Talvez o Sporting feche as portas ainda este ano. E, para um clube que se gaba das linhagens, das dinastias e respectiva heráldica, é bonito ver candidatos do calibre de um Braz da Silva e de um Bruno de Carvalho. São milhões atrás de milhões. A este cenário juntam-se as inacreditáveis declarações de um funcionário do clube que, se tivesse vergonha na cara, tinha apresentado a demissão imediatamente. Enquanto isto, alguns leões miam contra o Benfica, lembram o Vale e Azevedo e arrenegam qualquer aliança com o FCP. A bipolarização do futebol português é um facto. Ainda bem.


Priscila Rêgo

Leiam este post acerca da possível vinda do Fundo Monetário Internacional (FMI). Depois, voltem cá e leiam o meu. Se o Miguel Madeira tivesse dito que a vinda do FMI não é garantia de que Portugal se safe, eu tenderia a concordar. Mas a afirmação, bastante mais forte, de que mesmo com o Fundo Portugal não se vai salvar parece-me bastante mais discutível.

 

O melhor paralelo que me ocorre para perceber esta situação é a de um ataque especulativo a uma moeda nacional. Se o Governo de uma pequena economia está a acumular défices orçamentais insustentáveis, pode gerar-se o receio de que, mais cedo ou mais tarde, ele recorra à emissão monetária para financiar esses défices. Neste caso, a ideia de que a divisa poderá desvalorizar no futuro levará os investidores a venderem, no presente, os títulos denominados na moeda em causa. O resultado é uma desvalorização imediata. Se houver muita dívida denominada em moeda estrangeira, é o caminho para o caos.

 

Mas há uma forma de combater este movimento: o banco central do país em causa pode usar as suas reservas externas para comprar a própria moeda e, assim, impedir (ou adiar, conforme as interpretações) a crise cambial. Esta estratégia é um pau de dois bicos porque se o ataque especulativo tiver fundamento o banco central acabará por esgotar as suas reservas e a moeda desvalorizará à mesma: os investidores vão continuar a vender até que o banco central "perca as munições". Mas se o Governo acabar por estabilizar as suas contas e não tiver de recorrer à emissão monetária, o ataque especulativo vai terminar e o esforço do banco central poderá, de facto, ter impedido uma grave crise monetária e cambial.

 

O FMI pode, neste caso, fazer o papel de banco central, garantindo o financiamento enquanto pomos a casa em ordem. Neste momento, o Estado português joga a sua sorte semanalmente nos mercados. O maior risco nem é que as taxas de juro se mantenham ao nível actual, mas que elas acabem mesmo por subir. No ponto em que estamos, basta uma má notícia acerca da execução orçamental. Se isso acontecer, voltamos à estaca zero: mais pacotes de consolidação, mais pressão, mais risco, mais juros, mais pacotes… e por aí fora.

 

Com o FMI, o Estado assegura o financiamento durante dois a três anos e pode concentrar-se em cobrir o buraco das contas, sem precisar de se preocupar com o que os mercados pensam da execução orçamental. Haverá menos pressão, mais certeza e, até, juros mais baixos. Além do mais, o cumprimento das medidas de consolidação seria muito mais bem monitorizado do que está a ser agora. Em 2013, poderíamos calmamente voltar aos mercados, pagar a dívida ao FMI e financiar os défices sem problemas de maior.

 

Claro que não há almoços grátis. A segunda opção comporta riscos para o próprio FMI: se Portugal não conseguir pôr a casa em ordem, é o Fundo que fica a arder nuns bons milhares de milhões de euros (os défices mais a dívida que vence entre 2011 e 2013). Mas a ideia é ver o que nos convém mais a nós, não é?

 

Adenda: Não ficou claro à primeira, mas espero que fique agora. A insustentabilidade da taxa de juro depende não só da taxa de juro e do crescimento nominal da economia mas também do montante de dívida a que a taxa de juro se aplica. Uma taxa de 7% pode ser sustentável se vigorar durante um ou dois anos; pode contudo tornar-se insuportável se se mantiver durante um período mais longo. O que o FMI permitiria fazer era "estancar a sangria" no momento actual: impedir novas subidas da taxa de juro e dar tempo ao Governo para fazer o ajustamento orçamental sem mai problemas. Com sorte, em 2013 os juros estariam de novo nos 3 ou 4% e a situação voltaria a tornar-se gerível.


