Sexta-feira, 29 de Julho de 2011
Rui Passos Rocha

Tom Waits - Flowers Grave


Quinta-feira, 28 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

Portugal consegue ter transportes públicos a preços que cubram os custos?

 

Isso devia ser óbvio. As empresas públicas de transportes já têm de pagar os seus custos, desde os salários dos trabalhadores até aos consumos intermédios. E o dinheiro não cai do ar: vem dos impostos, via indemnizações compensatórias, das vendas, via passes e bilhetes, e de crédito como títulos e crédito bancário. A questão de fundo é quem deve pagar estes custos: os utentes, que são quem beneficia dos transportes, ou quem não beneficia, via impostos.

 

Mas não há o risco de os transportes se tornarem de tal forma caros que tenham de ser fechados por falta de procura?

 

Em teoria, sim. Mas isso revela apenas que o custo do serviço é maior do que aquilo que os consumidores estão disponíveis a pagar por ele, e nesse sentido deve ser encerrado. Na prática, contudo, é improvável que isso aconteça. Os transportes são de facto importantes e o mais provável é que haja uma redução parcial da procura, que permita manter o serviço e, ao mesmo tempo, incentive a gestão das empresas a reduzir custos.

 

Mas a maior parte das pessoas pura e simplesmente não tem alternativa a usar os transportes.

 

Isso não é verdade. Há muitas possibilidades: alterar o lugar de residência, trocar o metro pela camioneta, o alfa pendular pelo intercidades, o intercidades pela boleia com amigos, usar a bicicleta ou até andar a pé. E as próprias empresas têm incentivos para se afastarem dos centros urbanos para os quais a deslocação está a ser subsidiada, dispersando-se mais pelo resto do território. Há muitas alternativas.

 

Mas o ponto principal não é esse. Há duas alternativas: ou as pessoas são sensíveis ao preço, ou não são. Se são, a procura vai responder à subida do preço, incentivando uma gestão mais eficiente por parte das empresas de transportes. Se não são, então o preço mais alto pode, de facto, deixar a gestão inalterada. Mas aí voltamos à primeira pergunta: é justo que seja quem beneficia do transporte a ter de o pagar.

 

Mas preços baixos não cumprem uma função de redistribuição?

 

Isso só acontece se quem beneficiar da "redistribuição" for mais pobre do que quem a paga. Só que esta coincidência pode ser imperfeita. Nem todos os pobres usam transportes públicos, nem todos os que usam transportes públicos são pobres. A política do preço baixo acaba por transferir dinheiro para quem não precisa e por não ajudar quem devia ajudar. Se é para fazer redistribuição, mais vale dar o dinheiro a quem é pobre e deixá-lo gastar no que precisa - seja em transportes, seja em comida.

 

Isso aplica-se a todos os casos de preços subsidiados?

 

Sim. E os transportes públicos até é um dos casos que melhor ilustra este problema. Os transportes públicos como metro e comboios da CP servem sobretudo os grandes centros urbanos, como Porto e Lisboa, onde os rendimentos são mais altos do que no resto do país. Quem usa o alfa pendular não está propriamente na pobreza. Nem quem usa o intercidades. Os pobres que precisam de ir de Lisboa ao Porto ver a família ao fim-de-semana não usam a CP, mas os autocarros, cujo preço é muito mais baixo. E os que são mesmo, mesmo pobres não têm outro remédio que não ir menos frequentemente.

 

Não é legítimo utilizar preços baixos para fazer política económica? O Estado pode querer incentivar a deslocalização para fora dos centros urbanos?

 

Isso é legítimo. O problema com a doutrina da "política económica" é que ela é normalmente mais um pretexto que uma causa. Por exemplo, a política de "incentivar a mobilidade dos lisboetas" choca com a política de "trazer pessoas para o Centro da cidade". Ambas são mutuamente exclusivas, apesar de serem defendidas muitas vezes pelos mesmos políticos. O único resultado disto é que os seus efeitos se cancelam mas os custos e distorções somam-se.

