Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011
Priscila Rêgo

Parece que os tumultos já acabaram. A Esquerda caviar que defendia que foi tudo causado por pobreza e alienação vai ter alguma dificuldade em explicar quais as políticas sociais milagrosas que o Estado britânico colocou no terreno em menos de uma semana para voltar a pôr os miúdos em casa. E a Direita do crucifixo vai ter de arranjar melhor argumento quando quiser falar de crise de valores e do niilismo da juventude.

 

Não espero que quem faz política (ou dinheiro) a vomitar preconceitos perca agora muito tempo a comparar as previsões que fez na altura com os factos que agora conhecemos. Uma parte do proveito de opiniões extremadas só é devidamente extraído quando estas são debitadas com convicção e violência. Parar para pensar, reflectir e mudar de opinião estragava a imagem de certeza absoluta que é preciso projectar. 

 

Mas espero que a opinião pública perceba, ainda que pouco a pouco, a quem não deve dar ouvidos. As certezas que cada um reivindica não são uma medida do grau de correcção da sua opinião. São um barómetro da sua casmurrice. Um dia compreenderemos isso.   

 

 

 

 

 


Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011
Rui Passos Rocha

Anda por aí gente incomodada com o boicote anunciado por uma catrefada de facebookeiros ao jornal Sol, na sequência de mais um daqueles textos do director José António Saraiva sobre a homossexualidade - que tanto o atormenta. (Outros ficaram indignados por a Tranquilidade ter cancelado uma exposição sobre a homossexualidade, mas tanto quanto sei não há ainda qualquer grupo do Facebook que apele ao boicote à seguradora.)

A reacção dos incomodados foi dizer que a máxima discordo do que dizes, mas lutarei até ao fim pelo teu direito de o dizeres (ou algo do género) está a ser desrespeitada por aqueles que apelam ao boicote. Ludwig Krippahl escreveu que tal apelo "é injusto para com as outras pessoas que lá escrevem e que não têm culpa do José António não ter coisa melhor para escrever. Além disso, o direito de se dizer o que se pensa serve precisamente para dizer o que incomoda os outros, porque para dizer o que não estorva ninguém não é preciso direito nenhum".

Não creio que isso esteja em causa. Tanto quanto sei ninguém apelou a que a ERC lançasse uma das suas epístolas ao Sol, nem se terá exigido o fim da comercialização do jornal. O que vejo é simplesmente uma iniciativa que pretende sinalizar que enquanto forem escritos editoriais contendo argumentos como os gays não deveriam casar porque não se lhes poderá chamar marido e mulher o jornal poderá sofrer nas vendas. E isso - a não ser que eu esteja a ver isto tudo mal - é um reflexo de liberdade.


Terça-feira, 23 de Agosto de 2011
Rui Passos Rocha

Tony Blair escreveu um texto dizendo que o que aconteceu há dias em Londres e outras cidades britânicas não espelha um declínio moral da sociedade, como defende Cameron, mas sim a alienação, desafeição e maus comportamentos de jovens pertencentes a famílias disfuncionais. A solução, diz, não é aumentar as penas (direita) nem criar programas de reeducação social (esquerda), mas sim ir bairro a bairro, e casa a casa, perceber e resolver os problemas específicos.

A ideia não é propriamente nova; nem está assim tão distante daquela que ele atribui à esquerda. Suponho que o que ele dela critica é que pretenda socializar os jovens recorrendo a um mesmo plano para todos, como se os problemas fossem homogéneos. Mas não consta que esses programas de reeducação não sejam, na prática, maleáveis.

Por outro lado, a ideia pode perfeitamente funcionar. Significa que a sociedade reconhece a sua imperfeição e desigualdade, dando por isso outra oportunidade de inclusão aos mais desfavorecidos. Mas pode haver uma ponta solta: se esse incentivo à inclusão não for acompanhado por um desincentivo ao crime (aumentando as penas) talvez o efeito pretendido não seja conseguido.


Domingo, 21 de Agosto de 2011
Priscila Rêgo

Para dizer basta a isto.


Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011
Rui Passos Rocha

Pelo menos um mérito tem de ser atribuído ao Governo: fazer com que o Bloco de Esquerda fale de «Estado gordo».


