Quarta-feira, 30 de Março de 2011
Priscila Rêgo

O jornal i fez ontem um interessante trabalho acerca da "Geração à rasca". O título é Mileuristas, ni-ni, Peter Pan, à rasca. Eles estão por todo o lado. Mas, apesar de estarem por todo o lado em termos geográficos, parecem estranhamente concentrados no que diz respeito à área de estudos: jornalismo, filologia, sociologia e ciência política. Em suma, letras e ciências sociais.

 

Pelas minhas contas, os jornalistas contactaram 26 jovens europeus. Destes 26, quatro casos não revelam de forma óbvia os respectivos cursos. Quanto aos restantes, distribuem-se pelas seguintes áreas: Jornalismo (2), Ciência Política (2), Antropologia (1), Literatura e Filologia (4), Artes (2), Comunicação (3), Sociologia e Serviço Social (3), Direito (1), Matemática (1), Economia (1), Controlo de Qualidade (1) e Arquitectura (1).

 

O que é que justifica que em 26 contactos apenas 8% tenham estudado algo ligado às ciências "duras" (e aqui estou a fazer o favor de contabilizar o jovem que estudou economia, dado que optou pela vertente de econometria)? A minha explicação é bastante prosaica: para escrever o artigo, os jornalistas do «i» recorreram a redes de contactos informais - amigos que fizeram Erasmus nos países, estudantes em programas de intercâmbio, familiares, etc. Ao procurarem informações, fizeram o que todos nós fazemos: olharam para o lado. E nas suas ligações mais próximas havia, compreensivelmente, mais jornalistas, sociólogos e artistas do que engenheiros, matemáticos e físicos.

 

Este caso revela bem como o meio ambiente local em que uma pessoa está inserida condiciona de forma extraordinária a imagem que ela tem, e transmite, da realidade. E não há aqui nenhuma desonestidade ou engodo: os jornalistas estão apenas a reflectir uma imagem tão fiel quanto possível do mundo que eles de facto observam. Só que este mundo é limitado, parcial e pouco representativo do mundo real. Mas se o grupo de contactos dos jornalistas não for representativo da população em geral - por exemplo, ao nível, sei lá, do acesso a bons empregos -, a imagem que o público em geral terá do estado do mercado laboral estará altamente enviesada.

 

Não sei se isto explica completamente a razão pela qual a ideia da "Geração Deolinda" entrou tão rapidamente nas televisões, nas rádios e nos jornais. Mas desconfio que explica muita coisa.


Sexta-feira, 25 de Março de 2011
Priscila Rêgo

Nem foi preciso esperar dois dias. Parlamento "enterra" modelo de avaliação dos professores com a bênção do PSD.

 

Quando é que nos livramos desta choldra?

 


Quinta-feira, 24 de Março de 2011
Priscila Rêgo

Ainda alguém se lembra do Orçamento do Estado para 2010? Era um documento essencial para garantir a consolidação orçamental e reduzir o défice dos 9,3% registados em 2009 para os 8,3% que foram na altura apresentados como meta à Comissão Europeia. O PSD foi encostado à parede: ou viabilizava o Orçamento ou deixava Portugal a arder em lume brando, morrendo aos poucos enquanto os mercados comiam um país a ser gerido em duodécimos.

 

Esta era a versão oficial. A versão a sério, que raramente coincide com a que é propalada pelo primeiro-ministro agora demissionário, é muito diferente. Entre Janeiro e Abril, com os temidos duodécimos, o Estado gastou 3,5 mil milhões de euros por mês e arrecadou 2,4 mil milhões. Défice mensal: 1,14 mil milhões. A chegada do novo Orçamento trouxe algumas mudanças. Sim, a receita mensal aumentou para 3,3 mil milhões. Mas a despesa também, atingindo os 4,5 mil milhões. Défice mensal: 1,21 mil milhões. Não é bem que o OE não tenha contribuído para reduzir o défice. O problema é que o agravou.

 

Esta brincadeira repetiu-se mais tarde com o PEC 2, o PEC 3, o OE 2011 e o PEC 4. O PS/Governo [parece que há pouca separação entre os dois] está enganado. Irresponsabilidade não é não ceder à chantagem do terrorista. Irresponsabilidade é não lhe tirar a arma quando há oportunidade para isso.


