Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011
Priscila Rêgo

Genericamente, concordo com o Tiago na crítica que faz ao post do João Galamba. Mas acho que foi demasiado brando em relação uma ideia que me parece mal concebida de raiz.

 

O João Galamba traça uma dicotomia entre as ciências "naturais", nas quais é legítimo descortinar relações de causa/efeito fixas, e as outras ciências (sociais, presume-se), onde as relações dependem do "contexto". E daqui deduz que apenas no primeiro caso é possível criar uma ciência capaz de encontrar "leis" no sentido newtoniano do termo. Nas outras, resta-nos ser artistas.

 

Isto é pouco convincente. Apesar de o João Galamba assumir sem problemas que há ciências da Natureza e ciências do Ser Humano, esta separação só é óbvia à primeira vista. A medicina e a neurologia também estudam o ser humano e têm progredido através da elaboração de relações de causa/efeito idênticas àquelas que encontramos na química. Por outro lado, ciências como a geologia e a meteorologia, que estudam a Natureza, fazem previsões com graus de liberdade muito semelhantes aos que encontramos na sociologia. Sabemos que há tensões que se acumulam e podem dar origem a fenómenos calamitosos; mas identificar com segurança a "gota d'água" que faz transbordar o copo é quase impossível.  

 

Uma das marcas da ciência ao longo do último século tem sido precisamente a criação de poros cada vez mais largos nas placas que antes separavam os vários domínios. Os fundamentos da microeconomia, que até há umas décadas eram tidos como um dado, estão a ser analisados pela economia comportamental; estes traços, por sua vez, são decompostos pela neurologia em termos de padrões mentais. E depois vem a biologia evolutiva e explica como é que tudo apareceu. Dizer que há ciências do homem e da natureza é como dizer que há engenharia de pontes de viadutos: é útil para dividir tarefas entre quem trata dos assuntos, mas expressa muito pouco acerca da ontologia subjacente das coisas.

 

Por outro lado, fico a pensar o que são estas "relações contingentes" a que as ciências alegadamente sociais podem aspirar. Imaginemos que estou a tentar estudar, de forma muito behaviourista, a relação entre estímulos físicos e o comportamento humano. Chego à seguinte conclusão: "Se bater a um homem ele pode ripostar de forma violenta; mas também pode ripostar fugindo". Isto é uma relação contingente, no sentido trivial de que para um mesmo input admite dois resultados diferentes. Mas não contribui muito para fazer progredir o nosso conhecimento. A "relação contingente" que identificámos poderia ser igualmente bem descrita por um "olha, tanto dá como não dá". Não é saber: é assunção de ignorância.

 

Outro tipo de afirmação igualmente contingente é: "Se bater a um homem e ele se sentir suficientemente confiante para ripostar de forma violenta, fá-lo-á. Caso contrário, vai fugir". Esta afirmação é muito mais informativa porque nos esclarece qual o contexto específico que produz cada resposta possível. Mas este "contexto" é apenas mais uma variável na equação que traduz a relação entre o estímulo e o comportamento. O "não se esqueçam do contexto" do João Galamba pode assim ser formulado de forma mais simples como um "não esqueçam que o mundo é complexo e tem muitas variáveis". Agora, há que começar a incluí-las.

 

O João Galamba dá o exemplo da política monetária, argumentando que o BCE não percebe que a base monetária só gera inflação num determinado contexto. Este exemplo parece-me particularmente infeliz, porque o próprio BCE apresentou a compra de obrigações soberanas como uma medida para restaurar o mecanismo de transmissão monetária, que tinha aparentemente deixado de funcionar durante a crise. Não se ouviu do BCE um "o aumento da base monetária conduz necessariamente ao aumento da inflação", mas sim "estamos a comprar obrigações porque os instrumentos habituais não estavam a funcionar; sim, as compras aumentam a base monetária, mas nas condições actuais isso não faz subir os preços".

 

E a história da economia das últimas décadas também o desmente. A curva de Phillips original dizia que inflação e desemprego tendiam a evoluir de forma inversa. Bastou incluir as expectativas dos agentes para se chegar a um resultado muito mais matizado, que admite que caminhem lado a lado ou se separem à nascença: tudo depende daquilo que é antecipado pelas empresas e trabalhadores. O João dirá que a forma como os dois actores (inflação e desemprego) actuam depende do contexto das expectativas; eu prefiro dizer que as expectativas são apenas mais uma variável num modelo mais vasto de previsão económica.

 

Isto até é bastante trivial. Como o Tiago apontou, a teoria de Newton também não diz que as coisas caem: estabelece uma relação entre a massa e distâncias de corpos e a força que entre eles se produz. Se elas caem como as pedras, ou voam como os aviões, depende depois de parâmetros das equações: se o impulso feito pelo jacto for suficiente para contrariar a força gravítica, pois bem que o avião voa em vez de cair. Não andamos a fazer salvaguardas do tipo "no contexto de um impulso superior à atracção entre o avião e a terra...". Na economia, se há uma armadilha de liquidez a actuar, então o défice provavelmente também não aumenta a inflação ou as taxas de juro.

 

Ok, notaram que escrevi "provavelmente". Sim, estabeleci uma relação "condicional", mas apenas porque o modelo que inspira essa conclusão deixa tantas coisas de fora (expectativas, sector externo, etc.) que na prática há imensas "pontas soltas" a poderem afectar significativamente a força das conclusões. Mas isto é um incentivo para que os economistas continuem a estudar e a tornar cada vez mais ricos e realistas os seus modelos (e já estamos num nível de complexidade razoável). É melhor caminharmos nesse sentido do que encolhermos os ombros e reagirmos a cada previsão mal feita com um "olha, calhou". Não temos de nos resignar a ser artistas.

 

 

 

 

 

 

 

 


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Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

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