Segunda-feira, 12 de Abril de 2010
Tiago Moreira Ramalho

A forma como Daniel Oliveira, ilustre e muito douto comentador de vários tipos de fenómenos consegue num pequeno post desmontar a sua própria… eu ia dizer filosofia, mas como considero o termo exagerado na situação, direi, à taxista, «maneira de ver as coisas» é assombrosa.

Escreve Daniel Oliveira, no Expresso Online, que Passos Coelho e Portas, que olhe por nós S. Karl, apontam baterias contra – ele não diz assim, mas quer que leiamos assim – os coitadinhos. Ai que Pedro Passos Coelho quer colocar as pessoas a trabalhar enquanto recebem prestações sociais. Bandido. Pedir trabalho em troca de subsídios é uma ideia que não passa na cabeça de ninguém. De ninguém. Aliás, nem está na base dos sistemas de apoio social nem coisa parecida – sim, muitos pensadores já mortos defendiam que o que o Estado devia fazer em épocas conturbadas era criar emprego público e não atirar cheques a velocidade de metralhadora.

Admitindo, de qualquer modo, que as nossas hipóteses académicas têm de ser flexíveis ao «assunto» tratado, que isto de pedir trabalho em troca das prestações sociais pode ser um crime contra, esta é boa, os «direitos conquistados» (palavra, vão lá ler), a verdade é que a fundamentação – sim, eu coloquei «fundamentação» num texto sobre Daniel Oliveira – é completamente tola. É que, meus senhores e Daniel Oliveira, não pensem que os «descontos» que vão fazendo ao longo da vida são como que PPR’s públicos para o caso de alguma chatice. Não são. Os descontos que vão fazendo ao longo da vida, caros leitores, servem para ajudar quem, no momento em que o desconto é feito, precisa. E não há aqui nenhuma certeza do recebimento de ajuda quando for necessário. Quer isto dizer que quando o Daniel Oliveira faz os «descontos», está a dar sem ter garantias de receber. Por isso é que se chama Solidariedade Social e não, sei lá, Banco Português de Investimentos. O Daniel Oliveira confia – há outros que nem por isso.

A verdade, chata, é que algum dia o sistema vai ter de ser alterado. O aumento sucessivo das prestações sociais sem que haja um aumento do rendimento vai levar, mais cedo ou mais tarde, a que tenhamos um rendimento ridídulo, porque, enfim, o dinheiro só tem algum valor se tiver produção por detrás (se um Primeiro-Ministro com um nome sonante, tipo Daniel Oliveira, se lembrasse de, por exemplo, pegar em todo o dinheiro de toda a gente e distribui-lo de modo a que todos pudessem não trabalhar, o leitor pode acreditar que esse dinheiro seria apenas tecido para limpar o rabinho, que nem papel higiénico haveria para comprar). Uma retribuição à sociedade feita em trabalho em troca de uma prestação social não é, de todo, uma forma de tratar os desempregados como criminosos. É apenas uma forma de tentar, ao mesmo tempo que se permite que uma pessoa não viva na miséria, não se perca o que essa pessoa poderia produzir caso trabalhasse. Se a solidariedade social fosse como eu gostaria – feita a partir da sociedade, de instituições – certamente que não haveria cheques dados em troca de nada. E assim é que estaria bem.


7 comentários:
De R.P. a 12 de Abril de 2010 às 16:14
Ora e não é que tem razão? Então os coitadinhos só porque recebem subsídios não podem contrinuir para a sociedade que também é a deles? Pois, pensam que não podem, porque assim estão (mal) habituados. Recebem, recebem e não dão nada em troca porque sempre lhes disseram que não precisavam.
Conheço muitos com o estatuto maravilhoso dos subsídios (e alguns tem um carro 5 vezes superior ao meu e trocam de 2 em 2 anos e eu tenho o meu há 9 - isto sem inveja associada porque eu cá não queria ser como eles) e se lhes pergunto, "e, então, trabalhinho para quando?" é como se os estivesse a insultar e como se eu fosse uma parva porque lhes pergunto tal coisa! Assim, como eu quando estive desempregada, não dei prejuízo ao estado, porque não tinha direito a subsídio de desemprego, mas também não pedi outro qualquer subsídio que provavelmente pudesse ter direito, porque não era uma miserável que estivesse a passar fome e precisasse dos dinheiros do erário público para consumir em telemóveis topo de gama, lanches cobertos de açúcar e roupinha da hello kitty.
Bem, toda esta divagação irritada porque realmente penso que é injusto para quem realmente precisa da ajuda da Solidariedade Social ou que um dia possa a vir precisar. Mas quem disse que a vida era justa? Alguma vez será? Não sei, mas podemos (os nossos políticos) tentar, não é? Penso eu!


De Diogo a 12 de Abril de 2010 às 16:38
Sr. Opinião:

Palmas para mais uma ignorância, você é mesmo atrasado mental.
Enfim os seus textos não valem o tempo perdido.


De Tiago Moreira Ramalho a 12 de Abril de 2010 às 16:43
Nada mau. No início irritava-me a omnipresença, mas agora até me diverte. Tenha a bondade de permanecer por aqui e ir enviando os postais do costume, que eu agradeço muito, muito.


De Luís de Aguiar Fernandes a 13 de Abril de 2010 às 02:13
Esta perseguição está engraçada. :) Mas quanto ao post, está completamente acertado. Mas que esperavas de sua excelência Daniel Oliveira? Que escrevesse um texto onde criticasse o "povo" que prefere ficar a coçar-se do que trabalhar? O "povo", Tiago?! Esperas demasiado. E agora vai lá explorar essa ideia alternativa para a Segurança Social, que ficámos todos curiosos e interessados.


De José António Abreu a 14 de Abril de 2010 às 13:32
Caro Diogo: por definição, nada vale "tempo perdido".


De Miguel Madeira a 16 de Abril de 2010 às 11:10
"É que, meus senhores e Daniel Oliveira, não pensem que os «descontos» que vão fazendo ao longo da vida são como que PPR’s públicos para o caso de alguma chatice. Não são. Os descontos que vão fazendo ao longo da vida, caros leitores, servem para ajudar quem, no momento em que o desconto é feito, precisa."

Tal e qual como os descontos para uma seguradora privada; e daí?

Se eu tiver um acidente com o meu carro, eles não me obrigam a trabalhar para a seguradora para compensar o valor que irão ter que pagar.


De TMR a 16 de Abril de 2010 às 11:14
No caso da seguradora privada há um contrato assinado. Aquilo não é um sistema de solidariedade social, mas sim uma prestação de um serviço. No caso do Estado português, o "contrato" é a "lei" que regula dos súbsídios, a qual pode ser alterada sempre que a maioria quiser.


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