Priscila Rêgo

É aceitável negociar com um terrorista? A responde depende de uma avaliação custo/benefício, ponderada pela credibilidade que se atribui ao terrorista. Se há muitos reféns e o resgate é pequeno, pode ser racional pagar e deixar o criminoso fugir. A lei foi infringida e não há um nome para apresentar às televisões, mas poupam-se vidas - que é, ao fim e ao cabo, o mais importante.

 

Mas mesmo quem está decidido a salvar vidas tem de estar pronto a reconsiderar a sua posição caso o terrorista desate a matar reféns. Se cada depósito na sua conta tem como única resposta o renovar das exigências, a hipótese negocial torna-se cada vez menos aceitável. Nesta altura, um ataque cirúrgico mas preciso pode ser a melhor opção. Não pelo desejo de poupar dinheiro mas pela necessidade de salvar o maior número possível de reféns enquanto estes ainda estão vivos.

 

A política portuguesa chegou ontem a esta situação. Depois de subverter o Estado de Direito, aldrabar as contas públicas e submeter o futuro político do país à discricionariedade do seu umbigo, Sócrates perdeu qualquer restinho de credibilidade que eventualmente ainda tivesse. Naquele momento, a ideia já nem sequer era entrar à força para evitar o resgate. Era só tirar a arma ao doido que estava lá dentro antes que ele matasse os reféns que faltavam.

 

Felizmente, o PSD abriu os olhos.


Quarta-feira, 23 de Março de 2011
Priscila Rêgo

Cliente: Meu caro, tenho o carro avariado. Quando custa consertar?

 

Mecânico: Hum, ora deixe cá ver. O travão está solto, a direcção não funciona bem. Os pneus também estão carecas. Coisa pouca, mil euros e fechamos a coisa.

 

Cliente: Faça-se.

 

Dois dias depois

 

Mecânico: Surgiu um problema. Afinal, não são mil euros. São dois mil.

 

Cliente: O dobro do preço?! Apenas dois dias depois?

 

Mecânico: Sabe o que é, o carro estava pior do que eu pensava.

 

Cliente: Pronto, faça lá o serviço.

 

Quatro dias depois

 

Mecânico: Então, chefe, tudo bem? Olhe, sabe o serviço que pediu? Afinal são quatro mil euros. Choveu imenso, a garagem não tem tecto e os travões ainda ficaram piores.

 

Cliente: Ok...

 

Seis dias depois

 

Mecânico: Viva, como está? Olhe, quando passar por cá traga seis mil aéreos. É aquela coisa da chuva e tal.

 

Cliente: Mas não foi por isso que subiu o preço para quatro mil?

 

Mecânico: Claro, claro. Mas isso foi o impacto da chuva nos travões. Agora, estou a cobrar pelo impacto nos estofos.

 

Cliente: Oh homem, mas você já começou a consertar o carro?

 

Mecânico: Não, não me passa pela cabeça começar uma empreitada desta sem o seu consentimento. Está tudo como você deixou. Aliás, um pouco pior por causa da chuva.

 

Cliente: Então vou mudar de mecânico!

 

Mecânico: Isso seria extremamente irresponsável. Repare que mesmo que troque de mecânico terá de levar a cabo um conserto tão ou mais exigente do que este. Além do mais, o meu plano de trabalho já foi aprovado pelo meu assistente e foi delineado em conversação permanente com o meu patrão.


Tiago Moreira Ramalho

A história repetiu-se incontáveis vezes. O governo minoritário queria ver aprovada uma política e, ao invés de a negociar, como numa democracia se espera, afixava ultimatos na porta de S. Bento. Ou a oposição se vergava ou o governo, na voz dos trauliteiros Sócrates, Lacão ou Silva Pereira, acenava com a ameaça da «crise política». Até agora tem resultado. A oposição vergou-se sempre, de forma mais ou menos pornográfica, mas sem excepção. Agora a bomba rebentou na mãozinha e o país só tem a ganhar com isso. Que venham eleições.


Terça-feira, 15 de Março de 2011
Priscila Rêgo

Depois de apresentar o primeiro PEC, Sócrates prometeu que não seriam necessárias mais medidas. Depois do segundo e do terceiro, repetiu a promessa. E hoje, na entrevista à SIC, fez o mesmo. Com a credibilidade reduzida a pó, só lhe resta a estratégia do Benfica. Esfregar as mãos e dizer que desta vez é que é.


