Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
Vasco M. Barreto

 

A maior biblioteca não se encontrava em Alexandria, nem é hoje a Library of Congress dos 29 milhões de livros. Também não é a biblioteca de Babel inventada por Borges, com as suas infinitas salas hexagonais, ainda que afirmá-lo pareça tão ridículo como dizer que o infinito peca por defeito, e até um sacrilégio, por ser Borges. Porquê correr tais riscos, então? Porque quem fez a Biblioteca de Borges chegou à omnisciência pela omnipotência, inventando todos os livros sem precisar sequer de os saber ler, bastando-lhe um passado eterno gasto a combinar todos os símbolos ortográficos de todas as formas possíveis, e todas as palavras, todas as frases, todos os parágrafos, todos os capítulos. Enfim, as interpretações para este delírio do porteño são várias, mas sirvo-me desta: a sua biblioteca é distópica, pois corresponde a um genocídio dos autores, enquanto as nossas finitas e concretas bibliotecas testemunham a vitória de cada autor sobre o seu previsível suicídio. A maior biblioteca de todas será a dos livros que foram pelo menos alguma vez imaginados por alguém. Não tem morada, como a Library of Congress, mas são mais as pessoas que a visitam e para ela contribuem; também não tem tamanho, na verdade, o que a deixa a salvo da trapalhada que Borges criou, uma quadratura do círculo em versão de hexagonalidadedo infinito, ou não fosse o hexágono uma solução perfeita das abelhas para o aproveitamento do espaço, mas que, justamente por isso, só faz sentido na finitude.

 

Sabem do que falo. É a biblioteca onde guardamos o grande livro de História do senhor que também gostaria de escrever a biografia de Hitler mas não sabe Alemão, o livro de ideias políticas que um amigo garante que um outro senhor sempre muito ocupado ainda escreverá, o romance sobre Paris que uma senhora já desistiu de anunciar, os planos por concluir de Pessoa, os tópicos de Luiz Pacheco, e aqueles recorrentes projectos editoriais megalómanos que as versões de autor em pdf não saciam, como a tal Spectatorà portuguesa - se não quisermos sair da paróquia que é Lisboa, nem recuar muito, nem ser exaustivo. Aliás, para intuir a vastidão da grande biblioteca contam menos os figurões e os malucos do que os nossos devaneios pessoais e os daqueles mais próximos, quando se deixam ir pela vaidade, ou não controlam a ansiedade, ou se convencem que o tesão criativo não murcha com a partilha do plano.

 

Em 2008, quando o Nuno Costa Santos me falou da ideia de escrever uma biografia do Assis Pacheco, não hesitei em arrumar logo o instantâneo volume na grande biblioteca. Pareceu-me uma belíssima ideia que ele jamais realizaria e escolhi uma boa encadernação. É claro que nada lhe disse, mesmo quando essa certeza foi crescendo à custa das respostas evasivas que ele depois começou a dar. Estava preparado para o perdoar, pois não seria mais um projecto pessoal falhado a trazer mal ao mundo, há um vasto corpo teórico a que podemos recorrer (a "vitória moral", o "Try again. Fail again. Fail better", o "Se hace camino al andar", o sportinguismo) e sempre que o homem sonha e a obra não nasce fico com a sensação de que, na verdade, Deus não tem um problema pessoal comigo, o que consola. Só que o Nuno pariu mesmo o livro e o meu alívio mesquinho transformou-se em envidia sana, uma sensação tão rara que gerações de linguistas, atarefados com as consonantes mudas, nunca entenderam ser urgente inventar-lhe uma expressão em Português.

 

Dou-te já os parabéns pela lombada, Nuno, ainda antes de ler a obra. Porque, no fundo, ninguém acredita naquele corpo teórico; materializar é o verdadeiro livre-trânsito para continuarmos a sonhar.

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Rui Passos Rocha

Para quem ainda não reparou, também há neoliberais caceteiros. Alguns dos blogues políticos mais famosos da praça alojam alguns espécimes.O sistema político deles é praticamente perfeito: com menos freios a iniciativa privada é mais livre, a competitividade e a mobilidade aumentam. Os impostos convém que sejam baixos, bem baixos. Com liberdade e maior riqueza, só os tolos se importarão com a crescente desigualdade. A não ser que... A não ser que o povo se importe mesmo com a desigualdade e com uma democracia que deixa os cordéis nas mãos de uma minoria dentro de uma minoria. Nesse caso terão duas opções: ou vão paulatinamente cedendo no seu fundamentalismo, o que é pouco provável em caceteiros, ou estarão dispostos a muscular a democracia. Nenhuma sociedade ideal admite invejosos.

 

Tudo menos caceteira é a ideia de maior educação contra a inveja social: o instinto competitivo que nos faz olhar de lado quem é mais bem sucedido pode ser aplacado com instrução. Mas não me parece que isto seja inteiramente correcto: se o objectivo for reduzir a percepção de injustiça na distribuição de rendimentos convém não entregar as nozes todas aos dentes de quem aproveitará para aumentar a injustiça efectiva. A educação contra a inveja será importante, mas se precedida de maior justiça na redistribuição de rendimentos.

 

Convém não generalizar o caso de Portugal, país onde a enorme desigualdade (quando comparada com os restantes países da OCDE) parece estimular sobretudo apatia em relação à política. Noutros lados a apatia inicial já deu lugar a mobilização. Aliás, tendo em conta que os índices de satisfação com o governo são maiores nos países em que o desempenho económico é melhor (quer sejam democráticos quer autocráticos), imagino que, entre esses países, seja nos que têm liberdade de informação que é maior o perigo de explosão da mobilização descontente pós-apatia.

 

Por isso convém perguntar: querem ser o Chile da ditadura do regime militar, os Estados Unidos do sistema político minado e do descontentamento generalizado ou algo menos dado a contestações civis?


Sábado, 28 de Janeiro de 2012
Priscila Rêgo

Mileuristas?, no Vento Sueste. 


