Sexta-feira, 12 de Agosto de 2011
Priscila Rêgo

O Henrique Raposo também comete aqui uma falácia muito comum. Dou-lhe a palavra.

 

Quando diz que a culpa disto é do governo, porque fechou centros de dia para os jovens (seja lá o que isso for), o ex-mayor de Londres está a dizer - implicitamente - que estes jovens têm de ser entretidos pelo estado. Porque, ora essa, se não forem entretidos, os ditos jovens vão virar vândalos. E é isto que enjoa. É esta ligação falaciosa entre o bolso e a moral que me tira do sério. Aliás, esta associação imediata entre o "Pobre" e a "violência" começa a ser repugnante. Porque é ofensiva para quem nasceu pobre. Que eu saiba, pobre não é sinónimo de vândalo ou de rufia.

 

Bom, é um pouco mais complexo do que isto.

 

Nem todos os pobres roubam. A maioria é boa gente. Eu própria considerava-me boa gente quando, não há muito tempo atrás, vivia com o extraordinário salário de 600€/mês. Mas isto é tão válido para o acto de roubar como para o acto de ler livros e ir à ópera. Alguns pobres fazem um esforço genuínio para lerem uns livros, acederem à alta cultura e aprenderem umas coisas. Em média, contudo, continua a ser muito mais provável que ver um rico do que um pobre na Quinta Sinfonia do Beethoven ou na secção de Ciência Política da FNAC. Ser pobre não é uma prisão. Mas pode ser um fardo pesado.

 

E este é um ponto em que a investigação no campo da ciência política e economia até tem produzido resultados mais sólidos e duradouros. A relação entre violência, assaltos e pobreza/desigualdade é altíssima, em praticamente todos os casos analisados. Se queremos saber a taxa de homicídios por mil habitantes numa dada região ou país, o melhor indicador para o prever é a desigualdade, e não a quantidade de meios colocados à disposição da polícia. Não é moral bacoca. São números. 

 

Isto não significa que a pobreza causa o crime. O pobre que rouba não é um autómato que não pensa. Mas é precisamente por não ser que este comportamento é compreensível. O homem é um ser racional que reage a incentivos, e uma das motivações mais fortes é comparar-se com os outros homens (algo que se traduz em resultados interessantes). Quanto maior a desigualdade, maiores os incentivos para a) contornar a desigualdade através de mecanismos ilícitos; b) melhorar a auto imagem através de uma sensação de superioridade não económica, como a violência e o abuso. A pobreza não causa o crime, mas gera um sistema de incentivos em que o recurso ao crime se torna relativamente mais apetecível.

 

À Direita que tem dificuldade em entender o conceito de incentivos, sugiro que troque desigualdade por "ausência de polícia nas ruas". A ausência de polícia nas ruas não torna ninguém crimininoso. Mas torna o crime uma actividade bastante mais proveitosa do que se as forças da segurança estiverem presentes. Talvez assim fique mais fácil de entender a ideia.

 

 


4 comentários:
De VM a 17 de Agosto de 2011 às 14:33
A Priscila Rêgo também comete aqui uma falácia muito comum.

Primeiro, parte-se do principio que existe, por qualquer um paradigma que me é desconhecido, um grupo de pobres e outro de ricos, sendo que os pobres "fazem um esforço genuínio para lerem uns livros, acederem à alta cultura e aprenderem umas coisas" (ouch!). Terei de reler o post pela 15ª vez, mas não percebo o que é isso de alta cultura, e porque é que os pobres (quem?) não conseguem apanhar-lhe as migalhas.

Explicar os episódios de Londres como falta de incentivos, razões individuais (quando os mesmos adolescentes se movimentavam em bandos, portanto, inseridos em análises de comportamento de grupo) ou mesmo através de superioridade financeira e elevação pessoal não deixa de ser incompleto. Bom, é um pouco mais complexo do que isto.

Há, e sempre houve, uma conexão estreita entre a criminalidade e o indivíduo desprovido de bens materiais e financeiros, que se considera oprimido ou rebaixado por qualquer uma abstracta escala social e económica. Porém, a prática de actos criminosos reside não na desigualdade sentida por cada um, mas, sim, no sentimento de "não ter nada a perder" daqueles que, pelos mais variados motivos, se sentem desprovidos de bens materiais suficientes que lhes possam justificar a própria inclusão perante os seus pares. Trocos e aparências.

Quem saberá dizer que os jovens metidos a milícias anarquistas são pobres? Todos eles? Se a desigualdade se rege em linhas paralelas aos incentivos, que dizer de Bernard Madoff e da sua desigualdade "invertida"?

Em minha contida opinião, parece-me que os subsídios atirados pelos estado Britânico, a exaltação da cultura adolescente de subversão (que alguns erroneamente associam à cultura negra), as últimas manias da moda e o "não ter nada a perder", dentro de um esquema de comportamento de grupos e de envergonhado policiamento público, motivaram as primeiras pedras. Depois foi deixa-las rolar, mediante o aceno positivo e encorajador do estado Britânico. Crime for the sake of crime. Tempo a mais?


De PR a 18 de Agosto de 2011 às 00:45
"Primeiro, parte-se do principio que existe, por qualquer um paradigma que me é desconhecido, um grupo de pobres e outro de ricos, sendo que os pobres "fazem um esforço genuínio para lerem uns livros, acederem à alta cultura e aprenderem umas coisas" (ouch!)."

Não. Assumo que a riqueza é uma característica distribuída de forma assimétrica, pelo que é possível identificar grupos de pessoas mais ou menos ricas.

Presumo que o VM seja capaz de fazer o mesmo com a característica "cabelo" sem que o acusem de criar, por um qualquer paradigma desconhecido, duas classes estanques de cabeludos e carecas.

"Quem saberá dizer que os jovens metidos a milícias anarquistas são pobres? Todos eles? Se a desigualdade se rege em linhas paralelas aos incentivos, que dizer de Bernard Madoff e da sua desigualdade "invertida"?"

Parece-me óbvio que fazer falcatruas com fundos de investimento é significativamente diferente de partir montras, pelo que o caso Madoff, como contra-exemplo, até é fraquinho.

Mas, em todo o caso, o que conta é mesmo a tendência média. Espero que não me venha refutar a ideia de que os alemães são mais altos que os portugueses lembrando que o Hugo Almeida é mais alto do que o Schroeder.

"Em minha contida opinião, parece-me que os subsídios atirados pelos estado Britânico, a exaltação da cultura adolescente de subversão (que alguns erroneamente associam à cultura negra), as últimas manias da moda e o "não ter nada a perder", dentro de um esquema de comportamento de grupos e de envergonhado policiamento público, motivaram as primeiras pedras."

É, pode ser muita coisa. Mas a explicação será obtida por via empírica e não a pôr a rotativa ideológica a funcionar. Foi isso que eu quis focar nestes posts (mas, pelos vistos, o VM até concorda).


De VM a 18 de Agosto de 2011 às 15:39
Parece-me haver aqui um problema de semântica. Achei propositado vincar a questão da dicotomia "rico" e "pobre. Reside numa questão de auto percepção, nada mais. Mas, pelos vistos, a PR até concorda.

Quem é o maior criminoso, o que rouba milhões ou o que parte montras? :)


De PR a 18 de Agosto de 2011 às 20:05
"Quem é o maior criminoso, o que rouba milhões ou o que parte montras?"

Não discuto se quem parte montras é mais ou menos criminoso que quem rouba milhões. Limito-me a constatar que são crimes substancialmente diferentes para não suportarem uma conclusão por analogia.


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