Tiago Moreira Ramalho

Eu tenho para mim que, analisando, o Jel, vá, é uma pessoa que, em certo sentido, pode trazer coisas boas à sociedade em geral e aos portugueses em particular. Ele diz o que a gente, vá, pensa. A malta tem de ser reunida e tem de ser mais amiga. E, pronto, ele está cá para, pronto, animar a malta e isso é bom. Portanto, pronto, eu acho que, digamos, foi bom ele ter ido ao Eurovisão. Nós também já perdemos todos os anos, ao menos assim, pronto, os estrangeiros ficam, vá, a saber como a gente está e até pode ser que, pronto, nos ajudem com qualquer coisinha. Eu acho que ainda ninguém percebeu como é que isto anda, que os nossos amigos, vá, europeus já nos teriam dado uma mãozinha nesta altura, digo eu, não sei.

Ou então os portugueses estão simplesmente a cair num ridículo que já nem é passível de apelo. Dar a uma figura como Jel mais do que umas gargalhadas esporádicas é um claro indicador do estado civilizacional disto. Um destes dias teremos figuras destas, como já se vê lá fora, a ocupar Câmaras Municipais, Governos Regionais, Parlamento ou até mesmo Belém. Não é só culpa dos burrinhos portugueses, é um facto. Mas os burrinhos dos portugueses podiam muito bem poupar-se à miséria galopante.


Segunda-feira, 14 de Março de 2011
Priscila Rêgo

Sócrates continua a agitar o fantasma da crise política para pedir apoio político que garanta a implementação do PEC 4. Faz o papel do terrorista que exige dinheiro para não matar os reféns. Mas é improvável que a estratégia volte a dar frutos. Ao longo dos últimos meses, Sócrates pediu resgates cada vez maiores para um lote de reféns cada vez menor. Depois de Portugal ter batido no fundo, deixou de haver margem de manobra. Os reféns já estão todos mortos.

 


Tiago Moreira Ramalho

Parece que a minha geração está à rasca. Tal como estava a anterior e a anterior e a anterior à anterior. Não aprendeu ainda essa elementar lição: nunca deixaremos de estar, pelo menos no nosso entendimento, à rasca.

De qualquer modo, é sempre bom analisar o enrascamento da minha geração. A minha geração enrascada é a geração que produz centenas de antropólogos todos os anos, outras centenas de arqueólogos, mais uma pilha de sociólogos, três camionetas de psicólogos além dos já habituais nas artes plásticas e afins. Leitor, que não seja eu acusado de menorizar estas tão excelentes áreas do saber. Longe de mim, que sou essencialmente amigo de toda a gente. Não pode é o arqueólogo querer fazer escavações no Vale do Cávado só porque sim. Não pode é o artista plástico exigir que lhe arranjem um emprego se não há necessidade de artistas plásticos. Não pode é o psicólogo querer doentes se os não há em quantidade.

A geração que está à rasca é, essencialmente, a geração que se deixou enrascar. E agora só tem um remédio: adaptar-se. Porque não vai haver doentes para os psicólogos, não vai haver institutos de investigação para os antropólogos e por aí fora. Ou é isso, ou é call center. Não é por mal, mas é mesmo assim.


Quinta-feira, 10 de Março de 2011
Priscila Rêgo

 

Ora digam se estes gatinhos da Madalena não são uma coisa extremamente fofa?...


Priscila Rêgo

Sim, agora é mesmo para terminar. Os três posts anteriores, acerca de desemprego, precariedade e salários, geraram alguns comentários interessantes que não gostaria de deixar passar em claro. Além do mais, preciso de um pretexto para fazer uma compilação da série para quem não tiver paciência para andar a percorrer o arquivo do blogue.

 

Os números que apresentei nos posts anteriores foram retirados da base de dados do Instituto Nacional de Estatística. Houve quem criticasse a opção de apontar a lupa a um grupo tão restrito como o dos jovens entre os 15 e os 24 anos. Mas eu fi-lo pela simples razão de que esta é a classe mais apropriada tendo em conta os dados disponibilizados. A alternativa era juntar a este grupo o segmento dos 25/35 anos, o que já me causaria alguma urticária.

 

As categorias são imperfeitas tendo em conta o objecto de estudo? Seguramente. E eu também teria preferido analisar os dados dos jovens entre os 22 e os 28 anos, mas a informação não cai do ar. A alternativa a dados parciais e incompletos não são dados perfeitos e completos, mas o preconceito e ideias feitas. Entre os dois caminhos, escolho, humildemente, o primeiro.

