Sábado, 31 de Dezembro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

«Nixon's actions went well beyond the idea that there could be separate standards of behavior at home and abroad: instead he made the homeland itself a Cold War battleground. There, however, he encountered an adversary more powerful than either the Soviet Union or the international communist movement. It was the Constitution of the United States of America.»

 

John Lewis Gaddis, The Cold War.


Tiago Moreira Ramalho

A forma como as SCUTs deixaram de o ser deveria ter causado indignação generalizada. Não pelo facto de terem de ser pagas, mas pelo facto de, ao serem electrónicas, implicarem a filmagem dos carros que nelas passam. Significa isto que há um funcionário de uma empresa, num escritório cuja localização desconheço, que consegue saber onde é que eu estou a cada momento se eu passar nas portagens. Isto por si só já constitui um atentado sério ao direito à privacidade, já para não falar dos potenciais atentados que traz à liberdade. Principalmente num país sem tradição liberal, com fortes pendores anti-democráticos e onde a pequena corrupção (‘Eu pago-lhe para que me controle onde anda esta matrícula’) nos invade quase todos os sentidos. E a prova básica destes perigos é que debate nenhum é feito em torno do método, mas apenas e só do pagamento per se. Os arruaceiros algarvios arrancam sensores como o ladrão que cobre a câmara de segurança, não como o cidadão que se quer ver livre de ameaças ao seu bem-estar. Outras entidades da ‘sociedade civil’, como a DECO, preocupam-se com detalhes absurdos – discriminações de pagamentos e bananices dessas. Tudo isto, claro, é complementado por ter sido um governo de direita auto-proclamada liberal a implementar o sistema. Mais vale que nos deixemos de jogos, que rasguemos a Constituição e que demos a chave da porta a um maníaco qualquer. Ao menos acabava a hipocrisia.


Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011
Rui Passos Rocha

Há tempos, depois de ter lido o Rui Tavares congratular-se por ter comprado um iPad, escrevi que me parecia contraditório ele ser defensor de um produto que, se aplicadas aos Estados Unidos - e à China - as regras laborais defendidas pelo BE, dificilmente teria sido concebido. À data o Miguel Madeira deu-me conta de que a opinião do RT não é incoerente se ele acreditar que tais políticas não limitariam a criatividade e o plano de negócios da Apple (1). Ele pode até estar errado, mas não é incoerente (2).

 

Concordo. Ainda assim, leituras mais recentes fazem-me pensar que os computadores e tablets da Apple são um bom teste ao punho socialista. Se, por um lado, são tidos como superiores à concorrência em muito do que é essencial (velocidade e falhas do sistema, sobretudo), por outro lado o tratamento dos trabalhadores que os fabricam é deplorável.

 

Como um socialista tende a assentar muito da sua análise da justiça laboral nos direitos dos trabalhadores, a Apple parece-me o tipo de empresa que um socialista junte à sua lista mental de empresas a boicotar - independentemente da qualidade do que essa empresa produz (na verdade muita da concorrência também recorre aos serviços da FoxConn, por isso a escolha não é fácil). Esse não parece ser o caso do RT.

 

Aqui ficam algumas das condições do trabalho na FoxConn (a empresa que produz os iPads e a restante catrefada de iCoisas):

- A semana de trabalho típica é de 72 horas (5);

- Um trabalhador morreu após 34 seguidas de trabalho (4);

- Não é permitido falar (3);

- Não é permitido olhar em volta (3);

- É proibido usar telemóveis dentro da empresa (4);

- Depois de 12 trabalhadores se terem atirado de janelas para a morte, a solução encontrada pela empresa foi colocar redes à volta do edifício para amparar futuras quedas (3);

- Agora os trabalhadores têm de assinar uma declaração em como não tentarão suicidar-se e, caso o façam mesmo assim, as famílias não receberão qualquer indemnização (5).


Domingo, 25 de Dezembro de 2011
Priscila Rêgo

O editorial de hoje do Expresso revela bem como é que uma coisa tão inócua como as declarações de Passos Coelho acerca dos professores podem contaminar a opinião pública como contaminaram durante uma semana. O autor, que teve a sensatez de permanecer anónimo, consegue, num texto de quatro parágrafos, abordar o assunto através de três prismas diferentes e cometer a proeza (estatisticamente falando, claro) de meter a pata na poça em todos eles.  

 

O editorial começa bem logo a abrir. "O [erro] mais grave é falar na emigração como uma fatalidade absoluta". Mas quem leu de facto as declarações do primeiro-ministro (um grupo aparentemente muito restrito) sabe que Passos não disse isto. Perante uma pergunta directa - o que fazer? -, Passos limitou-se a avançar duas alternativas ao desemprego: a requalificação ou a emigração. Onde é que está a fatalidade? Pois é. Não está. 

 

No fundo, o editorialista até reconhece que o primeiro-ministro não disse nenhuma mentira. Mas preferia que ele desse de vez em quando "uma mensagem de esperança a todos os que ficam num país que tarda em modernizar-se". Só que uma mensagem de esperança que não assentasse no axioma fundamental da política portuguesa dos próximos cinco ou seis anos - acabou-se o dinheiro - arriscava-se a servir apenas para alimentar sonhos que já não podem ser cumpridos. Uma mensagem de realismo, pelo contrário, pode pelo menos ajudar a que os anseios dos professores se canalizem rapidamente para metas mais razoáveis.

 

Finalmente, o editorialista diz que "falar de emigração não pode ser tabu. Mas o Governo deveter cuidado com esse discurso". E logo a seguir, num assomo de coerência, escreve que "a emigração de professores, quando não decorre de um movimento puramente individual, só pode ser feita no quadro de acordo entre Estados. A única maneira de este processo ter algum sucesso (e lógica) passa por uma negociação liderada pelo Governo português"

 

Ou seja. Se o homem diz, numa entrevista, que os professores sem emprego devem ponderar a requalificação ou, caso não queiram mudar de ramo, a emigração, isto é um erro e um discurso pouco cuidadoso. Mas se depois acrescentar que o Estado está já a fazer acordos de intercâmbio laboral, a pôr os passaportes a imprimir e a publicitar lá fora o professor tuga - ah, bom, aí já não há problema. Se isso tivesse acontecido, aliás, de certeza que o tom do editorial seria muito diferente.


Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011
Priscila Rêgo

Enfim resta-nos a demografia para explicar que o socialismo é inviável.

 

Helena Matos, no Blasfémias.

