Quarta-feira, 27 de Julho de 2011
Priscila Rêgo

A subida do preço dos passes da CP e, e forma genérica, dos bilhetes de outros serviços de transporte, é uma medida que, só por si, pode contribuir para aumentar a produtividade. Isto pode parecer uma contrasenso, mas só para quem não percebe o papel que os preços têm no sistema de informação de uma economia de mercado.

 

O preço de um produto não serve para produtores e consumidores poderem fazer trocas. Os preços servem para também sinalizar escassez ou excesso de produtos. Se o preço do petróleo é alto, os consumidores tenderão a refrear o seu consumo e os produtores sentir-se-ão tentados a investir em mais sistemas de extracção. Acontece o mesmo com carros, computadores ou batatas: quando os preços sobem de um lado e descem do outro, os recursos dos empresários seguem a mesma direcção e atenção dos consumidores desvia-se para produtos alternativos.

 

Um subsídio, tal como um preço máximo, destrói o sistema de preços ao tornar ocultos os verdadeiros custos de produção de uma empresa. A melhor analogia é com um consumidor que vai ao mercado com um montante fixo para gastar mas que faz as suas compras sem saber quais os preços de cada produto, sendo apenas avisado do momento em que o plafond do cartão esgota. Se o consumidor souber os preços dos bens, pode ajustar as suas compras ao cabaz que mais o satisfaz, maximizando a utilidade do seu dinheiro. Caso contrário, é uma lotaria. Mesmo que gaste o mesmo montante, a utilidade será inferior à que seria caso pudesse ponderar qual o custo de comprar um bem relativamente a comprar outro bem qualquer.

 

Acontece o mesmo com as empresas de transportes. Os subsídios à exploração permitem à CP utilizar recursos - mão de obra, máquinas, etc. - que não conseguiria utilizar caso dependesse de si mesma para continuar a funcionar. Estes recursos são retirados às actividades mais produtivas, que os conseguiriam utilizar caso estivessem em igualdade de circunstâncias com a CP. Acabar com os subsídios permite realocar estes recursos, aumentando a produtividade média da economia pelo simples efeito da revelação de informação mais fidedigna aos agentes económicos. 

 


20 comentários:
De Luís Lavoura a 27 de Julho de 2011 às 09:54
Este post parte do princípio que o Estado subsidia os transportes coletivos. Eu creio que não o faz ou, pelo menos, não o faz de forma sistemática. Os transportes coletivos financiam-se em grande parte mediante empréstimos junto da banca. O Estado de vez em quando passa-lhes um cheque mas, creio, fá-lo de uma forma não sistemática e mal contratualizada, de tal forma que as gerências das empresas de transportes mal podem contar com tal cheque.

O post parte também do princípio de que os subsídios do Estado irão diminuir com este aumento dos preços, o que não é líquido que aconteça. Tendo esses subsídios caráter ocasional e não sistemático, não é claro o que lhes irá acontecer.

Uma das coisas de que as empresas de transporte coletivo em Portugal se queixam amargamente é que as "obrigações de serviço público" não se encontram claramente contratualizadas e portanto as contrapartidas financeiras do Estado por essas obrigações também não se encontram firmemente contratualizadas. É tudo feito ao sabor da maré e não de acordo com contratos claros.


De PR a 27 de Julho de 2011 às 20:12
Sim, fá-lo de forma sistemática, mesmo que não haja um contrato formal (ver Conta Geral do Estado). Mas o relevante nem é o facto de haver transferência o não, e sim o facto de o preço ser inferior ao custo. O subsídio é apenas o mecanismo que permite à empresa manter essa situação.


De Anónimo a 27 de Julho de 2011 às 15:33
Importas-te de explicar o que é produtividade no âmbito dos transportes públicos?


De Luís Lavoura a 27 de Julho de 2011 às 16:32
É transportar mais passageiros com menor consumo de gasóleo e com menos motoristas. Pode ser conseguido utilizando veículos mais pequenos ou eliminando serviços que têm pouca procura. Ou obrigando os passageiros a mudar de carreira por forma a que todas as carreiras efetuadas vão bastante cheias. Etc.


De PR a 27 de Julho de 2011 às 20:14
Na verdade, o conceito de produtividade é independente dos custos. Mas eu diria que a produtividade da CP = quantidade de serviço [quilómetros percorridos] x qualidade [h/km, conforto, assiduidade, etc.]