Priscila Rêgo

O Governo português, e o ministro da Economia em particular, referem frequentemente o facto de as exportações portuguesas terem cada vez mais conteúdo tecnológico (sem link, que não tenho pachorra). Hoje, no I Congresso para as Exportações, houve nova sessão de doutrinação. São as forças de mercado a submeterem-se às linhas estratégicas delineadas pelo Governo. Sócrates sonha, Vieira da Silva faz, a obra nasce. Uh...

 

Acontece que este resultado não é especialmente surpreendente. A abertura do comércio a Leste colocou Portugal a concorrer com economias especializadas em produtos de baixo preço (a China é o maior exemplo). Isto criou dificuldades às empresas que competiam nessa divisão. Mas abriu um mercado enorme a todas as outras que jogavam numa divisão acima, aumentando a procura pelos seus produtos. Não é sapiência. É o mercado.

 

E isto é a nossa maior tragédia. Os tipos que definem as grandes linhas da política económica nacional, que gizam os planos de investimento, que escolhem as prioridades, alocam recursos e mexem os cordelinhos ainda não conseguiram perceber uma das ideias mais antigas da economia: o conceito de vantagem comparativa. Citam Krugman e Stiglitz sem terem percebido Ricardo.

 

 


Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011
Rui Passos Rocha

 

Acima podem ouvir a nova música dos Deolinda. Imagino que já a conhecem bem, mas pareceu-me melhor deixá-la aqui. Isto porque resolvi refazer a letra da música Parva que eu sou, desfazendo a tese socialista original e substituindo-a por uma liberal, que me parece mais consistente e moderada. O título é Parvos que eles são e é melhor lido se ao mesmo tempo ouvirem o original, porque perceberão que mantive a cadência da música. Cá vai:

Sou da geração sem remuneração
e sei que me tentam vender uma ilusão.
Os parvos que lá estão!

Porque isto vai mal e está p'ra piorar.
Não é assim tão mau eu poder estagiar.
Que parvos que eles são!

Assim posso demonstrar
que tenho valor
e que, quando for possível,
quererei assinar.

Sou da geração «casinha dos pais».
Como ficaram com tudo, vou exigir-lhes mais.
Que parvos que eles são!

Filhos, esposas, estou sempre a adiar
E a culpa é de quem nos quis deslumbrar.
Que parvos que eles são!

E fico a pensar,
endividar os mais novos,
assim, cada vez mais,
só pode acabar mal.

Sou da geração «vou queixar-me p'ra quê?»
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parvos que eles são!

Sou da geração «eu já não posso mais»,
que esta situação dura há tempo demais.
E parvos eles não são!

Isso faz-me desejar
que quem me governa
pense mais na minha
do que na sua geração.


Rui Passos Rocha

Um senhor de nome Mário Bacalhau (não, isto não vai correr mal; ou pelo menos se correr será por outro motivo) lançou há uns tempos valentes um livro sobre as atitudes políticas dos portugueses desde 1973. Sim, 1973. E o que concluiu, entre outras coisas, foi que a população era muito favorável a reformas democráticas. E a revolução aconteceu, mas teve de ser despoletada pelos capitães descontentes. A democracia fez democratas. O que está a acontecer no Egipto pode ser o inverso (democratas a fazerem uma democracia), se for verdade o que disse há tempos Charles Kurzman numa conferência em Lisboa: que as atitudes políticas dos árabes em países, vá, árabes são praticamente tão pró-democráticas quanto as dos ocidentais. E isto é assim para perguntas gerais, mas também para as mais miudinhas. Partindo disto, talvez seja possível criar paralelismos entre o Egipto e Portugal: tal como Marcello Caetano, também Mubarak só sairá se empurrado pelos militares (cujos vencimentos aumentou) e para o exílio; El Baradei será o Mário Soares, o líder pró-democrático do sítio; mas também haverá um Cunhal, o tipo da Irmandade Muçulmana (acho que é assim que se chama). Falta é saber se entre os militares há capitães de Abril, ou de Fevereiro, ou de Março; militares menores descontentes com o desnível salarial da corporação e influenciados por uma ideologia democrática, liberal ou iliberal.