 

Há, aliás, uma virtude na utilização do segmento mais jovem. Ao revelar a situação daqueles que, teoricamente, estão em pior situação, ajuda a balizar a discussão e a mostrar as condições da “camada mais baixa”. O argumento de que a situação dos jovens não é tão má quanto se pensa sai reforçado pelo facto de se usar uma concepção restritiva de jovem: em princípio, uma concepção mais lata melhoraria ainda mais os resultados ao nível de salários, emprego e vínculos laborais.

 

E sim, é verdade que debati com a letra de uma música. Mas porque me parece que a ideia de fundo da música transmite bem as frustrações, críticas e anseios dos jovens licenciados que não arranjam emprego e saltam de estágio não remunerado em estágio não remunerado. Em todo o caso, o argumentário de grande parte dos precários é bem mais vaporoso do que a letra da música. Desse ponto de vista, até revelei boa vontade ao escolher o adversário.

 

Entretanto, nos últimos dias a “Geração Deolinda” foi alvo de intensa cobertura mediática. Apenas por curiosidade, fiz alguma revista de imprensa rápida e despretenciosa. Quem são os desempregados a quem a imprensa deu atenção? Bom, o grupo que está a organizar a manifestação da próxima semana é composto por três estudantes de Relações Internacionais. Na invasão do comício do PS, a “Porta-voz” era licenciada em Comunicação Social. E a reportagem em  vídeo do Expresso fala com um grupo aparentemente encabeçado por um “actor” e uma “estudante de psicologia” (a versão escrita acrescenta o caso de uma formada em arqueologia).

 

Sim, a amostra é o que é e não me passa pela cabeça fazer doutrina a partir dela. Mas bate certo com a teoria de que a “Geração Deolinda”, dos estágios não remunerados, precariedade e desemprego prolongado, é um fenómeno bastante mais circunscrito do que se pensa, medrando sobretudo em torno de licenciaturas ligadas às ciências sociais, artes e humanidades. Precisamente grupos que têm um acesso desproporcional aos meios de comunicação.

 

O Miguel Madeira avançou com uma explicação adicional muito interessante para o explicar o mediatismo deste fenómeno, que gira em torno da evolução salarial ao longo da carreira – bastante pronunciada no caso dos licenciados, o que gera um efeito “de comparação” nefasto. A ideia tem eco (muito ténue, admito) nalguns dos números que apresentei, nomeadamente no valor dos salários reais dos jovens: apesar de todo o discurso em torno dos maus salários, os jovens ganham hoje mais, em termos reais, do que há dez anos. Claro que “ganhar bem” e “ganhar mal” é um conceito relativo. Mas o meu palpite é que a maioria dos manifestantes ainda não se apercebeu disso.

 

Finalmente, longe de mim defender que os jovens não têm razões de queixa. Eu penso que têm. Eles, os menos jovens, os adultos, os velhos e os idosos. Os motivos são bastante transversais ao longo de vários estratos etários, sociais e económicos. No caso dos jovens, a situação só me parece mais dramática por proporem soluções que tenderiam a agravar o problema para o qual estão a alertar. Às vezes, é preciso mais do que boa vontade e uns acordes de guitarra.

 


Quarta-feira, 9 de Março de 2011
Priscila Rêgo

Os dados relativos a salários são, tal como os que dizem respeito a vínculos contratuais, bastante limitados ao nível da desagregação permitida. Uma vantagem: são fáceis de interpretar e têm uma leitura pouco dúbia. Uma desvantagem: ao terceiro post de uma mesma série, já não há pachorra para grandes preciosismos analíticos.

 

O gráfico de baixo mostra o salário líquido de várias faixas etárias como percentagem do salário médio. Os dados são trimestrais e foram corrigidos de sazonalidade pelo muito cómodo método da introdução de médias móveis. Permitem ver como é que a situação salarial de cada grupo evoluiu relativamente à média nacional durante os últimos 12 anos.  Não é preciso mostrar os valores nominais, porque a comparação aqui é relativa.

 

 

Sim, os jovens ganham menos do que o trabalhador médio, mas o diferencial manteve-se mais ou menos constante durante a última década. Na verdade, o segmento etário cujo “prémio salarial” mais recuou ao longo deste período foi precisamente o mais velho (idade superior a 44 anos).