 

É assim tão simples?

 

Não. Há sempre nuances. Mas, nesse caso, o ónus da prova recai sobre quem acha que os transportes devem ser subsidiados.

 

 


Priscila Rêgo

Alguns leitores defendem a política da subsidiação dos transportes com o argumento de que é preciso ajudar os pobrezinhos. Ajudar os pobrezinhos é um objectivo louvável, mas baixar os preços dos transportes é uma má maneira de o fazer. Em primeiro lugar, porque nem todos os que utilizam os transportes públicos são pobres; em segundo lugar, porque nem todos os pobres utilizam transportes públicos. A política do passe subsidiado abrange muita gente que não deveria ser beneficiada e deixa de fora muita gente que deveria estar bem à frente na lista de espera.

 

Na verdade, a política apenas atinge permanentemente um segmento bem identificado da população: funcionários (entre os quais os gestores) das empresas públicas de transportes, que ficam dispensados de concorrer no mercado, de reduzir custos e oferecer um serviço de qualidade. Como a receita é "insuflada" pelo factor subsídio, têm menos incentivos para racionalizar a rede, melhorar o serviço ou controlar os gastos. Os partidários da política do passe social têm razão quando dizem que o preço subsidiado ajuda muita gente. Só se enganaram ao identificar o estrato.

 

 


Quarta-feira, 27 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

A subida do preço dos passes da CP e, e forma genérica, dos bilhetes de outros serviços de transporte, é uma medida que, só por si, pode contribuir para aumentar a produtividade. Isto pode parecer uma contrasenso, mas só para quem não percebe o papel que os preços têm no sistema de informação de uma economia de mercado.

 

O preço de um produto não serve para produtores e consumidores poderem fazer trocas. Os preços servem para também sinalizar escassez ou excesso de produtos. Se o preço do petróleo é alto, os consumidores tenderão a refrear o seu consumo e os produtores sentir-se-ão tentados a investir em mais sistemas de extracção. Acontece o mesmo com carros, computadores ou batatas: quando os preços sobem de um lado e descem do outro, os recursos dos empresários seguem a mesma direcção e atenção dos consumidores desvia-se para produtos alternativos.

 

Um subsídio, tal como um preço máximo, destrói o sistema de preços ao tornar ocultos os verdadeiros custos de produção de uma empresa. A melhor analogia é com um consumidor que vai ao mercado com um montante fixo para gastar mas que faz as suas compras sem saber quais os preços de cada produto, sendo apenas avisado do momento em que o plafond do cartão esgota. Se o consumidor souber os preços dos bens, pode ajustar as suas compras ao cabaz que mais o satisfaz, maximizando a utilidade do seu dinheiro. Caso contrário, é uma lotaria. Mesmo que gaste o mesmo montante, a utilidade será inferior à que seria caso pudesse ponderar qual o custo de comprar um bem relativamente a comprar outro bem qualquer.

 

Acontece o mesmo com as empresas de transportes. Os subsídios à exploração permitem à CP utilizar recursos - mão de obra, máquinas, etc. - que não conseguiria utilizar caso dependesse de si mesma para continuar a funcionar. Estes recursos são retirados às actividades mais produtivas, que os conseguiriam utilizar caso estivessem em igualdade de circunstâncias com a CP. Acabar com os subsídios permite realocar estes recursos, aumentando a produtividade média da economia pelo simples efeito da revelação de informação mais fidedigna aos agentes económicos. 

 


Priscila Rêgo

O sindicato dos trabalhadores dos transportes está contra a subida do preço dos transportes. A subida que causa mais indignação é a dos passes da CP, embora a razão não seja completamente clara: os sindicatos existem para proteger os interesses dos seus filiados, e não os interesses dos clientes dos patrões. Não é normal vermos greves na indústria devido à subida dos preços praticados junto do consumidor final, por exemplo.

