Segunda-feira, 20 de Junho de 2011
Bruno Vieira Amaral

O excepcionalismo lusitano já nos deu o imorredoiro mito da saudade, sentimento desconhecido de outros povos, que lidam mal com tamanha privação. Só um português sabe o que é a saudade, o sofrimento provocado pela distância da terrinha, da mãezinha e da merdinha. Os outros bem que se podem esforçar que nunca atingirão os cúmulos de sensibilidade a que estas três sílabas, como três degraus místicos, nos permitem aceder. Como nós gostamos de nos esvair em explicações poéticas sobre a saudade perante um estrangeiro! Ficamos logo em estado Amália Rodrigues, cobertos por xailes imaginários, pequeninos mas de alma em erecção, sardinhentos, afadistados, metendo por atalhos que normalmente acabam no beco sem saída do “é um sentimento impossível de explicar”, dito com superioridade civilizacional, como quem acusa o outro de não ter o equipamento místico adequado para captar as subtis reverberações da saudade.

 

Como o negócio da excepcional saudade lusitana já conheceu melhores dias, regressam outros, como a inveja. Ui, a inveja! Vejam lá que a última palavra d’Os Lusíadas não é amor, nem saudade, nem pátria, nem sequer salmonela, é inveja. Eu pensava que a inveja existia em todas as sociedades, que era um defeito universal, mas se me atrevo a dizê-lo em público levo logo com a última palavra d’Os Lusíadas como argumento insofismável. Nós é que somos invejosos. A inveja é nossa. Nacionalizámos a inveja e, para que os outros fiquem com uma pontinha de inveja por verem que a inveja é toda nossa, temos de exportá-la através de pipelines que atravessam o continente. Um finlandês, que só tenha razões para nos desprezar, abre uma torneira e sai-lhe um jacto de inveja distintamente portuguesa, potável mas um tanto fuliginosa. O finlandês, cujo aparelho cardiovascular não está preparado para acomodar a inveja portuguesa, fica um tanto abalado, cambaleia, recompõe-se, começa a olhar com desdém para a casa do vizinho, para o irmão da mulher e para o carro do patrão e amaldiçoa-os em bom português: “ai, os filhos-da-puta!” Está criado um invejoso à portuguesa, que é a única maneira de se ser invejoso, porque os outros não conhecem a inveja, nem a saudade.


1 comentário:
De alessandri adriano a 24 de Junho de 2011 às 05:01
Confesso que causaste-me inveja, com teu adorável texto! que maravilha de encanto puseste em cada dobradura de frase, em cada curva de sentido. Fico aqui pensando no esmero de Flaubert, e que seguramente tu também lapidaste este divino texto com um esforço febril. Ou, se naturalmente houvera-te saído sem esforços, és d'uma categoria de pequenos deuses. Parabéns!


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