 

Já que tinha as mãos na massa, aproveitei e calculei também o salário real dos mais jovens. O gráfico abaixo mostra esse cálculo. Os valores são expressos em ordem ao ano base (1998, para o qual o salário é igual a 100), mas o que conta, na verdade, é a taxa de crescimento real. Como se pode ver, os jovens de 2010 ganham cerca de 10% mais do que os jovens de há 12 anos. Até houve ali um picozinho no início do século XXI, que infelizmente se esboroou logo em 2003.

 

 

Estes dados não permitem nenhuma comparação relativa, mas apresento-os porque se gerou na opinião pública a ideia de que os jovens ganham hoje menos do que ganhavam há uns anos. Esta ideia é refutada pelos números. Pode contudo ser verdade para um lote cada vez maior de jovens, caso a desigualdade se tenha agravado dentro da mesma faixa etária. Este efeito de base, que consiste na criação de grandes bolsas de jovens mal pagos, pode depois ser amplificado em termos mediáticos pelos fenómenos sugeridos neste post.

 

E em relação à vantagem de estudar mais tempo - e, em particular, de ter uma licenciatura? Ora tomem lá mais um gráfico, feito com a mesma metodologia do primeiro. Representa o salário de dois grupos com estudos diferentes, como percentagem do salário médio.

 

 

Vêem a barrinha verde? É verdade, um licenciado ganha muito mais do que o português médio. Mais do dobro há 12 anos e mais 75% hoje em dia. Esta queda não surpreende, tendo em conta o défice de qualificações em Portugal: o prémio salarial era muito alto no início do século (poucos licenciados, pois claro) e foi diminuindo à medida que cada vez mais jovens conseguiram terminar estudos superiores. Mas a conclusão é inatacável: ter licenciatura continua a ser altamente compensador.

 

Se cruzarmos o primeiro com o terceiro gráfico chegamos à conclusão provável de que os jovens licenciados devem estar a ganhar, em termos relativos, menos do que há 12 anos. E aqui batemos no primeiro problema: devido à falta de informação mais desagregada, qualquer afirmação mais arrojada do que isto cai no campo da especulação.

 

Mas, como isto ainda é um blogue, fazer especulação infundada é uma tarefa espinhosa que assumo com prazer. Eis, portanto, a minha especulação (não tão infundada quanto parece): a) a situação relativa dos jovens licenciados degradou-se nos últimos anos; b) mas continuou, ainda assim, bem melhor do que a situação dos jovens não licenciados; c) os desvios face à média salarial agravaram-se substancialmente, o que levou à criação de um segmento de jovens licenciados low cost, que se arrasta em estágios não remunerados. Deste ponto de vista, os últimos anos criaram, de facto, uma "Geração Deolinda". Desempregada, pobre e precária. Mas, provavelmente, pouco expressiva em termos numéricos.

 

E pronto, era só isto que tinha para dizer.

 


Terça-feira, 8 de Março de 2011
Rui Passos Rocha

A política tem cada vez menos espaço para a omissão e a mentira. Antes do sufrágio universal foi um jogo de e para as elites. Com o sufrágio tudo mudou. No dia em que a rádio nasceu a política passou a recrutar bons comunicadores. Quando a televisão surgiu a política exigiu mais: bons actores, caras públicas para fixar, expressões faciais para lembrar. Agora com as redes sociais, a malha um pouco mais apertada, a política precisará de ainda melhores mentirosos.


Sábado, 5 de Março de 2011
Rui Passos Rocha

Recomendo. Hoje às 00h30 na RTP2. Caos Calmo: o filme de onde retirámos a imagem do cabeçalho.


Sexta-feira, 4 de Março de 2011
Priscila Rêgo

Quanto a níveis de desemprego, estamos conversados. E em relação ao tipo de emprego? Perdi algum tempo a procurar dados no Instituto Nacional de Estatística mas, infelizmente, não consegui encontrar informação com o nível de desagregação ideal. Por exemplo, foi impossível analisar os tipos de contrato por idade e por nível educativo. É possível "varrer" as duas categorias, mas apenas separadamente. Perante este problema, cingi-me aos dados disponíveis.