Priscila Rêgo

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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012
Tiago Moreira Ramalho

O reconhecimento público, coisa pela qual a espécie arranca caras e cabelos, é coisa que pode magoar o pescoço ou partes alternativas da figurazinha que expomos tão zelosamente às massas. Isto é particularmente grave quando se é o José Raposo, facto que se me assomou como evidente quando, perdido nos pensamentos vulgares de uma viagem de eléctrico, que agora exige ao amável consumidor o pagamento de dois euros e oitenta e cinco cêntimos, ouvi, atrás de mim, num jeito manhoso de falar, uma senhora muito risonha afirmando, à cautela, enquanto apontava, ‘É o Zé Raposo, é o Zé Raposo’. Era o José Raposo, que enroladinho no banco do canto, com a calvície mal disfarçada por uns vistosos caracóis que se propagavam pelo espaço envolvente, respondeu, com o sorriso de quem preferia estar num outro lugar, que sim, que sim, que era. Gostava muito dele, a senhora, que continuou repetindo, numa desmesurada emoção, que era o Zé Raposo, enquanto dava pancadinhas no peito do senhor que a acompanhava. O senhor anuiu; também ele achava que se tratava do José Raposo. Criteriosa na crítica, disse-lhe que ele estava muito bem; tanto nas novelas em que entrava como naquelas em que ela julgava encontrá-lo, mistificações que o senhor, solícito, rapidamente dissipou. De espírito elevado pela discussão que estava a ter, naquele espaço e naquele tempo, com tão vetusta figura, a senhora do falar particular não hesitou e aplicou cirurgicamente dois pares de chapadinhas no pescoço e na bochecha esquerda do Zé, que ria, e eu ria com ele, e que rezava, e eu rezava por ele. O José acabou por sair na paragem seguinte, provavelmente decidido a fazer a restante viagem pela segura calçada que permite a fuga educada. Despediu-se de um querido, que ria comigo, e lá foi. A senhora assoou-se e saiu também. Saíram todos e eu, vulgarmente pensando, percebi de uma vez por todas que ser o José Raposo não traz vantagem, não é coisa de querer. Não há como a experienciazinha, para aprendermos boas lições.


Tiago Moreira Ramalho

Agora temos linhas, mãos e uma insinuação de genitália italiana. Bravo!


Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012
Vasco M. Barreto

Não leio a imprensa desportiva com a regularidade que provavelmente seria recomendada para a escrita desta entrada, mas tenho a intuição de que seria interessante uma tese de doutoramento - enfim, talvez apenas um mestrado - sobre o modo como a análise técnica do futebol publicada na imprensa e discutida na rádio e televisão evoluiu ao longo das últimas quatro ou cinco décadas, da sua complexidade intrínseca aos paralelos com as teorias de interpretação que foram aparecendo noutros domínios, o que implicaria um trabalho de mapeamento prévio para encontrar o Carlos Daniel e o Luís Freitas Lobo dos mil novecentos e sessentas (ou explicar as suas ausências), algum aparato estatístico, referências a Umberto Eco e a um qualquer dos franceses. A minha tese seria simples: caminhamos para a completa mistificação - e em vez de termos parado na metafísica, o que seria recomendável, entrámos já no domínio da pseudociência; mas isto pede à Epistemologia menos do que pede à Sociologia (pressão dos pares e subida da educação média dos apreciadores do fenómeno desportivo). Estas manifestações incluem os muito gozados barroquismos de gramática e lexicais dos intérpretes da bola (de Gabriel Alves a Rui Santos), mas é no modo como se vai pensando o futebol que atingimos o êxtase. E o excepcional futebol do FC barcelona dá-nos a melhor matéria-prima.

 

"No fundo, a pergunta básica da Filosofia (como a da psicanálise) é a mesma do romance policial: de quem é a culpa?", escreveu o Eco. Ora, nos últimos dias chegámos a um novo cúmulo interpretativo e, por causa de umas declarações de Pep Guardiola, o culpado está encontrado: é o Busquets. Ainda a estupefacção não assentara, já corria doutrina a explicar ao povo aquilo que ainda ninguém tinha visto ou a que não dera o devido valor (1,2). Não faço a menor ideia se o Busquets é o segredo do FC Barcelona. Não sei se Pep Guardiola disse o que disse por ser mais amigo da verdade ou do balneário. Mas suspeito que esta tese vinga porque é contra-intuitiva, o que faz com que o intérprete brilhe com indisfarçável ansiedade e orgulho. Estamos tão fartos do excepcional futebol do Barcelona como em tempos estivemos fartos do Serguei Bubka, mas como ainda estamos mais fartos das explicações (a Cantera, a identidade cultural, o baixo centro de gravidade do meio-campo, o Messi, o Iniesta, o Xavi - e todas as combinações com dois destes elementos), qualquer novo dado interpretativo entusiasma o adepto tanto como uma nova relíquia entusiasma o crente ou uma nova teoria entusiasma o jovem académico. Que venha então o Busquets. Amanhã será a perturbação electrostática que emana dos caracóis do Pujol. E depois será a sopa da mulher-a-dias do Piqué, que dá solidez à defesa porque tem propriedades calmantes. Dito isto, ontem gostei muito de ver o Ozil.

 

 

 


Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
Priscila Rêgo

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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
Bruno Vieira Amaral

O Professor Cavaco tem uma nítida falta de jeito para a comunicação oral. Como todos os bons políticos, fez desta fraqueza uma força. Especializou-se em tabus e silêncios esfíngicos que os incautos tagarelas normalmente tomam por sabedoria. Uma vez mais, ao querer mostrar-se solidário com o sacrificado povo português, Cavaco achou por bem travestir-se de um deles e, em presidencial metonímia, chorar as suas dores financeiras como as dores de todo um país. O povo é que não gostou da figura de estilo ou, no caso, da figura de parvo de um presidente a tomar por parvos os seus concidadãos. Exagero, dizem uns. Outros afirmam que isto é a vingança das elites contra o filho do gasolineiro. Ora, se considero infame que se ataque o homem por causa das suas origens, não considero menos infame que se lhe defendam as burrices com o mesmo argumento. Cavaco, político experimentado, sabe que, em política, os deslizes e as incorrecções, mesmo que verbais, têm um preço. Um Presidente, seja filho de gasolineiro, filho de Deus ou filho da puta, não se pode queixar em público da vidinha quando tem milhares de euros no banco e rendimentos declarados de 149 mil euros. Não pode. Havia muitas maneiras de Cavaco se solidarizar com os portugueses. Fazer-se de desgraçado era a mais imbecil e imoral de todas. Foi essa que Cavaco escolheu.


Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012
Rui Passos Rocha

Agora que já temos redes de internet que cobrem inteiras áreas urbanas, já estivemos mais longe de acrescentar a internet à Declaração Universal dos Direitos do Homem. É inegável, por mais que se torça as estatísticas, que a internet tem servido para nos aproximar do ideal de Tólstoi Trótski de uma sociedade composta por inúmeros Aristóteles. Ainda não chegamos a esse aborrecido idílio, mas graças à internet somos cada vez mais inteligentes. Parece é que nem todos ganhamos com isso.

