Terça-feira, 5 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

O Filipe Faria escreveu um post essencial acerca dos perigos de subscrever a versão "social" do Liberalismo. Nas suas palavras, "quando um liberal social advoga o direito à saúde, tal implica que alguns seres humanos (médicos, enfermeiras) irão ser forçados a trabalhar em prol de outros, nas condições que o Estado quer,  independentemente da vontade desses profissionais de saúde. Usando um argumento sob forma de Reductio ad absurdum, se todos os médicos se recusassem a exercer nessas condições, o Estado, sob o postulado da liberdade positiva e do direito à saúde, podia obrigar os mesmos a fazê-lo sob coerção (o que colocaria o acto ao nível da escravatura)".

 

Apesar de o argumento ser suficientemente bem conseguido para granjear ao Liberalismo Clássico hordas de seguidores fervorosos, julgo que o Filipe, certamente por distracção, deixou passar um exemplo bem mais revelador do totalitarismo a que o Liberalismo Social pode conduzir: o caso da limpeza da via pública. Sob o pretexto de que é bom para todos que não haja lixo no chão, entregamos a esse Leviatã que é o Estado a possibilidade efectiva de nos obrigar a percorrer as ruas imundas das nossas cidades a recolher porcaria. O princípio é o mesmo dos médicos, mas em vez de se obrigar o pobre cidadão a prescrever, de forma higiénica e cómoda, medicamentos a utentes, obriga-se o pobre coitado a recolher dejectos dos cãezinhos a horas pornográficas. O Liberalismo Social é isto*. O resto é areia para os olhos.

 

Agora a sério: não é difícil compreender que o Liberalismo tenha tão poucos adeptos. A ideia de que o mercado se adapta às necessidades dos consumidores sem um planificador central é, ainda hoje, tão difícil de apreender para a maioria das pessoas como a ideia de selecção natural foi para quem vivia no século XIX. Se as coisas já são complicadas assim, não vale a pena acrescentar ruído com exemplos deste género. Não vamos andar a imitar quem, do outro lado da barricada, diz que com padarias privadas vamos todos passar fome, ou vamos?

 

*E se não é, podia ser...



editado por Rui Passos Rocha em 06/07/2011 às 17:18link do post | comentar
9 comentários:
De Bruno Rocha a 6 de Julho de 2011 às 01:23
pensei exactamente o mesmo! será que não se pode ser liberal sem ser fundamentalista?


De Marm a 6 de Julho de 2011 às 01:48
Então pensou sabiamente, mestre Sêveas!


De Luís Lavoura a 6 de Julho de 2011 às 09:21
Há uma diferença essencial entre a saúde, que é um bem privado, e a limpeza da via pública, que é um bem público.

A limpeza da via pública beneficia a todos por igual e a ninguém em particular. Por isso, é normal que seja o Estado a tratar dela, uma vez que nenhuma empresa privada alguma vez poderá fazer alguém pagar por ela.

Portanto, a comparação não me parece a mais feliz.


De Luís Lavoura a 6 de Julho de 2011 às 09:25
O mercado adapta-se às necessidades dos consumidores, porém, nem sempre de uma forma moralmente satisfatória. É esse o caso da saúde.

Por exemplo, se uma pessoa pobre está com uma doença grave e não tem dinheiro para se tratar, então essa pessoa não é uma consumidora e o mercado não se adapta à sua necessidade de tratamento. A pessoa, por conseguinte, morre, ou fica aleijada para o resto da vida. Esse resultado é moralmente insatisfatório, ou revoltante.

É por isso que a sociedade constrói, dentro de certos limites, um direito à saúde.


De Luís Lavoura a 6 de Julho de 2011 às 12:03
O Filipe a a Priscila carregam os tons da pintura quando dizem que o direito à saúde, ou à limpeza da via pública, conduzem o Estado a escravizar os cidadãos, ou seja, a obrigá-los a trabalhar de borla.

Na prática, como todos sabemos, o que se faz é o Estado obrigar as pessoas a pagar impostos e, com o dinheiro desses impostos, pagar aos trabalhadores que prestam esses serviços (de saúde, de limpeza da via pública, etc).

Ou seja, ninguém é escravizado, apenas é obrigado a pagar uns tantos impostos mais (o que pode ser considerado uma escravatura light).


De Miguel Madeira a 7 de Julho de 2011 às 02:39
Penso que o argumento do Filipe não é que o direito à saúde implica a escravatura dos médicos, mas que implica essa possibilidade - se ninguém quiser ser médico, então para garantir o direito à saúde é necessário obrigar alguém a ser médico.


De Joao a 6 de Julho de 2011 às 14:42
"se todos os médicos se recusassem a exercer nessas condições, o Estado, sob o postulado da liberdade positiva e do direito à saúde, podia obrigar os mesmos a fazê-lo sob coerção"

Se isto fosse verdade não percebo porque continua o estado com falta de médicos? Então não é apenas obrigar médicos que estão no privado a trabalhar? Nada como criar fantasias para depois as criticar...

A ideia que o mercado se adapta perfeitamente é difícil de compreender para quem percebe que as pessoas não são 100% racionais. Senão ninguém fumava, todos poupavam, e todos usavam o preservativo...

Como diz a Rand, que no insurgente são tão fâns:
"The only proper purpose of a government is to protect man's rights, which means: to protect him from physical violence"

Claro que a protecção dos direitos só serve quando a violência é física, que o resto para quem defende este ultra-liberalismo já não dá jeito...


De Miguel Madeira a 7 de Julho de 2011 às 10:11
"as pessoas não são 100% racionais. Senão ninguém fumava, todos poupavam, e todos usavam o preservativo..."

Não - ser racional significa "tomar as decisões mais apropriadas para atingir os objectivos pretendidos", não significa "ter objectivos que nós achamos sensatos". Se o objectivo de uma pessoa é "sentir o prazer que deriva de fumar", então fumar é a atitude 100% racional.


De Luís Lavoura a 7 de Julho de 2011 às 11:02
Fumar também é 100% racional se uma pessoa pensar que dificilmente a Segurança Social poderá pagar as nossas reformas e que talvez valha mais a pena morrer cedo, em vez de passar uma longa velhice na miséria e dependência.

Um vizinho meu que se fartava de fumar morreu com um cancro do pulmão aos 60 e poucos anos e só deixou de trabalhar uns três meses antes da morte. Não teve que ficar longos anos na dependência de uma incerta pensão da Segurança Social.


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