Quinta-feira, 30 de Agosto de 2012
Priscila Rêgo

Eu sei que já vem tarde - o post tem uns cinco ou seis dias - mas só agora li a pérola. Helena Matos cita um trecho de um texto que diz que "todo o argumento que tenta estabelecer uma distinção moral entre animais humanos e não humanos, tenta retirar aos últimos o direito a ter direitos somente por pertencerem a uma espécie diferente da nossa"

 

Vindo de onde vem (Esquerda.net...) eu até diria que é uma das coisas mais ponderadas, sensatas e razoáveis que se lê por aquelas bandas. Mas a Helena Matos extrai, daqui, que "Nesse caso é tão válido a nossa espécie retirar direitos como dá-los porque os animais per si são alheios a essa visão humanizada da sua vida. Por este caminhar as águias ainda são obrigadas  a optar pelo vegetarianismo e o BE ainda vai exigir um canal do  serviço público de televisão para vacas e RSI para as ratazanas altruístas".

 

Hum, como disse?

 

Ó Helena, os bébés e alguns deficientes mentais também são alheios a essa "visão humanizada" da sua vida. Isso não significa que tenhamos a liberdade de os espancar, violar ou matratar. Os direitos éticos não se fundam na reciprocidade. Isso não é ética nem moral nenhuma - é calculismo. E para promover o calculismo não precisamos de alterar a lei - acredite que cada um chega lá por si mesmo. 

 

E eu não sei o que o João Semedo acha do excerto do artigo em questão. Mas imagino o que ele acharia de um texto que começa a ironizar com uma trivialidade (que a distinção humano/não humano é um critério especista), passa para a conclusão de que só quem tem deveres pode ter direitos, e acaba a falar em RSI para ratazanas altruístas. Como ele é médico, talvez conseguisse identificar a patologia. 

 


Terça-feira, 21 de Agosto de 2012
Bruno Vieira Amaral

(Escrito a poucos dias do início dos Jogos Olímpicos)

 

Os puristas de sofá preparam-se para mais uma jornada de invocação dos nobres ideais do barão de Coubertin. Enquanto mais de dez mil atletas de todo o mundo cumprem o sonho de uma vida construído com o sacrifício de milhares de horas de treino, os profissionais da nostalgia e do “antigamente é que era bonito” maldizem a máquina de fazer dinheiro em que se tornaram os Jogos Olímpicos. No entanto, para os atletas, a consagração olímpica continua a ser o cume da carreira. Uma lesão ou uma queda que ditem a perda de uma medalha provocam lágrimas e desespero que não se podem justificar com os contratos que se perdem ou com os milhares de euros que não vão ganhar. No momento de competir, o dinheiro, o negócio, os patrocinadores, todos esses fantasmas que ameaçam a pureza da competição, desaparecem da cabeça dos atletas. Só há um objetivo: dar tudo. Mas nem sempre a cabeça dos atletas fica vazia ao ponto da concentração máxima. Por vezes, a cabeça atrapalha e anos de treino, de sacrifícios e de desejos evaporam-se num segundo, numa postura errada do corpo, numa barreira que não se consegue ultrapassar, num ensaio nulo, numa falsa partida. No momento da verdade, que separa os bons atletas dos imortais, alguns sucumbem à pressão e à ansiedade. Duvidamos que os seus cérebros, nesses segundos decisivos, estejam a pensar nos ideais desvirtuados de Coubertin. Naquele momento são eles a lutar contra os adversários por um lugar na história. E, frequentemente, quando os adversários já estão derrotados, o último e mais difícil obstáculo vem de dentro.

