Sábado, 30 de Junho de 2012
Priscila Rêgo

O João Miranda tem dois posts interessantes acerca do descalabro que está  acontecer na receita fiscal. Lembrei-me que talvez valha a pena introduzir uma nuance na versão que ele chama de 'lafferiana'. 

 

Segundo Laffer, há um determinado nível de taxa de imposto a partir do qual a actividade económica é de tal forma desincentivada que a colecta real acaba por descer. É uma espécie de tiro no pé fiscal. E é com esta 'etiqueta' que o JM classifica quem diz que os impostos já estão no limite do tolerável. 

 

Ora, o que me parece é que há pelo menos duas formas de defender que mais subidas de impostos não vão ter como resultado mais receita:

 

Hipótese lafferiana - os impostos afectam os incentivos e tornam a criação de riqueza relativamente menos atraente do que o lazer (sobretudo se estivermos a falar de taxas marginais progressivas de imposto sobre rendimentos). Aumentar taxas diminui a base de incidência e faz com que a colecta total seja menor. 


Hipótese keynesiana - os impostos não têm grande efeito nos incentivos. Mas os impostos representam procura que é retirada da economia e que ajuda a aprofundar a recessão, diminuindo assim a base de incidência. O que é relevante não é o efeito distorcionário dos impostos, mas o seu impacto macroeconómico. 

 

A primeira hipótese é microeconómica e baseia-se no efeito dos incentivos. A segunda é macroeconómica e foca-se no efeito que uma variável da procura tem sobre a economia. Como é que distingue um do outro? Uma forma simples é manter as taxas constantes e esperar pelo longo prazo. Se a receita voltar a aumentar quando a economia ajustar e a recessão passar, é a segunda hipótese a verdadeira; se a receita fiscal se mantiver ad eternum no nível actual, parece mais fácil aceitar a hipótese lafferiana, segundo a qual houve uma alteração estrutural na economia.

 

Fora isto, está um dia lindo lá fora.  


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Sexta-feira, 29 de Junho de 2012
Tiago Moreira Ramalho

Imaginar uma actuação do Estado que não tenha um efeito moralizador, mesmo que muito subtil, e mesmo que a actuação não tenha esse propósito, requer, parece-me, uma capacidade criativa sobre-humana. E digo capacidade criativa e não analítica por acreditar francamente que só um nível de criatividade superior poderia suportar tal descoberta. No caso do aborto em particular, tanto a despenalização como a inclusão do tratamento no serviço público de saúde são actos moralizadores. De uma certa ideia de moral, é certo. Mas moralizadores, ainda assim. Ao mesmo tempo, qualquer coisa que se decida sobre taxas moderadoras na área também terá, seja explícita ou implicitamente, um efeito moralizador. Seja a isenção, o pagamento generalizado ou o pagamento em casos particulares, qualquer opção denota uma postura da comunidade perante o serviço médico e perante o acto em si. E é por isto que acusar qualquer opção de comportar uma qualquer visão moral é redundante.

A decisão colectiva que levou à despenalização do aborto foi o que foi e as suas consequências são o que são. Não incluir o aborto no serviço público de saúde é, tendo em conta a sua natureza, um disparate. No entanto, e precisamente porque o Estado português investe na distribuição de métodos contraceptivos, consultas de planeamento familiar e restantes meios para que os casais possam evitar o que se convencionou chamar «acidentes», é também um disparate encarar da mesma forma – ainda que tudo seja legal – um aborto motivado por um «acidente» e um aborto motivado por risco de vida da mãe, por exemplo. Isto, lamento, seria sem dúvida «moralizador». E de uma «moral», essa sim, inaceitável. Pode ser chamado de tudo, mas agrada-me que o Estado português não acomode uma visão «contraceptiva» do aborto, ao mesmo tempo que garante a saúde (ou mesmo a vida) de mulheres cujo «acidente» não tinha forma de ser evitado.


