Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Perdi um livro, julgo, do António Barreto. Era uma colecção de crónicas que escreveu há muitos anos, mal tinha eu começado a caminhar na Terra, que comprei na liquidação da Buchholz. Um dos artigos propunha, já naqueles tempos idos, a legalização de todo o tipo de drogas em Portugal. E propunha-o pelo simples motivo de que, ao fazê-lo, o Estado garantia à população uma série de benefícios: maior controlo e qualidade dos produtos, menos criminalidade organizada, mais transparência no consumo, maior facilidade na obtenção de ajuda, maior informação, mais saúde. Tudo consequências tão óbvias quanto ignoradas.

Lembrei-me dele a propósito de uma notícia sobre uma clínica canadiana, a Insite, que permite há quase dez anos que pessoas normais possam, em ambiente seguro e controlado, consumir qualquer tipo de droga. O resultado não foi um apocalipse moral, mas sim uma série de melhorias na vida da comunidade. A criminalidade, a transmissão de doenças e as mortes por overdose diminuiram e, se calhar o fenómeno mais relevante, mais pessoas entraram em tratamento.

Não deixa, por isso, de ser natural que na altura de justificar o não encerramento do espaço o Supremo Tribunal Canadiano tenha defendido que a clínica «has been proven to save lives with no discernible negative impact on the public safety and health objectives of Canada». Ou isso, ou os americanos bonzinhos tornaram-se bárbaros mauzões.


Domingo, 30 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

(Sondagem do Expresso)  

 

«O corte dos subsídios é errado, mas eu penso que deve ser aplicado a toda a gente».


Vasco M. Barreto

Assunção Cristas estreou-se como ministra num estado de graça que combinava um consenso sobre a sua competência política, a simpatia paternalista que se tem por a uma jovem mulher na elite política e a ideia de que um ministro não precisa de ter competências específicas e experiência, bastando-lhe a capacidade para estudar os dossiers, escolher a equipa e decidir. Não se lhe conhecia especial apetência para os assuntos do mar, o ambiente e a agricultura, mas como também não iria haver dinheiro, talvez não fosse mesmo grave, por muito peregrina que seja a tal tese da virtude da inexperiência. Só que neste tempo de antena mascarado de entrevista, em que a ex-deputada do CDS Manuela Moura Guedes surge dócil e um antigo assessor de imprensa de Paulo Portas decora a sala, Assunção Cristas abusa da nossa paciência. A começar, admite que deu informações erradas no Parlamento sobre a construção da barragem da Foz do Tua e que erro chegou "via secretário de Estado" - enfim, como são 4 secretários de estado no ministério, ao menos não o denunciou em público. A terminar a entrevista, mostra-se espantada quando lhe dizem que o escritório de advogados Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva e Associados, onde trabalhou antes de ir para o Governo, tem como cliente a concessionária da barragem do Tua, a EDP. E entre estes dois momentos de inequívoca incompetência, sem ter quem que lhe passe outro post it com "plantem sobreiros pelos meus netos", não se descobre em Cristas qualquer empatia pela causa do ambiente. Tudo é consolidação orçamental e necessidade de honrar os contratos, admitindo a ministra falta de independência sem um pingo de frustração, parecendo mais uma burocrata diligente do que um ministro com convicções. Não que Cristas precise de uivar como o Idéafix sempre que se abate um sobreiro, mas como estão em causa 1.104 sobreiros e 4.134 azinheiras de uma das paisagens mais belas do país, apetece parafrasear Moretti: Cristas, diz alguma coisa à ecologista. Diz alguma coisa, mesmo que não seja de ecologista, alguma coisa civilizada. Cristas, diz qualquer coisa. Reage! 


Rui Passos Rocha

Não sou propriamente quem mais contribui para engrossar a conta bancária deste senhor, mas depois do que disse hoje o líder da Sagres ("não há espaço para as pessoas que não queiram trabalhar, para a não produtividade, no Portugal de hoje") vou fazer por preferir sempre a concorrência. A não ser, claro, que a Rita Andrade me bata à porta.


Sábado, 29 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Julgo que a relação causal que Pedro Lains aponta no seu blogue salta à vista. É de fundamental clareza que o facto de um comentador na televisão pública defender que a democracia é um regime bom para os países do Norte, mas mau para os países do Sul deriva directamente das «acções» do «Pedro», do «Vítor» e do «Álvaro». Eu, como Pedro Lains, sou muito apoiante da democracia, e penso que tudo aquilo que pode levar um comentador na televisão pública a defender que a democracia é um regime bom para os países do Norte, mas mau para os países do Sul deve ser evitado. Sugiro, portanto, que se arrume com a austeridade imediatamente. E com a lógica, também.


Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

A Douta Ignorância tem um novo autor. O processo negocial foi complexo e moroso. A principal causa do conflito foi o pagamento. É certo que não pagamos nada, no entanto não conseguíamos decidir se deveríamos pagar esse nada nas tradicionais catorze tranches ou nas europeias doze. O novo autor, alheio a tudo isto, graças aos céus, não teve dizer na matéria, mas a disputa foi cerrada no ceio dos actuais autores. Eu, que temia futuras necessidades de austeridade, propunha as catorze tranches - «É mais fácil de cortar nisso», argumentava. A Priscila, que tinha acabado de pintar as unhas com que atacou um comentador assanhado nos assédios, dizia que do ponto de vista económico é indiferente - «Isso não faz diferença nenhuma desde que o salário anual seja conhecido, porque o agente-racional-que-estamos-a-convidar certamente optará por suavizar o seu consumo depois, financiando-se durante os meses em que recebe menos e pagando essa dívida nos meses em que recebe mais». O Rui aqui, confuso, pousou a edição antiga da Gina e começou a prestar atenção. O Zé, pouco dado a essas coisas de agentes racionais e financiamentos, disse que não se pagava salário - «Dêem-se-lhe senhas para se alimentar, para se vestir e um T0 em Alfragide e pronto». «Zé», chamámos em coro, «não te esqueças que nós só estamos a discutir a melhor forma de não lhe pagar». «Vão para o caralho!», gritou, já cansado de tanta discussão, o Bruno, e correu para a biblioteca mais próxima. Sentado na sua mesinha, com o «Cem Anos de Solidão» aberto na página em que a mãe do José Arcadio “achava que a sua desproporção [do falo] era uma coisa tão desnaturada como o rabo de porco do primo”, puxa do bloco de notas e, numa confissão feliz, escreve a si próprio que este é o melhor blogue em que já escreveu. Com as pernas entrelaçadas por baixo da cadeira escreve, no fim, «Eu amo-vos!». Sê bem-vindo, Vasco Barreto. Nós amamos-te!


Tiago Moreira Ramalho

 

A diferença importante aqui não é entre a Suécia e os EUA. É entre a Suécia e o Japão.


Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Entenda-se o seguinte, por favor: discutir isto é perda de tempo; discutir isto é de vital importância. 


Terça-feira, 25 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Não se pense, no entanto, que defendo uma torneirinha de dinheiro para ex-titulares de cargos públicos. Não julgo que faça o mínimo sentido e agrada-me bastante que já não exista para os actuais titulares. Há, ainda assim, que perceber que estas subvenções fazem parte do «salário» de quem este coberto pelo regime anterior (quando entraram na actividade política, isto era garantido). E a minha geração não pode simplesmente cuspir nos contratos que a geração anterior candidamente assinou. A minha geração, tal como o filho do pai bêbado, tem de honrar os compromissos passados.

A situação actual é dificilmente atacável. Deixa-se aqueles que entraram na actividade política com o regime anterior manter a subvenção até que morram. É aquilo a que têm direito. Ao mesmo tempo, os «novos» políticos já entram na actividade sabendo que a pensão não virá. É o mesmo que diminuir o salário atribuído pelo serviço público. Temos um sistema dual, próprio de uma transição legítima. Radicalizar leva apenas a que o país se torne gradualmente num inferno de imprevisibilidades – excelente para a austeridade, assassino para o crescimento.

 

P.S.: Este texto foi revisto depois da correcção que o Luís Lavoura fez em comentário.


Tiago Moreira Ramalho

Um corte temporário numa transferência de dinheiro contratualizada (seja uma pensão ou um subsídio) pode, no limite, ser encaixado nessa brincadeira do «interesse nacional». Afinal, entre perder umas centenas ou milhares ou perder tudo, julgo que a pessoa de bem optará pela primeira, até porque o efeito de longo-prazo de um corte temporário é praticamente nulo.

Já o corte definitivo assume contornos especiais. Todas as minhas acções no presente – nomeadamente as minhas opções de consumo, poupança e, até, risco – dependem do meu rendimento e das minhas expectativas de rendimento. Podemos não o perceber em todos os momentos, mas quando gastamos dinheiro, assumimos que o nosso salário deste mês não é o último (caso contrário, dificilmente compraríamos uma casa). Claro que esta expectativa pode ser mais ou menos correcta – afinal, há gente que entra em incumprimento. No entanto, é perfeitamente legítima quando a lei nos garante que aquele rendimento é seguro até morrermos.