Priscila Rêgo

No meio disto tudo, o mais interessante não foi dito: as "forças de Segurança"  (Polícia, Defesa e por aí fora) estão a protestar contra duas medidas - o congelamento de progressões e de celebração de novos contratos - que já estavam previstas no Orçamento de 2011. A razão pela qual só o fazem neste momento não é clara, mas uma boa hipótese é a possibilidade de apenas agora terem a noção de que é mesmo uma coisa para levar a sério. Até aqui, era um regabofe.

 


Domingo, 14 de Agosto de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Orgulhamo-nos de forma por vezes exacerbada da simples existência do país em que vivemos. Alegra-nos isto de ter fronteiras naqueles sítios específicos onde as temos e tudo isso. No entanto, apesar de quase mil anos de História, não posso evitar dizer que este é, mais do que tudo, um país improvável. Para a generalidade das pessoas, isto não tem muita relevância, mas este país, em cerca de cento e cinquenta anos, cinquenta dos quais foram passados em ditadura, faliu uma vez e teve de ser auxiliado pelo estrangeiro três outras vezes. Isto vai muito além da história de não nos sabermos governar. Não sabemos viver. Há um qualquer complexo hedonista nesta praia que nos força a viver sem pensar em sustentar essa vida. Hoje, mais uma vez, estamos à beira da falência e a gente que aqui anda, vive e vota consegue, com dedos sérios, escrever que os impostos não devem aumentar, que a despesa não deve reduzir, que assim não vamos crescer. Foi precisamente por ninguém se ter preocupado com o crescimento no passado que chegámos a isto. E se não foi na bonança que crescemos, não vai ser agora. Portanto a solução, agrade ou não, é simplesmente pagar. Ou isso, ou provar a impossibilidade da pátria que tanto orgulho gera.


Sexta-feira, 12 de Agosto de 2011
Bruno Vieira Amaral

Os três últimos posts da Priscila (mas não apenas estes) asseguram-lhe um lugar no top dos melhores bloggers nacionais. Pensar fora de algumas boxes não é para todos.


Priscila Rêgo

Os posts anteriores não são incompatíveis com um repressão policial. Aliás, a ideia dos incentivos até pode justificar uma polícia musculada, porque um dos incentivos mais fortes do ser humano é o desejo de evitar a dor, algo que pode ser alcançado com grande propriedade por umas judiciosas bastonadas. Além do mais, a desigualdade não se reduz num dia. E, entretanto, há que fazer alguma coisa.

 

Mas tudo isto se baseia na ideia de que há um problema e, portanto, uma solução: reduzir a desigualdade, pôr a polícia a malhar na malta, etc. Há outra possibilidade, que ninguém considera publicamente porque o espaço público é um espaço de certezas e afirmações contundentes, mas que pode ser uma explicação plausível: e se não há uma causa para isto, no sentido significativo do termo?

 

Deixem-me explicar com um exemplo que pode ferir alguns espíritos masculinos. Uma das coisas mais engraçadas no final dos jogos de futebol é ouvir os doutores da bola a explicarem a vitória de uma equipa com as "linhas diagonais", as "dinâmicas de posse de bola", a "pendularidade do trinco" e por aí fora. Fico banzada: às vezes, o que vejo é uma equipa que teve a sorte de marcar no primeiro minuto e de apanhar com cinco bolas no ferro durante a segunda parte. E que raio tem isto a ver com a pendularidade ou obliquidade de um gajo no meio do relvado?

 

Muitos fenómenos não têm causa neste sentido. A equipa que tem a sorte de marcar no momento certo, o actor que estava no casting certo, a empresa que descobriu petróleo por acaso. Acontece quando há fenómenos de feedback positivo - levando a reacções em cadeia, em vez de reacções de homeostasia - e sobretudo em sistemas instáveis. Uma quebra a pique na bolsa não precisa de ser justificada por fundamentais macroeconómicos. Pode ser o azar de estarem todos a olhar para a mesma acção no momento em que esta cai para lá de um determinado limite. É azar que se auto alimenta até ao ponto de crise.