Rui Passos Rocha

Enquanto não faço dele refeição, quero acreditar que em parte do Letters to a Young Contrarian Christopher Hitchens deixou umas notas sobre o quão temperada deve ser a exposição de cada um a opiniões contrárias. Cheira a óbvio (será?) que o espírito crítico seja tanto mais afinado quanto mais desenferrujado se estiver no debate lógico, mas talvez seja esticar a corda que isso signifique procurar constantemente a presença de advogados do diabo. Não faltam momentos em que, a bem de paliar o desassossego, se quer como companhia quem sinta e pense algo semelhante.

 

Momentos significativos. Pode ser um jogo de futebol, uma ida à mesquita ou a um concerto. No meu caso, hoje, um filme ao ar livre. Assim como me teria custado ouvir que Portugal - que afinal perdeu por uns centímetros de ferro - jogou mal contra a Espanha, fez-me comichão quando um grupo vizinho se perguntou, sobre Uma Separação, se «esta merda foi nomeada para um Óscar». Nesses segundos, como do início ao fim do filme, estava eu preso à intensidade do retrato: dois personagens em choque tentam resolver-se em tribunal mas ambos relatam a sua versão dos factos sabendo que, se incriminados, terão pela frente as grades da prisão. Esta tensão é interessante sobretudo por ser moldada por preceitos religiosos (o filme é iraniano). Para não deixar isto no abstracto deixo o trailer:

 

 

Ao contrário do futebol ou da religião, em que a escolha de trincheiras é praticamente aleatória (ou porque se nasceu naquele país, ou porque se assistiu àquele jogo com os sentidos particularmente apurados), no caso da cultura as preferências evoluem de forma menos emotiva e mais gradativa. Não estivesse toldado pelo desprezo eu teria tido interesse em perceber o porquê daqueles comentários tão vincadamente depreciativos. Longe de «uma merda», Uma Separação é no mínimo interessante pelo enredo tão improvável que expõe falhas gritantes de sociedade patriarcais e cegas de leis taxativas sem alíneas nem excepções. Como o são os mandamentos.

 

Vale-me, para a sensação de pertença, ter ouvido de outros em volta comentários muito positivos sobre o filme. Mesmo que tenham sido poucos, se alguns se embasbacaram com o argumento então já terá valido a pena. Aos outros, os Miguéis Relvas que perderam o seu tempo e privatizariam a Cinemateca e a RTP2 sem grande negociação, desejo que um dia digam de algo o que Herman José disse sobre a BBC: que vê-la mudou-lhe a vida - como este filme, e outros antes dele, contribuíram para que a minha desse umas voltas ainda muito incompletas. Não é a arte que deve rebaixar-se, é a gente que deve elevar-se (palavras de Oscar Wilde). Quantos mais melhor. Haja investimento para isso.


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Quinta-feira, 28 de Junho de 2012
Tiago Moreira Ramalho

São poucas as grandes crises que não precedem grandes mudanças. Porque, por um lado, uma grande crise põe a nu os excessos e defeitos das comunidades afectadas e porque, por outro lado, no meio da miséria geral, a percepção é a de que pouco há a perder em mudar. Se, por um lado, traz saúde tirar as roupinhas às falhas, há que haver sempre um equilíbrio na verve progressista de quem julga que o mundo é um gigante erro a cada manifestação menos boa.

A construção europeia foi feita num suceder de remendos a manifestações menos boas desse possível grande erro. Os primórdios responderam a uma guerra e a um regime nefasto mais a leste. Os avanços subsequentes foram reacções a mal-estares, europessimismos ou simples rebentar de costuras. Hoje, perante uma nova grande crise, falamos de novo em mudar tudo. Falamos em tratados orçamentais, falamos em governos europeus, falamos em federalização de dívidas, falamos em mudanças profundas da condução de política do BCE. Cada pequeno interveniente procura, no seu estiradorzinho de arquitecto institucional, atirar uns pozinhos de perfeição à bagunça reinante. Tudo ao mesmo tempo que se demonizam uns, infantilizam outros e se mantém a rebaldaria em lume brando.