 

As indústrias discográfica e filmográfica dizem que a pirataria lhes rouba potenciais consumidores. Parece lógico: se bem que grande parte dos que descarregam conteúdos gratuitamente nunca os compraria, uma - mesmo que minúscula - parte provavelmente o faria. Mas há um exemplo curioso: o último álbum dos Radiohead, um dos mais vendidos de 2011, foi inicialmente disponibilizado na internet e com possibilidade de compra da versão mp3 por apenas 9 dólares.

 

As relações de causalidade aqui são nebulosas, mas uma coisa parece certa: que a pirataria tem ajudado a aumentar o número de potenciais consumidores - de música, de filmes, e também de livros. Com uma maior carteira de potenciais compradores, estas indústrias têm-se adaptado: já é possível comprar músicas em vez de álbuns inteiros; há cada vez mais livros em versão digital (como as edições para Kindle); e quanto ao cinema, bem, há colecções de filmes em DVD a preços inferiores ao custo de um bilhete de cinema.

 

Estas indústrias não estão a sofrer graves problemas económicos, mas sobretudo acreditam que perdem lucros potenciais. Nenhum lóbi convive bem com um mercado instável, sobretudo um que a internet torne tão volátil. Aumentado esponencialmente o número dos seus potenciais clientes, as grandes empresas parecem preferir o lucro fácil e certo. Mas com isso compram o descontentamento dos Aristóteles do torrent.

 

*Termo roubado a João Caetano Dias do Blasfémias.


Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
Rui Passos Rocha

Até o mar se retraiu e a areia protestou. Quando cheguei à praia esta tarde já os grãos se organizavam para esconder do mundo que, minha cara anónima, tinhas declarado o teu amor eterno ao coitado do Miguel escrevendo: «És a pessoa que quero passar o resto da minha vida». Queres passá-lo. Se queres deixar o homem para trás, ou vendê-lo, não te retraias por minha causa. Escusavas era de anunciar, em letras garrafais, que precisas de Novas Oportunidades.


Priscila Rêgo

No Insurgente, António Costa Amaral (AA) refere um artigo que explica a inveja como subproduto de pressões selectivas exercidas durante o Paleolítico. O artigo defende que a inveja é uma emoção que terá proporcionado "sucesso" há alguns milhares de anos mas que não faz sentido nas "civilizações" altamente complexas de hoje em dia, em que os jogos de suma nula foram substituídos por jogos de soma positiva. Actualmente, este quadro mental já não garante "sucesso". Bom: num texto tão confuso, o título que o AA escolheu - O socialismo deriva de psicologias da idade da pedra - até acaba por parecer um mal menor.

 

Ou quase. Na verdade, e de forma geral, toda a nossa psicologia remonta à idade da pedra. A selecção natural não actua suficientemente rápido para que o nosso hardware mental acompanhe as mudanças vertiginosas da paisagem cultural à nossa volta. Geneticamente falando, continuamos todos na idade da pedra. E a "inveja" que está na base do socialismo é tão tributária do Paleolítico como o desejo de superação pessoal que enforma o capitalismo. Socialismo, comunismo, social-democracia e capitalismo são apenas respostas diferentes a emoções que, tanto quanto sabemos, parecem bastante transversais a todos os homo sapiens.

 

Esta é uma nota de pormenor. Mais importante é aquele "sucesso" que o autor do artigo usa, sem nunca definir muito bem. É que sucesso, em termos de selecção natural, significa sucesso reprodutivo: deixar mais descendência fértil do que a concorrência (e talvez nem isso). E este sucesso é intrinsecamente relativo. O que conta não é o número de filhos que deixamos, mas o número de filhos que deixamos relativamente à concorrência. Portanto, e mesmo "comprando" o argumento de que não havia jogos de soma positiva no Paleolítico, é um disparate dizer que, a este nível, this time is different. Não é.

 

Mas e se fosse? Por que é que deviamos mudar a nossa natureza apenas porque esta não é a que nos garante mais "sucesso"? Sobretudo quando "sucesso" significa apenas "sucesso reprodutivo". Milhões de anos a evoluir neste planeta para acabarmos a elevar a maximização da prole a estatuto de objectivo de vida? Sinceramente. 

 

Ainda assim, o artigo toca num ponto importante: as emoções e sentimentos que estão "hardwired" no cérebro. A inveja é uma. O ódio é outra. Ambas podem ser destrutivas, mas não é óbvio o que devemos fazer a respeito delas. Sobretudo porque, estando tão impregnadas na nossa psicologia, não é provável que possam ser sublimadas através da aculturação. As experiências comunistas com reeducação de crianças mostram bem como nem todo o condicionamento do mundo é suficiente para quebrar um dos laços mais viscerais do ser humano: a ligação entre pais e filhos. Há coisas que não se mudam. A aversão à desigualdade pode ser uma delas. 

 

O que fazer? Pense-se no caso da dor física. A dor física é tão real como a dor psicológica instigada por sentimentos de inferioridade que resultam da desigualdade. Não passa pela cabeça de ninguém dizer à populaça que poderia ter uma vida muito melhor se pura e simplesmente ignorasse a dor física. Não é possível - a dor está lá. Mas o esforço, persistência e um ambiente cultural apropriado podem tornar este apelo mais aceitável em contextos mais específicos. Por exemplo, para ajudar a ultrapassar a dor de apanhar uma vacina ou o incómodo de fazer exercício com frequência. São dores pequenas com benefícios implícitos grandes.

 

O mesmo princípio pode aplicar-se à desigualdade. Uma parte da dor psicológica da desigualdade pode ser combatida através da educação: por exemplo, ensinando a teoria da produtividade marginal do trabalho e a ligação entre produtividade e salário; explicando que a redistribuição do bolo económico tem efeitos na sua dimensão; e defendendo a importância ética de não meter a foice em seara alheia. A cultura, e o discurso liberal, em particular, têm um papel importante a jogar aqui. A aversão social à desigualdade diminui na medida em que ela for considerada mais legítima. 

 

Fora estes ajustes pontuais, que serão sempre de alcance limitado, será provavelmente necessário reconhecer que uma boa parte da desigualdade tem de ser resolvida de forma directa: impostos de um lado, subsídios do outro, serviços públicos e por aí fora. Não é a solução ideal; mas talvez mais fácil gerir estas tensões mudando o código fiscal do que a posição dos nossos nucleótidos.  

