Terça-feira, 9 de Agosto de 2011
Priscila Rêgo

Paul de Grauwe defendeu ontem no Financial Times que os países da Zona Euro estão vulneráveis a um ataque especulativo sobre a respectiva dívida porque o BCE é um banco que, por ser de todos, não é de ninguém. Segundo De Grauwe, pelo menos pelo que percebi, os países europeus, ao não terem moeda própria, não podem "ameaçar" os mercados com a possibilidade de o Banco Central imprimir moeda para pagar as dívidas. O "default" é o resultado da perda de soberania monetária.

 

Mas qual é exactamente o problema do "default"? Se um país deixa de pagar a dívida, isto é dinheiro que deixa de ser pago ao estrangeiro. O problema vem a seguir: ao rasgar um contrato com credores externos, o país abdica da sua credibilidade e terá as portas dos mercados fechadas sempre que quiser financiar o seu défice. O "haircut" é uma via para a austeridade: sem défice, a despesa sobe e a receita cai por necessidade contabilística.

 

Mas a receita de De Grauwe - inflacionar a economia para pagar a dívida - tem precisamente o mesmo efeito: ao devolver aos credores um valor real de rendimentos inferior àquele que tinha sido previamente acordado (porque entretanto os preços subiram), fecha as portas dos mercados em futuras emissões de dívida. Na verdade, o efeito mais directo até seria, provavelmente, uma crise cambial - tudo aquilo que os países pequenos queriam evitar ao colocarem-se debaixo do "guarda-chuva" do euro.

 

Ou então não estou a ver bem a coisa.

 

 


3 comentários:
De iupi a 10 de Agosto de 2011 às 09:51
"Se um país deixa de pagar a dívida, isto é dinheiro que deixa de ser pago ao estrangeiro"... mas qual estrangeiro? o capital não tem nacionalidade.
e, parece-me que os mercados a 'fecharem portas' assim, não tarda nada, estão a fezer negócios só entre eles.
...


De PR a 10 de Agosto de 2011 às 20:26
"o capital não tem nacionalidade."

Os compradores de obrigações têm nacionalidade, sim. Até porque normalmente são bancos.


De iupi a 11 de Agosto de 2011 às 09:06
creio ser pacifico - de há muito tempo, mas acentuado, ou mais visivel, com a globalização; que o capital não tem nacionalidade.
os compradores individuais têm nacionalidade, os bancos estão sedeados em nações, mas só por conveniência/facilidade se diz que o banco é português ou alemão ou...
na verdade os bancos têm acionistas de várias nacionalidades, ou nehuma uma vez que muitos deles são outros bancos ou fundos de investimento constituidos por interesses de várias 'nacionalidades'.
moralmente reprovável não pagar as dívidas? - individualmente, sem dúvida. mas se há coisa que nestes negócios não entra é a moral. negoceia-se de acordo com as circunstâncias.


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