Terça-feira, 31 de Maio de 2011
Priscila Rêgo

José António Saraiva, um homem que sabe do que fala, via O Intermitente. Transcrevo tudo porque há coisas que não se podem perder pela preguiça de clicar num link.

 

Muitas vezes fala-se da 'máquina de propaganda' do Governo socialista. Mas nunca houve uma tentativa séria de investigar como funciona, que métodos utiliza, quantas pessoas envolve, quem a dirige, etc.

Vou dizer o que sei.

Essa máquina desdobra-se por várias frentes. Tem uma espécie de redacção central, que funciona como a redacção de um jornal, cuja missão é fazer constantemente contra-propaganda. Dispõe de um blogue chamado Câmara Corporativa (http://corporacoes.blogspot.com) e está permanentemente atenta a tudo o que se publica, desmentindo as notícias consideradas negativas para o Governo.

Além disso, critica artigos de opinião publicados nos jornais, rebatendo os argumentos e, por vezes, ridicularizando ou desacreditando os seus autores.

Mobiliza pessoas para intervir nos fóruns tipo TSF que hoje existem em todas as estações de rádio e TV.

Selecciona na imprensa internacional notícias, artigos ou entrevistas favoráveis ao governo português e põe-nos a circular entre jornalistas e colunistas ‘amigos’.

A máquina do governo dispõe de uma redacção que ataca os artigos e os colunistas considerados hostis.

 

É por esta última razão que vemos às vezes opiniões publicadas em obscuros órgãos de comunicação estrangeiros citadas em Portugal por diversas pessoas como importantes argumentos.

Outra vertente são as relações com jornalistas. Há uma rede de jornalistas 'amigos' e a coisa funciona assim: um assessor fala com um jornalista amigo e dá-lhe determinada informação. Chama-se a isto 'plantar uma notícia' - e todos os Governos o fazem. Só que, uma vez a notícia publicada, às vezes com pouco destaque, os assessores telefonam a outros jornalistas e sopram-lhes: «Viste aquela notícia no sítio tal? Olha que é verdade! E é importante!». E assim a notícia é amplificada, conseguindo-se um efeito de confirmação.

Umas vezes as notícias plantadas são verdadeiras, outras vezes são falsas. O Expresso, por exemplo, chegou a publicar em semanas consecutivas uma coisa e o seu contrário. Significativamente, o que estava em causa era Teixeira dos Santos, que o PS queria queimar.

E constata-se que as notícias desagradáveis para a oposição têm mais eco do que outras. Veja-se a repercussão que teve uma carta de António Capucho publicada no SOL, que era um documento interessante mas não tinha a relevância que acabou por ter. A máquina de propaganda amplifica as notícias que interessam ao Governo.

Em seguida, os comentadores colocados pelo PS nos vários programas de debate que hoje enxameiam as televisões repetem os argumentos convenientes. José Lello, Sérgio Sousa Pinto, Emídio Rangel, Francisco Assis, etc., repetem à saciedade, às vezes como papagaios, as mesmas ideias. E mesmo António Costa, na Quadratura do Círculo, um programa de características diferentes, não foge à regra: nunca o vi fazer uma crítica directa a Sócrates. Mas vi-o fazer uma crítica brutal a Teixeira dos Santos, na tal altura em que começou a cair em desgraça.

As únicas situações em que as coisas fugiram do controlo da máquina socrática foram os casos Freeport e Face Oculta. Só que aí era impossível abafá-los. E para os combater foram lançadas contra-campanhas, como expliquei noutros artigos. E houve pessoas que pagaram por isso.

A par das relações com os jornalistas, que se processam diariamente, há outro aspecto decisivo que passa pelo controlo dos principais meios.

A tentativa de comprar a TVI falhou, mas José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes foram afastados e a orientação editorial da estação mudou. José Manuel Fernandes foi afastado do Público, e a orientação do jornal também mudou. Medina Carreira foi afastado da SIC. O SOL foi alvo de uma tentativa de asfixia. E estes são apenas os casos mais conhecidos.

Por outro lado, o Governo soube cultivar boas relações com os patrões dos grandes grupos de media - a Controlinvest, a Cofina e a Impresa -, também como consequência das crises financeiras em que estes se viram mergulhados.