 

  

 


Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012
Rui Passos Rocha

Veio do Canadá para «reformar o que está mal na economia portuguesa» e fazê-lo «sem olhar para trás». Numa palavra: nunca me engano e raramente tenho dúvidas. 


Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012
Tiago Moreira Ramalho

Todos os governos têm pelo menos um joker. No actual poderíamos escolher entre Miguel Relvas e Miguel Relvas, mas direccionamos o nosso aguçadinho sarcasmo generalizado a Álvaro Santos Pereira. O ministro é calado, e por isso incompetente. Ao ministro falta carisma, e por isso força. Isto destrói-lhe até as mais óbvias intervenções.

Qualquer estrangeiro que venha a Portugal acaba enfiado na pastelariazinha de Belém. Adoram. Surpreendentemente, procurar o mesmo bolinho no sítio de onde vêm implicará uma pecaminosa perda de tempo. Marcelo Rebelo de Sousa avançou com uma explicação muito plausível. É que, segundo ele, o pastel de nata é bom é quentinho, então exportá-lo tira-lhe qualidade. Chega lá frio e, arriscamos, rijo. Claro que tamanha clarividência só poderia vir de alguém que sabe imenso de Direito. Eu encontro problemas semelhantes quando quero comer um croissant, ou quando quero uma fatia de pizza. Nada tem sabor, nada tem encanto. Tudo duro e sem jeito.

O que o ministro disse não implica subsídios, políticas, leis e agências. Apenas demonstra uma tentativa de compreender um problema real e até hoje sem solução. O facto é que alguns países conseguem e outros não. Os outros países conseguem e o nosso não. Não há objectivo maior para o economista que entender isto. E não há função maior para um ministro que resolver o problema.


Tiago Moreira Ramalho


Sábado, 14 de Janeiro de 2012
Rui Passos Rocha

O António José Seguro da Madeira (Vítor Freitas) é bem mais crítico do José Sócrates insular (Alberto João Jardim) do que o verdadeiro Seguro em relação ao Sócrates parisiense. O PS continental diz que podemos remar contra o lodo se nos agarrarmos a almofadas; os socialistas da Madeira, que também procuram almofadas onde se enfronhar, não são míopes e dizem que o lodo é atirado pelo Sócrates madeirense, cujo «desvario financeiro» conduziu a um «estado catastrófico de insolvência» que «tem como resultado um plano de sacrifícios imposto aos madeirenses» (1).

 

Imposto por quem? Pela Merkel portuguesa, Vítor Gaspar, que tem no Manuel Alegre insular (Gabriel Drumond, dirigente do PSD-Madeira) um crítico veemente. Diz o poeta ilhéu que a Merkel e o Sarkozy (Passos Coelho) do continente são «um bando de malfeitores», que têm «um padrinho» que é o Durão Barroso de Belém (Cavaco Silva). Segundo o Alegre funchalense, «ou aqueles cavalheiros [da "União Europeia" tuga] tomam juízo, ou então [nós, Madeira; leia-se Portugal] temos que ir para a separação» (2). A não ser, claro, que venham daí lusobonds (3).


Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012
Tiago Moreira Ramalho

A Rita Blanco, uma personagem extraordinário fora das telas, apareceu na televisão para falar sobre o último filme de Canijo. Como qualquer pessoa na sua situação, aproveitou para deixar uma mensagem política, nomeadamente acerca dos cortes nos subsídios. «Um país sem cultura não é um país, é uma anedota», disse ela para que depois todos repetíssem. Disse ainda que o secretário de Estado era o pior possível. Lá terá alguma razão, ou talvez não. Dessa ‘Cultura’, com maiúscula e governo, percebo nada. O que, no entanto, é interessante é que no meio de tanta reverberante cultura à espera de um subsídio que a accione, as reacções aos quase dez minutos de espaço televisivo dado à Rita Blanco cingiram-se, única e exclusivamente, ao minutinho em que lançou comentários dispersos à governação e ao futebol. O restante tempo que passou a falar sobre a construção do filme, sobre o método de Canijo, sobre os diálogos e toda a restante parafernália que tem de ser mantida foi completamente omitido das notícias e das análises posteriores. A parte mais relevante da intervenção, o conteúdo mais elevado que nos trouxe, a cultura que veio ensinar à televisão, tudo isso foi simplesmente ignorado. Eu não sei se são precisos mais subsídios e se é preciso outro secretário de Estado. O que me parece, muito francamente, é que estamos todos muito bem uns para os outros.


Tiago Moreira Ramalho

Sendo possivelmente, junto do porco, o animal com a pior imagem na mente colectiva, é difícil pensar em direitos fundamentais para galinhas. As galinhas são as aves tristes que não voam, são as aves mortas que correm, são as barulhentas parideiras de ovos para as nossas tartes e gemadas. Ainda assim, pessoas como Peter Singer ocupam décadas das suas vidas a defender o direito destes animais a esticar as asinhas. E a preocupação gerou frutos: é, a partir deste ano, proibido manter as galinhas nos tradicionais galinheiros que as empilham nas tantas explorações agrícolas por essa Europa fora.

Para muitos parecerá tique moderninho. Será até considerado por muitos uma lei iníqua, porquanto obrigará a um aumento nos custos de produção de ovos e, por isso, em aumentos de preços. No entanto, pensar no bem-estar animal é tão extravagante como pensar no bem-estar dos negros ou das crianças. Também se poderia pensar nos defensores dos negros ou das crianças como patetas ou até acusá-los de provocarem aumentos nos preços, mas não o fazemos. A verdade é que estas mudanças de avaliação derivam da percepção do custo social de cada um dos casos. Escravos produzem bens mais baratos, mas a sociedade dá mais valor à liberdade. Galinhas que não se mexem produzem ovos mais baratos, mas parecemos dar mais valor ao seu bem-estar. Estamos mais humanos? Nem por isso. Estamos simplesmente diferentes. 


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Tiago Moreira Ramalho

«O partido que em 2007, na descriminalização do aborto até às 10 semanas, afirmou confiar às mulheres e só a elas a decisão de terminar ou não uma gravidez demonstra assim não as considerar capazes para tomarem a decisão de iniciar e se responsabilizarem por uma.» (Fernanda Câncio, no Jugular)

 

Independentemente da posição que cada um possa assumir sobre o aborto (ou interrupção voluntária da gravidez) e o aluguer de barrigas (ou empréstimo de útero para fins procriativos), a verdade é que este argumento, que nasce e morre no Direito Positivo e que em nada tem de justificação ética, é fortíssimo. O que não deixa de ser interessante. Dada a actual legislação, não permitir o aluguer de barrigas (ou a forma gira de o dizer) é simples esquizofrenia, mera incoerência lógica. Mesmo para alguém que, como eu, é contra a legalização do aborto.


