Terça-feira, 4 de Outubro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Vivo com dois alemães e um francês. Quando me perguntaram de onde vinha, disse baixinho que era ali para os lados da Espanha. Durante dois segundos não disseram nada, até que ‘Are you Spanish?’. ‘God no!’. E pronto, armado em Nuno Álvares, denunciei a minha falida origem aos meus mais generosos credores. Dede aí, sempre que peço sal ao alemão mais velho sinto o embaraço de quem já está a pedir de mais. Imagino-lhe o pensamento, todo em alemão. Como se a minha estadia não estivesse já a ser paga pelos pais dele, ainda tenho o descaramento de pedir pitadas de sal para dar melhor gosto à minha cozinha mediterrânica, tão parca em shnitzel. O alemão mais novo não tem sal, por isso não o chateio. O francês, ligeiramente mais alto que o seu presidente, age sem grandes conflituosidades.

Mas isto é apenas uma pequena ponta do iceberg. Evito andar com outros portugueses e tento encobrir o sotaque lusitano. E, claro, quando digo de onde sou, e para quebrar o gelo que a minha origem cria, digo logo, numa gargalhada triste, ‘Yes, we are broke’. A pessoa, vendo que estou à vontade com a miséria da minha pátria, sente logo uma solidariedade relaxada, que permite a paródia sem o vexame. E tentamos discutir o que Portugal tem para discutir. Ontem, por exemplo, depois das cervejas, comecei a explicar ao neo-zelandês como é que o nosso sistema parlamentar funciona. Ele ficou admiradíssimo com a nossa prática de recrutar deputados nos escritórios de advogados. Achou ‘retard’ (não o culpem, é novo e neo-zelandês). Claro que lá mandei a laracha: ‘Oh, New Zealand probably works better, but you’ve got to admit that’s way easier to rule sheep’. O tipo mandou uma risada meio desgostosa, mas, como eu, lá quebrou o gelo ‘Actually, it’s quite complicated to manage 25 million sheep. We have seven sheep per person’. And we laughed. E a gente riu-se, porra. Tal como nos rimos no outro dia do americano contador de histórias. Muito crítico para com o seu país, que não é Portugal, o americano perdia-se nos podres que denunciava. No fim, dizia-nos ‘Every country has its own flaws. You can’t have it perfect, the whole package’. Até tem razão.


3 comentários:
De Maria João a 4 de Outubro de 2011 às 13:08
Adorei:-)
(a minha lusitaniedade - isto existe? - não me permite encontrar palavra mais cara para demonstrar agrado)

Maria João


De Hugo Monteiro a 4 de Outubro de 2011 às 18:09
Shnitzel é uma palavra demasiado espectacular para significar, apenas, um "Panado".


De Daniel João Santos a 5 de Outubro de 2011 às 22:15
seja onde for, somos portugueses com orgulho.


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