Rui Passos Rocha

Eu digo-vos o que para mim seria óptimo: o PSD ter um discurso sensato, paternalista até, que contrastasse com a gritaria do PS; e o PSD coligar-se desde já com o - novinho em folha - PAN-Partido pelos Animais e pela Natureza, que daria ao país o próximo ministro do Ambiente. Mas a realidade é outra: o PS grita que o PSD não pode vencer as eleições porque delapidará o nosso virtuoso Estado Social; e o PSD responde com tretas vagas, indiciando que é mesmo isso que vai fazer mas fazendo-o como se fosse errado. Feliz ou infelizmente, o PSD é um partido português, logo centralista, estatista e mais um ou outro ista que não se m'alembra agora. Por exemplo há dias, quando Sócrates anunciou que o PS não despedirá ninguém da função pública (ó votos, votinhos, venham até mim), a reacção do PSD deveria ter sido que qualquer serviço, privado ou público, será apenas prorrogável se não der prejuízo, à empresa ou ao Estado. Assim Passos Coelho demarcar-se-ia do despesismo do PS - e do PSD também, atenção - e faria saber que o seu PSD não aceitará baldas.


Tiago Moreira Ramalho

O Público de hoje nomeia, quando possível, as quarenta e três mulheres que, ao longo de 2010, morreram por violência doméstica. Além de as nomear, ainda apresenta uma série de dados estatísticos sobre as mortes. Um deles é francamente revelador do quão errados estamos, tantas vezes, sobre a nossa terra. Quando se distribuem as mulheres pelo mapa do país, notamos que, grosso modo, só se morre de violência doméstica nos grandes centros urbanos. Não há mulheres assassinadas em Beja, em Évora, em Bragança ou na Guarda. As mulheres morrem em Lisboa, em Setúbal, no Porto e em Coimbra. É o país avançado, civilizado, moderno a viver em pura barbárie, enquanto os nossos saloios, os nossos rednecks, apesar de tudo, conseguem dar uma lição a todos os outros. Nas brutais aldeias rurais, pobres, desdentadas e com sotaque, os homens e as mulheres, com todos os seus problemas, vivem, pelo menos, atrás da morte. Antes de lhes apontarmos o dedinho «educador», devíamos pedir-lhes umas orientações.


Bruno Vieira Amaral

É óbvio que os sportinguistas aproveitaram o pretexto do adeus de Liedson para chorar publicamente pelo clube. Foi nítida a sensação de se estar no fim de qualquer coisa, e não apenas da despedida de um jogador. Seria bom que os adeptos do Sporting se revoltassem, mas parece que aquilo só dá mesmo para chorar.


Domingo, 6 de Fevereiro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

 


Rui Passos Rocha

Cícero disse duas coisas importantes. Eu sei, eu sei; terá dito mais, mas agora só me interessam duas: que «um mentiroso não é acreditado mesmo que diga verdade»; e que «a falsidão está tão perto da verdade que um homem sensato faria melhor em não caminhar constantemente junto a esse declive». Sócrates também falou de umas coisas, como a maiêutica e assim. Mas como entre ele e Cícero o diálogo seria pouco mais do que surdo, que raio quero eu com isto? A não ser que isto seja sobre o outro Sócrates; esse mesmo, o do Magalhães. Este é que teria a aprender com Cícero. Por exemplo ontem ficou evidente que, no caso de José Sócrates, mentir permanentemente está a fazer com que diga coisas absurdas. Coisas como «não haverá despedimentos na função pública, ao contrário do que pedem os abutres da direita, que nós, esquerda esquerdaça, combatemos em nome do Estado Social e do direito dos velhinhos de não serem atacados por lobos de noite». Como é que eu sei que haverá despedimentos? Não sei, mas não é com uma bola de cristal que meço isto. É muito simples: o próprio sindicato, perdão, a própria corporação da função pública, encabeçada por Bettencourt Picanço (um nome ao mesmo tempo aristocrático e pueril, coisa curiosa), veio a público rejeitar o dito do primeiro-ministro e dizer que não é inconstitucional despedir na função pública. Se, amigo Zézito, a diferença entre o que diz e o que faz continuar a dilatar-se assim não haverá propaganda que lhe valha.


Rui Passos Rocha

Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.

