Domingo, 16 de Outubro de 2011
Priscila Rêgo

Os "indignados" da manifestação de hoje à tarde foram animados por uma ilusão: a de que é possível sair desta crise de uma forma diferente. Não é. As alternativas ou são mais violentas (sair do euro), ou politicamente impossíveis (a Alemanha que pague) ou simplesmente anacrónicas (não se corta ou défice e depois logo se vê quem o financia). No contexto político e económico actual, seguir o guião que traçámos com a troika é o menos mau dos mundos possíveis.

 

Ainda assim, manifestações deste género são, se devidamente doseadas, algo a saudar. Os sacrifícios que estão a ser exigidos são brutais e é bom que a pressão sobre o Governo não esmoreça. Essa pressão, e o escrutínio permanente que a ela está associado, é a melhor garantia que temos de que o Governo tem os incentivos certos para não ser complacente com os grupos de interesse que inevitavelmente acabarão por surgir: militares, forças de segurança, juízes, o sector da saúde, etc. Os manifestantes estão enganados; não quer dizer que não sejam úteis.

 

 


17 comentários:
De jpm a 16 de Outubro de 2011 às 01:26
Nem entro pela parte da inevitabilidade. Mas se toda a gente sabia que era inevitável, sendo motivo de censura e chacota a indignação dos que levaram isto como um soco ( como se quem estranhasse fosse parvo ou hipócrita), por que raio até 5 de junho a conversa era tão diferente? É ver as críticas ao PEC IV.


De PR a 16 de Outubro de 2011 às 05:48
A manif foi marcada antes do anúncio do Passos, daí que represente um ataque mais a um modo de fazer política [austeridade] do que propriamente a medidas concretas [subsídios de Férias e de Natal]. É em relação à possibilidade de uma alternativa a isso que eu acho que estão errados. Quanto ao caminho seguido, também não me parece óbvio que seja o mais correcto.

Em relação ao PEC IV, só posso falar por mim. Na altura, defendi o chumbo do PEC com base na evidência, confirmada todos os meses, de que a sua execução seria feita por um Governo sem vontade de mudar as coisas, sem capacidade para o fazer mesmo que o quisesse e sem o mínimo de credibilidade para se esperar sequer uma comunicação dos resultados fiável.


De Nuno Gaspar a 16 de Outubro de 2011 às 01:30
Muito, muito bem.


De Anónimo a 16 de Outubro de 2011 às 10:32
Que mania que você tem de dizer coisas que fazem sentido.


De Desconhecido Alfacinha a 16 de Outubro de 2011 às 10:52

Minha Senhora,

Excelente Post e a continuação da sua linha de bons artigos. Os meus parabéns e, humildemente, deixe-me que lhe diga que me está a ajudar a despontar em alguma esperança nas gerações seguintes a minha.

Melhores cumprimentos,


De Luís Lavoura a 17 de Outubro de 2011 às 11:35
"as alternativas ou são mais violentas (sair do euro)"

Não é para mim claro que, no momento atual, essa alternativa fosse mais violenta.

É para mim claro que ninguém sabe, precisamente, em que consistiria tal alternativa.

De qualquer forma, a saída do euro teria as vantagens de que permitiria (1) estimular o crescimento através de uma desvalorização cambial, (2) diluir um tanto as dívidas internas através da inflação (incluindo a que resultaria dessa desvalorzação cambial). Ambos os efeitos seriam positivos. No cenário atual não há qualquer crescimento previsto e a inflação é completamente insuficiente.


De PR a 18 de Outubro de 2011 às 11:18
</i>"Não é para mim claro que, no momento atual, essa alternativa fosse mais violenta"</i>

Em vez de ter uma desvalorização real de 20% na função pública, seria de 30 ou 40% para toda a gente.