 

Provavelmente, a razão pela qual a subida de preços gera contestação está relacionada com a percepção, inevitável a este ponto, de que a subida das receitas com venda de bilhetes virá acompanhada de uma redução das receitas via subsídios e indemnizações compensatórias. Apesar de a transferência de receita ser neutra ao nível da contabilidade, ela não é neutra ao nível dos incentivos. Quanto mais receitas dependerem da actividade da empresa e menos vierem do Orçamento do Estado, maior será o incentivo para racionalizar serviços, melhorar a qualidade e diminuir custos operacionais.

 

Para os trabalhadores do sector público dos transportes, isso significa um escrutínio maior do seu trabalho e, com toda a probabilidade, maior rigor na fixação de salários. Mesmo que a subida de preço dos transportes seja boa para a economia, ela pode ser terrível para os grupos de interesse que cristalizaram em torno de empresas públicas ineficientes, sustentadas pelo Orçamento do Estado e alheadas dos princípios da concorrência.

 

Quanto à razão pela qual são os tipos da CP que mais protestam, pode haver muitas explicações. Esta talvez seja uma delas.

 

 

 

 


Segunda-feira, 18 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

Mas não resisto. Isto é o Henrique Raposo a falar sobre a semiótica dos estrunfes.

 

Ao que parece, os estrunfes são uma monstruosa máquina de propaganda comunista. Há duas décadas e meia, a minha mãe pensava que eu estava a ver uns desenhos animados fofos, mas, na verdade, eu estava a receber mensagens sublimares do Álvaro Cunhal e do nosso. É verdade, caro leitor. É o que diz um genial sociólogo ("genial sociólogo" é pleonasmo, eu sei) francês de seu nome Antoine Buéno. Em "Le Petit livre bleu: analyse critique et politique de la société des schtroumpfs" , Antoine Buéno diz que os estrunfes de Peyo têm mensagens subliminares alusivas ao totalitarismo, nomeadamente do totalitarismo comunista (não vale rir, caro leitor). Porquê? Ora, porque "todos os estrunfes se vestem da mesma maneira" (quem diria), "têm casas iguais às dos vizinhos" (o que demonstra a existência de planos quinquenais para o urbanismo)", "não são conhecidos pelos seus nomes pessoais" (um violento ataque à ética cristã) e, reparem, vivem num espaço partilhado onde a "iniciativa privada não é estimulada" (caramba, Peyo não leu Hayek - prova inequívoca do seu totalitarismo). (...) O que seria de nós sem a sociologia de Paris?


E isto é o Henrique Raposo, qual Roland Barthes, a aventurar-se, ele próprio, nos domínios da semiótica.

 

É o facto insofismável número um: o Ocidente afastou-se de Deus, ocorreu uma descristianização da sociedade e das narrativas. Mesmo tendo em atenção as diferenças entre EUA e Europa, não há ninguém que conteste esta ideia. Porém, quando olhamos com atenção para as grandes narrativas pop deste tempo, constatamos que o grande J.C. continua firme no centro da moral. Cristo está sempre lá. Com outras roupagens, com outras mitologias, mas é Cristo. Olhemos, por exemplo, para as duas grandes sagas cinematográficas da geração 2000: Matrix e Harry Potter, que tem por aí o último filme. Matrix é tão pós-moderno que até parece um irmão gémeo de Baudrillard (...) Mas, no centro desta parafernália, encontramos a narrativa mais velha da nossa Era: Neo, o homem que, no final, tem de morrer para salvar a humanidade. Nada mau para uma saga declaradamente pós-moderna (...) Tal como Neo, o jovem Potter tem uma espécie de morte, mas, depois, ainda tem uma espécie de ressurreição (apesar de tudo, Neo não teve direito ao seu momento Lázaro). O nosso tempo não é tão descristianizado como julga.



 


Sábado, 16 de Julho de 2011
Rui Passos Rocha


 

«The more time I spent with orangutans, the more firmly I was convinced that great apes possess intentionality, self-awareness, complex modes of communication, a theory of mind, a sense of humor, and a need for emotional support, as well as many other human-like traits.»