 

Penso que o que a Helena quer dizer com "socialismo", neste contexto, é o Sistema de Segurança Social contributivo que temos actualmente. Este sistema baseia-se num princípio simples: os portugueses que trabalham descontam uma parte do seu salário todos os meses para pagar o salário (a pensão) dos que já não trabalham. De que é depende a sustentabilidade deste sistema?

 

a) Rácio entre número de contribuintes e número de beneficiários;

b) Tempo de vida a contribuir versus tempo de vida a receber prestações;

c) Valor médio das contribuições e valor médio das pensões;

 

Agora vejamos. Como é que a demografia altera estes parâmetros? Se a esperança média de vida aumentar, o rácio b) altera-se e passa a haver mais pressões do lado da despesa com pensões do que do lado da receita contributiva. Porém, o problema mantém-se caso as reformas passem a ser garantidas numa base de capitalização individual. Em qualquer dos casos, o problema resolve-se subindo a idade de reforma ou mexendo no parâmetro c), o que implica aumentar as contribuições ou reduzir as pensões.

 

E no ponto b), o que acontece? Se a taxa de natalidade diminui, o rácio contribuintes/beneficiários cai. Portanto, e em teoria, quanto menor for a taxa de natalidade, maior será a pressão para acabar com o sistema contributivo actual, dependente deste rácio, e substitui-lo por um sistema de capitalização individual. Será mesmo?

 

Não é bem assim. A "magia" da multiplicação dos pães num sistema de demografia pujante não vem do nada nem cai do céu. Se cada casal tem 10 filhos, os pensionistas de hoje podem de facto ter reformas extraordinárias, mas isto implica um custo grande para os pais dessas crianças: o custo de as alimentar, vestir e educar. Não há almoços grátis. Se queremos que eles nos paguem a reforma um dia, temos hoje de lhes pagar os estudos.

 

Ou seja, num sistema contributivo a diminuição da natalidade deve ser compensada com um aumento das contribuições feitas sobre os salários. Ao contrário do que parece à primeira vista, não há qualquer perda de utilidade: pura e simplesmente, o dinheiro que em circunstâncias demográficas diferentes seria canalizado para os filhos passa a ser canalizado para os pensionistas. Do ponto de vista do consumo individual do contribuinte, a situação é neutra. 

 

Isto não significa que um sistema de capitalizações não tenha vantagens. Algumas delas são o facto de tornar os contribuintes mais responsáveis, alinhar melhor os incentivos, separar de forma mais clara aquilo que é um seguro do que é uma prestação social e por aí fora. Mas fazer nascer dinheiro nas árvores não consta do lote. 

 

Leitura complementar: Take it easy, boys 


Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011
Priscila Rêgo

As declarações de Passos Coelho ao Correio da Manhã têm duas dimensões diferentes.

 

A dimensão factual é... vá, factual. Portugal é dos países da OCDE onde há mais professores por aluno. A escola pública não vai (nem deve) ter capacidade para absorver os professores excedentários ao longo dos próximos anos. E a alternativa ao colo do Estado não é necessariamente o desemprego: para além do esforço pessoal da requalificação, há sempre a aventura da emigração. Onde está o escândalo? Se se querem indignar, pelo menos escolham outro país para o fazer.

 

As declarações de Passos não resolvem nenhum problema, mas são importantes por duas razões. A primeira é trivial: lembram a quem perdeu - ou está prestes a perder - o emprego que há alternativas, por muito inconcebíveis que ainda possam parecer nalguns sectores profissionais (o tempo mudará isto). Mas a segunda é mais importante: as declarações sinalizam aos professores a gravidade da situação. Quem estivesse a pensar  atrasar a requalificação ou desperdiçar oportunidades de emprego na expectativa de que a torneira do Estado voltasse a abrir, irá agora pensar duas vezes. 

 

Só que o discurso também tem uma dimensão política e essa, compreendo, pode ser um tiro no pé. Porque dá a entender ao povo que o Governo está mais preocupado em varrer os desempregados para debaixo do tapete do que em voltar a dar-lhes um lugar à mesa; porque pode ser lida como um "sacudir de água do capote" num país que precisa de união para ultrapassar um das crises mais difíceis da sua história democrática. Um político numa entrevista não é um técnico num gabinete de estudos.  

 

Perante isto, há duas reacções possíveis. Podemos lembrar a dimensão factual das declarações e assim ajudar a apaziguar os ânimos mais exaltados. Ou enfatizar a sua dimensão política e contribuir para enganar os tolos


Arquivado em: ,
Tiago Moreira Ramalho

 

O que se celebra na morte de Kim Jong-il não é um pedaço de pó gordo e com óculos que regressa à terra, mas um pedaço de pó gordo e com óculos que deixa de a ameaçar. Não é a morte em si que despoleta gáudio geral – é a consequência dela. Da mesma forma que não era a sua vida que nos aborrecia, mas a consequência dela. O que não deixa de ser um problema francamente interessante.


Domingo, 18 de Dezembro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Apesar de muitos dos nossos marxistas nunca terem lido mais do que o Avante!, essa narrativa em folhetins da decadência de uma certa esquerda portuguesa, a verdade é que eles reproduzem de forma bem catita um desejo muito marxista relativamente ao papel do trabalho na vida das gentes. A ideia de que a divisãodo trabalho desumaniza o homem, que o torna um alienado até de si próprio e que a especialização impede que o trabalho assuma a sua forma suprema: a expressão da natureza do próprio homem. Claro que os nossos marxistas não dizem isto, muito menos desta forma. Eles falam no direito a trabalhar no que se gosta (seja ou não de forma especializada), o que nem parece absurdo – a ideia é até bastante apelativa, diria eu.

O problema é que isto é de facto mero desejo. E um desejo bastante capitalista, diga-se, no sentido em que uma aproximação deste estado em que trabalho e lazer se tornam um só só é possível com os desenvolvimentos que o capital traz. Imaginará alguém que o homem nos primórdios da espécie encarava a caça e a colocação da sua própria vida em risco como uma expressão última da sua essência? Não me aventuro em contendas existencialistas, mas resta pouca essência para exprimir quando a existência finda.

O desejo marxista de um homem sem a escravidão do trabalho, que pode ser artesão de manhã, bailarino à tarde, pugilista à noite parte de um erro de análise fundamental: o de que a sobrevivência não está em risco. E para sobreviver, lamenta-se, não podemos simplesmente espalhar-nos a nós mesmos e à nossa essência connosco sem arranjar pão para pôr na mesa. Não é por acaso que os Estados que certo dia se lembraram de libertar o homem da escravidão do capital foram precisamente aqueles que trouxeram as mais abjectas formas de escravidão ao século XX.