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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012
Tiago Moreira Ramalho

«Bom dia, eu sou insuficiente renal e exijo que a doutora Manuela Ferreira Leite me venha pedir desculpas. O óbvio a mim não me assiste.»


Tiago Moreira Ramalho

Não existe, ao contrário do que se diz e escreve nestes dias, qualquer obrigação moral em tornar público que se é um maçon. Por isso não chega publicar ou dizer publicamente que os maçons têm de sair da sombrinha do secretismo se quiserem assumir cargos públicos. É preciso justificar que isso é uma mais-valia institucional.

O primeiro medo é o de a Maçonaria constituir uma plataforma facilitadora de corrupção. E constitui. E não podemos fazer nada para o evitar. Uma reunião sem aventais e martelinhos não é uma reunião maçónica, mas pode gerar corrupção. Qualquer associação de pessoas é uma potencial plataforma facilitadora de corrupção. Mesmo entre apenas duas. No limite, baniremos pequenas escapadelas amorosas.

O segundo grande medo é a existência de conflito de interesses, dado que a Maçonaria se rege por regras de obediência. De novo, isto é por natureza impossível de controlar. O político pode não ser maçon, mas obedecer a uma religião, a um guia espiritual ou até à mulher. Se a obediência a algo que possa conflictuar com a actividade política é um factor decisivo, então que se feche o Parlamento e venha a anarquia.

Mais do que discutir regras infundadas, seria bastante valioso discutir as que já existem e a sua aplicação. Porque o facto é que há um conjunto de nomes suspeitos de corrupção, mas nenhum processo de investigação aberto. O perigo está aqui, não nos aventais.


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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
Tiago Moreira Ramalho

 

Esta imagem veio na última edição do Ípsilon, a ilustrar os Sermões do Pipi.


Vasco M. Barreto

Irrita-me a emergente guerrilha que, depois de uns 4 anos de relativa tranquilidade, volta a berrar nas colunas de jornal contra o opressor "fascismo higienista". Irrita-me a sua retórica ridícula de derradeiros paladinos da liberdade; irrita-me a sua mitologia, servida por mentiras que fazem de Nova Iorque o novo Gulag e, até prova em contrário, uma cidade sem restaurantes. Reconheço que não é fácil defender uma alteração para uma lei anti-tabaco mais restritiva. Seria uma injustiça para os comerciantes que fizeram investimentos nos seus estabelecimentos por causa da lei anti-tabaco de 2007, a menos que fossem compensados. E uma lei anti-tabaco mais restritiva passaria a ser diferente, no "espírito", da lei que combate a poluição sonora. Admitindo que ninguém - tirando o Doutor Vasco Pulido Valente, fiel à ciência do século XIX - põe em causa que a exposição (passiva) continuada ao fumo do tabaco, tal como a exposição continuada a ruídos acima de uma determinada intensidade, faz mal à saúde, por que motivo devem estas leis ser diferentes? Ora, se nada me escapou na leitura apressada que fiz da lei do ruído, esta protege-nos exclusivamente - ainda que por vezes só em teoria - das agressões sonoras vindas de espaços privados e públicos que podemos evitar, deixando ao cuidado de cada um a decisão de destruir os seus ouvidos e a sua estética dentro de discotecas. Mas, enfim, talvez estejamos mesmo perante uma inércia cultural que parecerá caricata daqui a 50 anos e talvez a lei do ruído não seja um bom termo de comparação, visto que o fumo consumido de forma passiva por causa de um prazer alheio é a terceira causa de morte evitável, logo a seguir ao fumo consumido de forma activa e ao álcool. Convenhamos que a surdez não mata e, com o alarido que anda por aí, até deve consolar. 

 


Rui Passos Rocha

O Governo parece querer apoiar-se num estudo para rever a Lei do Tabaco e aproximar Portugal de «países mais avançados». A ideia, segundo o secretário de Estado da Saúde, é «reduzir as excepções que ainda permitem o fumo em locais públicos (restaurantes, bares, discotecas, etc)» (1).

 

Que excepções? Fumar no exterior junto à porta, coisa que a investigadora Fátima Reis viu acontecer em 1/4 dos casos estudados, resulta em 40% das vezes na entrada de fumo nos estabelecimentos. Ou seja, a probabilidade de entrar uma réstia de fumo pelas frestas das portas num destes espaços quando eu lá estiver será de cerca de 1/9 (2).

 

Enquanto o estudo não sai do forno fico sem saber se foram estudados os efeitos que as pequenas nuvens vindas da fechadura têm na saúde dos pobres clientes da restauração. Será caso para tanto alarido? Pelo que me parece o alarido tem outra raiz: segundo a investigadora, «só a proibição de se fumar em todos os espaços do sector da restauração e similares» pode resolver o problema de saúde pública que por cá temos (2). Esses espaços, como se vê, começam pelo menos um metro à frente das portas de entrada dos estabelecimentos. E quem diz um metro diz dois ou três: se entrar um fio de alcatrão queimado os fumadores poderão ser multados.

 

Fátima Reis é zelosa do bem público a ponto de querer que denunciemos quem largar uma réstia de fumo para o interior de um restaurante. Peter Singer vai mais longe, mas pelo menos por motivos, vá, sérios: é a favor da proibição total do tabaco (apesar de propor como alternativa uma redução dos níveis de nicotina nos cigarros). Afinal, diz, os cigarros matam mais do que a SIDA, a malária e os acidentes viários todos juntos. Singer diz que a proibição até seria bem-vinda pelos fumadores, que normalmente se tornam dependentes na adolescência e chegam aos trintas com vontade de, mas poucas forças para, deixar o vício (3).

 

Também Robert Procto - que escreveu sobre o tema um livro em vias de publicação - rejeita que a educação contra o tabagismo baste para reduzir o consumo. É preciso abolir o tabaco rapidamente e, se possível, em todo o mundo (4).

