Sexta-feira, 12 de Agosto de 2011
Priscila Rêgo

Os posts anteriores não são incompatíveis com um repressão policial. Aliás, a ideia dos incentivos até pode justificar uma polícia musculada, porque um dos incentivos mais fortes do ser humano é o desejo de evitar a dor, algo que pode ser alcançado com grande propriedade por umas judiciosas bastonadas. Além do mais, a desigualdade não se reduz num dia. E, entretanto, há que fazer alguma coisa.

 

Mas tudo isto se baseia na ideia de que há um problema e, portanto, uma solução: reduzir a desigualdade, pôr a polícia a malhar na malta, etc. Há outra possibilidade, que ninguém considera publicamente porque o espaço público é um espaço de certezas e afirmações contundentes, mas que pode ser uma explicação plausível: e se não há uma causa para isto, no sentido significativo do termo?

 

Deixem-me explicar com um exemplo que pode ferir alguns espíritos masculinos. Uma das coisas mais engraçadas no final dos jogos de futebol é ouvir os doutores da bola a explicarem a vitória de uma equipa com as "linhas diagonais", as "dinâmicas de posse de bola", a "pendularidade do trinco" e por aí fora. Fico banzada: às vezes, o que vejo é uma equipa que teve a sorte de marcar no primeiro minuto e de apanhar com cinco bolas no ferro durante a segunda parte. E que raio tem isto a ver com a pendularidade ou obliquidade de um gajo no meio do relvado?

 

Muitos fenómenos não têm causa neste sentido. A equipa que tem a sorte de marcar no momento certo, o actor que estava no casting certo, a empresa que descobriu petróleo por acaso. Acontece quando há fenómenos de feedback positivo - levando a reacções em cadeia, em vez de reacções de homeostasia - e sobretudo em sistemas instáveis. Uma quebra a pique na bolsa não precisa de ser justificada por fundamentais macroeconómicos. Pode ser o azar de estarem todos a olhar para a mesma acção no momento em que esta cai para lá de um determinado limite. É azar que se auto alimenta até ao ponto de crise.

 

No caso dos tumultos de Londres, é fácil imaginar um "modelo" simples em que um conjunto de circunstâncias extraordinárias "descambou" facilmente naquilo que vemos na televisão. Sabemos que há sempre uma quantidade razoável de marginais e meliantes dispostos a roubar e a assaltar, mesmo com níveis de desigualdade ou pobreza dentro da média. Sabemos igualmente que os fenómenos de imitação social são muito fortes e que a "circunstância faz o ladrão": perante uma montra partida, é difícil resistir a entrar e tirar alguma coisa (a tal estória dos incentivos).

 

Agora, imagine-se que uma morte mal explicada despoleta uma pequena escaramuça com a polícia. A polícia avalia mal a situação e não dá explicações, gerando ainda mais protestos e fazendo crescer o sentimento de desconfiança: nada de novo. Até que tudo estala: confrontos, cokctails molotov, e por aí fora. A partir do momento em que o conflito estala, é difícil pará-lo: já se gerou "massa crítica" suficiente nas ruas, as expectativas ancoraram-se em torno da inacção da polícia e na multiplicação de confrontos (o que diminui a probabilidade de se acabar na cadeia) e as lojas partidas geram, mesmo no cidadão médio, com posses e sem problemas, o desejo irresistível de entrar na loja só para surripiar aquele DVD. Ninguém vai ver.

 

Se esta narrativa estiver correcta, a solução é apenas colocar a polícia na rua em força durante uns dias, até que as expectativas voltem a estabilizar em torno de um cenário estável. E a coisa vai aos eixos. Os próximos dias talvez façam luz a respeito deste tema.

 

 


2 comentários:
De Sérgio de Almeida Correia a 12 de Agosto de 2011 às 15:41
Estou a gostar, embora possa não estar de acordo quanto a tudo. Mas o que escreveu em Londres II está inteiramente correcto. E não é preciso ser de direita ou de esquerda para perceber isso. Basta pensar um pouco, como fez, e bem.


De jj.amarante a 12 de Agosto de 2011 às 23:17
Afinal, mesmo só com a "investigação à distância" conseguem-se obter resultados muito interessantes, como provam estes posts Londres I, II e III.


Comentar post

autores

Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

comentários recentes
Great post, Your article shows tells me you must h...
You’ve made some really good points there.I looked...
دردشة سعودي ون (http://www.saudione.org/) سعودي و...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
http://www.chat-palestine.com/ title="شات فلس...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
كلمات اغنية مين اثر عليك (http://firstlyrics.blogs...
o que me apetecia ter escrito. mas nao o faria mel...
good luck my bro you have Agraet website
resto 5resto ya 5waga
posts mais comentados
125 comentários
114 comentários
53 comentários
arquivo

Fevereiro 2013

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

links
subscrever feeds