"diluir um tanto as dívidas internas através da inflação (incluindo a que resultaria dessa desvalorzação cambial"

Disparate. A nossa dívida está em euros. Com a desvalorização, a dívida subiria. [Claro que a dívida interna diminuiria, mas repare que isso era apenas reduzir a dívida de um português para diminuir os activos de outro português]


De Luís Lavoura a 18 de Outubro de 2011 às 11:47
Tal como eu disse no meu comentário anterior, penso que ninguém, nem eu nem você, sabe exatamente em que consistiria o cenário de saída do euro, dado que tal cenário dependeria das negociações que pudessem ser feitas entre entidades portuguesas e estrangeiras para perdões parciais da dívida. Portanto, estamos aqui ambos apenas a especular.

Dependeria também da determinação do governo português em forçar - mesmo no quadro da saída do euro - sacrifícios para alguns - por exemplo, para os funcionários públicos - em vez de diluir tudo mediante uma impressão maciça da nova moeda nacional. Ou seja, o governo português, após a saída do euro, poderia recorrer à impressão de moeda para pagar os salários dos funcionários públicos - gerando com isso uma inflação maciça - mas também poderia ser mais razoável, diminuindo os salários dos funcionários públicos com o fim de evitar a tal inflação.

Quero dizer, a saída do euro não evitaria, num cenário razoável, austeridade. Mas permitiria uma desvalorização da moeda que facilitaria a transição de empregos para as indústrias exportadoras.

É também verdade que a nossa dívida está em euros. Como é evidente, essa dívida teria que, em parte, deixar de ser paga. O que, de qualquer forma, acontecerá sempre, dado que Portugal está, tal como a Grécia, incapaz a longo prazo de pagar tudo o que deve. Tudo dependeria, pois, dos arranjos que se fizessem para a forma de essa dívida não ser paga.


De PR a 18 de Outubro de 2011 às 13:13
"Portanto, estamos aqui ambos apenas a especular"

Sim, estamos a especular. Mas a minha especulação não cai do ar: baseia-se no que sabemos dos outros casos de desvalorização aguda, como o da Islândia, em que o câmbio representou uma queda no nível de vida de 30 a 40%.

"Quero dizer, a saída do euro não evitaria, num cenário razoável, austeridade. Mas permitiria uma desvalorização da moeda que facilitaria a transição de empregos para as indústrias exportadoras"

Não percebeu. A desvalorização É a austeridade. Se a moeda cai 40%, o seu rendimento cai na mesma medida. Ganha o mesmo em euros, mas esses euros valem menos.



De Miguel Madeira a 18 de Outubro de 2011 às 14:08
"Se a moeda cai 40%, o seu rendimento cai na mesma medida."

Não - só seria assim para alguém que só consumisse produtos importados.

Em Portugal, penso que uma desvalorização de 40% levaria para aí a uma queda do rendimento em 15% (assumindo que as importações sejam uns 35% do PIB).

O mal da saída do euro não seria a desvalorização em si, seria o antes - o colapso de todo o sistema bancário quando toda a gente tentasse transferir o dinheiro para uma sucursal alemã do banco.


De Luís Lavoura a 18 de Outubro de 2011 às 15:21
Uma saída do euro só pode ser feita no âmbito de um corralito à argentina. Pode ser iniciada por um qualquer evento catastrófico, por exemplo uma corrida aos bancos. O governo impõe então um feriado bancário (corralito) e, durante esse período, imprime novas notas.

O sistema bancário colapasaria, de qualquer forma, devido às dívidas ao exterior, que estão denominadas em euros. As dívidas das pessoas aos bancos seriam convertidas na nova moeda por decreto, mas as dívidas dos bancos ao estrangeiro permaneceriam denominadas em euros. Os bancos não teriam capacidade de as pagar.


De Luís Lavoura a 18 de Outubro de 2011 às 15:27
A desvalorização dificilmente seria de 40%. Um valor mais razoável seria 20%.

Mas não haveria uma queda do nível de vida dessa ordem. Portugal tem uma capacidade grande de substituir importações por produtos nacionais. Além disso não haveria uma maciça falência de empresas, como presumivelmente irá haver agora por efeito da queda da procura interna.

A minha opinião é que Portugal está, de qualquer forma, falido, pelo que é só uma questão de tempo até à Europa chegar à razão e decidir que uma parte da dívida terá que ser perdoada e que o país terá que sair do euro. A saída do euro é essencial para o país poder recuperar competitividade mediante desvalorizações da moeda. É também essencial porque o nosso ritmo económico é diferente do da Alemanha e portanto a taxa de juro precisa de ser diferente também.