Rui Passos Rocha

Pearl Jam - Just Breathe


Segunda-feira, 11 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

Os argumentos pró-euro seguiram mais ou menos esta sequência.

 

1) A Alemanha não pode obrigar os pobres países da periferia a abdicarem da sua soberania orçamental e reduzir o seu défice

 

2) A Alemanha deve financiar os défices dos pobres países da periferia. Não é uma ajuda, é um empréstimo para pagar uma dívida sustentável.

 

3) A Alemanha deve financiar os défices dos pobres países da periferia a taxas de juro aceitáveis (baixas).

 

4) A Alemanha deve permitir aos pobres países da periferia não pagarem as suas dívidas. A dívida é insustentável.

 

5) A Alemanha deve unir-se aos pobres países da periferia para emitir dívida conjunta (princípio da solidariedade) e depois separar-se de novo para os deixar gastar como quiserem (princípio da independência e soberania).

 

Para os países do Sul, a Alemanha tem de compreender que só isto impede a destruição do euro. Mas os próprios países do Sul deveriam perceber que o euro é um projecto político com prós e contras. As suas acções recentes têm aumentado o peso relativo do segundo prato da balança. Depois não se queixem.


Priscila Rêgo

Tudo aquilo que queriam saber e nunca ninguém tiveram coragem de perguntar. Aqui, no Portuguese Economy.

 

O Miguel Lebre de Freitas defende também a tese de que o alegado problema de competitividade de Portugal está mais relacionado com o Sector Não Transaccionável do que com um problema de desajustamento dos salários à produtividade. Algo parecido com o que eu defendi aqui, embora de forma reconhecidamente menos sofisticada (e a explicação também diverge a partir daí, porque ele enfatiza o papel macroeconómico do excesso de procura interna, ao passo que eu aventei a possibilidade de haver barreiras institucionais à concorrência no SNT).


Domingo, 10 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

No Insurgente:

 

Keynes diz: os recursos são infinitos, estimulem-se as necessidades. Hutt contrapõe: os recursos são finitos, controlem-se as necessidades e usem-se bem os recursos existentes.

 

Andámos enganados todos estes anos pelos keynesianos que conseguiram instalar a crença de que os recursos são infinitos. Felizmente estão aqui os austríacos para nos relembrar que isso não é verdade.


Sábado, 9 de Julho de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Finalmente, não deixa de ser interessante que pessoas sejam pagas para ir à televisão dar-nos as suas opiniões sobre este assunto tenham o descaramento de, ao mesmo tempo, dizer que o dinheiro que recebemos é insuficiente para nos safarmos e que a agência de notação financeira foi injusta ao dizer que, nestas circunstâncias, não nos iríamos safar. Caso façam maus juízos, as agências de rating não estão, de todo, sozinhas.


Tiago Moreira Ramalho

É claro que independentemente do que digam as agências de notação financeira, a acção política ainda é determinada pelos governos e pelas instituições públicas que em torno deles orbitam. O que a agência de rating faz é, tão-só, introduzir mais informação no mercado. Aquilo que os governos fazem com essa informação cabe-lhes a eles decidir. E se até agora havia a ilusão de que a nossa política era ditada pelas agências de rating (o que é errado – a política era ditada pela realidade e pelos factos de que as agências nos davam conta), a decisão do BCE mostra de forma muito evidente que a política está nas mãos de quem decide. O que o BCE fez, como escreve o João Galamba, era óbvio – afinal, se a instituição que nos financia não confia no programa que nos impôs, mais ninguém pode confiar. No entanto, sendo ou não, mostra que não há uma ditadura dos mercados. Os mercados são a simples imprensa livre que morde as canelas de governos pouco cuidadosos.