Os «políticos», essa escumalha, tinham (e ainda têm) uma lei que lhes garantia (e ainda garante) uma subvenção vitalícia decorrente do serviço público (bom ou mau) que prestaram. Isto é um contrato entre o Estado e um conjunto de pessoas. E sendo um contrato, não pode ser rasgado ao sabor da conveniência. O populismo da ‘elite opinadeira’ não mata, mas mói. Mói uma vez mais a dignidade da actividade política e, pior, atreve-se a moer o rule of law.


Tiago Moreira Ramalho


Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

A pátria assemelha-se a um pequeno barquinho de madeira que flutua precariamente sobre um leito de idiotice. Tentamos coordenar-nos o melhor que podemos, remando à esquerda e à direita em repetições infinitas até que, mais cedo ou mais tarde, quem sabe num daqueles muitos momentos em que estamos a descansar o braço e a cantar um fadinho, damos com um buraco no fundo que nos enche de estupidez em estado líquido. E aí começamos a falar de reformas de políticos.

A argumentação dói no estômago. Defendemos que aos políticos deveriam ser retiradas pensões às quais eles têm direito, desprezando pelo caminho o facto de alguns deles abdicarem delas livremente. Consideramos um direito adquirido isso de violar os direitos (ponto) de um certo grupo de pessoas que só pertencem (aqui reside a ironia) a esse grupo porque nós assim o quisemos.

Entendamo-nos: se for necessário, pois que se retirem temporariamente as reformas aos políticos – isso não é pior que retirar temporariamente os subsídios aos trabalhadores do Estado. Mas as ‘elites’ que façam o favor de evitar esse anarquismo cool de ataque indiscriminado ao poder, de ridicularização absoluta de quem apenas murmura, com medo das eventuais pedras arremessadas, que aquilo que recebem não é roubado, mas que está na lei. Os «nossos» direitos não são mais «direitos» que os deles, meus caros. Isto não é a quinta dos animais de pernas para o ar.


Tiago Moreira Ramalho

 

  

 


Tiago Moreira Ramalho

«Let’s hope somebody wins it, then.

I doubt that will happen. Lord Wolfson is offering a prize for turning an omelette back into its constituent parts.

 

I like omelettes.

So do I, but the eurozone is currently lacking in light, fluffy deliciousness.»

 

O resto é altamente recomendado.


Bruno Vieira Amaral

Perante as imagens dos últimos momentos do coronel Khadafi - impotente, ensanguentado, a pedir clemência – a nossa moralidade flexível socorre-se de ensinamentos bíblicos (quem mata pela espada, etc.) e de uma ideia de justiça poética, de equilíbrio cósmico entre a vida que se leva e o fim que se tem. Ora, é precisamente a natureza daquelas imagens que me leva a pensar no absurdo dos conceitos de justiça e política, de bondade e, por estranho que possa parecer, de clemência. Absurdo aquele espectáculo de sede de sangue, primitivo e tribal, comparado com a respeitabilidade desejada por um Conselho Nacional de Transição de fato e gravata, sóbrio e sério, a acalmar o mundo e a proclamar a libertação do povo líbio. Que palavras são estas: Conselho Nacional de Transição, democracia, eleições, justiça? Onde é que, nessa linguagem tranquilizadora e grandiosa, prenhe de futuro e de ordem, se enquadra a morte de um homem daquela maneira? A natureza humana em acção, sem freios morais, indiferente à benevolência da linguagem, assusta. Não cabe nos livros, nem sequer em palavras que pensamos duras: ódio, violência, barbárie. A natureza humana que mata um homem daquela forma não conhece barreiras ou limites, é apenas um desejo de morte em movimento. Esperar que, Khadafi, uma vez capturado, tivesse um fim diferente, é ter mais fé nas palavras do que nos homens. E a única palavra que aqueles homens podiam dizer naquele momento era “morte”. Esqueçam justiça, liberdade, futuro. Morte. Não havia ali mais nada. Morte. Nada do que ali se fez serve para a reivenção do país. Morte. Viva a morte!


Domingo, 23 de Outubro de 2011
Rui Passos Rocha

Lembram-se deste texto épico de Fernanda Câncio: «a maioria das pessoas da chamada “classe média” tem pelo menos umas horitas de “empregada” por semana. É talvez, digamos, a definição de classe média: ter uma/um empregada/o para “puxar as orelhas à casa”» (aqui)?