Não há nada que impeça um tratado orçamental, como não há nada que impeça um BCE diferente, ou um governo europeu, ou qualquer outra mudança em cima da mesa. O problema não são necessariamente as possíveis mudanças, mas sim a tremenda falta de credibilidade das nossas regras. O funcionamento europeu é de uma instabilidade impressionante. As poucas regras que existem são sistematicamente violadas, roubando-se estabilidade aos que vêm por um leve respirar dos que estão. E não há interveniente político, por muito mentalmente diminuído que seja, que não se sinta no direito de impor mudanças profundas a bem de ridículos ganhos presentes. A atitude poderia resumir-se na magna voz do inaudito parlamentar António José Seguro, que foi capaz de, numa discussão sobre a posição de Portugal no Conselho Europeu, dizer que se o BCE emprestasse directamente aos Estados, Portugal já podia ter subsídios de férias e Natal para os funcionários públicos e pensionistas. Uma mudança fundamental no funcionamento europeu para que Portugal pagasse dois subsídios. Seriam óptimos, os subsídios, não tenhamos dúvidas. Mas melhor ainda seria manter um módico de dignidade nacional. Isso, ou passarmos pelos pequenos hippies da União.


Quarta-feira, 27 de Junho de 2012
Tiago Moreira Ramalho

Na Comissão de Orçamento e Finanças, Honório Novo pede defesa da honra da bancada a que pertence quando Michael Seufert e Vítor Gaspar resumem as consequências das propostas comunistas na elementar bancarrota portuguesa. Ao mesmo tempo, o cada vez menos verosímil António José Seguro, com punho a meia haste, condena o governo de arrastar o país para uma situação insustentável. Um governo eleito há escasso ano atrás e cuja principal missão foi a implementação de um Acordo de Estabilização Económica (é bom regressar às antigas designações, tão cá de casa). A insustentabilidade portuguesa, essa, resume-se a um desvio orçamental, naquele que é o período de maior incerteza da economia portuguesa das últimas décadas, e a um inevitável aumento do desemprego. Uma «insustentabilidade» de um modo geral bastante previsível.

Razão tem António Barreto (como de costume, aliás). Nestas alturas não há nada como ouvir gente que por cá anda a gastar estradas há tempo suficiente e cuja memória não morre nem pode matar. E o que diz António Barreto é confrangedoramente simples: todos sabíamos o que ia acontecer. Há um ano, quando o Acordo foi assinado, sabíamos que íamos ter anos sem crescimento. Sabíamos que, tal como no passado, íamos ter desemprego, cortes de despesas, aumentos de impostos. E espantoso no meio de tudo isto é a surpresa geral cada vez que há uma variação decimal de cada indicador. Isso e as «desonras», as «insustentabilidades» e restante folclore resultantes de esquecimento, ignorância ou fundamental desonestidade.


Rui Passos Rocha

Começa a ser difícil para o Sol ter o que dizer até sobre os feitos descomunais do regime angolano. Aconselho por isso a equipa de José António Saraiva a basear-se nisto para retratar a classe média portuguesa e os milhões de euros que ela gasta mensalmente, quando poderia poupar uns milhares aqui e ali.


Quarta-feira, 20 de Junho de 2012
Priscila Rêgo

O desemprego é um mito criado pela comunicação social. O Ricardo Campelo de Magalhães, do Insurgente (acho que vou criar uma tag só para ele), fez a descoberta e decidiu partilhá-la com o resto do mundo. 

  

Parece que a percentagem da população empregada é hoje muito maior do que nos "dourados" anos 50 e anos 60. Ou, como ele diz, "o problema da actual crise não é a falta de empregos".

 

 

 

 

O Ricardo desvendou uma conspiração da imprensa mundial para ocultar a força do mercado laboral americano. Ou, então, esqueceu-se só que dos anos 50 para cá as mulheres, enfim, saíram de casa. 