 

No caso dos tumultos de Londres, é fácil imaginar um "modelo" simples em que um conjunto de circunstâncias extraordinárias "descambou" facilmente naquilo que vemos na televisão. Sabemos que há sempre uma quantidade razoável de marginais e meliantes dispostos a roubar e a assaltar, mesmo com níveis de desigualdade ou pobreza dentro da média. Sabemos igualmente que os fenómenos de imitação social são muito fortes e que a "circunstância faz o ladrão": perante uma montra partida, é difícil resistir a entrar e tirar alguma coisa (a tal estória dos incentivos).

 

Agora, imagine-se que uma morte mal explicada despoleta uma pequena escaramuça com a polícia. A polícia avalia mal a situação e não dá explicações, gerando ainda mais protestos e fazendo crescer o sentimento de desconfiança: nada de novo. Até que tudo estala: confrontos, cokctails molotov, e por aí fora. A partir do momento em que o conflito estala, é difícil pará-lo: já se gerou "massa crítica" suficiente nas ruas, as expectativas ancoraram-se em torno da inacção da polícia e na multiplicação de confrontos (o que diminui a probabilidade de se acabar na cadeia) e as lojas partidas geram, mesmo no cidadão médio, com posses e sem problemas, o desejo irresistível de entrar na loja só para surripiar aquele DVD. Ninguém vai ver.

 

Se esta narrativa estiver correcta, a solução é apenas colocar a polícia na rua em força durante uns dias, até que as expectativas voltem a estabilizar em torno de um cenário estável. E a coisa vai aos eixos. Os próximos dias talvez façam luz a respeito deste tema.

 

 


Priscila Rêgo

O Henrique Raposo também comete aqui uma falácia muito comum. Dou-lhe a palavra.

 

Quando diz que a culpa disto é do governo, porque fechou centros de dia para os jovens (seja lá o que isso for), o ex-mayor de Londres está a dizer - implicitamente - que estes jovens têm de ser entretidos pelo estado. Porque, ora essa, se não forem entretidos, os ditos jovens vão virar vândalos. E é isto que enjoa. É esta ligação falaciosa entre o bolso e a moral que me tira do sério. Aliás, esta associação imediata entre o "Pobre" e a "violência" começa a ser repugnante. Porque é ofensiva para quem nasceu pobre. Que eu saiba, pobre não é sinónimo de vândalo ou de rufia.

 

Bom, é um pouco mais complexo do que isto.

 

Nem todos os pobres roubam. A maioria é boa gente. Eu própria considerava-me boa gente quando, não há muito tempo atrás, vivia com o extraordinário salário de 600€/mês. Mas isto é tão válido para o acto de roubar como para o acto de ler livros e ir à ópera. Alguns pobres fazem um esforço genuínio para lerem uns livros, acederem à alta cultura e aprenderem umas coisas. Em média, contudo, continua a ser muito mais provável que ver um rico do que um pobre na Quinta Sinfonia do Beethoven ou na secção de Ciência Política da FNAC. Ser pobre não é uma prisão. Mas pode ser um fardo pesado.

 

E este é um ponto em que a investigação no campo da ciência política e economia até tem produzido resultados mais sólidos e duradouros. A relação entre violência, assaltos e pobreza/desigualdade é altíssima, em praticamente todos os casos analisados. Se queremos saber a taxa de homicídios por mil habitantes numa dada região ou país, o melhor indicador para o prever é a desigualdade, e não a quantidade de meios colocados à disposição da polícia. Não é moral bacoca. São números. 

 

Isto não significa que a pobreza causa o crime. O pobre que rouba não é um autómato que não pensa. Mas é precisamente por não ser que este comportamento é compreensível. O homem é um ser racional que reage a incentivos, e uma das motivações mais fortes é comparar-se com os outros homens (algo que se traduz em resultados interessantes). Quanto maior a desigualdade, maiores os incentivos para a) contornar a desigualdade através de mecanismos ilícitos; b) melhorar a auto imagem através de uma sensação de superioridade não económica, como a violência e o abuso. A pobreza não causa o crime, mas gera um sistema de incentivos em que o recurso ao crime se torna relativamente mais apetecível.