 

-- Alexandre O'Neill, O País Relativo


Rui Passos Rocha

Já todos sabemos que a blogosfera tem vindo a perder dentes e há-de cair de podre. Não estranho; afinal, os dentes resistem tanto mais quanto melhores eles forem - sem cáries e tal. A mediocridade está espelhada em blogues como o Meditação na Pastelaria ou o País Relativo, que não vou aqui lincar por falta de tempo e vontade; mas que seriam facilmente elimináveis se alguém decidisse relançar a blogosfera com blogues chamados Um adeus português, Domingos de Lisboa ou, mais complexo ainda, Portugal. Já tratei de me apropriar do primeiro, para Wordpress e Tumblr. Depois explico porquê. Ou não. O que me interessa para já, uma vez que o adeus português está em stand-by, é anunciar A biblioteca de Godot, o meu livro virtual de aforismos - que espera dicas vossas.


Tiago Moreira Ramalho

«Importante não é o PIB, mas a felicidade interna bruta dos humanos e não-humanos», defende o fundador do Partido pelos Animais e pela Natureza.


Tiago Moreira Ramalho

«Não é preciso um génio matemático para compreender a evidência: reduzir o número de deputados (hoje 230), conservando o método de Hondt, iria dar ao PS e ao PSD o domínio completo da Assembleia. Os pequenos partidos pouco a pouco desapareciam (ou definhavam) e ficava só o "centrão", governando em aliança ou em alternância. Admito que a esmagadora maioria dos 230 deputados actuais (como tive pessoalmente a oportunidade de verificar) não faz coisíssima nenhuma e que esta absurda situação está a pedir um remédio drástico. Mas não um remédio daqueles que matam o doente e não curam a doença. Com menos 80 ou 90 deputados, a direcção dos grupos parlamentares continuaria a pôr e a dispor do Parlamento, sem vantagem para ninguém. A economia era ridícula. E a liberdade de expressão política, principalmente da opinião minoritária, talvez não resistisse à sua expulsão para o vazio institucional.
Os 308 concelhos que por aí existem também não se justificam. São quase os mesmos de há 180 anos. Entretanto, como é óbvio, o país mudou. Mudou a economia, mudou radicalmente a distribuição demográfica e mudaram os sistemas de comunicação e de transportes - só os concelhos resistiram. Pior do que isso: nada impede que os presidentes de câmara se portem como régulos no seu território ou que gastem rios de dinheiro sem senso, nem proveito para o contribuinte. Quem andou por aí, conhece com certeza os monumentos de pura megalomania e delírio, que atrás de si deixaram alguns destes senhores. Sucede, infelizmente, que o patriotismo local se opõe a qualquer mudança e é, como se constatou, uma força temível. Desde o "25 de Abril" já assistimos a algumas guerras de concelhos, que chegaram a um ponto de excitação e de violência difícil de imaginar em 2011. Não acredito que Governo algum se atreva, neste capítulo, a uma reforma radical.
E, por cima disto, existem ainda os governos civis (que Sócrates prometeu abolir e não aboliu) e 4257 freguesias, que vão de uma patética pobreza a orçamentos de mais de um milhão de euros. Riscar do mapa dois terços das freguesias seria, em princípio, um gesto de sanidade, até porque, como bem viu António Costa, nas grandes cidades o "bairrismo" morreu. Resta o "interior" (uma noção elástica), em que as freguesias não deixaram nunca de servir de centros de convívio e de ajuda. Nessas não se pode tocar. O que significa, como tudo o resto, que Portugal não sobrevive sem reformas, mas que não as quer ou só atura más - as muito más.»

 

Vasco Pulido Valente, Público


Sábado, 5 de Fevereiro de 2011
Rui Passos Rocha

Chama-se civilização ao processo pelo qual a humanidade acaba a concordar com os loucos.


Tiago Moreira Ramalho

A postura de David Cameron relativamente aos movimentos muçulmanos é perigosa, mas acabará por ser inevitável. O facto é que hoje não estamos a combater uma religião. Longe disso. O que se está a combater é uma ideologia política – o islamismo. E, aqui, temos duas opções: o nosso conhecido ‘appeasement’, que em tempos nos levou para lugares menos recomendáveis, ou o combate. Cameron fartou-se da primeira opção, que é sempre a primeira opção, pela natureza da espécie, e recorre à segunda.