 

Até teve direito a resposta de Luís Aguiar-Conraria: «metade dos trabalhadores a tempo inteiro com salário completo recebe menos do que €735 (e não estamos a falar de salários líquidos). Cerca de 70% dos trabalhadores recebe menos de €1000. Não vejo como pode este trabalhador médio dar-se aos “luxos” descritos por Fernanda Câncio.»

Pois bem, vejam o resultado deste recente estudo argentino:

 

 

Uma possível explicação: «The authors suggest that this misperception may be related to the types of people respondents interact with, and therefore use as a reference point. If you’re mostly exposed to people earning about as much as you, you’re likely to think your earnings are average.» (daqui)


Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011
Bruno Vieira Amaral

Agora que passaram alguns dias desde esse momento inteiro e limpo que foi o 15 de Outubro da indignação, já me sinto com forças para escrever sobre o assunto. Nos dias que se seguiram à manifestação, não me foi possível pensar coerentemente sobre o maravilhoso exemplo de participação cívica, de democracia directa e de construção do futuro que nos foi legado por milhares de compatriotas, um dos quais empunhava o que me pareceram ser duas garrafas de cerveja enquanto era infamemente varrido da democrática escadaria por forças policiais comprometidas com o Mal. Para me emocionar mais, só faltou um carrinho de bebé por ali abaixo. A bizarra proposta de invasão da Assembleia da República, que pode ser tranquilamente visitada por qualquer cidadão durante a semana, encantou-me: ficámos a escassos degraus de um novo regime, de uma nova constituição e de termos, finalmente, o governo que merecemos. Estava tudo muito bem feito: houve debate de ideias, votações de braço no ar e um megafone usado por um empenhado democrata que aconselhava, aos berros, os restantes democratas a não provocar distúrbios. Houve aplausos e apupos, imprecações e cartazes arte povera para ajudar ao realismo da reconstituição histórica. Foi assim um género de feira medieval, mas para recriar o ambiente dos anos 70. Sou um apreciador das revoluções feitas nestes moldes pacíficos e em que toda a gente procura, acima de tudo, não se aleijar e não enervar a polícia. Isto, para quem não teve a oportunidade de acompanhar as cerimónias em directo, é a verdadeira democracia e, se estiverem de acordo, podemos fazê-la uma vez por mês, à porta da Assembleia ou num descampado qualquer. Temos sempre o pretexto da austeridade que, insensível ao talento e à criatividade dos indignados, vai continuar a andar por aí.


Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Há um capítulo do Macroeconomics dos Dornbusch, Fisher e Startz em que, discutindo a Grande Depressão, os autores defendem que o que levou à demora na recuperação nos EUA foi o facto de terem aplicado medidas de austeridade no meio da recessão (o keynesianismo, ao contrário do que é tão amplamente propalado, não foi aplicado por Roosevelt) e que no presente as economias já não passam por situações semelhantes, pois governo nenhum aplica medidas de austeridade num período recessivo. Hoje estamos a sentir nas carteiras que isto não é assim tão linear. Medidas de austeridade estão hoje a ser aplicadas por diversos governos. E o motivo é simplesmente a não existência de uma alternativa.

Há coisa de 80 anos aprendemos que o governo é fundamental para a atenuação dos ciclos económicos. Hoje estamos a rever a matéria, naquela parte menos agradável. É que se um governo quer gastar em períodos recessivos, para que os seus cidadãos possam evitar profundas recessões, então não pode gastar estupidamente em época de prosperidade. Vejamos se nos entendemos: toda a gente sabe que as medidas que hoje estão a ser aplicadas vão levar a uma recessão. O que toda a gente deveria saber é que estas medidas estão hoje a ser aplicadas porque não nos lembrámos no tempo de bonança que a tempestade poderia chegar.


Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011
Priscila Rêgo

Pedro Lains diz que não somos a Grécia: somos o Chile.  Uma economia tradicional a ser gerida de acordo com ideias importadas à última da hora de um sítio distante e remoto. E eu concordo. Gaspar, de facto, mais parece um friedmaniac dos anos 80 do que o tipo europeu que costumamos (nós, europeus - e, nós, latinos, especialmente) deixar conduzir as finanças públicas. Não é assim que se faz as coisas por cá. Pelo menos, não foi assim que nos habituámos a fazê-las.