 


Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011
Rui Passos Rocha

 

O 3quarks Daily tem o melhor apanhado do dia sobre a vida e a morte de Christopher Hitchens. A seguir.


Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011
Bruno Vieira Amaral

 

M. Night Shyamalan gosta de brincar com géneros, de desmontar os códigos narrativos. Ao mesmo tempo, os seus filmes têm uma respiração metafísica, uma espiritualidade vaga que parece estar ali apenas para nos distrair dos truques de argumento. É como se ele nos dissesse: “vou fazer isto muito devagarinho para não se concentrarem na brincadeira.” A brincadeira, o lado lúdico do cinema de Shyamalan, é evidente em O Sexto Sentido (história de fantasmas), O Protegido (BD), Sinais (invasões de ETs), A Vila (monstros) e A Senhora da Água (contos de fadas). Enquanto brincava, a câmara mantinha-se séria e circunspecta. Há momentos, nos primeiros filmes de Shyamalan, de uma insuportável – para os padrões de Hollywood – lentidão. Isto juntava-se a ambientes mais intimistas (as crises conjugais em O Sexto Sentido e O Protegido, a crise de fé em Sinais) para criar um efeito de densidade que atingiu o máximo das suas possibilidades em A Vila, um filme na fronteira entre o denso e o balofo, entre o sério e o risível, entre o profundo e o pretensioso, quase sempre caindo nos últimos. Era um filme que rebentava de vontade de significar alguma coisa mas, como o realizador ainda não prescindira dos célebres twists e, no fundo, continuava a brincar com códigos, era como se estivesse também a brincar aos significados e à espiritualidade. Creio que, na altura, Bénard da Costa, escrevendo sobre A Vila, falou de Dreyer, mas isso era o mesmo que comparar um ilusionista com um santo, um mágico com alguém que opera verdadeiros milagres. Se Shyamalan acredita em alguma coisa, é no cinema e na narrativa. A metafísica das suas obras é metafísica cinéfila, é um cinema religioso no sentido em que a sua religião é o cinema. Não há mais do que isso e isso já é muito. O problema foi atribuir às suas obras uma profundidade espiritual que, na verdade, não existe. A questão espiritual, como a das crises conjugais, é funcional, está lá para aguentar a narrativa, mas não é religiosa num sentido sério. Em Sinais, a fé é apenas uma peça da engrenagem narrativa. Haverá algum espectador que sinta uma verdadeira inquietação espiritual depois de ver o filme? Sinais é um filme que só perturba epidermicamente. O máximo que provoca é uma comichão espiritual. E o mesmo é válido para qualquer um dos filmes de Shyamalan. Por isso é que O Acontecimento é um bom filme, porque é só cinema, não quer ser mais do que cinema, não pede outra leitura, não quer significar (e em Shyamalan, como vimos, querer significar é apenas uma manobra de diversão para ocultar as astúcias do argumento). E não fazendo de conta que tem muito para dizer espiritualmente, acaba por dizer mais cinematograficamente. Aqui, o Mal não é um conceito ontológico, é um conceito cinematográfico. O filme não é uma investigação sobre a natureza do mal, mas uma exploração das possibilidades de representação cinematográfica do Mal. Que o Mal aqui seja invisível, só reforça os méritos dessa exploração. É Os Pássaros sem pássaros. O início, completamente série B, sem prólogos de boas-vindas para acomodar o espectador, e a duração do filme (hora-e-meia) são os dois sacramentos da religião do cinema. A crise conjugal e o milagre quase no fim também não pedem sobreinterpretações. São fios do argumento. Qualquer leitura ecológica, espiritual, metafísica, etc, é lixo. Os Pássaros não é um estudo ornitológico, Tubarão não é sobre o comportamento dos tubarões, Alien não é sobre espécies alienígenas. São filmes sobre cinema e sobre o medo – a mais cinematográfica das emoções. O Acontecimento é isso. Não queiram que seja outra coisa. E espero que Shyamalan não queira ser outra coisa.


Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011
Rui Passos Rocha

O negócio de fast food contribui à grande para a «epidemia global» da obesidade, de acordo com a OMS. Nos Estados Unidos, onde a coisa é mais gritante, parece que 40% das refeições são comidas fora de casa, o que, tendo em conta que cerca de 60% dos americanos têm peso a mais ou mesmo obesidade, me faz imaginar para onde vão preferencialmente [1].


O mais curioso é que a fast food é mais cara do que uma refeição saudável [2], o que significa que os consumidores valorizam muito a rapidez quando comem fora. Uma alternativa a isso será mudar todo o sistema económico de modo a que todos trabalhem menos horas e haja tempo para refeições prolongadas; outra alternativa, mais consensual, será taxar fortemente a fast food; outra ainda é aproveitar o conceito e aplicá-lo à bem mais defensável slow food. Será possível? 

 

Uma ideia, que nunca vi aplicada (o que significa uma de duas coisas: que de tal modo brilhante que tive uma ideia absolutamente nova; ou que sou um idiota e isto seria a ruína para qualquer negócio), seria a de tornar rápida a slow food: um restaurante permitiria a reserva online de lugares, com pré-pagamento, e essa reserva seria tão mais cara por quanto mais tempo o cliente o lugar. Seria como no pré-pagamento de assentos de autocarro: quem marca sabe de antemão que lugares estão disponíveis e a que hora.

 

Como a comida foi reservada, à hora determinada pelo cliente o almoço/jantar está pronto e ele tem os 15, 30 ou 45 minutos que reservou. As refeições seriam saudáveis e os pedidos personalizáveis pela internet. E claro, os preços seriam ligeiramente mais baixos do que os da fast food. Tenho apenas sérias reservas quanto à marcação do tempo: se um cliente excedesse o seu tempo e outro tivesse direito a ocupar-lhe o lugar, ele teria de ser obrigado a terminar a refeição a meio...


Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011
Rui Passos Rocha

Apesar de tudo, não parece que a sociedade de consumo esteja «em iminente desaparecimento», como acredita Bernard Stiegler [1] - que deve estar acompanhado por muitos outros. Mas isso não faz com que tudo esteja bem, inclusive em aspectos que não são muito debatidos.

 

Vamos lendo e ouvindo que desde que o neoliberalismo chegou ao poder não houve apenas crescimento económico, mas também um aumento da desigualdade de rendimentos - chegando mesmo a reduzir o salário médio nos escalões mais baixos enquanto aumentava exponencialmente os rendimentos dos mais ricos.