 

Não estão em causa os bem documentados benefícios do menor consumo de tabaco, tanto para o fumador, como para os que estão à sua volta (5, 6 e 7) e mesmo para o Estado Social (8). A própria OMS recomenda coisas bem mais simpáticas do que a proibição total: um aumento dos impostos sobre o tabaco até 70%, a proibição do consumo em locais de trabalho e espaços públicos, o fim da publicidade de marcas, o incentivo ao tratamento para cessação tabágica e mais e mais imagens, nos maços e não só, de deformidades e outras consequências do consumo de tabaco (9).

 

Que o Estado desincentive ainda mais o consumo de tabaco, sobretudo através de um aumento de impostos, não me parece mal. Nem bem, na verdade. Estudem lá isso e deixem-me descansadinho. Mas cheira a treta que se queira assentar uma proposta velada de proibição do tabaco nos efeitos malévolos de fumar a um metro de distância da porta de um restaurante. Até porque, a seguir a isto, será «preciso fazer algo rapidamente contra o mau hálito e a flatulência» (10), cheiros que ainda são permitidos na restauração e ainda ajudam a temperar as saladas de uns quantos incautos.


Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
Tiago Moreira Ramalho

Quatro anos depois da proibição parcial do fumo em locais públicos, o governo pretende aprofundar, à medida dos «países mais avançados» (que delícia!), as restrições, passando a proibir o fumo em todos os locais públicos e possivelmente nas suas imediações. Justifica-se a proposta com uma suposta necessidade de reduzir a exposição de consumidores e empregados ao indesejado fumo e com um perigoso objectivo de reduzir o consumo.

Falar numa necessidade de reduzir a exposição de quem quer que seja ao fumo parece assumir que os malvados fumadores obrigam os que os rodeiam a absorver o pecado carbónico, quando a verdade é que simples presença no grupo dos consumidores ou dos empregados implica uma decisão prévia. E a decisão de pertencer a um destes grupos, assumindo que a gente é crescidinha e ainda consegue decidir racionalmente, tomou necessariamente em consideração, mesmo que de forma implícita, o fumo do tabaco. Por isso, se os indivíduos se tornaram consumidores ou empregados, significa que o fardo da exposição ao tabaco não é suficientemente pesado. Dava-lhes mais prazer que o fumo não estivesse lá? Possivelmente. Mas a lei deve servir para resolver conflitos ou promover soluções de coordenação que beneficiam todos. Ora, no caso, tudo está resolvido sem lei. A sua simples proposta mostra simples ignorância.

Posto isto, olhemos para o objectivo de reduzir o consumo. A coisa é particularmente macabra. O consumo de tabaco, acreditando que gera externalidades negativas fortes, já é fortemente taxado – o que me parece perfeitamente equilibrado. Mas é importante compreender que a taxação está ao nível da compensação. Há custos sociais óbvios no fumo de tabaco e, por isso, os fumadores compensam a sociedade. Muito diferente é essa mesmasociedade, mais do que ser compensada, querer assumir controlo sobre a decisão. Isto resume-se a básica infantilização e dominação de indivíduos, cujo direito a fazer o que querem das suas vidas roça o sagrado. Seja isso comer saladas ou, como escreveria o Eça, chupar cigarrinhos.

Pode ser que o movimento cívico-contabilístico dos restaurantes que, há quatro anos, gastaram milhares de euros em sistemas de ventilações e semelhantes empreitadas leve  a que a parvoíce seja impedida. Caso contrário, é apenas mais uma. Respire-se fundo e, no limite, chupe-se um cigarrinho. Mas longe as imediações.


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Vasco M. Barreto

Em última análise, depois de lhe retirarmos eventuais preconceitos de ordem religiosa, homófoba ou outros, a resistência a novas formas de procriação e de organização familiar radica num único princípio, o “superior interesse da criança”. O “superior interesse da criança” postula que a criança precisa de um casal heterossexual e, como a maior parte da população foi gerada e criada assim, ir contra tal ideia é tão herético como tomar partido quando nos perturbavam a infância com o “gostas mais do pai ou da mãe?” Mas mesmo sem perder uma linha a tentar rebater o princípio, convém lembrar que as pessoas não têm filhos por causa do “superior interesse da criança”, entre outras razões porque a criança ainda não existe. As pessoas - todas as pessoas - têm ou adoptam filhos porque sentem que isso lhes completa a existência, ou seja, por egoísmo. O poder do Estado para modular esse desejo é algum (os incentivos à natalidade, etc.), mas limitado, e desde que exista a possibilidade técnica de ter uma criança, os pais em potência não vão desistir. Como só um Estado totalitário pode contrariar essa obstinação, na prática o “superior interesse da criança” não pode funcionar a anteriori numa sociedade decente e ser aplicado de um modo - digamos - “preventivo”. Daqui decorre que leis que proíbam ou omitam determinados cenários - como a co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo e a procriação medicamente assistida acessível a mulheres sem parceiro masculino - são uma espécie de suicídio legal, porque violam o interesse superior que tentam proteger. É o que sucede com a lei do casamento para pessoas do mesmo sexo e a lei que regulamenta a procriação medicamente assistida. Nasceram tortas e é tempo de as endireitar.

 

Coluna de ontem, publicada naquele jornal que não paga aos seus cronistas.

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012
Tiago Moreira Ramalho

É muito difícil imaginar uma sociedade que não tenha na geração de ambundância um propósito fundador. A organização social, seja ela qual for, persegue um objectivo de maximização de bem-estar, o qual está tradicionalmente associado a uma maior quantidade de bens disponíveis. Claro que algumas ideologias e sociedades levam este objectivo a uma obsessão, subordinando-lhe tudo o resto (e tantas vezes falhando, como na China maoísta). No entanto, uma certa base de acumulação de riqueza está (diria eu) sem excepção na fundação de qualquer associação de pessoas.

Interessantemente, é este imperativo que Kenneth Rogoff põe em causa num artigo publicado no Project Syndicate. Poderá ser pouco racional ter como objectivo o crescimento, precisamente porque a natureza social a que somos impelidos para o gerar anula os seus efeitos – se todos os rendimentos duplicarem, a riqueza relativa entre uns e outros mantém-se. Assumindo que as pessoas são mais afectadas pela sua percepção de riqueza (isto é, pela comparação da sua riqueza com as dos outros) do que pelo valor total de riqueza que possuem, o facto é que o crescimento não gerou mais bem-estar. Este argumento tem sido ostensivamente defendido por Robert Frank e é uma das bases de The Darwin Economy sobre o qual já escrevi aqui no blogue. Para provar esta ideia, Rogoff recorre-se de estudos feitos sobre a felicidade das pessoas, que mostram uma certa constância após a Segunda Guerra Mundial, apesar de os rendimentos terem crescido imenso.

