Terça-feira, 20 de Setembro de 2011
Priscila Rêgo

Estava a ver o Prós e Contras. O programa tem um tema diferente todas as semanas, mas a estrutura é sempre a mesma. Alguns indivíduos, cheios de vontade de contribuir para o progresso do país, pedem ao Estado que lhes conceda os necessários apoios para que possam levar a cabo o empreendimento. A apresentadora abana com a cabeça e concorda com a necessidade de ajudar esses sectores e actividades - inevitavelmente "estratégicos" e "estruturantes", "inovadores" e "de alto valor social", todos eles "promotores de mudanças paradigmáticas" e por aí fora.

 

Pelo meio, criticam-se alguns outros sectores que estão a impedir o progresso da nação - hoje foram os hipermercados - e enaltece-se a juventude, coragem e ímpeto exportador destes jovens empresários. Faz lembrar vagamente o balneário de uma equipa derrotada: pá, somos muita bons; mas com este azar  - e aquele árbitro - não vamos a lado nenhum. Tudo muito paternalista e assistencialista, como se a criação de riqueza fosse matéria de boa vontade. O problema nunca está no nosso produto, mas no mundo que não lhe reconhece a genialidade.

 

A certa altura, um senhor, cujo nome não fixei, citou um estudo segundo o qual em 2050 haverá falta de alimentos no mundo. Daqui ele extraiu que eram necessários mais apoios ao sector agrícola (que é estratégico e estruturante e está cheio de bons exemplos) para evitar a fome mundial. Mas este é precisamente um argumento para lhe retirar os apoios: se há pouco alimento, os preços sobem e o sector floresce. Não é que antes fossem justificados; mas pelo menos ainda passavam a título de transferências sociais.

    

Era de esperar que a estação pública tivesse uma apresentadora cujo domínio dos princípios básicos da economia lhe permitisse detectar pelo menos as falácias mais gritantes. Mas a RTP é uma estação pública que viveu durante anos fora dos mecanismos de mercado e às custas do dinheiro do contribuinte: as ideias que por lá circulam são as que os socialistas lá meteram. Os seus programas reproduzem essa cultura. Mostram a economia portuguesa como um gigantesco plano quinquenal em que cabe aos planificadores decidir o que produzir, como produzir e a quem entregar o produto. Quem faz o programa não imagina que há uma alternativa. Como poderia? Nunca viu nada diferente.

 

 

 


14 comentários:
De Joao a 20 de Setembro de 2011 às 10:13
Também vi. E não consigo deixar de achar que cada vez que lá vai um elemento do governo o programa transforma-se num peditório para o sector crucial que precisa de ajuda do estado... É um "o meu sector é mais crucial que os outros".

Se o que falta é tanta coisa como coordenação, investigação e publicidade para melhor exportar... porque não se juntam este empresários e criam associações de coordenação, centros de investigação, e anúncios? E continua-se a bater palmas a quem pede apoio para fazer o que lhe compete...


De luis eme a 22 de Setembro de 2011 às 12:44
excelente observação.

é mesmo isso. muda apenas o "sub-tema", mantem-se tudo o resto.


De Nuno Gaspar a 24 de Setembro de 2011 às 03:45
Priscila,

Quando aparece a falar de temas agrícolas nunca é para dizer bem.

"Mostram a economia portuguesa como um gigantesco plano quinquenal em que cabe aos planificadores decidir o que produzir, como produzir e a quem entregar o produto"

Esse tem sido o papel da Política Agrícola Comum, que temos acatado desde a adesão sem tossir nem mugir com os brilhantes resultados que estão à vista.

"Mas este é precisamente um argumento para lhe retirar os apoios:"

Depende dos apoios de que estamos a falar. Não atrapalhar com plétora regulamentar já seria um grande apoio. E até poupava muito dinheiro.
E há outros apoios que, se o nosso estado os não fizer (tecnologia, diplomacia económica, ...), continuaremos, entre balsas e mato, a ser alimentados pelos estados que o fazem bem e a ler doutos economistas, nos seus blogues, a clamar pelas nossas vantagens comparativas sem dizer quais são.


De Anónimo a 24 de Setembro de 2011 às 16:35
Nuno,

"Depende dos apoios de que estamos a falar. Não atrapalhar com plétora regulamentar já seria um grande apoio. E até poupava muito dinheiro."

Ok. Mas eu acho que o tipo que estava a falar referia-se a apoios de uma natureza um bocadinho diferente :) E é esse tipo de apoios que não se justificam.

"E há outros apoios que, se o nosso estado os não fizer (tecnologia, diplomacia económica, ...), continuaremos, entre balsas e mato, a ser alimentados pelos estados que o fazem bem "

Quais Estados?


De Anónimo a 24 de Setembro de 2011 às 17:28
"Quais Estados?"

Os que já nos estão a dar de comer: Brasil, EUA, França, Holanda, Dinamarca, Espanha,...

"E é esse tipo de apoios que não se justificam."

Não se justificam se, e só se, repito, e só se, os nossos competidores os não utilizarem.


De PR a 24 de Setembro de 2011 às 20:14
Nuno (presumo),

"Os que já nos estão a dar de comer: Brasil, EUA, França, Holanda, Dinamarca, Espanha,... "

Precisamente. Mas se já nos estão a dar de comer, para que é que precisamos de ter a nossa própria produção? A essência do comércio é a troca. Presumo que quando o seu padeiro lhe vende pão barato o Nuno não pense que tem de se esforçar mais para produzir o seu próprio pão em casa.