 

O que não lemos tanto, ou não lemos de todo (falo por mim, até há relativamente pouco tempo), é que desde o início da década de 80 e até ao virar do século a percentagem de pessoas com doenças mentais quase duplicou no Reino Unido, nos Estados Unidos e na Austrália. Actualmente, entre os países do Ocidente são os países de língua inglesa que têm maior incidência deste tipo de doenças [2].

 

Isto é relevante, mas não torna «claro» que o «capitalismo egoísta, muito mais do que os genes, é extremamente mau para a nossa saúde mental», como defende o psicólogo marxista Oliver James (afinal, nos outros países europeus o aumento da incidência de doenças mentais foi bastante menor). Nem muito menos se extrai daí a certeza de que «altos níveis de doenças mentais são essenciais para o Capitalismo Egoísta, porque pessoas necessitadas e miseráveis tornam-se ávidos consumidores e podem mais facilmente ser workaholics competitivos e perfeccionistas» [2].

 

Uma das coisas que se sabem, contudo, é que as pessoas com um maior número de créditos bancários tendem a ter mais doenças mentais [3]:

 

 

Isto é interessante, mas não significa necessariamente que o maior consumismo faça mal à saúde mental. Por si só, o que parece dizer é que aqueles que recorrem ao crédito para consumir incorrem em encargos financeiros que lhes pesam a ponto de poderem resultar em doenças mentais.


Priscila Rêgo

N'O Insurgente, Ricardo Campelo de Magalhães defende a liberdade económica como motor para o progresso. Concordo com a posição de princípio, mas recomendo alguma cautela antes de trazer os Estados Unidos para cima da mesa. É que esta é uma causa que me interessa. Não a quero ver estragada com maus exemplos.

 

O Ricardo apresenta este gráfico, de onde extrai a seguinte conclusão: "A partir do momento em que a Administração Americana começou a nacionalizar a Economa, entrou-se numa estagnação duradoura". A afirmação tem alguns problemas, e o maior nem é o facto de Ricardo comparar crescimentos nominais, sem eliminar o efeito da variação dos preços.

 

Antes de mais, não faz sentido atribuir o comportamento do PIB americano apenas à alteração de políticas. Claro que isto é a blogosfera e não uma revista científica - ninguém está à espera que o Ricardo atire com econometria para cima dos leitores. Mas olhar para uma série de 10 ou 11 anos e esquecer que em 2008 houve uma crise económica de dimensões descomunais é um erro que nem a um blogger de fim-de-semana deve ser admitido. E se o Ricardo seguir por esse caminho sinuoso arrisca-se a que do outro lado da barricada apontem para a Grécia dos últimos três anos como o exemplo do tipo de resultados que uma política de privatizações pode ter.

 

 Mas o mais curioso é que o "exemplo" que o Ricardo dá para ilustrar a importância da liberdade económica para o crescimento é o caso acabado de uma economia a funcionar em regime keynesiano. No final da década de 90, os EUA tinham um excedente orçamental; mas o excedente foi praticamente aniquilado em 2001 e a partir daí o défice ficou quase sempre acima dos 3%. Mesmo em termos estruturais [em percentagem do PIB potencial] o saldo foi sempre negativo. E a despesa pública aumentou de 34,5 para 36,5% do PIB entre 2001 e 2007. Uma parte dos gastos foi para financiar o esforço de guerra - ironicamente, aquilo que, segundo keynesianos como Krugman, permitiu tirar os EUA da Grande Depressão.

 

 

 


Arquivado em: , ,
Bruno Vieira Amaral

Assisti ao Real Madrid – Barcelona com renovadas esperanças de um golpe de estado futebolístico. No final, tal como os jogadores, adeptos e até Mourinho, estava rendido. Desta vez, não houve ambiente bélico, declarações incendiárias, dedos espetados nos olhos. Houve cortesia, civismo, educação e, para o que o interessa, Barcelona. Mourinho, que viu a sua equipa entrar a ganhar sem saber como, queixou-se da sorte. Mas se a pressão alta do Real Madrid só aguentou trinta minutos, por que razão haveria a sorte de durar noventa? Se Cristiano Ronaldo se ausentou e, no seu lugar, apareceu um rapazito nervoso e assustado com o adversário, por que razão a sorte teria de se manter em jogo até ao fim e, ainda por cima, do lado dos menos competentes? O Real entrou bem, com a energia equídea e militar das equipas de Mourinho, a ânsia de blitzkrieg, a vontade de poder. O Barcelona atrapalhou-se ligeiramente com o erro de Valdés, mas a filosofia de corpo dos catalães manifestou-se logo a seguir nos sucessivos passes para o guarda-redes, obrigando-o a exorcizar o erro de bola nos pés. “Somos o que somos”, pareciam dizer os jogadores do Barça. E o que são impôs-se, minuto a minuto, ao que o Real Madrid quer, e o Real Madrid quer ganhar. É essa a diferença entre as duas equipas: uma é, a outra quer. É a diferença entre identidade e desejo, entre ser e ter. E enquanto o Barcelona continuar a ser, o Real Madrid nunca terá.


Tiago Moreira Ramalho

É verdade que existe uma geral falta de informação sobre a natureza do sistema de pensões em Portugal. As pessoas pensam genuinamente que estão a descontar para si, o que é falso. O sistema de pensões é apenas mais um sistema redistributivo que se baseia numa certa ideia de colaboração intergeracional: a geração actual sustenta a geração que já trabalhou. É uma espécie de artimanha que generaliza o princípio antigo de os filhos sustentarem os pais em tempos de velhice e doença, sendo que aqui todos os activos são filhos de todos os inactivos (somos todos irmãos). No entanto, um sistema de segurança social só faz sentido se for construído com base nisto. Se cada pessoa que desconta tivesse uma simples conta de reforma com o seu nome, o sistema público seria inútil. Há possibilidades até bastante mais vantajosas lá fora. Não querendo necessariamente discutir as qualidades de um sistema redistributivo, há que perceber que transformar a promessa numa conta com nome significa simplesmente acabar com a colaboração intergeracional. Em termos mais crus, deixar velhos sem qualquer rendimento.


Domingo, 11 de Dezembro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Procurar informação, mesmo na imprensa internacional, torna-se cada vez mais difícil. Encontrar uma cobertura relevante da última reunião da União Europeia com factos e uma clara descrição do que aconteceu é uma tarefa hercúlea. Já sei que David Cameroon pode vir a ter problemas com o partido, que a coligação pode estar em risco, que a táctica é errada (também sei que é certa), que o Reino Unido precisa de mais integração (e de menos integração, obviamente) e até sei que o Sarkozy teve uma grande, estrondosa vitória. Só não conheço com o mínimo de profundidade o acontecimento que gerou tudo isto.


Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011
Bruno Vieira Amaral


Tiago Moreira Ramalho

Aborrecido e sem televisão, tenho dado por mim a percorrer no Youtube pequenos videozinhos de pequenos cantorzinhos que se dão a conhecer naquelas coisas dos talentos. Sobra talento a uma Inglaterra que exporta doses cavalares de Simon Cowell em pacotes promocionais cheios de piadas esforçadas e tantas vezes forçadas.

Quando aparece um garoto de onze anos por lá, os juízes, geralmente pessoas reconhecidas por já terem envergado pouca quantidade de roupa em público, perguntam enternecidos se o piquinalho faltou às aulas. A criancinha lá responde o óbvio: que sim. Sorriem e mandam o ganha-pão pré-púbere fazer as maravilhas que ali veio para fazer. No fim, levantam-se e aplaudem e choram e dizem que aquela coisa a quem ainda só nasceram pêlos na cabeça é uma estrela. Um prodígio.

A seguir, manda-se a escola para essa terra de onde veio e investe-se na voz e no estilo e no marketing e em tudo isso. A criança torna-se cada vez mais prodigiosa, o público em geral aplaude, adora, venera. Ocupam-se capas de revista com as primeiras experimentações sexuais, com nudez parcial, com crises mentais, com gravidezes e drogas. Aqui já terá o prodígio feito a barbinha penugenta umas quatro ou cinco vezes.

Claro que a vida estável, com as banalidades da aprendizagem, da família e das relações normais que tão caras são à opinião pública, essa monstruosidade que não se coíbe de julgamentos sumários a tudo o que mexe, são colocadas de parte. Em regra, adoramos que a pequenada cresça saudável e forte, mas não abdicamos de uma aberração que nos faça passar o tempo e esquecer as frustrações. Mesmo que a aberração ainda não se tenha livrado dos dentes de leite.


Vasco M. Barreto

Parece que ainda há Europa e o debate continua. Apareçam.


Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011
Priscila Rêgo

A ideia de que a dívida pública não se paga pode parecer escandalosa nalgumas paragens (aqui, aqui e aqui), mas está, na sua essência, correcta. Apesar de defender o Sócrates em público ser uma tarefa reconhecidamente ingrata, a verdade é que a afirmação que o homem fez ontem não tem mesmo nada de extraordinário. Não pagar a dívida é uma trivialidade das história económica dos últimos séculos.

 

A dívida pública americana e inglesa, por exemplo, nunca foi paga neste sentido. Os défices são gerados, acumulam-se como liabilities do Estado, e o crescimento da economia encarrega-se de manter a dívida em níveis razoáveis. Isto não significa que os credores não sejam ressarcidos: são; mas são reembolsados com fundos captados junto de novos credores. Se o horizonte de vida de um Estado é potencialmente infinito, por que é que deveria haver um prazo para amortizar toda a dívida? 

 


Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011
Rui Passos Rocha

Faz amanhã uma semana que tive a oportunidade de jantar acompanhado da malta do Partido Pró-Vida em cinco minutos de Direito de Antena. Confesso que de todo o zumbido fixei pouco mais do que o que me pareceu essencial: que defendem a inviolabilidade da vida humana desde a sua concepção até à morte natural. No blogue do partido ficamos a saber que são também contra a «educação nacional-sexualista e o "casamento homossexual"» [1]. Assim com hífen e aspas.

 

É o próprio PPV que admite seguir a doutrina social da Igreja, ainda que diga ter apoiantes não católicos. A ideia é cristalina e o próprio Bento XVI já a repetiu: «ninguém é proprietário da sua vida» [2], que se deve à vontade de um Deus que por sua vez ditou como destino que os pais de cada um de nós nos fizessem quando, onde e como fizeram. Os Seus desígnios são insondáveis, e é tudo menos censurável o Seu bom gosto na escolha do entretenimento a que assiste.

 

Não faço ideia de até que ponto os senhores do PPV levariam à prática o que defendem, mas quero ressalvar que nisso a Igreja é absolutamente coerente e humana. Humana porque, mesmo no caso de uma gravidez com perigo de vida para a mãe, o aborto está fora de questão [3]; coerente porque pessoas como o ex-Papa João Paulo II e o mais alto representante do Vaticano nos Estados Unidos foram proprietários das suas vidas nas respectivas fases terminais, tendo um sido entubado [4] e o outro ventilado artificialmente [5], até às suas mortes não naturais.

 

A religião não emudece apenas quando um crente idoso diz que está farto de viver [6]. Os guardiões do templo também não têm muitas palavras a dizer quando o que defendem lhes escorre pela testa.


Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

No país do ódio, como o Henrique Raposo lhe chamou um dia, não é de estranhar que no meio da desgraça invistamos naquilo em que a nossa vantagem comparativa é mais sonora: desviar a atenção para um problema distante, para uma culpa alheia. E se isto pode ser aceite em pequenas doses (hábitos culturais, tolerância, piedade, talvez), há alturas em que marcas perigosas são ultrapassadas e nós estamos perigosamente perto de ultrapassar uma.

Evocar o legado Nazi para descredibilizar a Alemanha, reclamando que também eles, esses assassinos em massa na reforma, foram perdoados de dívidas, que nunca compensaram aqueles que às suas mãos sofreram, que foram auxiliados pelo Ocidente inteiro em época de desgraça, para justificar o nosso mau comportamento é politicamente infantil. Aliás, atrevo-me a dizer que é infantil ponto.

Não é preciso ser um génio antropológico para deduzir que a geração com quem lidamos hoje não é a que causou todos esses males, salvo raras excepções de particular longevidade. É ridículo, portanto, limpar uma culpa que é nossa de uma culpa que não é deles.

Além disso, é estranho que as nossas revoltas anti-nazi só agora se revelem. Onde andaram esses palavrosos defensores dos direitos dos judeus há quatro ou cinco anos atrás? Porque é que só agora que estamos num conflito de interesses com a Alemanha é que os intelectuais pátrios se lembram que a Schuld ainda não foi paga? Por favor, evitem o ridículo.

 

P.S.: A última frase foi reformulada, devido a um manifesto excesso da minha parte.


Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011
Bruno Vieira Amaral

Na Ler de Novembro:

 

“Ou deixas de foder outras ou está tudo acabado.” A ameaçadora primeira frase de O Teatro de Sabbath, de Philip Roth, pertence curiosamente à amante e não à legítima. É quase inevitável que, num determinado momento da sua vida de enganos e pequenas mentiras, o adúltero seja confrontado com o espectro da exclusividade, quando não com a conversão forçada às virtudes da monogamia. Contornar os deveres matrimoniais requer uma considerável ginástica da consciência. Da bíblica carne fraca aos modernos viciados em sexo, da adrenalina egoísta da novidade à justificação filosófica e genética da traição masculina, o menu de desculpas para o adultério é variado e suculento quando comparado com as razões frugais para a fidelidade: amor e respeito pelo outro ou a (pouco admitida) falta de oportunidades. Haverá outra, mais maquiavélica e praticamente desconhecida do homem comum. Trata-se do interesse político. Muitos políticos americanos têm aprendido que um desvio conjugal pode prejudicá-los mais do que um desvio de dinheiro. Pode parecer uma confusão entre a esfera pública e a privada, resquícios de uma mentalidade puritana (cf. A Letra Escarlate, de Hawthorne), mas se um homem nem sequer merece a confiança da própria mulher com que cara pedirá aos eleitores para confiarem nele? Um político exposto em público como adúltero tem de eliminar do léxico a palavra “confiança”, o equivalente a pedir a um dirigente comunista para nunca mais usar a expressão “ataque aos direitos dos trabalhadores.” Porém, deduzir de um comportamento moral privado uma eventual conduta imprópria na gestão da coisa pública é algo tão ingénuo como a pergunta “compraria um carro em 2ª mão a este homem?”, pensada para questionar a integridade de um presidente manhoso. Todos nós conhecemos alguém fiel à mulher e a quem não hesitaríamos em comprar um carro, mas inadequado até para conduzir uma reunião de condóminos. Isto (e, num dos casos, a pontaria de Lee Harvey Oswald) ajuda a explicar a contínua popularidade de dois presidentes americanos muito propensos a pular a cerca.

 

Em meados da década de 90 do século passado, tivemos direito a uma ópera do sabão sobre as faltas conjugais do homem mais poderoso do mundo. A saga envolvia charutos amolecidos e temperados nas intimidades de uma estagiária e incursões céleres na Sala Oral. O reinado de William Jefferson Clinton ficou manchado por um vestido azul, por sua vez manchado para a eternidade por um vestígio de esperma presidencial. Monica, a estagiária, guardou com fervores de devota a relíquia numa caixa como prova da frágil constituição moral do presidente. Vítimas retroativas apresentaram-se ao mundo, emergindo do fundo dos tempos, feias como demónios, para reclamar o respetivo quinhão de ignomínia a tão duras penas conquistado. Também elas tinham sido tocadas pelo eleito e ungidas pela sua semente, ainda que não depositada no vaso recomendado pela ortodoxia. Hillary suportou a humilhação porque tinha em vista galardão mais elevado do que o de esposa traída. Concedeu-lhe o perdão público e o povo, saciada a fome de escândalo, também. Bill Clinton saiu da Casa Branca com níveis de aprovação pública superiores aos de Ronald Reagan, o que prova que é mais vantajoso saber representar do que trair a mulher.

 

Mais de trinta anos antes, John Fitzgerald Kennedy não teve de enfrentar procuradores esfaimados a morder-lhe as canelas. Era, contudo, um adúltero em série e insaciável. No início de Adúltero Americano, de Jed Mercurio, lemos: “Sempre teve mulheres – várias, em sequência e simultaneamente, e podiam ser amigas da família, herdeiras de famílias ricas, senhoras da alta sociedade, modelos, atrizes, relações profissionais, esposas de colegas, “meninas” amigas de festas, lojistas e prostitutas.” O seu lema poderia ser a frase da personagem de Joe Pesci em O Touro Enraivecido: “I try to fuck anything”. A popularidade de JFK pode atribuir-se à morte prematura e também ao desinteresse da imprensa da época por delitos menores. A fama de mulherengo não lhe arruinou a aura de menino de ouro da política americana. Pelo contrário, essa aura aristocrática de eleito contaminou todos os aspetos da sua vida pública e privada.

 

O escritor Theodore White, responsável pela associação da presidência de Kennedy à Camelot do Rei Artur, escreveu na revista Life que aqueles tempos foram “um momento mágico na história americana, em que homens galantes dançavam com belas mulheres, uma época de grandes feitos, em que artistas, escritores e poetas se reuniam na Casa Branca enquanto os bárbaros permaneciam no outro lado das muralhas.” Clinton, pese embora o reconhecimento das suas qualidades intelectuais por figuras como Toni Morrison ou Gabriel García Márquez, nunca foi o rei de uma corte sofisticada. Adúlteros omnívoros, a grande diferença entre Kennedy e Clinton – esqueçamos o facto de um ser católico e o outro batista, das origens irlandesas de um e do outro ter sido chamado o “primeiro presidente negro” e de o rol de conquistas de JFK incluir uma tal de Marilyn Monroe – é de classe social. É a diferença entre a Washington de Gore Vidal e os subúrbios de John Updike. Entre a aristocracia possível e a classe média inevitável de uma mesma nação. Entre patrícios e plebeus. À distância, os rumores das ligações entre o clã Kennedy e a mafia são muito mais fascinantes do que os duvidosos negócios de compra e venda de terrenos dos Clinton. O casal Kennedy esbanjava classe, era matéria de conto de fadas. O casamento dos Clinton é da fibra das sociedades de negócios, recende a obstinação. Apesar do seu inegável carisma, podemos imaginar Clinton como um remediado vendedor de automóveis ou mediador de seguros a seduzir empregadas de cafetaria no Arkansas. Nos corredores do poder ou nos de uma agência bancária, Clinton seria sempre um adúltero de província. Kennedy instalou-se, desde cedo, num trono mitológico. Nos anos de Camelot, imprimia-se a lenda. Nos de Clinton, imprimiu-se a verdade. Porque até os adultérios presidenciais precisam de uma hierarquia, de gradações classistas entre a aristocracia e o povo. Há um mar de estatuto a separar uma Casa Branca de uma casa com cercas brancas.

 


Vasco M. Barreto

Esta semana, no portal da Fundação Francisco Manuel dos SantosAntónio Figueira, Miguel Morgado,  Rui Tavares e Miguel Poiares Maduro vão discutir a Europa. Eu apenas faço as perguntas. Agradecia que divulgassem o anúncio nos blogs políticos.

 

António Figueira é licenciado em Direito, mestre em Relações Internacionais e doutorado em História Contemporânea. Durante quase duas décadas, foi funcionário europeu e diplomata, em Bruxelas, Londres e Estrasburgo. Foi ainda docente do ensino superior e director de uma agência de comunicação. Actualmente é assessor do Ministro dos Assuntos Parlamentares e escreve na imprensa sobre assuntos europeus. Tem trabalhos publicados na área dos estudos europeus e, em 2004, pelo seu livro "Modelos de Legitimação da União Europeia" recebeu o Prémio Jacques Delors para melhor estudo académico sobre temas comunitários. 