 

Seul, 1988. Domingos Castro participa na final dos 5000 metros e há boas possibilidades de conseguir uma medalha, talvez a de ouro. A corrida inicia-se e, por volta do primeiro quilómetro, o queniano John Ngugi isola-se. Com três quilómetros percorridos, Castro vai atrás dele, passa o resto da prova a 30 metros do adversário, mas tem uma vantagem confortável para os outros atletas. À entrada da última volta, a medalha de ouro é uma miragem, mas a medalha de prata é quase uma certeza. Até aos derradeiros cem metros. Vindos de trás, com pontas finais poderosíssimas, Dieter Baumann e Hansjörg Kunze, deixam Domingos Castro no mais frustrante dos lugares olímpicos, o quarto. Em vez de focarem o vencedor ou os outros dois medalhados, as câmaras centram-se em Castro a andar de um lado para o outro, incrédulo e em lágrimas. Acabara de perder uma oportunidade única de conseguir uma medalha em Jogos Olímpicos. Ainda participou em Barcelona 92, tendo terminado a prova em 11º lugar. Acabou a carreira com uma medalha de prata nos campeonatos do mundo de 1987. Faltou-lhe aquela que perdeu nos últimos cem metros na corrida de Seul. Imagino que, de vez em quando, o corredor ainda refaça mentalmente o percurso e se empenhe num esforço retroactivo para não ser ultrapassado, para não perder a sua medalha. Apesar disso, o caso de Castro não foi de um bloqueio. Para todos os efeitos, realizou uma prova notável e um dos seus melhores tempos na distância. Os outros foram simplesmente melhores. Nem sempre é isso que acontece. Quatro anos antes da ocasião perdida por Domingos Castro, Fernando Mamede chegou aos Jogos Olímpicos de Los Angeles como o melhor atleta do ano nos 10 mil metros. Mais: chegou como recordista mundial. Mamede era um atleta de eleição. Talvez o melhor da sua geração em talento inato. Moniz Pereira disse recentemente numa entrevista ao Público: “foi um atleta único, nunca vi ninguém assim.” Mas, no momento da verdade, o atleta de Beja bloqueava. Sentia o peso da responsabilidade, o “medo cénico”, e todas as suas incríveis qualidades não chegavam para derrotar a sua fragilidade mental. Naquele que seria o momento mais glorioso da sua carreira, fracassou com estrondo. Desistiu a meio da final. Não conseguiu libertar-se. Ficou amarrado. A cabeça pesava de mais. Pensava de mais. Segundo Moniz Pereira, Mamede tinha um grave problema de ordem psicológica. “Durante mais de dois anos ganhou os meetings todos em que participou, mas chegavas às grandes provas, Mundias e Jogos Olímpicos, falhava. Começava a queixar-se com dores e a dizer que não era capaz...Estava mais bem preparado que o Lopes, mas o dia chegava e fraquejava. Ao fim da primeira volta já era último. No final, perguntaram-me se ele tinha acabado como atleta e eu disse para esperarem pelo próximo meeting da Suiça. Chegou lá e ganhou. Era cabeça.”

 