 

Como no post anterior, calculei valores anuais e fiz uma comparação inter-temporal. O primeiro de três resultados é o gráfico de baixo, que revela a o peso de cada vínculo contratual no total do emprego nacional: contratos sem termo, contratos com termo e recibos verdes. O somatório das três percentagens não é necessariamente 100%, porque há alguns contratos (designados “outros”) que optei por não incluir. O seu peso, de qualquer forma, é relativamente marginal.

 

 

Factos a salientar: apesar do que se diz, a esmagadora maioria dos contratos em vigor em Portugal não têm termo. Os contratos a prazo pesam quase 20% do total, mas os recibos verdes praticamente não têm expressão. A título de curiosidade, calculei uma Taxa de Precariedade, que mais não é do que o somatório dos recibos verdes com os contratos com termo. Resultado final: entre 1998 e 2010, a taxa aumentou por um factor de 1,6. Agora, olhem para baixo.

 

 

Dêem um pulo ao post anterior. Notam as semelhanças? Para os mais desatentos, eu aponto: a precariedade aumentou entre 1998 e 2010 mas, mais uma vez, fê-lo em linha com o que aconteceu a nível nacional, crescendo por um factor de 1,7. Sim, hoje em dia cerca de metade dos jovens são “precários”. Mas, há 12 anos, mais de 30% estavam igualmente nessa condição. Outro ponto curioso diz respeito ao peso dos recibos verdes, muito menos relevante do que que eu esperava. Entre os 15 e 24 anos, menos de 2% dos contratos são feitos sob o abrigo deste regime contratual. É caso para dizer: são poucos, mas gritam muito.

 

O facto de não ser possível cruzar a idade com o grau de licenciatura tira alguma importância ao gráfico seguinte mas, ainda assim, optei por publicá-lo. Diz respeito aos vínculos contratuais dos licenciados.

 

 

Não há grandes surpresas. A precariedade aumentou, sim, mas por um factor – ora adivinhem lá…  – de 1,6. É verdade que a precariedade é superior à média nacional, mas este facto nem deve ser estranho tendo em conta que a maioria dos recém-licenciados é jovem. Seria interessante fazer uma análise mais fina mas, como disse antes, não consegui encontrar dados mais finos. Fica o desafio para quem dominar melhor as bases de dados do INE.

 

As conclusões são fáceis de retirar. Apesar de os jovens terem, de forma global, vínculos mais precários, a sua situação degradou-se mais ou menos em linha com o que aconteceu noutras faixas etárias (os factores de crescimento da precariedade variam entre 1,6 e 1,7). E os recibos verdes, apesar do impacto mediático que têm, representam uma parte reduzidíssima do total de vínculos laborais, mesmo entre os jovens. Até agora, nada suporta a ideia de uma "geração Deolinda". O argumento final fica para o próximo post, que fecha a série com uma análise de níveis salariais.


Quinta-feira, 3 de Março de 2011
Tiago Moreira Ramalho

A promoção deixava água na boca. A edição número 100 da Ler, com Steiner e Bloom e, imaginava eu, sumo raro, próprio das grandes celebrações. Depois comprei-a. E vi que, afinal, a edição número 100 da Ler, uma edição que poderia ser um marco na história da publicação, é, nada menos que um longo auto-elogio. Uma edição cheia de fotografias de pessoas que já tiveram fotografias das suas pessoas em edições anteriores. Uma edição cheia de referências vagas e inócuas a livros que já tiveram referências longas e interessantes em edições anteriores. Uma edição cheia de colunas de opinião cuja única coisa que nos têm a dizer é que a Ler celebra a sua centésima edição, com títulos medonhos («100pre prà frente»), como se o Editorial e a capa não tivessem grande utilidade.

Não estou arrependido de ter gasto os cinco euros. O Steiner e o Bloom valem isso. Mas tão mais feliz seria eu se em vez de um livro de História, tivesse comprado uma verdadeira revista sobre livros. Como esperava, quando perguntei ao senhor indiano ali em S. Sebastião se já a tinha.


Quarta-feira, 2 de Março de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Enquanto passava ao lado da televisão, ouvi o nosso primeiro-ministro falar em oitocentos anos de História e coisas dessas. Segundo o que percebi, o indivíduo entende que fronteiras estáveis nos dão direitos especiais. Angela, não me chateies que o teu país só está arranjadinho há meia dúzia de anos e o meu já lá está há quase mil.