Tiago Moreira Ramalho

O fervor patrioteiro contra as agências de notação financeira tem vindo a despertar sucessivos e algumas vezes violentos bocejos em mim. Porque é demonstrativo da estranha forma como pensamos. Deixamos que todo o nosso raciocínio seja enviesado pelo tribalismo que parece unir-nos e escusamo-nos a pensar o problema com a objectividade necessária. Quando se ouve, por todo o lado, que as agências de rating são umas feias porque nos dão más classificações, ouve-se, ao mesmo tempo, a confissão de uma incapacidade de juízo que alarma.

Em primeiro lugar, é preciso perceber que o que as agências de rating fazem é uma simples análise, que só é feita se for pedida e, por conseguinte, paga por quem a pede. O governo português, quando contratou o serviço da Moody’s, confiou no seu juízo, supomos, pois não queremos acreditar que o dinheiro público seria atribuído a uma empresa pouco fiável. Estranho é que como o resultado não é o pretendido, essa credibilidade que lhe demos no acto do pagamento se tenha esvaído. Há uma certa duplicidade nos padrões dos governantes, no que a isto diz respeito.

Além disto, parecemos esquecer qual é o principal activo destas empresas. É a credibilidade. Num mercado muito concentrado, em que a acção de uma empresa assume uma relevância tremenda, nenhuma destas empresas tem interesse em ser pouco credível. Uma agência de notação financeira que se saiba aos serviços de uma política obscura dos Estados Unidos da América (de quem dentro da América – se do governo, se de um clube de empresários malvados, se do cão Bo – não sabemos) implode no momento seguinte, pois nenhum país ou empresa voltará a contratar os seus serviços. Claro que a definição deste princípio não implica necessariamente que uma das agências não arriscasse a façanha, nem tampouco implica que não possa haver erros, mas queremos acreditar que eles, melhores ou piores, não são completamente idiotas.


Tiago Moreira Ramalho

Apesar de não ter especiais simpatias pelo Rendimento Social de Inserção, há que evitar este tipo de análise. Não li o livro, mas li o comentário e não é de todo em todo fiável dizer-se que as desigualdades aumentaram por causa do subsídio ou que o subsídio não é bom porque permitiu que elas aumentassem. O efeito do subsídio dificilmente é analisado isoladamente e em dezasseis anos muita coisa acontece numa economia. Podemos muito bem estar perante o caso do gordinho que diz que está de dieta porque come três maçãs por dia, apesar de as cobrir de caramelo.


Sexta-feira, 8 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

Em vez de criticarmos as agências de "rating" e nos indignarmos sumamente com a sua incompetência, não seria mais acertado deixar de lhes pagar? Poupavam-se uns trocos e acabavam-se os problemas.


Quinta-feira, 7 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

 

José Gomes Ferreira, editor-ou-algo-do-género de economia da Sic Notícias, diz que "só os ingénuos acreditam que a descida do "rating" teve motivações técnicas". Pouco depois, diz que o risco de falência é real e "enorme". Ninguém se ri. Todos falam de agências de "rating" sem perceberem que o risco de falência não é um argumento contra, mas um argumento a favor da descida do "rating".

 

Ali pelo meio, Gomes Ferreira diz também, certamente inspirado por algum policial da Agatha Christie, que as agências de "rating" estão a tentar... sustentar o dólar. Reparem bem: as agências querem apoiar o poder de compra norte-americano e qual é a primeira coisa que fazem? Atirar ao chão duas economias pujantes e com peso no euro, como são Portugal e Grécia. É um pouco como acusar do Benfica x Belenses de querer beneficiar o Porto ao dar ordem de expulsão ao Sidnei ou ao Roberto.

 

O mais incrível é que este é o mesmo Gomes Ferreira que, em plena "guerra cambial", acusa os Estados Unidos de tentarem ganhar vantagem sobre os outros países através da desvalorização da moeda (!). Isto há cada um. E estão todos na televisão, chiça.