Em alta competição, pensar de mais é, muitas vezes, o caminho mais rápido para o bloqueio. No seu artigo A Arte do Fracasso, Malcolm Gladwell dá o famoso exemplo do “estoiro” de Jana Novotna na final do torneio de Wimbledon contra Steffi Graff, em 1993. A tenista checa tinha feito um torneio notável até aí, tendo deixado pelo caminho Gabriela Sabatini e Martina Navratilova. Na final, perdeu um primeiro set no tie-break e ganhou o segundo set por demolidores 6-1. No terceiro set liderava por 4-1. Estava a um passo da glória. Podem confirmar no youtube a qualidade de algumas jogadas de Novotna (http://www.youtube.com/watch?v=BTwN_kQc0Pc). Comparem-nas com o ténis praticado a partir desse momento. Não parece a mesma jogadora. Duplas faltas, bolas contra a rede, respostas disparatadas. Graff manteve o equilíbrio, ganhou os cinco jogos seguintes, o set e o torneio. Quando recebeu o prémio de consolação, Novotna não aguentou e chorou no ombro da Duquesa de Kent. Vemos as imagens e partilhamos a frustração, a tristeza e a impotência de Novotna, sem ninguém para culpar a não ser a sua cabeça, a incapacidade de resistir à pressão de estar tão perto de ganhar o mais importante troféu do seu desporto. Foi como se naquele momento de viragem a tenista se tivesse ausentado de si própria, tivesse começado a olhar de fora o seu extraordinário desempenho, a racionalizar os movimentos, e esse pensamento tivesse quebrado o feitiço da união natural entre vontade e acção. Gladwell, que neste artigo distingue o bloqueio do entrar em pânico como duas formas diferentes de fracassar, resume assim o colapso de Novotna: “Quando Jana Novotna fracassou em Wimbledon, esse fracasso deveu-se ao facto de ela ter começado a pensar novamente nas jogadas. Perdeu a fluidez, o toque. Fez duplas faltas nos serviços e falhou bolas altas, as bolas que exigem maior sensibilidade em termos de força e tempo. Ela parecia uma pessoa diferente – a jogar com a deliberação lenta e cautelosa de uma principiante –, porque, num certo sentido, ela voltara à fase de principiante: estava a contar com um sistema de aprendizagem que não usava nos serviços nem nas defesas desde que aprendera ténis na infância.” Este processo é tão simples e rápido quanto aflitivo para quem o vive. É como acordar de um estado de transe competitivo. De repente, há um bloqueio dos movimentos naturais, da memória muscular e o atleta regride para o patamar da “aprendizagem explícita”, um termo científico utilizado por Gladwell no seu artigo e que é equivalente a um leitor adulto ler este texto dividindo as palavras em sílabas. Naqueles momentos, mentalmente, os atletas regressam aos bancos da primária. Foi o que aconteceu a Lolo Jones na final dos 100 metros barreiras em Pequim. A atleta norte-americana não bloqueou no sentido de ter feito uma prova desastrosa. Mas numa prova tão rápida e tão técnica como esta, o mínimo deslize significa a derrota porque não há tempo para corrigir o erro. Jones partiu pior que a australiana, mas a meio da prova já liderava. Quando faltavam duas barreiras, a medalha de ouro parecia ter encontrado a destinatária. Porém, Jones tropeçou na nona e penúltima barreira, desequilibrou-se ligeiramente e isso foi o suficiente para ser ultrapassada por seis atletas. Em entrevista à revista Time, a velocista norte-americana disse que em determinado momento começou a ver as barreiras a sucederem-se a uma grande velocidade e lembra-se de ter pensado que não se podia descuidar na técnica. Foi então que bateu na barreira: “Sinceramente, eu devia ter relaxado um bocadinho e ter-me limitado a correr.” O artigo da Time refere, com base em estudos sobre este tipo de bloqueios, que nestas ocasiões, devido à preocupação, o córtex pré-frontal é inundado por pensamentos quando deveria ser o córtex motor, que controla o planeamento e a execução dos movimentos, a ditar as regras. Em vez de se deixar ir, de flutuar, o atleta começa a pensar, o cérebro entope, indeciso entre a reflexão e a acção, e os músculos, como soldados confusos com ordens contraditórias, hesitam. Basta um segundo e a batalha está perdida. (Jones acabou no maldito 4º lugar dos 100 metros barreiras em Londres).

 

