Quinta-feira, 7 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

 

José Gomes Ferreira, editor-ou-algo-do-género de economia da Sic Notícias, diz que "só os ingénuos acreditam que a descida do "rating" teve motivações técnicas". Pouco depois, diz que o risco de falência é real e "enorme". Ninguém se ri. Todos falam de agências de "rating" sem perceberem que o risco de falência não é um argumento contra, mas um argumento a favor da descida do "rating".

 

Ali pelo meio, Gomes Ferreira diz também, certamente inspirado por algum policial da Agatha Christie, que as agências de "rating" estão a tentar... sustentar o dólar. Reparem bem: as agências querem apoiar o poder de compra norte-americano e qual é a primeira coisa que fazem? Atirar ao chão duas economias pujantes e com peso no euro, como são Portugal e Grécia. É um pouco como acusar do Benfica x Belenses de querer beneficiar o Porto ao dar ordem de expulsão ao Sidnei ou ao Roberto.

 

O mais incrível é que este é o mesmo Gomes Ferreira que, em plena "guerra cambial", acusa os Estados Unidos de tentarem ganhar vantagem sobre os outros países através da desvalorização da moeda (!). Isto há cada um. E estão todos na televisão, chiça.


22 comentários:
De Luís Lavoura a 8 de Julho de 2011 às 10:28
Não percebo a argumentação no segundo parágrafo.

Para sustentar o dólar, é evidente que se tem interesse em derrubar os concorrentes do dólar, nomeadamente o euro. Parece-me óbvio.

E é claro que, para derrubar o euro, causa-se-lhe problemas, procurando "dividir para reinar". Começa-se pela Grécia, depois ataca-se Portugal, e agora já se começa a atacar presas maiores mas que estão debilitadas, como a Espanha, a Itália, a Bélgica ou até a França.

Parece-me fazer sentido.


De PR a 8 de Julho de 2011 às 20:50
Sim, mas a teoria é absurda.

a) que raio de interesse têm as agências de rating em sustentar o dólar?...
b) ...logo num momento em que a Fed e o Governo estão a tentar desvalorizá-lo?...
c) e porquê atacar Portugal e Grécia?
d) no limite, isto pode obrigar os países a saírem do euro, o que o valorizaria
e) e, porra, não era mais fácil atacar a Alemanha?
f) por que não atacam também o iene?

A explicação do Gomes Ferreira só se aguenta durante os milisegundos que demora a chegar ao cérebro :)


De JS a 9 de Julho de 2011 às 21:35
A teoria da sustentação do dólar pode se absurda (eu não sei se é ou não), mas começa-se pela Grécia e Portugal porque é mais fácil. Acho que é fácil de perceber.

Se o Portugal, a Grécia e, possivelmente, Espanha ou mesmo outros países saírem do Euro, este acaba como foi concebido e poderá ser uma machadada em qualquer reestruturação que se pudesse fazer.

De resto, não concordo com a designação feita ao José Gomes Ferreira. Acho até um dos melhores comentadores de economia das televisões nacionais (pelo menos, há piores), mas acho que começa a sofrer de todo um efeito de comentador que começa a ser elogiado e acarinhado por explicar tão bem a economia em linguagem acessível. Sobe o ego, sobe a sua opinião pessoal, mesmo toda a opinião paranóica que todos temos e que expressamos no café mesmo sem sabermos do que falamos.


De PR a 9 de Julho de 2011 às 23:47
JS,

Que interesse tem a Moody's em "sustentar o dólar"?

Se Portugal e Grécia saírem do euro, o mais provável não é a moeda única acabar. É valorizar-se, porque já terá expurgado os seus "frutos podres".



De JS a 10 de Julho de 2011 às 03:50
Não tenho tanta a certeza disso. A moeda é também um projecto político (que está a ser mal conduzido, na minha opinião).

Caiam os países mais fracos do Euro e todo o projecto europeu também terá de ser reformulado.

João Saro


De Luís Lavoura a 10 de Julho de 2011 às 15:23
Alínea b) A Fed não está a tentar desvalorizar o dólar. Está a injetar dólares no mercado, é um facto, mas não com o objetivo de desvalorizar o dólar, e sim com o objetivo de reanimar a economia norte-americana. A Fed não pretende, longe disso, que as pessoas deixem de comprar dólares.