De Priscila Rêgo a 18 de Outubro de 2011 às 21:10
Ooooops...

Tem razão, Miguel. Por outro lado, no caso islandês e semelhantes, a redução do nível de vida foi mesmo de 35/40%. O que provavelmente indicia que a desvalorização foi bastante superior aos tais 40% que eu referi. [Mesmo descontando o facto de o país ser mais aberto e depender mais de importações].

Luís, gosto sempre da leviandade com que aborda estes assuntos. Refere 20% de desvalorização como quem dá bitaites acerca do resultado do jogo enquanto come tremoços no café. Se quiser um exemplo, olhe para a Islândia.

Ah, e essa da "capacidade de substituir importações" é uma treta. A capacidade de substituit importações está condicionada à capacidade de reutilização da capacidade produtiva.

Fora o "problema bancário" que o Miguel Madeira refere...


De Luís Lavoura a 19 de Outubro de 2011 às 09:22
Os 20% não são um bitaite. (A sua comparação com o caso islandês é que é - cada caso é um caso.) São uma estimativa daquilo que os salários portugueses terão crescido mais do que os alemães desde a criação do euro. É um número que tem sido repetidamente utilizado, por exemplo, pelo economista Pedro Arroja.

A capacidade de substituir importações é real. As pessoas hoje compram bicicletas fabricadas no estrangeiro em vez de comprarem produto nacional, compram queijos estrangeiros em vez de comprarem nacionais, etc. Fazem isso porque o produto estrangeiro tem, na sua perceção, melhor relação qualidade-preço. Mas, se o produto importado ficasse 20% mais caro, essa relação alterar-se-ia.

E, como mostram todas as estatísticas, e a realidade observada, o investimento em Portugal tem caído a pique. O que quer dizer que, se a procura aumentasse, haveria muita capacidade para investir (na nova moeda nacional, mais abundante, claro - não em euros).


De Miguel Madeira a 19 de Outubro de 2011 às 14:42
Eu tenho mais ouvido falar em 30%


De Luís Lavoura a 19 de Outubro de 2011 às 14:58
Sim, há quem fale em 30%, mas também há quem diga que é tudo falso, porque os salários portugueses de facto não cresceram em relação aos alemães. E também há quem diga que Portugal não compete com a Alemanha mas sim com a China, etc.

O que é certo é que terá que haver uma desvalorização substancial, que é imprescindível para que a balança de transações correntes fique equilibrada. De quanto é que será essa desvalorização, logo se verá. O que é certo é que o objetivo - o equilíbrio da balança de transações correntes - é imprescindível, para que os bancos portugueses não tenham que continuar a viver à custa de dinheiro pedido emprestado ao estrangeiro.

Isso é austeridade? É. Mas é austeridade com um objetivo concreto e atingível. Não é como a presente austeridade que tem um objetivo - pagar as dívidas ao estrangeiro - inatingível.

Já agora, Pedro Arroja é atualmente mais radical, e diz que, para atingir o objetivo em questão, já nem bastará Portugal sair do euro - terá mesmo que sair da União Europeia, para poder voltar a ter uma política agrícola e industrial independente. Coisa que não considero impensável.


De PR a 19 de Outubro de 2011 às 22:10
Que confusão.

1) A moeda não desvaloriza até que os salários igualem X ou Y. A moeda valoriza ou desvaloriza conforme a sua procura nos mercados internacionais. Ponto.

2) A austeridade não é um objectivo, nem uma meta. É uma restrição. Cortamos 4% da despesa nacional porque só há financiamento assegurado para os restantes 6%.

O que o Luís propõe é que se corte 10% de vez, de maneira a... hum... a não precisarmos de mais financiamento. Propõe o mesmo objectivo mas torna o caminho mais penoso.

3) Se acha que a dívida é impagável com toda essa certeza, sugiro-lhe que vá ao mercado e aposte nesse resultado. Pode ganhar um barril de massa.


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