Vejamos a situação oposta, o momento em que um atleta se transcende, chegando muito mais longe do que era expectável. Há um caso recente. Algumas semanas atrás, o tenista espanhol Rafael Nadal enfrentou o checo Lukas Rosol em Wimbledon. Nadal tem onze títulos do Grand Slam, este ano já venceu o torneio de Roland Garros e apesar de a relva não ser o seu território preferido já triunfou em Wimbledon por duas vezes. Nada, a não ser a ocorrência de uma lesão ou um acidente cósmico, faria prever a derrota do espanhol contra o nº 100 do mundo. Mas foi isso que aconteceu. Razões? Depois da derrota, Rafael Nadal, o campeoníssimo Rafael Nadal, pouco habituado a perder nestas circunstâncias, procurou justificações e só conseguiu dizer que o adversário tinha “respondido sem pensar”. Com bolas disparadas a mais de 100 quilómetros por hora, o tempo para se pensar não é muito. Responder sem pensar parece uma boa estratégia e, para infelicidade de Nadal, resultou. O que o tenista maiorquino disse é menos interessante do que o que se percebe das suas palavras. Para Nadal, o ideal seria que Rosol tivesse pensado mais, tivesse tido mais consciência do palco, do adversário e das suas próprias capacidades (claramente inferiores às de Nadal). Mas Rosol optou por se esquecer de tudo isso e por responder sem pensar. Resultado: derrotou um dos melhores jogadores de sempre. Mas talvez não tenha sido uma opção, talvez a libertação de Rosol dos pesos do pensamento tenha sido involuntária, talvez tenha simplesmente acontecido. Temos a ideia que para um jogador ganhar a um adversário que lhe é superior tem de o conhecer muito bem, tem de definir uma estratégia que explore os pontos fracos de quem está do outro lado e tem de elevar os níveis de concentração a um patamar budista para resistir à batalha. O que o resultado de Rosol prova é que, por vezes, basta deixar-se ir. Um tenista profissional, mesmo um que esteja no 100º lugar do ranking, como era o caso de Rosol, é um desportista de elevado rendimento, muito bem preparado técnica, física e mentalmente. Quanto mais pensar na distância que o separa do topo da hierarquia maior lhe parecerá essa distância. Quanto mais pensar no adversário mais pensará sobre as suas próprias limitações. Quanto mais pensar na vitória, maiores serão as probabilidades de sair derrotado. A solução é: não pensar. Jogar. Regressar a um estado uterino, irrefletido, de açção pura. Há dois problemas: o não pensar não garante a vitória (em 10 jogos, Nadal provavelmente derrotaria Rosol em 9, por muito que este não pensasse) e não pensar é muito mais difícil do que parece, porque depende de um esforço voluntário rumo a um estado que é quase de transe. Neste sentido, o não pensar é uma espécie de transe autoinduzido, sem auxílio de outra coisa que não seja a força de vontade. Como se vê, é um equilíbrio quase impossível entre a inconsciência e a vontade, entre o esforço para chegar a um estado e esse estado que é essencialmente “sem esforço”. Rosol transcendeu-se. Não apenas no sentido de ter ido além das suas capacidades, mas no sentido religioso de transcendência. Como se os pensamentos tivessem migrados para os músculos, ossos e tendões. O truque é não querer ser mais esperto do que o corpo no território deste. O pensamento é muito útil num jogo de xadrez ou na resolução de uma equação matemática. Numa prova de alta competição pode ser desastroso.

 

Será que o segredo é ser estúpido? Não. O segredo é ser inteligente e deixar que a parte de nós mais bem preparada para lidar com aquele desafio assuma o comando. Se eu precisar de alguém para pilotar um avião vou recorrer a um piloto de longo curso com muita experiência e não ao rapaz que se licenciou em Matemática Aplicada com média de 20. Às vezes, ser mais inteligente pode passar por se pensar menos, não mais. Num ensaio sobre o livro de memórias de Tracy Austin, David Foster Wallace surpreendia-se com a pouca sofisticação dos comentários da tenista sobre o seu próprio desempenho desportivo. Esta constatação é, de facto, muito pouco surpreendente. Se há bons romancistas e poetas incapazes de produzir um discurso interessante sobre os seus ofícios por que é que esperamos que alguém que não trabalha com palavras o fizesse? A desilusão de Foster Wallace com a superficialidade dos desportistas leva-o a concluir que essa superficialidade não é apenas o preço a pagar pela excelência desportiva, mas a sua condição necessária: no desporto, só quem não pensa no que faz poderá fazê-lo perto da perfeição. Isto é, obviamente, um erro. Se perguntarem a Diego Armando Maradona em que é que ele estava a pensar enquanto fintava metade da equipa inglesa para marcar o que é considerado um dos melhores golos de sempre, a resposta será sempre frustrante quando comparada com a beleza dos movimentos em si. A dificuldade em descrever por palavras um desempenho desportivo de excelência não afeta apenas os próprios desportistas. Poucas pessoas serão capazes de executar essa tarefa ao nível do que o próprio Foster Wallace fez com o ténis de Roger Federer. Pedir que um desportista de topo seja eloquente quando fala do seu desempenho, que seja tão leve e gracioso nas palavras como é em campo, é exigir a coincidência de dois tipos de génio tão diferentes na mesma pessoa que o mais próximo que consigo imaginar seria o de esperar que Einstein tivesse sido campeão olímpico nos saltos para a água. Não é estranho que os desportistas tenham dificuldades em traduzir para palavras os seus movimentos em competição. Essa não é uma dificuldade exclusiva dos desportistas nem é uma condição para um desempenho de excelência. O que parece ser uma condição para um desempenho de excelência é que no momento da competição o desportista não tente pensar como um escritor sentado à secretária à procura da melhor maneira para descrever o que está a fazer. É na capacidade de entrar em transe, in the zone, no momento de maior pressão, em que a memória fica desligada, em que o atleta não está de facto a pensar em nada, que os grandes atletas se distinguem. O facto de escreverem maus livros de memórias não explica o seu extraordinário sucesso desportivo. Diz-nos apenas que deviam ter ficado pelo desporto porque o génio de escrever eloquentemente sobre a excelência desportiva é quase tão escasso como o próprio génio desportivo.