Tiago Moreira Ramalho

Sejamos objectivos e frontais: seria facílimo para nós gritar, do alto de um banquinho estrategicamente montado no palco do muno, um agudo «não pagamos». Declarávamos falência e fazíamos tabula rasa nestas andanças. Afinal, tudo isto é um jogo de investimento, um jogo com risco e os credores, quando emprestam, sabem que há esse risco (os juros são precisamente a confissão banal de que há gente de pouca confiança). No entanto, entre pagar e não pagar reside a fundamental questão do que somos e do que queremos ser enquanto Estado. E, aqui, nada mais há a fazer que simplesmente contar os bracinhos que votam, porque não há consenso possível em juízos éticos desta natureza. Sim, porque há uma questão ética no cumprimento das obrigações que temos.  O compromisso assumido pelo Estado não é, apesar de por vezes o acharmos, diferente do assumido pelo indivíduo. E, pelo menos da última vez que confirmei, um indivíduo que, em cima de um banquinho, grita que não paga ainda é um indivíduo a quem se deve olhar de lado em futuros compromissos.

Há uma agência de rating que ainda não acredita que seremos capazes. Uma vez mais, em vez de apontarmos o dedo à agência por não acreditar em nós, vamos um pouco mais além. Neste momento fala-se numa série de medidas extraordinárias, mas nenhuma foi aplicada. O dinheiro do décimo terceiro mês não entrou, a RTP ainda é pública, a Galp ainda é um quarto nossa, a função pública ainda mantém os mesmos funcionários, os serviços públicos ainda são sorvedouros de rendimento que é cada vez mais escasso. Lamento, mas por muito valorosas que sejam os passos dados, meia dúzia de governadores civis e outra de ministros não dá para nada.


Tiago Moreira Ramalho

 

 

 

 

  

 

 


Quarta-feira, 6 de Julho de 2011
Rui Passos Rocha

Os auditores de Justiça que tiveram de repetir o exame estão de parabéns. Não só tiveram todos positiva como quase 80% deles tiveram mais de 14. Pinto Monteiro, que chamou «desprestigiante» ao episódio do copianço, uma semana antes, desta vez não disse nada. Está tudo bem quando acaba bem.


Tiago Moreira Ramalho

Hoje de manhã vi Vítor Gaspar a dar uma conferência de imprensa com o rosto coberto por uma vasta camada de profundas olheiras. Fiquei mais descansado.


Tiago Moreira Ramalho

Uma vez ouvi o Professor João Salgueiro, um dos que têm algum interesse na vetusta instituição que recentemente mudou de nome para Nova School of Business and Economics, dizer que teve pouquíssimos problemas quando foi ministro das Finanças. A razão era simples e quase envergonha quem não a pode alegar: todo o Conselho de Ministros sabia que ele não teria particular prurido em bater com a porta. Esta independência dos ministros chave de um governo é condição fundamental para que o governo possa, no meio da prometida incompetência, contar com alguns sucessos.

Claro que uma equipa de gente livre é um obstáculo à liderança. José Sócrates era o belíssimo exemplo de uma nulidade técnica à frente de uma equipa que não bateria com a porta. Tanto não bateria, que ninguém bateu. E aqui nos temos prostrados perante credores que nos consideram mero lixo. Felizmente, hoje, um conjunto de ministros pode sem a menor das dificuldades bater com a porta. Ministros chave, como o das Finanças, da Economia, da Educação ou da Saúde não precisam do cargo ministerial para absolutamente nada e, calhando, estariam melhor sem ele (Paulo Macedo abdica de trinta e cinco mil euros todos os meses para ser ministro). Mesmo que Passos Coelho seja uma alforreca da governação, a equipa que lidera saberá impor-se e impor aquilo que são, à partida, propostas esclarecidas. Aprendemos que todos ganhamos com a limitação do poder do chefe há mais de duzentos anos. Hoje estamos a experimentar a novidade cá na praia.