 

Miguel Morgado é doutorado em Ciência Política, ensina História do Pensamento Político e Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. É também professor visitante da Universidade de Toronto. Em 2010, escreveu o ensaio "Autoridade", que a Fundação Manuel dos Santos incluiu na colecção que tem vindo a publicar. 

 

Rui Tavares é deputado no Parlamento Europeu, historiador especialista em história e cultura do século XVIII,  escritor, tradutor e colunista na imprensa. 

 

Miguel Poiares Maduro é Professor no Instituto Universitário Europeu (UIE) de Florença, Professor Convidado da Yale Law School, docente na Universidade Nova de Lisboa, leccionou na University of Chicago Law e na London School of Economics e foi investigador convidado em Harvard. Advogou no Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias. Tem uma comenda da Ordem de Santiago da Espada por mérito literário científico e artístico, venceu o Rowe and Maw Prize e a sua tese de doutoramento valeu-lhe o prémio Objettivo Europa. Em 2006 publicou “A Constituição Plural - Constitucionalismo e União Europeia”.



Domingo, 4 de Dezembro de 2011
Priscila Rêgo

O que é que determina o resultado da "solução BCE"? A credibilidade. Se a garantia dada pelo BCE de que vai fazer tudo o que for necessário para estabilizar a dívida pública for assumida como certa pelos mercados, o cenário ideal acabará por se concretizar. Mas isto tem um problema. 

 

 

 


Priscila Rêgo

Vamos imaginar que vai em frente a "solução BCE" para a crise da dívida soberana. Em termos simples, o BCE faz aquilo que o FMI e os países europeus, através dos fundos criados nos últimos dois anos, não podem fazer: garantir a compra de tanta dívida pública quanto for preciso para garantir que os Estados em dificuldade conseguem financiar-se a juros razoáveis. Esta promessa está garantida por uma arma de munições ilimitadas: a “impressora” do BCE.

 

O que pode acontecer?

 

 

 


Arquivado em: , ,
Priscila Rêgo

O termo é enganoso. O programa da troika não tem como objectivo fazer com que Portugal pague a sua dívida, no sentido que a maior parte das pessoas atribui à expressão. A meta é muito mais prosaica: garantir apenas que ela deixa de crescer dentro de dois ou três anos. Pela mesma ordem de ideias, não faz sentido o “não pagamos” como opção política. Não é que seja moralmente errado: pura e simplesmente não funcionava. 

 

Este é um daqueles casos em que a analogia com a contabilidade familiar pode ser enganadora. Quando um banco faz um empréstimo a uma família, actua com a perspectiva de ser ressarcido. Para a família, isto significa uma restrição importante: o “défice” que resulta da compra de casa terá de ser compensado com “excedentes” durante os anos seguintes – primeiro para pagar os juros do capital, e depois para o amortizar na totalidade. A dívida ao banco é paga com os superávits que a família conseguir gerar.

 

Um Estado, por outro lado, tem um prazo de vida potencialmente infinito. E isto permite-lhe um “truque” que não está à disposição dos privados: sempre que um empréstimo chega à maturidade, paga-se esse empréstimo com… um novo empréstimo. A dívida é paga com mais dívida. E a restrição deixa de ser “a dívida tem de ser zero no final da vida” para passar a ser “a dívida tem de ser mantida a um nível que não afugente os potenciais investidores”. O ideal é que ela fique estável num valor aceitável, o que pode ser atingido com défices razoavelmente pequenos – pelo menos, suficientemente pequenos para que possam ser acomodados no crescimento da economia.

 

O problema de Portugal é que ainda não atingiu este ponto. Os défices são maiores do que o crescimento económico e a dívida continua, por isso, a aumentar. O crédito da troika é o balão de oxigénio que permite financiar tudo isto: dá-nos dinheiro para refinanciarmos todos os empréstimos que estão a atingir a maturidade (entre eles certificados de aforro das velhinhas, por exemplo) e para preencher o défice – o tal “buraco” que continuamos a cavar todos os anos. Com uma contrapartida: que o diminuamos tão rápido quanto possível.

 

Por isso, é difícil perceber o que significa “não pagar a dívida”. A dívida não está a ser paga – na verdade, está a crescer. Rejeitar a responsabilidade pelos compromissos assumidos seria apenas uma forma rápida de perdermos acesso aos fundos que a Europa e o FMI nos dão – os tais que são agora usados para pagar uma parte dos salários da função pública, das pensões e dos subsídios de desemprego. O “não pagamos” a dívida, como política, obrigar-nos-ia a não pagar também uma data de outras coisas. Austeridade por austeridade, antes esta que dói menos.

 

P.S.– “Não pagar ” pode fazer sentido (do ponto de vista da fria análise de custo-benefício) se os encargos com a dívida (juros, basicamente) forem a grande razão por detrás do défice. Abjurar a dívida permitiria, assim, canalizar fundos gerados internamente para contribuintes nacionais, deixando a "batata quente" com os credores. Este é o caso da Itália. Não é, infelizmente, o caso português. 


Sábado, 3 de Dezembro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Adoraria que os defensores do belíssimo ‘não pagamos’ falassem um dia com um alemão. Só um dia, com postura leve e descontraída, para que ele dissesse o que realmente pensa. Depois, sentiriam um nó no estômago quando ele dissesse ‘Yes, it’s your fault’. Aconteceu-me e, por uma vez, a minha vergonha pelo país em que nasci superou a mera pose – tornou-se realidade. Fazer o que for preciso para pagar a dívida não pode ser uma mera questão de cálculo económico. Tem de ser uma questão de dignidade e de respeito. Não pelos outros, mas por nós próprios.


Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011
Rui Passos Rocha

Parece que este ano a percepção dos portugueses da corrupção no país se manteve inalterada face ao ano passado [1]. A solução é fácil: aplica-se a ideia do Vítor João Duque [2] a todos os media e o país passa a ser o El Dorado.


Rui Passos Rocha

O blogue português preferido do Nanni Moretti já pode ser "gostável" no Facebook.


Tiago Moreira Ramalho

Começa a levantar-se a possibilidade de uma união orçamental (fiscal union) na União Europeia. Inclusivamente, Merkel fala em mudar os tratados nesse sentido. O propósito, claro, será domesticar os mal-comportados gastadores da periferia e salvaguardar os interesses do todo. Esta é, no entanto, uma possibilidade de muito pouco claros benefícios.