 

À Direita que tem dificuldade em entender o conceito de incentivos, sugiro que troque desigualdade por "ausência de polícia nas ruas". A ausência de polícia nas ruas não torna ninguém crimininoso. Mas torna o crime uma actividade bastante mais proveitosa do que se as forças da segurança estiverem presentes. Talvez assim fique mais fácil de entender a ideia.

 

 


Quinta-feira, 11 de Agosto de 2011
Priscila Rêgo

Bom, na verdade não tenho grande explicação para o que se passa em Londres. Mas acho curioso que tanta gente tenha. Eu ainda hoje estou a tentar perceber por que raio é que o tipo que partilha a casa comigo é genuinamente incapaz de lavar a loiça depois do jantar. A blogosfera lusa, por outro lado, saca da algibeira uma explicação completa e detalhada para a razão pela qual umas centenas (ou milhares) de ingleses desataram a partir montras em Londres, Manchester e por aí fora. E sem estarem no local. É o que se chama investigação à distância.

 

Mas do que queria falar é mesmo do texto de hoje da Helena Matos, no Público (sem link). A Helena faz um paralelo entre  os distúrbios no Reino Unido e o ataque na Noruega. Diz ela que "com aquele ar de ariano Anders Breivik é tratado como aquilo que de facto é - o autor de um acto hediondo - e por uma única vez somos poupados à cartilha desculpabilizante sobre a sua cor, a sua infância, a sua família e a sua pobreza ou riqueza". Mas há aqui uma confusão de base.

 

O caso Breivik é o tipo de caso que facilmente pode ser atribuído a um problema mental ou a circunstâncias particulares. Por que é que Einstein era brilhante? E por que é que o Ronaldo é tão bom jogador? Estes fenómenos têm causas, mas ou são tão triviais que se tornam desinteressantes (como a "sorte" de terem a mistura correcta de genes), ou são tão particulares que nem sequer lhes atribuímos o  estatuto de causa no sentido inteligível do termo. A razão pela qual estou a escrever neste blogue é o facto de ter abandonado um projecto na precisa altura em que um amigo saía de um blogue e se preparava para fazer outro. Mas isso não é muito interessante para ninguém.

 

Por outro lado, se de um dia para o outro aparecessem Ronaldos e Einstens aos potes, dificilmente seria possível explicar o facto como produto de uma mera coincidência. "Calhou" serve para um caso, mas não justifica uma série de casos. Seria necessário examinar os casos, encontrar elementos transversais e relacionar isso com potenciais causas. Alterações sociais e económicas - aquilo que a Helena identifica como "desculpas" - são candidatos mais promissores do que o "são animais" porque a sociedade e a economia mudam, mas as pessoas não passam de humanos a bestas de um dia para o outro.

 

E isto não é desculpar. É mesmo compreender. 


Priscila Rêgo

O Carlos Guimarães Pinto tem algumas perguntas acerca da descida da TSU. Talvez eu possa ajudar. Pergunta ele:

 

1. Quem foi o gênio que conseguiu calibrar o aumento necessário da taxa do IVA para compensar a descida da TSU?

 

Esta é fácil. O estudo do Governo diz que a simulação foi feita no modelo PESSOA, do Banco de Portugal. Parece que os resultados são sensivelmente semelhantes aos que são obtidos quando se utiliza o modelo do BCE ou o modelo da Comissão Europeia, o que ajuda a fortalecer as conclusões.

 
2. Assumindo que o cálculo não é infalível e que foi estimada uma margem de erro, o governo irá subir o IVA para a parte superior ou inferior da margem de erro?

 

Assumindo a minha ignorância, dou a resposta possível: não sei.
 
3. Se ficar comprovado no futuro que a subida do IVA resulta numa carga fiscal superior à redução da TSU, alguém acredita que o governo irá corrigir o erro e baixar o IVA?
 
Não. E ainda bem. O objectivo número um é controlar o défice e qualquer margem orçamental que seja conseguida deve ser usada para apresentar um resultado final melhor do que o esperado. Além disso, convenhamos que, num momento em que é absolutamente essencial transmitir uma imagem de responsabilidade, usar os primeiros pozinhos de folga para baixar impostos seria, enfim...