Democracias maduras, exactamente por o serem, não podem tolerar movimentos que, tendo base religiosa ou outra, atentem contra os seus pilares mais elementares, como a separação entre Estado e Religião ou o respeito pela condição da mulher e pelos direitos dos homossexuais. Os radicais islamitas, além de acreditarem genuinamente na leitura literal do Corão e nas ideias do bom velho Sayyid Qutb, o que por si só nada tem de mal, têm como objectivo na base da sua ideologia a erradicação dos valores ocidentais, primeiro, do mundo muçulmano e, depois, do restante mundo. O combate aos valores da democracia, da liberdade e da igualdade que alicerçam as sociedades ocidentais é mais que declarado. A nós resta-nos pouco: podemos ser um simpático Chamberlain ou um rabugento Churchill. Das nossas opções, o tempo trará as devidas consequências.


Tiago Moreira Ramalho

Apreciamos bastante a imagem da escarra a cair na testa, depois de cuspida para o ar. Lamentamos o grafismo com que iniciamos o texto, mas é de facto delicioso ver como um homem de cuja boca só se ouviam ataques à «especulação» e aos «juros especulativos» e aos «preços especulativos» e a todas as restantes coisas «especulativas» acaba a braços com um desaire financeiro devido à… especulação. Manuel Alegre, que especulou ter mais votos do que teve, e que portanto especulou receber mais subvenções públicas do que afinal recebeu, tem a sua campanha com um prejuízo de 300 000 euros. O PS e o BE, que não gostam de especuladores, já lhe disseram um portentoso «amanha-te» e agora, perante o ataque especulativo que ele próprio criou contra si próprio, roga aos fornecedores clemência e piedade, provavelmente promete-lhes odes e rimas para anúncios televisivos. A miséria do bardo, meus caros, mais do que financeira, é intelectual. Braços ao céu por ter perdido. Braços ao céu.


Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011
Rui Passos Rocha

Não tenho, sosseguem, problema nenhum com sociólogos politizados publicamente. Não acho que falte discernimento no trabalho de André Freire ou de Boaventura Sousa Santos - bem pelo contrário, aliás. O que acho - e quanto a isso peço-vos o cuidado de não me penetrarem por trás sem o meu prévio consentimento - é que tem tanto mais mérito quem menos entrevê as respostas às suas perguntas no início da investigação. Porque procura alcançar algo superior a si; porque, olhem só, quer investigar. E merdas dessas parecem-me ausentes nos dois casos. Por exemplo, Freire decidiu em 2003 legar ao mundo um paper onde descreve quão voláteis (e consentâneas com o desempenho económico do país) são as atitudes políticas dos portugueses e conclui, assim do nada, que é «urgente» reformar o sistema eleitoral para um mais proporcional. Porquê? Porque sim; porque é mais democrático; porque, percebe-se, assim os pequenitos sobem mais. Por sua vez, em entrevista ao Jornal de Letras (as merdas que eu leio), Boaventura convidou a Europa a olhar-se ao espelho, que espero não seja o seu, já que se diz «cientista» apesar de, tal como Freire, ser um socialista à Bloco (o Eugénio Rosa pelo menos trabalha para a CTGP). Segundo Boaventura, «o mal foi o positivismo ter acoplado a ideia de neutralidade (que confunde com a de objectividade) à ideia de especialização e de profissionalização». O tema merece debate; entretanto, passo a chamar «cientista» à Alexandra Lucas Coelho e a metade da redacção do Expresso.


Rui Passos Rocha

Fiquei sem perceber se para o João Miranda uns, vá, 95% de abstenção também seriam "um bom sinal" para a democracia ou se há limites.


Rui Passos Rocha

 

Apesar de você / amanhã há de ser outro dia /

Eu pergunto a você / onde vai se esconder / Da enorme euforia?

Como vai proibir / Quando o galo insistir em cantar?

Água nova brotando / E a gente se amando sem parar

Quando chegar o momento / Esse meu sofrimento

Vou cobrar com juros. / Juro!

Todo esse amor reprimido / Esse grito contido / Esse samba no escuro

Você que inventou a tristeza / Ora tenha a fineza de "desinventar"

Você vai pagar / e é dobrado / Cada lágrima rolada / Nesse meu penar


Tiago Moreira Ramalho


Tiago Moreira Ramalho

Lamento, mas não sei nada sobre o Egipto.


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