O argumento pode parecer persuasivo à partida. O que nos deve mover deve ser a felicidade da população e se a população não está mais feliz, então o esforço do crescimento é uma espécie de fardo sisífico. No entanto, o argumento não resiste a uma análise um pouco mais profunda, a qual nos é felizmente apresentada por Will Wilkinson. Crescimento económico não significa apenas mais gadgets da Apple. O crescimento económico que, segundo os estudos de felicidade, teve efeitos nulos no bem-estar da população é o principal responsável por a vida hoje ser infinitamente menos penosa que a vida há um par de séculos atrás. Crescimento económico significa, à falta de prova em contrário, diminuição do sofrimento da população. E isso, mesmo que não seja percepcionado, é real – basta que comparemos as nossas vidas com as vidas que nos são relatadas de passados longínquos.

A observação, muito acertada, de que os rendimentos relativos são relevantes na avaliação do sucesso pessoal não invalida que o aumento generalizado de riqueza não seja um propósito para o qual valha a pena trabalhar. Até porque isso seria uma estranha negação do que nós somos. Afinal, desde que existimos enquanto espécie que nos preocupamos com a criação de mais riqueza e não apenas com a distribuição da que já existe. E porque é que o faríamos se, no final, tal não nos trouxesse real benefício? 


Tiago Moreira Ramalho

Parece que Portugal descobriu a Maçonaria. Fico muito contente. Agora se calhar é tempo de acalmar a euforia e começar a discutir o que os seus putativos membros fizeram. A mim pouco me importa que meia-dúzia de tipos andem de avental. E importa-me ainda menos que os pedreiros saiam do armário. A única coisa relevante aqui é o que é que os indivíduos fizeram. E, pelos vistos, fizeram o suficiente para que as organizações a que eventualmente possam pertencer sejam pequenas notas de rodapé.


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Domingo, 8 de Janeiro de 2012
Tiago Moreira Ramalho

Apesar de usados pelos engenheiros sociais como formas de ‘reeducação’ – coisa muito bonita no nosso tempo – e pelos liberais como exemplo supremo da intromissão estatal nas decisões individuais, a verdade é que impostos sobre comportamentos, digamos, desviantes (os conhecidos sin taxes) seguem uma lógica mais pragmática que ética. Um imposto elevado sobre bens cujas procuras são de alguma forma ‘fixas’, seja porque geram algum tipo de habituação (tabaco e álcool) ou porque são muito necessários (medicamentos), é sempre um imposto com muito bom resultado. Um imposto alto sobre pão leva as pessoas a comprar brioches, mas um imposto alto sobre tabaco faz apenas com que as pessoas dêem mais dinheiro ao Estado. É um simples resultado económico, muito útil a quem faz orçamentos.

Claro que os governos, que têm de granjear da aceitação pública, preferirão sempre taxar de forma elevada os bens viciantes, cujo consumo é mal visto na sociedade, do que taxar de forma elevada os medicamentos, tão necessários a que haja (no limite) população para governar. O problema surge quando os impostos são incentivos tais que conseguem ser mais fortes que a rigidez da procura dos bens. E aí o grande educador fiscal vê-se num dilema: o «objectivo oficial» concretiza-se às custas do «objectivo real». As pessoas passam a consumir menos álcool e tabaco e, com isso, as receitas fiscais diminuem e os problemas orçamentais surgem. O pecado generalizado sustentava um orçamento que agora tem de se organizar na virtude. É o que está a acontecer, por exemplo, em Inglaterra, onde as receitas dos sin taxes estão a descer à conta da melhoria do comportamento dos bons bretões. Agora, a população virtuosa terá de ver os restantes impostos serem aumentados – aqueles que são tanto de santos como de pecadores. Ou então arranjar novas formas de vida fácil – a História está cheia delas.


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Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012
Priscila Rêgo

José Mendonça da Cruz, no Corta Fitas, tem um post imperdível acerca de Estado social, política orçamental, promoção de "casamentos biologicamente inférteis" (casais estéreis, presume-se) e, hum, uma data de outras coisas importantes. Todas interligadas. Pela ignorância, claro.

 

Acerca da importância da natalidade para o Estado Social, já escrevi este post. A propósito da sustentabilidade do Estado Social, escrevi este. Mas acerca do preconceito só consigo mesmo pensar neste vídeo.  

 


Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
Priscila Rêgo

Vamos imaginar uma economia fechada, que funciona com plena utilização de recursos (PIB = PIB potencial). Esta economia não tem impostos, pelo que toda a despesa pública é financiada por dívida pública. O investimento privado também é financiado com recurso à dívida. É algo deste género:

 

 

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Tiago Moreira Ramalho

«Estamos saturados de manhosos, desconfiados de moralistas, estamos sem ídolos, sem heróis, estamos encandeados pelos faróis dos que saltam para o lado do bem para escapar à turba contra o mal. Quando apanhamos, abocanhamos. Estraçalhamos. Somos uma multidão furiosa. Às vezes, erramos. A família Soares dos Santos não está a fugir aos impostos. Mesmo se vai fugir ao País. 