 

 4. Que mal fizeram as empresas não-exportadoras para verem os seus planos de negócio alterados de um dia para o outro?
 
Em princípio, a subida do IVA será parcialmente amenizada pela descida da TSU, que deve ser transversal a todos os sectores. Mas, mesmo que não fosse, o argumento parece-me fraquinho. Os utentes dos transportes públicos que viram o preço dos passes alterados de um dia para o outro, tal como os funcionários públicos cujo salário foi cortado, também não fizeram mal a ninguém.

 

 5. Quantas empresas não-exportadoras irão falir devido a esta mudança? Quanto tempo demorarão estes empregos a ser substituidos pelas novas empresas exportadoras?

 

É difícil saber, mas também é difícil saber quantas vão ser criadas devido à mudança. Mas há razões para crer que o impacto líquido será positivo.
 
A segunda pergunta é mais fácil. Neste momento, uma das principais dificuldades é redireccionar os trabalhadores do sector não transaccionável, onde os salários são mais altos mas o "tombo" vai ser maior, para o sector exportador, que está a crescer de forma mais sustentada mas onde os salários ainda são relativamente mais baixos. Entre os dois sectores há um gap salarial que justifica uma passagem prolongada pelo subsídio de desemprego. Ao permitir ao sector exportador ganhar margem para aumentar salários, a descida da TSU facilita a transição de um lado para o outro.

 

 

 

 


Quarta-feira, 10 de Agosto de 2011
Bruno Vieira Amaral

Recebo com demasiada frequência para as minhas necessidades e-mails que me oferecem cremes, comprimidos e bombas para aumentar o pénis. A troco de uns quantos dólares, da ingestão de comprimidos não testados em seres humanos, prometem-me dimensões masculinas capazes de rivalizar com John Holmes e de fazer tremer de medo a mais escachada das actrizes pornográficas. É óbvio que nunca compraria esse tipo de produtos. Toda a gente sabe que as transacções na internet não são seguras. Um homem, na sua boa-fé, encomenda uns comprimidos e arrisca-se a ser chantageado por gente sem escrúpulos. O complexo de inferioridade, como todos os problemas dos críticos literários, pode ter origem em leituras erradas. Neste caso, em livros cujas dimensões viris das personagens são hiperbolizadas até ao nível equídeo da masculinidade. Perante estes leviatãs genitais o pobre leitor sente que guarda dentro das calças um inofensivo e infantil peixinho dourado, uma pila de anjinho barroco. E os escritores divertem-se nesta espécie de priapismo literário, como se as palavras não chegassem para descrever tão formidáveis atributos, como se nenhuma comparação fosse suficiente para dar uma ideia fidedigna do portento que concebem na imaginação.

 