 

 

 

 

Em baixo, um retrato mais fiel de uma economia que não tem problemas de emprego (dados da Reserva Federal)

 

 

 

 

 


Terça-feira, 19 de Junho de 2012
Priscila Rêgo

Os espanhóis andam todos a barafustar com os cortes de salários, subidas de impostos e por aí fora. Mal sabem eles que é tudo ilusão. Em Espanha, como nos explica uma criatura iluminada no Wall Street Journal, a austeridade não falhou – porque nunca foi tentada

 

 

 


Priscila Rêgo

O Rui Albuquerque faz aqui umas considerações interessantes acerca do Estado, do impostos, da economia e de muitas outras coisas que é difícil deixar passar em claro (os antecedentes estão aqui e aqui). E num daqueles tons que me dá cá uma urticária…

 

Primeiro, a questão ética. É difícil discutir com quem parte do axioma de que os impostos têm o mesmo estatuto moral do roubo e que, no que diz respeito a taxas, tudo o que cai acima de 0% já começa a pedir um apelo às armas. Não porque seja um postulado difícil de refutar (os pressupostos também se discutem, e este nem é particularmente robusto), mas porque a relação custo/benefício de entrar por este caminho é péssima. 

 

A discussão acerca dos aspectos empíricos do post do Rui parece-me muito mais fértil e promissora. E tem a vantagem, pequenina, de que não nos obriga a recuar 300 anos para discutir filosofia de John Locke.. Em tom irónico, ele pede:

 

o favor de me especificar as variações tributárias que refere terem ocorrido nos EUA, ao longo do período dos últimos 60 anos, e que afirmou terão oscilado entre os 28% e os 92%, no que se refere ao imposto sobre os rendimentos. Gostaria de as conhecer, se possível, por anos de incidência, e, já agora, sobre que percentagens de rendimentos incidiram os impostos mais elevados e durante que períodos de tempo, os tais impostos que, para o Ludwig, “não destroem a economia”.

 

Felizmente, não precisamos de informação tão minuciosamente detalhada. Se o que queremos é perceber o impacto dos impostos no crescimento económico, podemos apoiar-nos em investigação empírica feita por quem sabe. Não é preciso começarmos nós a inventar a roda do nada: há quem já ande nisto há uns aninhos. 

 

Este estudo é um exemplo. As conclusões, que não são particularmente fascinantes tendo em conta estudos semelhantes feitos anteriormente, apontam para um impacto relativamente pequeno das taxas marginais de impostos nos incentivos à criação de riqueza. Impostos mais altos não tornam os ricos substancialmente mais indolentes; fazem sobretudo com que estes gastem mais dinheiro a tentar encontrar “buracos” no código fiscal, mas isto é apenas um argumento para tornar a lei mais simples e eficaz. 

 

Deixem-me repetir, para ficar tudo bem claro. Ninguém nega que os impostos têm um impacto na actividade, e que este impacto é negativo e que pode ser potencialmente destrutivo. O que a investigação empírica mostra é que a magnitude deste efeito é consideravelmente mais baixa do que se pensava há algumas décadas. É possível subir taxas – particularmente quando elas estão a um nível relativamente baixo, como é o caso dos EUA – sem afectar de forma significativa o crescimento económico e sem atingir o “ponto de viragem” da curva de Laffer.

 

O curioso é que esta até é uma das (poucas) áreas em que a economia das finanças públicas tem produzido resultados relativamente consensuais (na medida do possível, vá) dentro da academia. Outra das conclusões razoavelmente pacíficas a que se chegou é que é muito menos o nível de taxas, e mais a complexidade e a existência de "buracos" no código fiscal, que corrói a eficácia dos impostos. É por isso que uma recomendação transversal a todos os relatórios da OCDE acerca de consolidação orçamental é reduzir ao mínimo os benefícios e isenções fiscais. Ironicamente, o fim das deduções à colecta é uma das coisas que mais indignam o autor.