Podemos assim constatar que, das três estações de TV generalistas, nenhuma hoje é hostil ao Governo. A RTP do Estado, a TVI - que era muito crítica - foi apaziguada, a SIC tem-se vindo a aproximar do Executivo. Ora isto é anormal na Europa. Em quase todos os países há estações próximas da esquerda, há estações próximas da direita, há estações próximas do Governo, há estações próximas da oposição. Em Portugal é diferente.

Ainda no plano da contra-propaganda, já falei noutras alturas da técnica do boomerang. Como funciona? Quando alguém da oposição (regra geral, o líder do PSD) diz qualquer coisa passível de exploração negativa, toda a máquina se põe a mexer para usar essa ideia como arma de arremesso contra quem a proferiu.

Passos Coelho diz que quer mudar certas regras na Saúde - e logo Francisco Assis, Silva Pereira, Vieira da Silva, Jorge Lacão ou Santos Silva, os gendarmes de serviço, vêm gritar: «O PSD quer acabar com o Serviço Nacional de Saúde!». Passos Coelho diz qualquer coisa sobre as escolas públicas e as privadas - e lá vêm os mesmos dizer: «O PSD quer acabar com o ensino público gratuito!». Passos Coelho diz que quer certificar as 'Novas Oportunidades' - e os mesmos repetem: «O PSD ofendeu 500 mil portugueses!». E, no final, todos dizem em coro: «O PSD quer acabar com o Estado Social!».

Passos Coelho não soube lidar com isto de início. E, perante estes ataques, acabou muitas vezes por bater em retirada. Propôs uma revisão constitucional e recuou. Outras vezes explicou-se em demasia. E com isso deu uma ideia de impreparação e falta de convicção, que só recentemente conseguiu corrigir.

Mas a máquina não fica por aqui. Tem muitas outras frentes de combate. Os assessores do primeiro-ministro organizam dossiês para cada ministro, dizendo-lhes como devem reagir perante o que diariamente é publicado na imprensa. Assim, bem cedo pela manhã, um assessor telefona a um ministro, faz-lhe uma resenha da imprensa e diz-lhe o que ele deve responder a esta e àquela pergunta.

Claro que há ministros que não aceitam este paternalismo. Que querem ter liberdade para responder pela sua cabeça. Mas esses ficam logo marcados. Admito que Luís Amado não aceite recados, estou certo de que Campos e Cunha não os aceitou, Freitas do Amaral também não. Mas a maioria dos outros aceitou-os ou aceita-os, até para tranquilidade própria: assim têm a certeza de não cometer gaffes e não desagradar ao primeiro-ministro.

E já não falo nos boys colocados em todos os Ministérios e em todas as administrações das empresas públicas e que funcionam como correias de transmissão da opinião do Governo. Rui Pedro Soares é o caso mais conhecido. Mas obviamente não é o único. Eles estão por toda a parte. Muitas vezes nem têm posições de grande relevo. Mas o facto de se saber que são os porta-vozes do poder confere-lhes importância acrescida, porque as pessoas receiam-nos.

Como resultado de tudo isto, muita gente, mesmo dentro do PS, tem medo. Evita falar. No congresso socialista, que mais parecia um encontro da IURD, vimos pessoas respeitáveis participar alegremente na farsa sem um gesto de distanciação. Chegou a meter dó ver António Costa, António Vitorino, o próprio Almeida Santos, envolvidos naquela encenação patética.

Há boys colocados nas empresas e organismos públicos que nem têm posições de destaque, mas têm muito poder - porque veiculam a opinião do Governo.

 

Que foi produzida como uma superprodução, com sofisticados meios audiovisuais. Quando Sócrates começou a proferir a primeira das três últimas frases do seu último discurso, uma música 'heróica' começou a ouvir-se baixinho. E foi subindo, subindo de tom - e quando Sócrates acabou de falar a música estoirou, as luzes brilharam, não sei se houve fogo preso mas podia ter havido, choveram flores, foi a apoteose.
Quem dirigirá esta poderosa e bem oleada da máquina de propaganda e contra-propaganda?

Haverá certamente um núcleo duro ao qual não serão alheios aqueles que dão a cara nos momentos difíceis: Francisco Assis, Jorge Lacão e os três Silvas: Vieira da Silva, Augusto Santos Silva e Pedro Silva Pereira.