Ponha a coisas desta forma. Imagine que descobria que os produtos informáticos estão a ser altamente subsidiados pelos governos americanos e japoneses. Qual seria a atitude certa a tomar? Subsidiar os nossos também? Ou comprar as pechinchas dos outros? Repare que, se o subsídio for suficientemente grande, até podemos competir com o Médio Oriente na extracção de petróleo...

"Não se justificam se, e só se, repito, e só se, os nossos competidores os não utilizarem."

Isso é o que está em discussão. Mas enquanto não der um bom argumento para sustentar a sua posição, pode repetir à vontade que não passa de preconceito ou profissão de fé :)



De Nuno Gaspar a 24 de Setembro de 2011 às 21:38
PR,

"Mas se já nos estão a dar de comer, para que é que precisamos de ter a nossa própria produção?"

Porque não criamos riqueza suficiente noutros sectores que dê o dinheiro suficiente para lhes pagar (e eles já descobriram) e porque o planeta não tem futuro a andar com tantos navios, camiões e comboios a transportar alimentos de um lado pr'a outro. Não promover a produção local (repare, não é dar dinheiro, é apenas não atrapalhar e dar atenção) é ser conivente com um desastre económico, social e ambiental. A displicência e altivez urbana com que uma grande parte dos políticos e economistas têm tratado o tema em Portugal, nos últimos 35 anos, faz parte dessa catástrofe.


De PR a 24 de Setembro de 2011 às 22:26
Nuno,

Das duas uma. Ou os agricultores portugueses precisam de apoios porque os outros também os têm e por isso vendem mais barato; ou os outros vendem mais caro e os agricultores portugueses não precisam de apoio nenhum.

Agora, dizer que precisamos de os apoiar porque não temos dinheiro para comprar lá fora é que é um contrasenso. Se não temos dinheiro para comprar lá fora, certamente que também não teremos para comprar cá dentro. E menos ainda teremos se uma parte do rendimento for para pagar subsídios à produção agrícola...

Mas se por "apoiar" apenas entende "não atrapalhar", estou consigo. Noto apenas que não foi esse o sentido que a palavra "apoio" foi usada pelo tipo que eu refiro no post. E nesse caso a sua achega talvez não seja bem direccionada para este post :)


De Miguel Madeira a 25 de Setembro de 2011 às 01:32
Uma maneira de resolver o dilema era assumir economias externas de escala na produção agricula e considerar que a agricultura portuguesa está abaixo do ponto em que essas economias poderiam existir mas com subsídios vai atingi-lo (e assim poder beneficiar em grande da tal subida dos preços agriculas).


De Nuno Gaspar a 25 de Setembro de 2011 às 03:34
"Se não temos dinheiro para comprar lá fora, certamente que também não teremos para comprar cá dentro"

Não teremos para comprar cá dentro?! Qual é a fórmula de cálculo do PIB, Dra. Priscila?

"não foi esse o sentido que a palavra "apoio" foi usada pelo tipo que eu refiro no post"

Talvez. Mas também noto que não perde uma oportunidade de calcar o pé num sector que precisa e merece carinho e respeito.


De Nuno Gaspar a 25 de Setembro de 2011 às 04:04
"Ou os agricultores portugueses precisam de apoios porque os outros também os têm e por isso vendem mais barato; ou os outros vendem mais caro e os agricultores portugueses não precisam de apoio nenhum"

Isso até poderia ser mais ou menos assim se a produção agrícola tivesse um rápido retorno do investimento. As culturas são anuais, os ciclos de vida animal são plurianuais, as correcções e melhoramentos do solo não se fazem de um dia para o outro, as infraestruturas de irrigação e drenagem precisam de muitos anos para se fazer, a obtenção de variedades aptas a condições específicas toma décadas de investigação a fio. O que se passa é que sem uma decisão estratégica de produção alimentar nacional corre o risco sério de comprar caro e fora, como agora acontece, e ter uma estrutura de produção paralisada numa teia administrativa e subsidiológica, onde são raros os sectores que conseguem brilhar (azeite, vinho, pêras,...).


De PR a 25 de Setembro de 2011 às 15:50
Nuno,

Eu conheço a fórmula do PIB. Só não vejo o que é que tem que ver com o assunto em discussão.

Mas deixe lá isso. Se me diz que só pede que a administração saia do caminho, tudo bem e eu secundo-o. Duvido que uma estratégia de desenvolvimento tão minimalista leve à "autosuficiência alimentar", mas se esse for o resultado, cá estarei para aplaudir.

Quanto à sua última frase, não percebi. Eu critico a esmagadora maioria dos subsídios: seja à indústria, serviços, energias renováveis ou transportes (algo que facilmente poderá confirmar pelos arquivos deste blogue).





De Nuno Gaspar a 25 de Setembro de 2011 às 16:51
"Eu conheço a fórmula do PIB. Só não vejo o que é que tem que ver com o assunto em discussão."

Tem que ver que, se importar, o PIB diminui e, se comprar nacional, o PIB aumenta. Se comprar continuamente ao estrandeiro cai na miséria. Se comprar o que aqui consegue produzir fica com um pais cada vez mais rico, sejam caro ou barato aquilo que compra. Só isso.


De PR a 25 de Setembro de 2011 às 20:09
Isso é uma falácia. Se Portugal importar mais, o PIB não diminui: fica exactamente como está. A razão por que as importações aparecem com o sinal de (-) na equação é porque C+I+G já as inclui. Logo, é preciso retirá-las posteriormente.


Claro que se deixar de comprar ao estrangeiro para comprar nacional, o PIB aumenta por substituição. Mas isso é trivialmente verdadeiro: se deixar de comprar carros alemães e passar a comprar os meus dejectos ressequidos, o PIB também aumenta.



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