Santino “Sonny” Corleone é uma das personagens abençoadas pela natureza e pela prodigalidade do autor. Mario Puzo elabora uma descrição física exemplar. Despacha o metro e oitenta, a cabeleira farta e ondulada, rosto grosseiro, lábios arqueados, queixo obsceno, força de um touro, para se deter na braguilha: era “tão generosamente dotado pela natureza que a pobre da sua mulher temia tanto o leito nupcial como os antigos hereges receavam a tortura.” Puzo, à boa maneira italiana, mete religião e sexo no mesmo saco e compara heresias a deveres conjugais. Mas não se pense que a enorme gaita de Santino só impunha respeito à “pobre” mulher; “mesmo as mais duras e valentes prostitutas, face à visão terrível daquele membro avantajado, exigiam o dobro do preço.” Ou seja, no leito conjugal ou no bordel, a pila de Sonny infundia o mesmo terror. Podemos admitir que as prostitutas exigissem o dobro por uma questão de facilidade contabilística, mas a mensagem implícita é que Sonny vale por dois. Certamente apiedado da sua personagem, Puzo arranja-lhe uma mulher à sua largura: Lucy Mancini, a quem um namorado acusara precisamente de ser demasiado larga. Devido a esta condição do estado do terreno, Lucy só tivera experiências sexuais insatisfatórias. Até que, inadvertidamente, ouviu a mulher de Sonny referir-se publicamente à equipagem do marido: “quando vi pela primeira vez aquela coisa do Sonny e pensei que teria de me aguentar com ela cá dentro, comecei a gritar de medo. Depois, ao fim de menos de um ano, tinha já as entranhas tão desfeitas como macarrão cozido. Quando me vieram contar que ele andava com outras, fui à igreja e acendi uma vela...” Ainda estou para ler passagem mais bela sobre os efeitos de uma pila gigante na morfologia feminina. Se a mulher de Sonny fosse alentejana diria “estou para aqui feita em migas”, como é descendente de italianos encontra uma metáfora bem mais apropriada. Esta descrição ginecológico-culinário-cultural tem um efeito fulminante na Lucy escachada. Como um verdadeiro empresário, Lucy vê uma oportunidade onde todos as outras só vêem um problema e apercebe-se disso quando sente “a carne a tremer entre as pernas”. “Aquela coisa” a que a mulher de Sonny se refere como se se tratasse de um fantasma, de uma forma de vida extra-terrestre ou de um animal não classificado pela zoologia desperta um interesse de índole amorosa em Lucy, como se naquele momento a existência da até então imaginada pila-gémea se materializasse numa “coisa” ao alcance da mão. É o momento mágico em que Lucy encontra um lingam à medida da sua yoni. Puzo é mais poético: “sentiu qualquer coisa quente a deslizar pelas suas coxas [a coisa, a coisa, duvido que quando Lucy sentiu qualquer coisa quente a deslizar-lhe pelas coxas não soubesse já que era a pila de Sonny, mas deve ser a isto que se chama a técnica do suspense]. Deixando cair a mão direita, segurou-a [à coisa] para a conduzir, enorme e grossa, feita de sangue e músculos, pulsando autónoma como um animal [Puzo consegue fazer de uma cena de sexo a dois um ménage a trois entre Sonny, Lucy e a pila de Sonny. As putas tinham razão: Sonny vale por dois]. Quase a chorar de êxtase e prazer [mas pelos vistos sem saber ainda que coisa era aquela], introduziu aquele membro vivo na sua própria carne inchada e húmida, respirando cada vez mais fortemente.” Puzo atinge aqui um nível superlativo na categoria da descrição de pilas: a coisa, o animal, o membro vivo é tão autónomo que é quase possível imaginá-lo, cansado de uma injusta divisão do trabalho, a abandonar Sonny e a mudar-se para um quarto alugado.

 

Em Cem Anos de Solidão, García Márquez também contribuiu para este campeonato de pilas literárias. Mas se José Arcadio, irmão do coronel Aureliano Buendía, é um rival de peso para Sonny Corleone, as mulheres do romance do colombiano são muito mais temerárias. Tal como Sonny, também José Arcadio se apresenta numa casa de má fama. No entanto, e ao contrário das prostitutas de O Padrinho, as meninas de Macondo disputam o privilégio de albergar o fenómeno. Não é José Arcadio que tem de pagar o dobro, são elas que têm de lhe pagar (e pagam) para o terem como cliente. Até mesmo uma cigana de “seios incipientes” e “pernas tão magras que, em diâmetro, não deviam ser maiores do que os braços” de José Arcadio revela uma disponibilidade física impressionante. Apesar do corpo de “rãzinha lânguida” aguenta o embate com “uma firmeza de carácter e uma valentia admiráveis”. As entranhas não se transformam em macarrão cozido, embora a pele desfeita num suor pálido, os olhos cheios de lágrimas e o corpo a exalar “um lamento lúgubre e um vago cheiro a lama” dêem conta de uma batalha jurássica. A masculinidade titânica de José Arcadio assusta a própria mãe, que “achava que a sua desproporção era uma coisa tão desnaturada como o rabo de porco do primo”, encanta a vizinha Pilar Ternera e põe Deus na boca de uma prostituta (“Que Deus to conserve!”).