O nosso primeiro-ministro está, para grande espanto meu, errado. Não há nada que a História possa fazer por nós neste momento. Não há nada que o passado possa trazer para solucionar o problema. Em vez de invocar o passado grandioso, o nosso primeiro-ministro deveria invocar o presente e, pelo caminho, tentar compreendê-lo. É que a questão é muito simples: em política e economia internacionais, a idade não é um posto.


Tiago Moreira Ramalho

Temos o estranho hábito de, enquanto refastelados no sofá da sala, em frente ao televisor, esticar o dedinho, abanando-o, enquanto lamentamos a falta de vontade de trabalhar dos nossos compatriotas que, no geral (e também no particular) são essencialmente como nós. Falamos como se o trabalho, as horas de trabalho, a qualidade do trabalho e todas essas malandrices que aparecem nos manuais fossem fins em si. O sentido da vida para estes chefes de sofá é o trabalho, sendo o trabalho a medida de todas as coisas.

Obviamente, e o leitor percebeu logo pelo tom com que introduzi a questão, esta gente é avariada do miolo (que eloquência, a minha). Estes nossos grandes amigos esquecem-se que há factores, também eles económicos, apesar de às vezes lhes chamarmos «extra-económicos», a determinar toda esta bagunçada estatística.

Ao passo que no Japão a morte por excesso de trabalho é de tal forma comum que se inventou um termo específico para quando tal acontece e, acredite-se, foi criado o «dia da procriação», no qual os empregados têm de sair do emprego às sete da tarde para, enfim, copular; na Holanda, as mulheres trabalham geralmente 26 horas semanais porque culturalmente não confiam em serviços que cuidam dos seus filhos a troco de dinheiro. Será isto sinal de que os japoneses são uns tipos muito, mas muito activos e os holandeses um perfeitos molengões cheios de florzinhas? Não. Significa apenas que tomam decisões diferentes quando toca a decidir sobre o custo e o benefício de trabalhar mais uma hora. Os japoneses preferem racionalmente abdicar de tempo com as famílias para saírem antes dos chefes. As holandesas preferem virar costas ao emprego para irem cuidar dos filhos. Já os franceses, um povo superior, resignam-se simplesmente à evidência de que não serve de muito trabalhar sem gozar o rendimento gerado.

Tudo isto para dizer que essa lenga-lenga do português preguiçoso é conversa que não convence. A decisão sobre o número de horas a dar ao emprego deve ser tomada pelos próprios agentes. Se um português prefere sair às quatro da tarde e ir beber umas cervejas com a malta, dar uns miminhos à patroa ou ir ao jardim com os filhotes, é com ele. Estas decisões não têm bases morais, por isso não são certas nem erradas. São simplesmente frutos de preferências pessoais, que, como tal, têm mais é de ser respeitadas. Por isso, leitor, quando lhe disserem «vai trabalhar», diga, armado em criança, «vai tu» e mostre o dedo.


Terça-feira, 1 de Março de 2011
Tiago Moreira Ramalho


Tiago Moreira Ramalho

É um facto, o livro é um objecto de arte. Mas a arte encerrada nas páginas de um livro não é impeditiva da leitura de livros electrónicos em instrumentos que, para alguns, são verdadeiras engenhocas do demónio, pedaços de plástico e metal sujos de pecado irreparável.

Ainda não leio livros electrónicos e ainda prefiro revistas em papel. Mas não é possível negar o apelo que o preço e a facilidade geram nos consumidores regulares. Para quem gosta de Charles Dickens, é diferente pagar dez euros por cada edição paperback ou dois euros pela obra completa de cinquenta e tal romances. Para quem gosta de ler a Spectator, é diferente pagar três euros por mês ou seis euros por semana. A arte custa dinheiro e é preciso olhar para as alternativas electrónicas como formas competentes de fugir ao luxo artístico que algumas publicações julgam ter.

Temos estantes menos completas? É possível, não nego. Mas a verdade é que nem todas as minhas paredes têm quadros, nem todos os pratos que como são gourmet, nem todas as roupas que uso são de estilista. Os livros estão simplesmente a sofrer o que outras artes também sofrem, quase desde que existem. Em vez de olharmos para isso como algo mau, deveríamos olhar como algo bom. Facilitar o acesso ao livro é um caminho óbvio para a universalização do gosto. E a universalização do gosto deveria ser o objectivo desses «defensores do livro» que nos aparecem todos os dias por aí, digo eu.


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