Terça-feira, 5 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

O Filipe Faria escreveu um post essencial acerca dos perigos de subscrever a versão "social" do Liberalismo. Nas suas palavras, "quando um liberal social advoga o direito à saúde, tal implica que alguns seres humanos (médicos, enfermeiras) irão ser forçados a trabalhar em prol de outros, nas condições que o Estado quer,  independentemente da vontade desses profissionais de saúde. Usando um argumento sob forma de Reductio ad absurdum, se todos os médicos se recusassem a exercer nessas condições, o Estado, sob o postulado da liberdade positiva e do direito à saúde, podia obrigar os mesmos a fazê-lo sob coerção (o que colocaria o acto ao nível da escravatura)".

 

Apesar de o argumento ser suficientemente bem conseguido para granjear ao Liberalismo Clássico hordas de seguidores fervorosos, julgo que o Filipe, certamente por distracção, deixou passar um exemplo bem mais revelador do totalitarismo a que o Liberalismo Social pode conduzir: o caso da limpeza da via pública. Sob o pretexto de que é bom para todos que não haja lixo no chão, entregamos a esse Leviatã que é o Estado a possibilidade efectiva de nos obrigar a percorrer as ruas imundas das nossas cidades a recolher porcaria. O princípio é o mesmo dos médicos, mas em vez de se obrigar o pobre cidadão a prescrever, de forma higiénica e cómoda, medicamentos a utentes, obriga-se o pobre coitado a recolher dejectos dos cãezinhos a horas pornográficas. O Liberalismo Social é isto*. O resto é areia para os olhos.

 

Agora a sério: não é difícil compreender que o Liberalismo tenha tão poucos adeptos. A ideia de que o mercado se adapta às necessidades dos consumidores sem um planificador central é, ainda hoje, tão difícil de apreender para a maioria das pessoas como a ideia de selecção natural foi para quem vivia no século XIX. Se as coisas já são complicadas assim, não vale a pena acrescentar ruído com exemplos deste género. Não vamos andar a imitar quem, do outro lado da barricada, diz que com padarias privadas vamos todos passar fome, ou vamos?

 

*E se não é, podia ser...



editado por Rui Passos Rocha em 06/07/2011 às 17:18link do post | comentar | ver comentários (9)
Segunda-feira, 4 de Julho de 2011
Rui Passos Rocha

Alberto João Jardim tem por hábito chamar «cubanos» aos continentais. Experimente-se cortar-lhe os subsídios e veremos que portugueses começam a navegar em balsas.


Rui Passos Rocha

Tenho saudades dos posts do Carlos Santos.


Bruno Vieira Amaral

Na Ler deste mês:

 

"O aeroporto despeja pessoas a um ritmo constante. Quando atravessam as portas é impossível não sentirem uma pontinha de vaidade, mesmo que os olhares ansiosos que as seguem pertençam a agentes de viagem à espera do senhor Tamura ou da senhora Rasmussen. Reparei que entre esta classe de esperadores profissionais, cuja função consiste em passar o dia a exibir uma folha a4 com o nome de alguém que nunca viram, existe uma cumplicidade que se reflecte em códigos humorísticos inacessíveis aos restantes mortais, como no caso de piadas sobre o melhor local para esperar islandeses. E lá se vão sucedendo os tipos humanos: um casal de lésbicas finlandesas, um indíviduo com todas as condições indumentárias para gerir um bar de alterne com moderado sucesso, um cantautor de patilhas anacrónicas, um homem dos seus cinquenta anos bronzeado que reencontra a mulher pálida enquanto reza para não ter apanhado nenhuma doença venérea durante uma suposta viagem de negócios, outro casal que se reencontra sem demasiado espalhafato mas cujo marido cumpre o protocolo com um bouquet burocrático de flores e, porque me estava a incomodar a falta de um lateral-esquerdo nesta colecção, o Álvaro Magalhães, mais magro ao vivo do que na televisão."

 


Domingo, 3 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

Ainda não percebi muito bem o critério para escolher os alvos. Se são lucrativas, não se podem privatizar porque trazem receita. Se dão prejuízo, não se podem privatizar porque ninguém as quer comprar.