De Nicolau Wurmood a 27 de Julho de 2011 às 20:30
Pois e como não existem objectivos sociais e políticos envolvidos no subsídios estatais (como por exemplo permitir que haja mobilidade dentro das áreas urbanas ou que não se formem ainda mais guetos) isto é tudo uma aritmética que bate certo. O problema é quando a realidade entra pela porta e alguém começa a ter que ficar pelo caminho. Quantos são aceitáveis nesta cruzada pela “racionalização”?


De PR a 27 de Julho de 2011 às 23:49
O Nicolau justifica indemnizações compensatórias com base nos guetos? LOL

E depois sou eu que racionalizo :)


De Nicolau Wurmood a 28 de Julho de 2011 às 00:09
Sabe que ao contrário das aulas universitárias de economia o principio ceteris paribus não tem qualquer existência no mundo real certo? O mundo não pára porque alguém pensa que tem um modelo bonito ou "racional".


De PR a 28 de Julho de 2011 às 00:30
Agora justifica as indemnizaçóes com base no ceteris paribus? Mal por mal, mais valia ter-se ficado pelos guetos...


De Nicolau Wurmood a 28 de Julho de 2011 às 01:20
Sem dúvida que será o destino dos muitos que não conseguem "ver a luz".


De Pedro Jordão a 27 de Julho de 2011 às 22:07
Acontece que a maioria dos utilizadores dos transportes públicos, aqueles a quem o aumento dos preços mais vai afectar, não tenderão "a refrear o seu consumo" - porque não podem, não andam propriamente a passear de metro ou autocarro. A analogia com o petróleo é descabida e é aliás contrária ao pressuposto que sustenta o apelo ao uso de transportes públicos em detrimento das viaturas privadas, ponto de vista que há muito parece consensual.


De PR a 27 de Julho de 2011 às 23:43
Isso é um disparate, não é o facto de uma actividade ser lúdica ou deixar de o ser que determina a forma como as pessoas reagem à subida do preço. Eu também não ando a passear de alfa pendular Norte-Sul e pode crer que ajusto o meu padrão de consumo aos preços.


De Pedro Jordão a 27 de Julho de 2011 às 23:54
Portanto, se precisar apanhar um transporte público todos os dias para ir trabalhar, ficando o transporte público obviamente mais barato do que a viatura privada que pode até não ter, em caso de subida de preços acabará por adaptar o seu padrão de consumo. Faltando pontualmente ao trabalho, presumo. Realmente o disparate foi meu.


De PR a 28 de Julho de 2011 às 00:39
Deixe lá a ironia, neste contexto só serve mesmo para para evidenciar o disparate.

Repare que a decisão só é usar/não usar no curto prazo.

A médio prazo, o consumidor pode:

a) levar em conta o custo de transporte na altura de escolher o emprego ou a zona de residência;

b) comprar ou não comprar viatura, ou partilhá-la com outras pessoas;

c) alterar o tipo de transporte (metro? comboio? autocarro? um mix de todos?)

E as empresas podem - e vão - reagir a esta reacção diminuindo custos de forma a poderem baixar os preços e voltar a atrair clientela.


De Pedro Jordão a 28 de Julho de 2011 às 01:16
Agora sem ironia, à qual espero não ter sido lida com o tom errado: a nossa percepção da realidade é díspar. As suas alíneas não combinam com o país que eu vejo, onde uma maioria de pessoas não escolhe empregos - sujeita-se a empregos - e não tem mais opções a tomar no que toca ao uso de transportes públicos. Não podem deixar de usá-los, e já gastam o menos que podem.

Não há ironia nenhuma quando lhe digo que não entendo como podem diminuir os custos sem faltarem ao trabalho. Têm um único meio de cumprir um fim obrigatório. Isso não vai mudar. Vai mudar apenas o custo com que o farão.

Como costumo lê-la, sei ainda que não será ingénua ao ponto de acreditar que algum dia uma empresa de transportes, pública ou privada, irá consagrar qualquer diminuição dos custos à descida de preços para o consumidor.

Estando enganado, o meu disparate será a sua razão. Simplesmente li-a atentamente, das três vezes, e não pareço estar em estado de ser convencido.