Sexta-feira, 10 de Agosto de 2012
Tiago Moreira Ramalho

Hoje acordei para ir ao dentista e enfiei-me a seguir num carro durante horas a fio, com um termometrozinho a roçar-se constantemente no número trinta e cinco, para chegar àquilo a que muitos, com alguma propriedade, chamam de parvónia. Não estarei seguramente saudável, fresco, airoso e fundamentalmente lúcido. E apenas porque a loucura não raras vezes traz fortuna escolhi este momento (que se segue à entoação do «Hino à Alegria» de Beethoven ali no sino da igreja da aldeia, numa clara demonstração que o nobre povo das Beiras não precisa de guardar moscas num S. Carlos) para me debruçar – ó p’ra mim – sobre o que Seabra, Zita Seabra, veio dizer (ou não) à televisão e ao eterno Crespo, de quem, a propósito (ou não), é editora.

Debrucemo-nos, ora pois. Um elementar facto é que Zita Seabra insinuou que o PCP espiava órgãos públicos portugueses a mando da (ou em colaboração com, como o Politburo luso gostaria de pensar, caso tudo isto não passe de um deliriozinho seabrino) República Democrática Alemã. Não foi em momento algum dito que equipamento era usado ou onde era incorporado. Por isto, e ao contrário do que se possa pensar, as declarações não se desmentem a si próprias. Muito pelo contrário. São particularmente carentes de desenvolvimento por (i) serem proferidas por uma destacada funcionária do partido à época e por (ii) nos levarem a pensar que uma organização política, com representação parlamentar e que chegou a integrar governos durante essa década, estava ao serviço de um outro Estado e pronta a lesar Portugal. Às declarações não faltam, portanto, credibilidade, vinda de quem as profere, e importância, dado o conteúdo.

Seria, por isto, de esperar que o PCP não fizesse pose de diva respondendo que as afirmações da «pessoa» não têm «crédito» nem «merecem comentário». O PCP foi acusado de uma prática gravíssima que coloca em causa a sua imagem pública (afinal, Zita Seabra é conhecida essencialmente por expor, com mais ou menos rigor, historietas internas do partido) e a reacção natural deveria ser um processo judicial. E porque isto não diz apenas respeito ao PCP, mas sim ao país,  deveria ser a própria PGR a avançar, caso não haja processos movidos pelas partes. Haja provas de tudo isto e ainda há muita gente viva para mandar para a cadeia. Inclusivamente, quem sabe, a própria Zita, que, a acreditar nas suas declarações, foi cúmplice de traição. 


Terça-feira, 7 de Agosto de 2012
Rui Passos Rocha

Todos queremos parecer muito inteligentes. Ou, no mínimo, todos queremos dar a entender que não somos idiotas. Custa perceber que em rigor devemos incluir "não sei" ou "acho que" em 90% das nossas frases; custa bem menos não usar essas expressões, talvez até convencendo-nos de que não é por orgulho que o fazemos mas porque seria, aos olhos dos outros, redundante fazê-lo. Mas isto provavelmente custa mais a quem menos faz por ser realmente inteligente, sendo a inteligência um critério mais qualitativo do que quantitativo - e fazer por ser inteligente implica saber como se deve fazê-lo, o que implica sentir atracção pela busca inacabada, para usar termos que farão João Carlos Espada rejubilar.