Sábado, 2 de Julho de 2011
Rui Passos Rocha

Está descoberta a razão da insegurança que levou o Presidente da República a processar o director da Visão por ofensa à sua honra: quando era adolescente, Cavaco Silva "tinha muito medo de copiar" e até sonhava com equações de primeiro e segundo graus.


Tiago Moreira Ramalho

A Madeira tem, passeando pelos prados, um conjunto de pessoas que, numa luta mais do que pertinente, brame contra o imperialismo do continente. Querem ser independentes. Até aqui nada de errado. Muitas colónias desejam ou desejaram a independência. Algumas, cheias de sucesso, transformaram-se em ‘ex-colónias’, o que evidencia que no fundo algum fundamento têm as pretensões separatistas. Claro que no reino madeirense, tudo parece mais estranho. Há questões identitárias que levam povos a querer viver pelos seus próprios meios. Se nuns casos é a cultura, noutros é a língua, a defesa de uma diferente forma de governo, a vontade de diferentes relações internacionais. Enfim, há uma série de motivos que levou e continua a levar a que povos acabem por criar a única fronteira que lhes falta – a política. No caso madeirense o que parece vocacionar o ‘movimento’ é o mero capricho. Ilha que era nada e cujo nascimento e desenvolvimento sempre se deu dentro da cultura do ‘continente’, sem língua própria, religião própria, rituais culturais próprios, nada de fundamental diferencia a Madeira do resto do país. Ainda assim, os madeirenses a quem passear pelos prados não chega obrigam-nos a aturar o capricho autónomo e a pensar que poderá, realmente, haver pretensões separatistas sérias, quando tudo não passa de mera ocupação de tempo excessivo. Entretanto, enquanto ainda pertencem ao país que parecem querer abandonar, vão gozando com os esforços que se pretendem nacionais para contenção de défice e despesa, enquanto beneficiam de regimes fiscais privilegiados. Tenham paciência.


Sexta-feira, 1 de Julho de 2011
Rui Passos Rocha

 

Recomenda-se: Exit Through the Gift Shop.


Tiago Moreira Ramalho

Não sei o que pensam as pessoas Hugo Mendes e Mariana Vieira da Silva, ou como pensam, ou se pensam, mas o facto é que as evidências são pouco animadoras. Se calhar deviam ter tido o Nuno Crato como Ministro da Educação nos respectivos tempos de estudo.

 


Tiago Moreira Ramalho

Sabemos desde o século XIX, e para que o soubéssemos ajudou muito o Sr. David Ricardo, que dívida pública presente corresponde a impostos futuros. Não há volta a dar. No entanto, parecemos querer esquecer esta equivalência sempre que os ‘futuros’ chegam e, com eles, os impostos devidos. Se hoje há um imposto extraordinário sobre um ‘décimo terceiro mês’, presente no calendário pagão adoptado pelas Finanças Públicas, é porque muitos gastos verdadeiramente extraordinários foram feitos sem que os devidos impostos fossem cobrados.


Priscila Rêgo

É verdade, o discurso foi o mais liberal já proferido no Parlamento. Quanto à prática concreta, há que esperar para ver. Para já, a subida de impostos tem dois pontos a favor: é temporária e vem, aparentemente, acompanhada de um corte na despesa em torno dos 800 milhões de euros. Ainda estamos no começo e este Governo deve ter, pelo menos, o benefício da dúvida. Este é um benefício que o anterior já tinha perdido há muito tempo.  


autores

Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

comentários recentes
Great post, Your article shows tells me you must h...
You’ve made some really good points there.I looked...
دردشة سعودي ون (http://www.saudione.org/) سعودي و...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
http://www.chat-palestine.com/ title="شات فلس...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
كلمات اغنية مين اثر عليك (http://firstlyrics.blogs...
o que me apetecia ter escrito. mas nao o faria mel...
good luck my bro you have Agraet website
resto 5resto ya 5waga
posts mais comentados
125 comentários
114 comentários
53 comentários
arquivo

Fevereiro 2013

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

links
subscrever feeds