 

Mas notem que a crítica é substancialmente diferente daquela que se generalizou ao longo das últimas semanas: criticar o modo (e os modos) do programa e não a sua eficácia. Porque se a questão é a eficácia, o Chile, que em 1980 tinha um rendimento de 10% mais baixo que a média latino-americana, e em 2010 estava no pelotão da frente (mais 50% que a média), acaba por ser um exemplo inspirador. Ok, crescimento não é tudo. Mas para quem pensa que isto vai ser um poço sem fundo, deve ser mais do que uma mera consolação. 

 


Tiago Moreira Ramalho

«O meu avô, comunista dos quarenta e sete costados, ensinou-me a "desconfiar do Poder" (assim mesmo, com uma maiúscula sublinhada por aquele vozeirão). Para o meu avô, o "Poder" estava nos banqueiros. É verdade que encontrei caminhos distintos do meu patriarca barbudinho, mas acabei por seguir o conselho avoengo: um brutal cepticismo, ontologicamente colado à minha pele semi-alentejana, leva-me a desconfiar de banqueiros e do crédito. E desconfio dos bancos pela mesma razão que desconfio dos partidos: o poder, seja ele político ou financeiro, deve ser olhado de esconso. O céptico, alentejano ou não, nunca baixa a guarda. Neste sentido mui visceral, nunca pedi dinheiro emprestado e, acima de tudo, não gosto de ver o meu país a viver do crédito, fingindo que é um sultanato mediterrânico. É por isso que defendo a imposição de um teto constitucional que limite o acesso de Portugal aos mercados da dívida.

Sendo um esquerdista coerente, o meu avô era ainda mais radical do que eu. Para ele, a constitucionalização do limite da dívida não seria suficiente. Apenas a proibição do acesso aos mercados poderia satisfazer o meu ancião. O mestre Raposo detestava os mercados, logo, queria impedir que Portugal pedisse dinheiro a esse capitalismo global. "Não pedes dinheiro ao demónio quando sabes que ele é o demónio", dizia ele. Devidamente imune ao materialismo histórico, esta teodiceia raposiana era coerente. O Sôr Agostinho não era louco, era apenas coerente com as suas crenças, isto é, queria um Portugal fechado, a viver do que tinha, sem a loucura dos dinheiros emprestados pela "agiotagem", recebendo apenas ajuda dos países amigos, como o Laos ou Coreia do Norte (desculpe, avô, mas já não há a Checoslováquia).

Posto isto, o meu avô não reconheceria a esquerda de hoje, a começar pelo PCP. Os herdeiros de Cunhal são contra a constitucionalização da dívida. O PCP, que devia ser o primeiro a tentar separar Portugal dos maléficos mercados, não quer esta medida. E, para mal dos nossos pecados, o centro-esquerda não parece muito distante desta posição. Quando defendeu o teto constitucional, Luís Amado foi rotulado de "neoliberal" pelo PS. A hipocrisia é notável: de manhã, o dr. Soares & afilhados dizem que o mercado financeiro é o demónio global, o sicário universal dos povos; depois, à tarde, os mesmos socialistas não apoiam a limitação do acesso a esse temível mercado. Então como é? Como é que ficamos? O problema é que a governação socialista depende dos mercados. O problema é que o socialismo local tem sido financiado pelo capitalismo global. Este é, aliás, um dos segredos de polichinelo do nosso tempo: sem os mercados, sem o "capitalismo de casino", a esquerda não sabe governar. A esquerda tem financiado a sua "justiça social" com o dinheiro da "malévola especulação". A crise de hoje representa o corte deste cordão umbilical omnipresente, mas nunca comentado (é segredo, avô). Sem o acesso ao reino das agências de notação, a esquerda está a ficar desorientada, sem bússola. Era por isto que o meu avô não queria a esquerda viciada nos mercados. É por isto que a esquerda precisava de ler as prosas que o grande Agostinho Raposo deixou lá nas terras situadas entre o Sobralinho e a Pouca Sorte.»

 

Henrique Raposo


Priscila Rêgo

Cortar desperdícios não é difícil. Qualquer pessoa é capaz, de um mês para o outro, de reduzir acentuadamente as suas despesas. Não é complicado: sabemos em que é que gastamos e a utilidade daquilo a que atribuimos valor; a partir daí, basta comparamos alternativas, ponderar com cautela e abdicar daquilo que tem um valor marginal mais reduzido. Dado o grau de conhecimento que temos da situação, podemos fazer um plano tão rigoroso quanto minucioso: menos iogurtes por dia, apagar as luzes ao sair do quarto, apressar os banhos, férias económicas ou moderar as idas ao cinema. Depende do que que queremos e do que estamos dispostos a abdicar. Mas ninguém nos conhece melhor que nós próprios para fazer essa escolha. 