Há quem fale numa personagem misteriosa, sibilina, que não gosta dos holofotes e dá pelo nome de Luís Bernardo. Actualmente é assessor de Sócrates, antes foi assessor de Carrilho na Cultura. Pedro Norton número 2 da Impresa e seu amigo, diz é «o homem mais inteligente que conhece».

Acontece que uma máquina pode ser muito boa, pode estar muito oleada, pode funcionar na perfeição, mas tem sempre um ponto fraco: depende em última análise da performance de um homem.

Durante anos essa performance foi quase perfeita - por isso chamei a Sócrates um robô político. Ora esse robô, agora, começou a falhar. E a derrota televisiva perante Passos Coelho pode ter posto em causa toda a engrenagem. O robô engasgou-se, exaltou-se, esteve à beira de colapsar.

E quando isso acontece não há não há máquina de propaganda que valha.

 

4 comentários:
De JS a 31 de Maio de 2011 às 02:34
Não sei e até nem acredito que seja tudo como está aí, mas acredito que a maior parte o seja.

Realce para as questões dos comentadores na TV, porque sempre notei e reparei nesse pormenor (a que muitos defendiam-se com um "a opinião é sempre parcia" quando a questão tem a ver mais com independência e utilidade da mesma). Até mesmo antes de Sócrates, foram raros os comentadores de esquerda que não fizessem vénia ao seu líder nos vários programas de debate com comentadores fixos.

Na Quadratura do Círculo, Pacheco Pereira disparou sempre (excepto Manuela F. Leite) contra todos os líderes do PSD. No PS, 3 comentadores diferentes sempre a de acordo com o líder do PS.

Discurso Directo, Carlos Abreu Amorim (até ser candidato a deputado) sempre deu a sua opinião mesmo quando era contra o actual líder do PSD. Emídio Rangel está sempre em sintonia com PS.

Podia-se continuar aqui com uma série de programas que a tendência costuma ser sempre esta... as excepções confirmam as regras.

Mesmo no partidário programa "Corredor do Poder", Marco António, às vezes, distanciava-se da posição oficial do PSD. Já Perestrelo sempre na defesa ao PS.

Revela uma pobreza intelectual, mas garante sempre que a voz oficial do PS será defendida por autênticos papagaios. E o ruído interessa muito.


De JS a 31 de Maio de 2011 às 02:43
Também revela uma capacidade de união do PS em que raramente os que discordam opinam (ficam em silêncio) e as divergências profundas (em quase todo o plano ideológico) do PSD.

Acho que, para além dos papagaios que existem claramente (e, no PSD, só o são em muito menor número), acho que beneficia-se também muito o posicionamento ideológico dos partidos portugueses e o contexto político português.

O PS é muito mais coeso ideologicamente (até tendo em conta que é um partido grande) que o PSD e a tendência é para ter desvios mais para a "direita" (pelo menos, é a leitura maioritária da sociedade), sendo que pode utilizar um discurso mais à "esquerda" que é melhor aceite socialmente, ajudando a defesa convicta ou do "menos mau" (ala esquerda do PS, por exemplo).

O PSD é uma guerrilha constante porque é, na minha opinião, uma impossibilidade ideológica que só funcionou duas lideranças diferentes em contextos particulares.


De Luís Lavoura a 31 de Maio de 2011 às 09:29
Esse José António Saraiva é o "pequeno grande arquiteto" d"o luminoso Sol"?

Eu já disse à Priscila que esse pasquim (tal como aliás todos os outros que inundam os escaparates, mas este talvez ainda mais) não tem qualquer credibilidade, mas a Priscila continua a tratá-lo como se ele estivera de boa fé.

Priscila, deixe de vez de acreditar em jornalistas, eles não passam de políticos disfarçados e, como tal, mentem tal qual os políticos.


De JS a 4 de Junho de 2011 às 15:22
Sim, a figura em si não inspira confiança.

Mas o Luís não acredita que boa parte seja verdade pura e dura?

Embora, deva dizer que revela é fragilidade (incluindo Comunicação Social) dos diversos meios portugueses que aceitam este tipo de práticas.

Por fim, não confundir isso com a imagem política profissional, que o PS criou e bem como está patente nos seus comícios. Ninguém pode condenar um partido de se tornar apelativo pela imagem (ex: comícios com o habitual esquema norte-americano com pessoas, no caso do PS são membros da JS, atrás do púlpito, em vez do simples cartazes frios do PSD).


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