 

Eu não espero que o Rui leia este post e vá abraçar o socialismo (ler com algumas reservas a propaganda que vai saindo no Instituto Mises já seria algo a saudar). Mas tenho a esperança de que tenha mais algum cuidado, e humildade, sempre que quiser começar um post com frases tão retumbantes como "Impostos elevados sobre o rendimento das pessoas e das empresas são a fórmula necessária e suficiente para a destruição de qualquer economia e da riqueza de qualquer país que os aplique"

 


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Domingo, 17 de Junho de 2012
Priscila Rêgo

Durante algum tempo doei uma pequena parte do meu ordenado a uma instituição de solidariedade social. Acabei por parar por causa de algumas más experiências, mas agora queria voltar a fazer o mesmo. Alguém conhece uma instituição séria, confiável e que saiba como gastar bem o dinheiro (não necessariamente de Lisboa)? Sugestões podem ser feitas por comentário ou e-mail. 


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Sexta-feira, 15 de Junho de 2012
Priscila Rêgo

Maria João Marques não está convencida de que uma descida de impostos financiada por cortes na despesa pública tenha um efeito contraccionista na economia. E escreve:

 

“No curtíssimo prazo, há inúmeros efeitos de sentido contrário a agirem simultaneamente. O mais provável é que os efeitos se compensem e a produção fique na mesma ou com variações negligenciáveis num ou noutro sentido. Aos que presumem poder prever que efeito imediato este corte de imposto teria na procura e nos ordenados, deseja-se boa sorte”.

 

Mas este corolário é apresentado depois de uma exposição de cenários que é, no mínimo, enganadora.

 

Por exemplo, não há razões para esperar que, se as famílias pagarem as suas dívidas às empresas portuguesas, a procura destas últimas aumente (as empresas também estão, elas próprias, a desalavancar). Pela mesma ordem de razões, também não é expectável que uma redução de impostos sobre o capital, que aumente o rendimento disponível das empresas, seja usada para aumentar a procura. O dinheiro fica apenas a circular entre sectores (Governo, empresas, famílias, bancos), sem alimentar a procura e destruindo, no processo, parte da actividade económica. 

 

Portanto, o espectro de resultados possíveis não é um cenário em que a produção cai um poucochinho e um cenário em que a produção aumenta um poucochinho. É um cenário panglossiano em que tudo corre pelo melhor e a actividade se mantém, e um cenário realista em que a actividade cai, e cai a sério. Resta apenas determinar a magnitude desta queda, bem como a sua duração – que não será certamente de “curtíssimo prazo”, a julgar por todos os estudos empíricos realizados neste domínio. 

 

Felizmente, não precisamos de levar a “imaginação aos limites” para cenarizar e explorar as consequências de cada política. Este é o tipo de coisa que o Banco de Portugal faz regularmente, e que pode ser consultada pelo público em geral (exemplo). 


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Quarta-feira, 13 de Junho de 2012
Priscila Rêgo

Tudo em filinha, para os leitores menos atentos:

 

Baixar salários I

Baixar salários II

Baixar salários III


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Priscila Rêgo

O curioso é que a ideia de que os salários são uma variável de ajustamento essencial no curto prazo está presente num dos primeiros parágrafos da Maria João Marques, quando diz que “tem sido comum nas empresas privadas nestes últimos anos a contenção salarial, quando não mesmo o congelamento dos salários nominais (o que implica a descida dos salários reais) ou a diminuição de prémios de produtividade e outras regalias”

 

 

 


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Priscila Rêgo

Já fizemos a distinção, que é importante reter, entre produtividade e competitividade. A Maria João Marques argumenta, repetindo o que já ouvimos noutros lados, que o problema não está nos salários. “Só alguém alucinado pode supor que o problema dos salários é o fulcro da falta de competitividade nacional”. Ela refere outros factores como o Estado gordo, leis absurdas, a hiper-regulação, a legislação laboral, a TSU e a administração fiscal.   

 

 

 

 

 

 


Priscila Rêgo

A Maria João Marques e o João Miranda estão a discutir uma descida de salários no sector privado (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Evitando alguns dos caminhos por que o debate seguiu – assim de cabeça não me parece muito relevante discutir o “multiplicador dos gastos públicos” – queria deixar aqui umas pinceladas. Para não maçar ninguém, a série é dividida em três partes.