Alínea c) Ataca-se Portugal e Grécia porque são os elos mais fracos. Quando esses elos partirem, começa-se a atacar outros países. Aliás, já se está a começar.

Alínea d) O euro valorizaria, mas seria menos atraente em termos de moeda de reserva mundial, que é o que interessa. Repare a Priscila que há muitas moedas muito valiosas (e.g. franco suíço) mas que jamais farão sombra ao dólar, dada a pequenez das economias que estão por detrás delas.

Alínea e) Atacar a Alemanha, como? É uma economia muito sólida e com um défice do Estado relativamente reduzido.

Alínea f) O iene não é uma moeda muito forte e não faz sombra ao dólar.


De PR a 11 de Julho de 2011 às 00:38
Luís,

A questão mais importante fica por responder: qual é o interesse das agências de rating num dólar forte?

Quanto ao resto:

a) Como é que o Luís sabe? A Fed não pode falar acerca disso [a taxa de câmbio é "pelouro" do Tesouro], mas há muitos economistas que dizem que a Fed devia fazer isso activamente e outros que a acusam de já o estar a fazer.

d) Nope. O euro não pode deixar de ser moeda de reserva e valorizar ao mesmo tempo. Ceteris paribus, o estatuto de "moeda de reserva" implica quase automaticamente uma valorização [a procura aumenta para efeitos de reserva de valor, somando-se aos outros efeitos que estavam presentes].

e) Das duas uma. Ou as agências de rating têm impacto no mercado, e então podem atacar qualquer país, ou não têm e não podem atacar nenhum.



De Luís Lavoura a 11 de Julho de 2011 às 10:54
"qual é o interesse das agências de rating num dólar forte?"

Não sei - nem eu as acuso de terem tal interesse. Mas é concebível que tenham tal interesse. Por exemplo, as firmas suas proprietárias podem estar cotadas em dólares, ou terem outros bens cotados em dólares.

Repare que eu pessoalmente não acuso as agências de rating de nada. Mas as acusações que contra elas são feitas não me parecem tão inconcebíveis como a Priscila as quer fazer parecer.

"Como é que o Luís sabe?"

Eu não sei, mas a Priscila também não.

alínea d) É claro que se o euro se constituir como moeda de reserva, automaticamente valoriza (é o que está presentemente a acontecer). Mas o inverso não é necessariamente verdade. Uma moeda pode valorizar-se e no entanto apenas muito marginalmente ser moeda de reserva, devido à fraca quantidade dessa moeda (ou dos ativos denominados nela) em circulação. Por exemplo, a moeda malaia tem-se valorizado bastante, segundo creio, mas não será propriamente uma moeda de reserva.

alínea e) As agências de rating têm uma influência muito limitada no mercado, concordo. Elas podem atacar qualquer país, mas os seus ataques dificilmente terão consequências se esse país não estiver muito fragilizado. Aliás, eu não discordo do downgrading da Moody's - como a Priscila poderá ler no meu blogue, do qual espero seja uma frequentadora regular.


De PR a 11 de Julho de 2011 às 23:03
"Não sei - nem eu as acuso de terem tal interesse. Mas é concebível que tenham tal interesse. Por exemplo, as firmas suas proprietárias podem estar cotadas em dólares, ou terem outros bens cotados em dólares"

Faz lembrar a história do homem que para enroscar uma lâmpada prende-a ao chão com uma vara e depois faz a casa rodar à volta dela :)

"Eu não sei, mas a Priscila também não."

Nem disse que sabia. Disse que não era claro que a Fed não quisesse desvalorizar o dólar. O Luís é que disse que ela não o queria fazer, "muito longe disso". Daí a minha pergunta.

"É claro que se o euro se constituir como moeda de reserva, automaticamente valoriza (é o que está presentemente a acontecer). Mas o inverso não é necessariamente verdade."

O Luís é que colocou as coisas como uma questão de fazer com que o euro fosse ou deixasse de ser moeda de reserva. Eu limitei-me a jogar no seu tabuleiro.

To sum up, eu não acho que seja impossível, no sentido restrito da palavra, haver um conluio para sustentar o dólar. Defendi que a evidência a favor desse cenário é tão fraca e especulativa, e a evidência em sentido contrário tão forte, que não se justifica atribuir grande relevância a esse cenário.