De Nicolau Wurmood a 28 de Julho de 2011 às 01:30
Chama-se a isso a disparidade de oportunidades gerada por elites híper-móveis cujas redes de contacto tornam tudo fluido e facilmente flexível. Óbvio que é preciso dobrar um pouco o pescoço para ver que a maioria não partilha desse espantoso novo leque de possibilidades.

Torna-se complicado distinguir entre a defesa da conveniência e simples dissonância cognitiva.


De PR a 28 de Julho de 2011 às 01:46
"a nossa percepção da realidade é díspar. As suas alíneas não combinam com o país que eu vejo, onde uma maioria de pessoas não escolhe empregos

Nem a zona de residência? Nem o tipo de transportes que usam? Nem boleias, nem seja o que for? Eu sei que a economia é estatizada, mas, raios, não exagere.

Mas repare numa coisa engraçada: mesmo que fosse verdade o que diz, ainda assim faria sentido aproximar o preço do bilhete do seu custo efectivo e reembolsar o subsídio à população. Quem achasse essencial continuar a usar transportes, usaria o reembolso para os pagar; quem não achasse, usaria o reembolso para outra coisa qualquer, sem desvirtuar o sistema de preços.

Eu sei que a subida de preço não vai ser reembolsada, mas o efeito líquido é o mesmo, porque se destina a evitar uma subida maior de impostos.


De Sérgio Pinto a 5 de Agosto de 2011 às 23:08
Priscila,

Acho que este post não tem grande sentido.
- Primeiro, decorre do seu raciocínio que o Estado nunca deveria intervir, seja de que forma for, na economia - afinal, estaria sempre a distorcer, não é? Presumo que baste uma olhadela para o peso do Estado em %PIB em países desenvolvidos e em desenvolvimento para perceber que isso não tem grande sentido.
Assim de repente, a sua receita de minimizar "distorções" por via da eliminação do papel do Estado faz-me lembrar a receita típica do FMI nas últimas décadas, em particular nos países em desenvolvimento - como saberá, os resultados foram brilhantes...
- Depois, trata-se de mais uma medida de austeridade (no sentido em que deprime o consumo interno de bens transaccionáveis, o que é excelente quando se enfrenta um choque do lado da procura). Gostava sinceramente de saber o que leva alguém a achar que a austeridade gera crescimento económico num país sem hipótese de recorrer a mecanismos de política monetária ou cambial.
- Por fim, como outros comentadores já referiram, a maioria das pessoas não tem propriamente grande escolha nos empregos que encontra. E, como imaginará, a maioria das pessoas que vive na margem sul (por exemplo) e tem de vir todos os dias para lisboa não o fará por gosto, mas simplesmente porque não tem meios para viver ao lado do emprego (e porque o próprio emprego será pouco seguro/estável).


De PR a 7 de Agosto de 2011 às 23:04
Sérgio,

Penso que os princípios subjacentes a este post até permitem um Estado bastante mais intervencionista. Entre provisão de bens públicos, taxas às externalidades negativas, subsídios às externalidades positivas e gestão de monopólios naturais, há muito por onde intervir.

E a isto há que acrescentar a despesa pública com propósitos sociais [transferência de riqueza], que é uma questão puramente normativa. Em teoria, até é aceitável que haja uma redistribuição de 100% do bolo.

Concordo que a subida do preço dos transportes é uma medida de austeridade. Mas, austeridade por austeridade, antes a austeridade que recai sobre quem pode reagir (utentes), do que sobre quem não pode (contribuinte). É mais eficiente e mais justo.

(Mas este era o ponto do post. E se o leu e não ficou convencido, também acho que não será o comentário a mudar-lhe a opinião)


De PR a 7 de Agosto de 2011 às 23:12
"como outros comentadores já referiram, a maioria das pessoas não tem propriamente grande escolha nos empregos que encontra"

Boa. Vai daí, vamos lixar todos os contribuintes os que tiveram o azar de não ter um transporte público à porta para fazer 50km/dia a preço de saldo.

Repare que qualquer taxa implica também destruição de emprego, ainda que menos visível. Se os impostos forem mais baixos porque eu não tenho de custear a CP, eu estarei disposta a aceitar um emprego mais longínquo, porque tenho mais dinheiro para ir de carro, comprar uma casa mais próxima ou outra alternativa qualquer.

O seu erro está em olhar apenas para os empregos que se perdem e não olhar para os que poderiam ser criados.




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