Só há um antídoto contra a especulação: a informação. É assustador ver tanta opinião instantânea sobre o que se desconhece. A sede de vingança tomou o lugar da fome de justiça. O problema não está na rua, nas redes sociais, nas esquinas dos desempregados. Está em quem tem a obrigação de saber do que fala. Do Parlamento, de Ana Gomes, de António Capucho, dos que pedem boicotes ao Pingo Doce(para comprar onde, já agora? No Continente da Sonae que tem praças na Holanda? No Lidl, que as tem na Alemanha?).
A decisão da família Soares dos Santos pode ser criticada mas não pelas razões que ontem se ouviu. A Jerónimo Martins não vai pagar menos impostos. E a família que a controla também não - até porque já pagava poucos.
Uma empresa tem lucro e paga IRC; depois distribui lucro pelos accionistas, que pagam IRC (se forem empresas) ou IRS (se forem particulares). Neste caso, a Jerónimo continua a pagar o mesmo IRC em Portugal (e na Polónia); o seu accionista de controlo, a "holding" da família Soares dos Santos, transferiu-se para a Holanda. Por ter mais de 10% da Jerónimo, essa "holding" não pagava cá imposto sobre os dividendos e continuará a não pagar lá. Já quando essa "holding" paga aos membros da família, cada um pagaria 25% de IRS cá - e pagará 25% lá. Com uma diferença: 10% são para a Holanda, 15% para Portugal.
Porque tomou a família uma decisão que, sendo neutra para si, prejudica o Estado português? Pela estabilidade e eficácia fiscal de lá, que bate a portuguesa. Pelo acesso a financiamento, impossível cá. E porque a família tem planos de crescimento que não incluem Portugal. 
Aqueles que se escandalizaram ontem deviam ter-se comovido também quando, há um par de meses (como aqui foi escrito), a Jerónimo anunciou como iria investir 800 milhões de euros em 2012: 400 milhões da Colômbia, 300 na Polónia... e 100 milhões em Portugal. Isto sim, é sair de Portugal. E quando a Jerónimo investir na Colômbia, provavelmente vai fazê-lo também através da Holanda, onde se paga menos. Estes são problemas diferentes dos que ontem foram enunciados: a falta de atracção de investimento de Portugal; e a instabilidade fiscal, que muda leis como quem muda de camisa, afastando o capital.
A família Espírito Santo tem sede no Luxemburgo. Belmiro lançou a OPA à PT a partir do Holanda. O investimento estrangeiro é feito de fora. Isabel dos Santos investe na Zon a partir de Malta. Queiroz Pereira tem os activos estrangeiros separados de Portugal. António Mota desabafa há dias que pode ter de criar uma sede fora de Portugal só para que a banca lhe empreste dinheiro. E a família Soares dos Santos tem um plano que não nos contou mas que ainda nos vai surpreender - feito com bancos estrangeiros e a partir da Holanda, que é uma plataforma fiscal mais favorável à internacionalização para fora do espaço europeu, uma vez que não há dupla tributação da Holanda para e do resto do mundo.
O que custa a engolir não é que Soares dos Santos tenha cortado o passado com Portugal, esse mantém-no e continua a pagar impostos. É que tenha cortado o futuro. É que tenha decidido investir fora daqui porque aqui não tem por onde crescer, para procurar lucros fora de Portugal, criar postos de trabalho fora de Portugal e, então sim, pagar impostos desse futuro fora de Portugal. Pensando bem, esse é um grande problema e é um problema nosso. Mas investir fora do País não é traição. É apenas desistir dele. E a Jerónimo já partiu para a Polónia há muitos, muitos anos - ou ninguém reparou?»

 

Pedro Santos Guerreiro, Jornal de Negócios.


Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012
Tiago Moreira Ramalho

Ao decidir transferir os capitais da sua empresa para a Holanda, Alexandre Soares dos Santos parece ter comprado o ódio generalizado das «elites esclarecidas». Lideradas por Nicolau Santos, autor de colunas de opinião invejáveis (invejáveis!), as almas indignadas atacam o homem que agora não pagará impostos em Portugal. Este homem que não é patriota, que é um Judas televisivo, que é, se nos permitíssemos tanto, um pulha.

Pois tudo isto consiste num conjunto de erros de facto ou erros de análise. Com a transferência, a única coisa que não paga impostos é a empresa em questão – uma empresa detentora de capitais financeiros que recebe coisa de 50% dos dividendos da Jerónimo Martins. A Jerónimo Martins continua a pagar todos os necessários impostos – IVA, IRC e restante molhada. Os Pingos Doces ainda são da gente, malta, ainda nos pagam impostos. Isto para não referir (referindo) a quantidade de empregos que a Jerónimo Martins mantém em Portugal, coisa muito contra a pátria que esse Soares dos Santos, o malandro, anda a fazer.

Agora a ética. Ai, como gostamos de mandar uma laracha ética, uma pequena chapadinha de moralismo. Este Judas, que vinha para a televisão mandar bitaites, agora furta-se ao imposto bom que Portugal cobra. Não contribui, o maldito. O que Soares dos Santos fez foi uma decisão perfeitamente banal nos mercados: arranjou o seu portfolio de maneira a ter os melhores resultados. A elite indignada, em vez de atacar quem toma decisões acertadas, devia ajudar a perceber porque é que as decisões acertadas não passam por aqui. Nem para o Soares dos Santos, nem para qualquer pessoa que queira ter uma vida decente. Olhemos para esses milhares de jovens trabalhadores, investigadores e empreendedores que se vendem ao monstro estrangeiro, gente sem pátria nem honra, nem ética. É isso, não é?


Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
Priscila Rêgo

Qual é o problema deste gráfico? Há algumas óbvias. Não contabiliza toda a dívida pública, não compara o crescimento da dívida com o crescimento da economia e não inclui qualquer correcção para efeitos de catching up. Mas estas nem são as principais limitações. O mais importante é que o nível de dívida pública, por si mesmo, não nos diz muito acerca do suposto "consumo fácil".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Vasco M. Barreto

Os últimos dias de Dezembro são os mais livres. É a sofreguidão de antecipar o balanço do ano e a memória curta a libertá-los da História, e é o equilíbrio entre as frustrações do ano findo e o optimismo do renascimento vindouro a dar-nos – enfim, a dar-me, que cada um sabe de si – uma sensação de imponderabilidade, como a bola lançada ao ar no exacto momento em que já não sobe e ainda não desce. Mas, por estes dias, também senti a vã obrigação de escolher a “figura do ano”. Sem hesitar, a palma vai para Yasuteru Yamada, o reformado engenheiro japonês de 72 anos que tentou recrutar um grupo de companheiros do autodenominado (mas não são terroristas) “Skilled Veteran Corps” para dar uma mãozinha nos trabalhos de contenção da fuga radioactiva provocada pelo acidente na central nuclear de Fukushima. É longo o eco desta notícia na cabeça do ocidental, por causa de Hiroxima e Nagasáqui, mas também porque o Japão é o país em que um forte sentimento de honra deu ao mundo um ritual de suicídio violento (o harakiri) e que na Segunda Guerra Mundial criou a carreira com menores perspectivas de futuro. Inevitavelmente, um idiota útil perguntou se Yamada era um “kamikase”, ao que o nosso homem respondeu com o invejável eufemismo nipónico, lembrando que no caso dos aviadores mártires não havia grande “gestão de risco”. Yamada frisou sobretudo a lógica: na sua idade, o efeito mais pernicioso da radiação (um cancro que demora décadas a manifestar-se) seria muito menos dramático do que num indivíduo mais novo, com uma esperança de vida maior. Daí o absurdo de comparar a decisão racional, mas generosa e corajosa, de um cidadão livre com o horror de um sacrifício pela pátria que só a propaganda de Estado fez passar por voluntário.

 

No "i", hoje.


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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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