 

 

  


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Sexta-feira, 8 de Junho de 2012
Priscila Rêgo

Acerca da discussão entre as causas do desemprego (ver João Miranda e Miguel Madeira), o Carlos Novais diz o seguinte:

 

Quando a economia entra em recessão, a massa salarial tem necessariamente de baixar. E assim, quanto mais pessoas quiserem proteger (via legislativa ou voluntária não aceitando revisão dos contratos) a totalidade do seu salário mais pessoas irão perder a totalidade do seu salário (desemprego).

 

Isto parte do princípio de que as empresas tentam reagir a uma quebra de procura baixando salários. Mas não é óbvio que esta seja a melhor opção - mesmo do ponto de vista do próprio gestor-maximizador-de-lucro. Por exemplo:

 

a) Baixar salários pode ter um custo motivacional. Se isto for verdade, é melhor tentar poupar 1000€ com um despedimento do que uma redução salarial across-the-board que permita a mesma poupança. Assim, mantém-se o nível motivacional dos que trabalham e concentra-se o desconforto nos elementos que já não contam para o processo produtivo (os desempregados).  

 

b) O elemento anterior ganha ainda mais força se se assumir que os trabalhadores não são todos iguais e que há relações contratuais mais fáceis do que romper do que alíneas de outros contratos. Mesmo que a produtividade marginal seja semelhante, os custos motivacionais (e reputacionais) variam de trabalhador para trabalhador, o que justifica, do ponto de vista da análise custo-benefício, um tratamento divergente.

 

c) A negociação salarial não é feita em leilão. No curto prazo, os salários resultam de 'bluffs' ["tenho uma proposta da concorrência, quer cobrir?"], jogos de aparências e golpes de sorte. Devido a esta assimetria informacional, um gestor pode ter receio de que um apelo à redução de salários seja lido não como uma forma de manter postos de trabalho mas como um desejo de alterar a divisão de lucros entre o trabalho e o capital. 

 

d) Há custos de "menu" que, mais uma vez, não estão distribuídos de forma homogénea. É mais fácil prescindir do trabalho de umas dezenas de "recibos verdes", e voltar a contratá-los se a conjuntura melhorar, do que baixar milhares de salários e posteriormente voltar a subi-los (até por causa dos problemas da negociação identificados no ponto anterior).

 

Agora imaginem estas fricções a actuar todas ao mesmo tempo e percebem por que é que no mundo real as coisas não funcionam como o modelo simples de microeconomia I prevê.    

 


Priscila Rêgo

Qual é exactamente o problema de o Estado gastar mais dinheiro per capita no ensino básico e secundário do que no universitário?

 

A intervenção do Estado pode justificar-se por várias razões mas, no caso do ensino, são sobretudo duas: eficiência e equidade. Eficiência porque a educação traz benefícios que vão para lá dos agentes que entram nessa transacção (aluno e escola): se todos ganhamos com a existência de gente educada e civilizada, faz sentido que contribuamos para isso com impostos.

 

E equidade porque a educação é um dos factores que mais influencia a evolução dos rendimentos ao longo da vida. É uma variável útil e simples de utilizar para controlar a desigualdade, e com menos inconvenientes do que a correcção a posterior. Subsídios, ajudas e outros milhares de apoios e que acabam inevitavelmente por proliferar são um remendo relativamente menos eficaz.

 

Segundo o primeiro critério, faz mais sentido concentrar os apoios nas fases iniciais do ciclo educativo, porque é daí que brotam as maiores externalidades. Todos ganhamos em ter vizinhos que têm requisitos básicos para a vida em comunidade, ao passo que os benefícios de um PhD em matemática aplicada são colhidos sobretudo por quem o concluiu. Mas é no caso da equidade que a indignação da Palmira faz menos sentido: num país em que o acesso ao ensino superior continua, apesar de tudo, a ser tão desigual, gastar mais com as universidades do que com escolas primárias significaria estrangular ainda mais a base da pirâmide social, limitando as capacidades de progresso de quem teve o azar de nascer numa família errada; e então usar esses recursos para alimentar quem já estava no topo. 

 

E depois queixam-se de que Portugal é um país desigual. Pudera. A pensar desta maneira...

 

 

 


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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

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Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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