Ora, o que o tipo da SIC diz é que não só é isso [ataque concertado] que está a acontecer, como é a conclusão óbvia a que qualquer pessoa imparcial chega. Quando se põem as coisas no sítio, esta ideia do gajo surge mais como um delírio de um tipo que se leva demasiado a sério, cegado por uma data de preconceitos e incapacidade técnica de analisar a realidade.


De Bico de Gás a 8 de Julho de 2011 às 11:55
«[...] diz que o risco de falência é real e "enorme". Ninguém se ri. Todos falam de agências de rating " sem perceberem que o risco de falência não é um argumento contra, mas um argumento a favor da descida do rating ".»

O risco de falência obviamente é um argumento para o "lixo", mas está a ver a cena do avesso: O risco de falência aumenta com a descida do rating ". Se as agências de notação exagerarem neste risco (mesmo que este seja moderado ou mesmo baixo), ele aumenta. É isso que se discute nesta opinião de JGF.
ASENSIO


De PR a 8 de Julho de 2011 às 20:51
Os juros já estavam nos 16% antes da descida da Moody's. Desculpe, mas a explicação não cola.


De luis eme a 8 de Julho de 2011 às 13:33
independentemente dos números de circo do Gomes Ferreira, é claro que as agências tentam bater no euro, dando "porrada" nos mais fracos.

infelizmente até aqui com a conivência da Alemanha e França.


De pedro a 8 de Julho de 2011 às 15:09
concordo com a autora.

se "batendo" nos periféricos estes sairem do euro este (o euro) fica mais forte ou mais fraco!? imaginando msm que poderia sair a espanha, o euro ficaria mais fraco ou mais forte!? como se tem comportado o euro na realidade durante estes meses conturbados!?

é ou não é arriscado investir em divida pública portuguesa!? o resto é areia prós olhos..(penso eu de que..!)


De Hugo Monteiro a 8 de Julho de 2011 às 16:43
Se a Espanha for ao charco, o Euro estoura.


De pedro a 8 de Julho de 2011 às 19:54
e se o euro se mantiver com os restantes países, ficará mais forte ou mais fraco do q agora?!


De Hugo Monteiro a 11 de Julho de 2011 às 13:07
Sem as grandes economias mais fracas (Espanha, Itália e afins) não existiria peso suficiente a "puxar" a cotação do Euro para baixo. A Alemanha para ter uma moeda alta ficava com o Marco. Ora, não é isso que lhes interessa...


De pedro a 8 de Julho de 2011 às 15:10
o meu comentário é ao posto e não ao comentário anterior. foi um lapso..


De Anónimo a 9 de Julho de 2011 às 00:41
Macroeconomia minha gente!! Eles (EUA) tem todo o interesse na valorização do euro, dado que com a desvalorização (relativa) do dólar as importações são penalizadas e, as exportações, incentivadas. Não é mais que a busca pelo equilíbrio da balança comercial.


De Miguel Madeira a 11 de Julho de 2011 às 23:08
Acho que há aqui duas questões distintas que estão a ser misturadas: uma é se os EUA ganham ou perdem com a (eventual) desvalorização do euro; outra é se os EUA ganham ou perdem com um eventual fim do euro.


De Sérgio Pinto a 12 de Julho de 2011 às 01:30
Parece-me que perdem com ambas.


De Anónimo a 9 de Julho de 2011 às 00:51
É também de salientar que estamos a falar de entidades que avaliaram de AAA+ Lehman Brothers um dia antes do escândalo financeiro. Podem denominar de teorias da conspiração, mas o que é certo é que as classificações das AR são condescendentes e favoráveis às flutuações do mercado norte-americano.
A História ensina-nos muita coisa: em 1929, os 'criadores' da crise, os 5 maiores banqueiros da época, usavam os tablóides (sendo estes corruptos) para influenciar o mercado. E agora? O que mudou? O jogo de influências extinguiu-se? As ARs são apenas uma evolução do jogo, que levará (ou levou) à III, maior e mais devastadora grande guerra mundial - a guerra económica.


De j pereira a 14 de Julho de 2011 às 12:05
Não sei se comparações futebolística serão aqui aplicáveis. No campo das tácticas militares o ponto onde se deve desferir o primeiro ataque numa batalha é aquele onde o adversário é mais fraco. Capice?


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