O texto de Elísio Estanque no Público de ontem é, para não variar, um exemplo de como é mais fácil encaixar a realidade, que é maçadoramente complexa, nas preferências pessoais. O texto tem o título sugestivo "Às portas do trabalho escravo" e reza assim:

 

«[...] Pode dizer-se que a luta é agora entre os "descomplexados competitivos" e os "preguiçosos coletivistas". As novas leis do trabalho são, portanto, o resultado de uma luta persistente dos primeiros contra o conservadorismo coletivista dos segundos (e contra o vírus sindical, que está moribundo mas não morto), visando a generalização do trabalho forçado, isto é, criando um amplo exército de famintos, uma nova força de trabalho disponível para o trabalho gratuito, que começa a emergir dos destroços da atual classe trabalhadora. Em vez da busca de compromissos que, desde o século XIX, o capitalismo industrial tentou estabelecer entre capital e trabalho, a linha dura que esta nova "internacional liberal" fortemente apoiada no capitalismo financeiro fez aprovar (e que, naturalmente, o Governo português foi dos primeiros a subscrever) retoma a velha ideia do "trabalho-mercadoria" como primeira prioridade a caminho do "Sol nascente" do hiperliberalismo competitivo. [...]»

Quase arrisco dizer que é também um exemplo de como o dito de Kahneman no post abaixo também se aplica a quem faz da investigação profissão, mas não posso estar seguro disso. E é também um exemplo de como o uso de palavras difíceis no discurso, para lhe dar uma roupagem inteligente, acaba por ter o efeito contrário: o de o interlocutor ficar com a impressão de que aquela pessoa não se saberia explicar em termos simples, no mínimo, ou está mesmo a tentar enganar os outros. Sobre isto, e para umas risadas, recomendo o livro Imposturas Intelectuais de Sokal e Bricmont e, como atalho, este paper de Daniel Oppenheimer.

Mas atenção que a realidade não é a preto-e-branco: o argumento da falta de honestidade intelectual aplica-se a quase toda a raça, talvez até a toda ela a espaços (sim, estou a incluir-me no lote). É a necessidade de não parecerem estúpidos que faz com que mesmo os que compreendem o método científico (no sentido de método para adquirir conhecimento o mais fiável possível) escorreguem: aconteceu com Orlando Figes, um dos especialistas da história soviética, e com Jared Diamond, um entendedor de como a geografia condiciona o desenvolvimento económico. Ambos quiseram embelezar as suas narrativas inventando uns estropiados cujas histórias de vida ilustrariam o declínio desta ou daquela civilização.

Curiosamente ou não, ambos se especializaram em realidades remotas: uma sociedade que já lá vai, no caso de Figes, e sociedades que ainda estão no sítio mas sobre as quais com sorte ouvimos falar meia dúzia de vezes por ano e devido a catástrofes naturais ou massacres (como a Papua Nova Guiné). Figes chegou mesmo a escrever na Amazon comentários negativos a obras de um seu concorrente, Robert Service; Diamond ficou-se por embelezar, ou até mesmo inventar (há um processo judicial em curso), citações - coisa que certamente chocaria o Sindicato dos Jornalistas, que tem a barriga cheia por a imprensa nacional não ter o hábito nem meios para fazer double-checking com as fontes. Diamond e Jonah Lehrer, que escreveram para a New Yorker, não tiveram essa sorte.

Elísio Estanque escreveu (como de costume) sobre aquilo em que se especializou (no sentido de "tema sobre o qual mais lê e escreve", mas acho que se percebe o que quero dizer com isto): o mercado laboral português. Fê-lo de forma henrique-raposiana, criando conceitos populistas para algo que é demasiado abstracto para poder ser falsificável, mas que obnubila e acicata quem se abespinha com facilidade (estou a ficar contagiado). O reverso da medalha é que - no caso de um como no do outro - escrever assim deixa um rasto indisfarçável de mau cheiro. Contra a tentação do pensamento estanque valha-nos o peer review.


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