Se hoje o BCE não se desvia um milímetro da estabilização de preços, retirando a meia Europa um mecanismo de estabilização macroeconómica para, precisamente, salvaguardar os interesses do todo (este todo é cada vez menor, apesar de tudo), o que nos faz acreditar que a perda de autonomia no outro único instrumento de estabilização macroeconómica que nos resta não traria, também, mais custos que benefícios? Porque a verdade é que se a nova união orçamental for feita com regras tolinhas de limitação legal de dívida e défice, são novamente os países da periferia que ficam a perder.

Com as políticas económicas correctas, os países periféricos têm capacidade para um crescimento mais acelerado que os países do centro. É simples lógica de desenvolvimento: países mais pobres, em condições favoráveis, têm mais potencial de crescimento que países ricos. Estes diferentes potenciais de crescimento levam, por isso, a diferentes incentivos de política orçamental. E se é certo que as últimas duas décadas portuguesas se resumiram à aplicação excessiva deste princípio, há uma certa racionalidade em incorrer em défices em momentos de grande potencial de crescimento. O país futuro, mais rico, terá menos dificuldade em pagar as dívidas. É uma espécie de colaboração intergeracional.

Significa isto que uma união orçamental só iria levar os países da periferia a manterem-se periféricos. É esse, aliás, o efeito da submissão do BCE aos traumas inflacionistas. Tal como dizia o Gore Vidal, «não chega o meu sucesso, é preciso o fracasso dos outros».


Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

 

From the moment we enter crying

To the moment we leave dying

It will just cover your face

As you wail, and cry and scream


Tiago Moreira Ramalho

Atente-se, no entanto, que há aqui uma nota final a deixar. Imaginemos que há um conjunto de três produtores de vacas. Os três partilham um pequeno terreno onde as vacas comem. Todos têm interesse em produzir mais leite, logo, comprar mais vacas. No entanto, a partir de certo momento, o terreno torna-se demasiado pequeno e o efeito na produção de leite torna-se negativo (as vacas ficam subnutridas, ficando doentes, possivelmente morrendo – vacas mortas, para o caso de haver dúvidas, não produzem mais leite). Como os três querem aumentar o seu bem-estar, vão ter o preciso número de vacas que lhes permite não ter perdas (no fim, nenhum dos dois gera qualquer lucro para si próprio). Se entre eles um contrato fosse assinado impondo que só podem ter um certo número de vacas, todos produziriam mais leite. Claro que se para eles o custo pessoal desse aprisionamento, dessa limitação à acção é um custo tal que supera o benefício gerado, então o contrato não é interessante para as partes e não é feito (esta hipótese não é despicienda).

Claro que a acção do Estado tem a componente adicional de ser imposta aos cidadãos de um modo geral. Mas esta submissão involuntária é apenas mais um custo pessoal. Ainda está por vir um modelo de organização social que permita outsiders (o que seria o mais justo e mais eficiente – pode ser que um dia tenhamos um ‘mercado de nações’). Até lá, e novamente pela simples ordem espontânea, usa-se o modelo que maximiza a utilidade geral. Mesmo que ele leve a que alguns fiquem a perder. O que leva a que a diferença entre libertarianismo e intervencionismo, nisto de deixar gente para trás, resida apenas no grau, nunca na substância.


Tiago Moreira Ramalho

O principal problema é quando o analista económico olha para todos os agentes como agentes racionais excepto no caso do mais relevante de todos os agentes: o Estado. Claro que o Estado pode errar e que um erro do Estado é mais grave que qualquer erro individual. Mas isso não é um exclusivo do gorducho Leviatã. A economia comportamental anda por aí a pavonear-se gozando com a ideia de racionalidade absoluta nos agentes individuais.

O Estado é apenas mais uma manifestação da ‘ordem espontânea’. Não foi Deus que trouxe ao Homem a organização política. Não houve um fiat lux poderosamente tirânico que levou os homens a submeter-se a um jugo colectivo. Há verdadeiros benefícios económicos na organização política, quando inteligente. Negar isso é negar fundamentos básicos da ciência.


Tiago Moreira Ramalho

 

Para recusar a intervenção governamental através de subsídios ou de impostos e taxas, muitos economistas argumentam com o mais simples dos modelos económicos: o da procura e oferta. Afinal, se o mercado consegue chegar a um equilíbrio por si só, para quê haver uma intervenção?

O problema é que os economistas que fazem este tipo de análise, em vez de pensarem no custo total (social), pensam no custo privado. E, no fim, usando apenas custos e benefícios privados, formulam conclusões sobre bem-estar geral. Parece tolo, mas é pura incompreensão da mais básica formulação de um modelo económico. Uma transação tem custos e benefícios que não são revelados pelo preço.

Não é preciso invadir as tripas dos extremistas de esquerda para ouvir falar disto. Aliás, a sugestão deste fenómeno vem da Escola de Chicago. Se não houvesse custos de transacção, os mecanismos seriam totalmente diferentes. É o próprio Ronald Coase que escreve que o mecanismo de preço é insuficiente e que algum tipo de organização gera benefício geral. Lembre-se que Coase não é um activista do movimento internacional socialista. É, sim, um dos economistas mais referenciados pelas linhas mais libertárias.

Custos ou benefícios sociais, pelas suas naturezas, só podem ser pagos pela sociedade como um todo, caso contrário, sim, geramos ineficiência. Basta aplicarmos isto ao modelo. Pensemos que o custo contabilístico de produzir um carro é um euro e que o custo social, que não entra em contabilidades, é de outro euro. A verdade é que sem um imposto de um euro neste produto, o mercado está fora do equilíbrio. A não inclusão de um imposto de um euro neste produto, ao contrário daquilo em que algumas más interpretações do modelo levam a acreditar, é responsável por perda de bem-estar geral.

 

P.S.: Houve uma correcção na denominação dos custos. No entanto, o argumento geral mantém-se. 


autores

Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

comentários recentes
Great post, Your article shows tells me you must h...
You’ve made some really good points there.I looked...
دردشة سعودي ون (http://www.saudione.org/) سعودي و...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
http://www.chat-palestine.com/ title="شات فلس...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
كلمات اغنية مين اثر عليك (http://firstlyrics.blogs...
o que me apetecia ter escrito. mas nao o faria mel...
good luck my bro you have Agraet website
resto 5resto ya 5waga
posts mais comentados
125 comentários
114 comentários
53 comentários
arquivo

Fevereiro 2013

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

links
subscrever feeds