 

De certa forma, as pilas de Sonny Corleone e de José Arcadio, exuberantes e festivas, são espectáculos de feira. Reflectem (ou talvez sejam a causa de) o carácter estouvado e imponderado dos seus proprietários (pede-se ao leitor mais paciente que estude as diferenças de personalidade entre irmãos – Sonny vs. Michael e José Arcadio vs. Aureliano. A propósito, é óbvio que, de acordo com este critério na distribuição de atributos, Fredo Corleone terá uma pila minúscula). Dirigem-se a um público feminino e observamo-las da perspectiva deste. Há outras duas pilas literárias que nos interessam (moderadamente, é certo), mas que são maioritariamente observadas por outros homens. A diferença é quase do tamanho das respectivas. O que nos primeiros casos é fonte de terror e desejo feminino, transforma-se, nos segundos, em argumento de legitimação da autoridade e da liderança. Falo (verbo falar) de Mr. Sammler’s Planet, de Saul Bellow, e 2666, de Roberto Bolaño. Mr. Sammler é um velho judeu fascinado por observar um carteirista preto em acção num autocarro. O carteirista (de quem não sabemos o nome) percebe que o velho pode estragar-lhe o negócio e, certo dia, segue-o e leva-o para o lobby de um prédio. É aí que abre a braguilha e expõe os seus “great oval testicles” e “a large tan-and-purple uncircuncised thing – a tube, a snake”. Mr. Sammler é forçado a olhar durante alguns segundos na direcção do “bicho”, após o que o carteirista recolhe a pila e parte sem dizer uma palavra. Deste exercício tácito de exibicionismo e de autoridade pode retirar-se o seguinte ensinamento moral: respeita quem tem uma pila grande, sobretudo se essa pessoa se dedica a actividades ilícitas. Mr. Sammler não é insultado, não é agredido, não é violado, mas ao obrigá-lo a olhar para a sua pila, o carteirista faz retroceder as relações de poder entre homens a um estado pré-histórico (cf. a cena do hominídeo assassino em 2001), dizendo, sem palavras e sem Bíblia ou Constituição (como cantava Miguel Ângelo), que é dali que todo o poder emana (ler o ensaio que ainda não escrevi Falocracia e as Letras dos Delfins – Uma Aproximação Mais ou Menos).

 

É também pelas dimensões fenomenais da sua pila que o General Entrescu ganha a fidelidade dos seus homens (2666, Roberto Bolaño), isto sem querer entrar em polémicas sobre o evidente homo-erotismo das instituições militares romenas. Afinal, os trinta centímetros (Bolaño é o único que não se escusa à precisão métrica) da verga do General eram “o orgulho do exército romeno”. A metáfora bélica sublinha a liderança carismática de Entrescu, mas não oblitera comparações mais triviais: “Mais do que um homem, contou Wilke aos seus camaradas, parecia um cavalo.” Os fabulosos atributos de Entrescu não o salvam, contudo, de um fim desgraçado às mãos dos seus soldados. Num episódio que deveria ser estudado por críticos literários mas também por psicanalistas, Entrescu é agredido até à morte e posteriormente crucificado, e o seu membro a abanar “pesadamente ao vento” é como que um estandarte da sua impotência para suster a revolta dos subordinados. Morto, o animal, o monstro, a coisa com vida própria, regressa à condição vegetal, a uma pesada murchidão, ao eterno repouso.

 

Este breve inventário de vergas imponentes e mangalhos mastodônticos não é uma compilação de amostras do génio metafórico aplicado à genitália masculina que nos ofereceu símbolos tão poderosos como “espingarda de carne” (agradeço a quem me chamou a atenção para esta preciosidade de Lídia Jorge) ou o chourição que aparece na charcutaria literária de José Rodrigues dos Santos. Aqui, trata-se apenas de detectar semelhanças entre personagens que partilham tão proeminente característica. Homens de acção (mafiosos, aventureiros, guerreiros e carteiristas) e pouca reflexão, embora Entrescu não seja um mero action man com pila de cavalo. O carteirista de Bellow é um representante da nova ordem social - o corpo arruma o intelecto – e é o único que não tem um final trágico (não conhecemos o seu destino). Os outros três são liquidados sem que aos assassinos seja dado um rosto: não sabemos quem mata José Arcadio, e Sonny Corleone e o general Entrescu são mortos por uma multidão de inimigos e de aliados, respectivamente. Haverá aqui um padrão de vingança psicanalítica? Não sei. O que é certo é que a conjunção de uma personagem de ficção e de uma pila grande é um mau prenúncio para a saúde das duas.