 

Este modelo é irreplicável no Estado. Quem tem informação para actuar a este nível (directores de serviços) não tem os incentivos nem os poderes para o fazer; e quem tem interesse e capacidades (ministro das Finanças) não tem a informação disponível. É impossível saber, a partir de Lisboa, quais são as despesas supérfluas e os funcionários excedentários em cada serviço público. O top down é a única política disponível. Mas o top down não funciona para subtilezas: é desbravar caminho para fazer uma estrada usando uma bomba atómica à distância. O

 

O corte salarial do 13º e 14º mês foi a alternativa do Governo. Sim, é injusto e de uma violência brutal, mas pode acabar por ter resultados. Não só devido ao impacto orçamental, que é gigantesco, mas sobretudo pelo que representa para a função pública. Porque aumenta as reivindicações dos competentes que se sentem prejudicados pelo comportamento dos incompetentes, e porque faz germinar, dentro da própria administração pública, exigências de diferenciação. É o bottom up a surgir às pinguinhas. Vejam, a este propósito, as propostas do Pedro Pita Barros e do João Cerejeira. Ainda vamos ver o Mário Nogueira a defender uma avaliação com consequências para a carreira.  


Priscila Rêgo

Gerou-se um consenso em torno da ideia de que as "gorduras do Estado" são os custos de funcionamento supérfluos da máquina administrativa. De forma genérica, seriam alguns pozinhos de "consumos intermédios", uma rubrica suficientemente lata para abranger coisas tão distintas como o papel da repartição das finanças e o giz da escola secundária. O resto não pode, por definição, ser "gordura": são serviço público (salários do funcionalismo), Estado social (prestações sociais) e investimento reprodutivo (formação bruta de capital fixo). Se isto for verdade, não há, de facto, muitas gorduras: o consumo intermédio representa menos de 10% do total da despesa pública.

 

Felizmente, isto não é verdade. A "gordura", pelo menos no sentido em que o termo deve ser empregue, não é um custo de funcionamento de uma estrutura imutável: é todo o tipo de gastos que não gera utilidade acrescida ou valor para os cidadãos. Se a estrutura em si é supérflua, pois bem que pode ser suprimida. Quem anda com celulite debaixo das nádegas não é mais perdulário (nem necessariamente mais parvo) do que quem transporta na mochila um calhamaço que nunca lê.

 

Isto permite abrir bastante mais o leque de candidatos aos cortes que se avizinham. Gorduras podem ser salários com função pública que estão acima do preço de mercado, ou sistemas de incentivos que premeiam a mediocridade. Isto abre portas à reduções de remunerações e um verdadeiro sistema de avaliação de resultados [que pode, no limite, levar até a melhores salários nalgumas franjas da função pública]. Gorduras também podem ser prestações sociais que incentivam o desemprego e agudizam a destruição de capital humano. Sabemos o suficiente acerca disso para saber que é possível diminuir os gastos com subsídios de desemprego e deixar toda a gente melhor.

 

Salários e prestações sociais são rubricas como as outras. Não tenho problemas com quem separa as gorduras destas duas rubricas. Desde que mantenha presente que as categorias não são necessariamente exclusivas.

 

 


Terça-feira, 18 de Outubro de 2011
Priscila Rêgo

O Henrique Raposo pergunta aqui qual é a taxa de desemprego dos cursos do professor Boaventura Sousa Santos. Boa pergunta. Como pode confirmar aqui, a taxa de desemprego de sociologia em Coimbra é de... txaran, 20%.

 

Boaventura ilustra de forma perfeita a tragédia do nosso mercado de trabalho dual. As tretas que tem na cabeça valem-lhe um emprego seguro e bem remunerado todos os anos. A contrapartida disto é a desgraçada dos jovens que todos os anos lhe passam pelas mãos. Claro que está contra a mudança. Mas era bom que os jovens da manif soubessem o que a situação actual acarreta.

 


Rui Passos Rocha

Independentemente de tudo o resto, não há como disfarçar o indesculpável.

Adenda: João Pinho de Almeida escreveu isto no Facebook: "Já fiz uma declaração, em nome do CDS, dizendo que obviamente os antigos titulares de cargos políticos também têm de partilhar o esforço dos pensionistas, no mínimo, na mesma proporção. Se for necessário, faz-se uma alteração ao Orçamento na especialidade."


Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

É bastante comum ouvirmos que o governo propõe algo aos sindicatos. Na Educação, o governo propõe um modelo de avaliação. Na Justiça, o governo propõe um mapa judicial. Nas Finanças, o governo propõe um aumento salarial. Isto é fundamentalmente errado e, arrisco, algo perigoso.

A natureza dos sindicatos reside, precisamente, na sua falta de Poder. Os sindicatos não são instituições políticas. Não podem nem devem ter poder de decisão. Eles existem, no limite, como contra-poder e ser contra-poder implica que um poder exista e que aja previamente. Não cabe aos sindicatos definir os salários ou estabelecer o modelo de avaliação docente, mas sim ao governo e, no limite, ao Parlamento, os quais têm a legitimidade democrática para decidir. Numa negociação entre o governo e o sindicato, o sindicato representa a minoria – a corporação –, enquanto o governo representa a maioria – o país. Não podem, nem que seja por básico apelo à matemática, falar de igual para igual. Os sindicatos são um grupo de pressão como outro qualquer, que por acaso está organizado e estruturado. O poder de um sindicato é o mesmo que o poder de um grupo de reflexão, de uma tertúlia ou de um conjunto de bêbados que se arrastam no Bairro Alto.

Muito do que são as grandes decisões políticas dos últimos anos estão mais atadas às opiniões dos sindicalistas do que às opiniões da população. As razões podem ser explicadas de muitas formas (os sindicatos, pela sua organização, têm mais exposição, por exemplo). No entanto, independentemente das razões, o facto é que estes senhores têm mais poder que alguns partidos democraticamente eleitos e com assento parlamentar. E isso mina toda a confiança de um povo nas instituições que para si criou.


Tiago Moreira Ramalho

«É sabido que, em Portugal, a existência de uma avaliação não implica, forçosamente, que algo ou alguém seja avaliado.»

 

Alexandre Homem Cristo


Rui Passos Rocha

Pelo que percebi há dois tipos de indignados:

 

- Os que rejeitam a austeridade da troika mas aceitam que vivemos uma crise. Estes tendem a pretender um aumento substancial dos salários e das pensões mais baixas, uma distribuição mais equitativa de rendimentos, com mais impostos sobre os mais ricos e a banca, a renegociação do plano de austeridade com a extensão do prazo de pagamento e cortes mais paulatinos, bem como punições legais para a corrupção e má gestão políticas.

 

- E os que rejeitam a austeridade da troika e a ideia de que estamos em crise. Estes defendem, para além das referidas medidas de justiça social, o não pagamento da dívida ou o o cancelamento de uma parte dela. Como se isso não tivesse consequências, aparentemente. Tanto quanto me pareceu, este é um grupo muito reduzido e, claro, o mais radical dos dois.

 

Quanto aos primeiros, com mais ou menos disto e daquilo podem ajudar a melhorar o caldo e seriam, penso, contentáveis se os cortes fossem tendentes a nivelar mais os salários e prejudicassem menos as classes baixa e média-baixa. Já os segundos deixam-me curioso: que planos teriam para a economia do país, caso governassem? Que resultados teriam as suas ideias postas em prática, sobretudo do ponto de vista externo? Alguém me pode ajudar?


Rui Passos Rocha

 



 

 


Rui Passos Rocha

Para os interessados: os Pilinha vão tocar na Fnac do Colombo no dia 19.

Nota 1: Até o verbo encaixa bem aqui.
Nota 2: Não faço ideia de quem são. Apenas de que pagam bem.


Domingo, 16 de Outubro de 2011
Priscila Rêgo

Os "indignados" da manifestação de hoje à tarde foram animados por uma ilusão: a de que é possível sair desta crise de uma forma diferente. Não é. As alternativas ou são mais violentas (sair do euro), ou politicamente impossíveis (a Alemanha que pague) ou simplesmente anacrónicas (não se corta ou défice e depois logo se vê quem o financia). No contexto político e económico actual, seguir o guião que traçámos com a troika é o menos mau dos mundos possíveis.

 

Ainda assim, manifestações deste género são, se devidamente doseadas, algo a saudar. Os sacrifícios que estão a ser exigidos são brutais e é bom que a pressão sobre o Governo não esmoreça. Essa pressão, e o escrutínio permanente que a ela está associado, é a melhor garantia que temos de que o Governo tem os incentivos certos para não ser complacente com os grupos de interesse que inevitavelmente acabarão por surgir: militares, forças de segurança, juízes, o sector da saúde, etc. Os manifestantes estão enganados; não quer dizer que não sejam úteis.