Terça-feira, 9 de Agosto de 2011
Priscila Rêgo

A forma mais fácil de colocar em perspectiva a recente subida de 15% do preço dos transportes é olhar para o buraco das empresas. Pelo menos, para quem percebe alguma coisa de contabilidade empresarial.

 

Como não é o meu caso, tentei manter as coisas tão simples quanto possível. Pegue nos relatórios e contas de algumas empresas públicas de tranportes, olhei para o resultado operacional líquido (que é invariavelmente negativo), retirei-lhe o esforço financeiro do Estado (indemnizações compensatórias) e comparei com a receita obtida em bilheteira. Ia fazer o exercício para a CP, Metro de Lisboa e do Porto e Carris, mas perdi a paciência depois de fazer as contas para as duas primeiras.

 

 

Aparentemente, os preços teriam de subir entre 160 e 260% para cobrirem os défices. Já agora, os valores estão arredondados: tirei as vírgula só para tornar os números menores.

 

Possíveis limitações do exercício: a) O Relatório e Contas do Metro de Lisboa é de 2009. Não sei se importa muito; b) Pode haver subsídios "escondidos", como verbas de PIDDAC inscritas fora da rubrica de subsídios. Eu apanhei 4 milhões entregues dessa forma ao Metro de Lisboa, mas podem-me ter escapado outros tantos; c) No mesmo relatório e contas não encontrei informação acerca da receita de bilheteira; consegui ir buscá-la à imprensa nacional; d) O esforço financeiro do Estado também inclui aumentos de capital que não aparecem referidos nas demonstrações;

 

Ah, tentei arranjar comparações internacionais por aqui, mas sem grande sucesso. Se alguém tiver mais tempo que eu... 

 

 

 


Priscila Rêgo

Paul de Grauwe defendeu ontem no Financial Times que os países da Zona Euro estão vulneráveis a um ataque especulativo sobre a respectiva dívida porque o BCE é um banco que, por ser de todos, não é de ninguém. Segundo De Grauwe, pelo menos pelo que percebi, os países europeus, ao não terem moeda própria, não podem "ameaçar" os mercados com a possibilidade de o Banco Central imprimir moeda para pagar as dívidas. O "default" é o resultado da perda de soberania monetária.

 

Mas qual é exactamente o problema do "default"? Se um país deixa de pagar a dívida, isto é dinheiro que deixa de ser pago ao estrangeiro. O problema vem a seguir: ao rasgar um contrato com credores externos, o país abdica da sua credibilidade e terá as portas dos mercados fechadas sempre que quiser financiar o seu défice. O "haircut" é uma via para a austeridade: sem défice, a despesa sobe e a receita cai por necessidade contabilística.

 

Mas a receita de De Grauwe - inflacionar a economia para pagar a dívida - tem precisamente o mesmo efeito: ao devolver aos credores um valor real de rendimentos inferior àquele que tinha sido previamente acordado (porque entretanto os preços subiram), fecha as portas dos mercados em futuras emissões de dívida. Na verdade, o efeito mais directo até seria, provavelmente, uma crise cambial - tudo aquilo que os países pequenos queriam evitar ao colocarem-se debaixo do "guarda-chuva" do euro.

 

Ou então não estou a ver bem a coisa.

 

 


Priscila Rêgo

As agências de "rating" só baixam a notação de risco dos países europeus porque querem fortalecer o dólar.

 

Mas não tenho dúvidas de que o Zé Gomes Ferreira tem uma explicação perfeitamente plausível para o que se passou nos últimos dias.


Quarta-feira, 3 de Agosto de 2011
Priscila Rêgo

O Ludwig escreveu uma resposta à minha implicação com os subsídios aos transportes públicos. Há problemas diferentes que convém separar. A parte boa é que são só três. A parte má é que são longos e morosos...

 

 


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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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