 

 


Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011
Rui Passos Rocha

O anunciado ontem por Passos Coelho é mais violência sobre os contribuintes, públicos e privados. Sobretudo os públicos. Acho curioso ter sido anunciado nas vésperas de uma manifestação importante; amanhã veremos a que distância estamos de uma revolução. A data não poderia ser melhor: dois dias depois de todos sabermos que vamos ter de apertar ainda mais nos próximos dois anos, teremos a oportunidade de ir para a rua dizer o que pensamos.

Prevejo que o grosso dos manifestantes venha a ser da esquerda revolucionária, que está contra a própria ideia de termos de seguir o que nos foi imposto de fora. A restante população parece resignada - percebe que, apesar de tudo, pouco mais há por onde cortar. E mais importante, que há legitimidade e justiça nos cortes anunciados: são cortes que afectam mais quem mais tem, de uma forma geral. Há excepções, claro: por exemplo, em teoria (não calculei nem sei de quem tenha calculado o impacto de uma medida como esta), a banca poderia ser mais taxada.

De qualquer forma, gostaria que amanhã se manifestassem também aqueles que, aceitando o imposto pela troika, tenham ideias para mais justiça social nos cortes. Afinal, se não usarmos a rua para nos expressarmos como o faremos: comentando no Facebook do primeiro-ministro?


Tiago Moreira Ramalho

Há um episódio dos «Simpsons» que é americanamente maravilhoso. O Homer está a ser clonado e, no meio das centenas de Homers, encontramos Peter Griffin (o pai de família da série «Family Guy»). O facto é que «Family Guy» é essencialmente uma versão mais badalhoca, menos moral e muito menos subtil que os «Simpsons». É uma cópia inferior, que, a propósito, gerou outras cópias inferiores, mas deixemos isso. O que é interessante de perceber é a facilidade com que de série para série se copia tão facilmente o esqueleto e, mudando nomes, caras e um bocadinho da história, se cria algo completamente «original».

As minhas duas séries preferidas do momento são, sem dúvida, «How I Met Your Mother» e «The Big Bang Theory». Pecados da adolescência, chamemos-lhe assim, mas divirto-me a divertir-me, se é que me entendem. Ora, apesar de parecerem fundamentalmente diferentes, as duas séries têm a mesma fórmula. Há uma história amorosa como pano de fundo e depois existe um palhaço que anima tudo. O Barney e a sua fixeza, o Sheldon e a sua completa falta de fixeza. Sem Barney e sem Sheldon, ambas as séries seriam miseravelmente pobres; no entanto, sem Barney e sem Sheldon a história nelas contata não se alteraria um milímetro. Sem os palhaços, as duas séries não valeriam nada. Com eles, são uma só, mas com mais episódios.


Tiago Moreira Ramalho


Tiago Moreira Ramalho

A urgência na estabilização das contas públicas parte, parece-me, de um pressuposto simples: o Estado gasta menos, o que faz desacelerar a economia, e os privados investem mais, pois o ambiente para investir é mais seguro – não existe risco de a economia falir, o que faz o financiamento ser perturbadoramente mais barato e menos incerto. E para isto, é preciso duas coisas: que o ajustamento nas contas não afecte as poupanças das famílias (mas sim o consumo), que o ajustamento não afecte as empresas (ai o capital!) e, finalmente, e talvez o mais importante, que a população perceba o que real propósito de tudo isto. Porque, para sermos objectivos, muitos dos fenómenos económicos partem de simples expectativas: se toda a população acreditar que o investimento virá, agirá de forma calma e o ambiente pouco conturbado na sociedade conduzirá a um ambiente saudável para investidores. E isto, até agora, tem tudo acontecido em Portugal.

Já na Grécia, não conhecemos em detalhe as medidas, mas supomos que tenham uma natureza semelhante. O que falha estrondosamente é o terceiro factor, o da compreensão da relevância das medidas por parte da população. Porque não é preciso ser um génio: medidas de austeridade diminuem, pela sua natureza, os gastos do Estado e, por consequência, o consumo dos particulares. Significa isto que só as exportações ou investimento nos poderiam levar a uma situação melhor, e sem moeda própria para desvalorizar, parece-me que só lá vamos com a força dos privados que queiram investir. Tratar bem estes tipos é a diferença.


Priscila Rêgo

É um Orçamento de guerra que nos levará a um nível de vida próximo de 1975. 

Frase de Nicolau Santos. Mas está tudo parvo, ou quê?

 


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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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