Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011
Priscila Rêgo

Gerou-se um consenso em torno da ideia de que as "gorduras do Estado" são os custos de funcionamento supérfluos da máquina administrativa. De forma genérica, seriam alguns pozinhos de "consumos intermédios", uma rubrica suficientemente lata para abranger coisas tão distintas como o papel da repartição das finanças e o giz da escola secundária. O resto não pode, por definição, ser "gordura": são serviço público (salários do funcionalismo), Estado social (prestações sociais) e investimento reprodutivo (formação bruta de capital fixo). Se isto for verdade, não há, de facto, muitas gorduras: o consumo intermédio representa menos de 10% do total da despesa pública.

 

Felizmente, isto não é verdade. A "gordura", pelo menos no sentido em que o termo deve ser empregue, não é um custo de funcionamento de uma estrutura imutável: é todo o tipo de gastos que não gera utilidade acrescida ou valor para os cidadãos. Se a estrutura em si é supérflua, pois bem que pode ser suprimida. Quem anda com celulite debaixo das nádegas não é mais perdulário (nem necessariamente mais parvo) do que quem transporta na mochila um calhamaço que nunca lê.

 

Isto permite abrir bastante mais o leque de candidatos aos cortes que se avizinham. Gorduras podem ser salários com função pública que estão acima do preço de mercado, ou sistemas de incentivos que premeiam a mediocridade. Isto abre portas à reduções de remunerações e um verdadeiro sistema de avaliação de resultados [que pode, no limite, levar até a melhores salários nalgumas franjas da função pública]. Gorduras também podem ser prestações sociais que incentivam o desemprego e agudizam a destruição de capital humano. Sabemos o suficiente acerca disso para saber que é possível diminuir os gastos com subsídios de desemprego e deixar toda a gente melhor.

 

Salários e prestações sociais são rubricas como as outras. Não tenho problemas com quem separa as gorduras destas duas rubricas. Desde que mantenha presente que as categorias não são necessariamente exclusivas.

 

 


4 comentários:
De iupi a 19 de Outubro de 2011 às 16:57
- 'Gorduras podem ser salários com função pública que estão acima do preço de mercado' (lá volta o tal do 'mercado'). O problema é que assim não consegue fazer qualquer avaliação: muitas funções desempenhadas por funcionários públicos (a maior parte delas) não têm, nem podem ter concorrentes no 'mercado': por diversos motivos - soberania, p.ex. - policia, tribunais, etc;
- onde é que as reformas encaixam neste corte de gorduras?
- o mais acertado será abandonar de vez essa história das gorduras porque está demonstrado que foi mais uma linha de campanha eleitoral sem qualquer sentido para lá disso.

- se este governo quer governar como está a governar que o assuma, que governe sem ter preconceitos consigo mesmo.


De PR a 19 de Outubro de 2011 às 21:56
"O problema é que assim não consegue fazer qualquer avaliação: muitas funções desempenhadas por funcionários públicos (a maior parte delas) não têm, nem podem ter concorrentes no 'mercado'"

O preço de mercado é o preço suficiente para as atrair para a posição. Parece-me consensual que os maquinistas da CP, por exemplo, poderiam ser atraídos com salários e benefícios consideravelmente mais baixos. Mesmo sem benchmark comparável no mercado.


De iupi a 20 de Outubro de 2011 às 09:48
há sempre alguém que faria o mesmo trabalho por menos dinheiro - não é essa a solução para as funções do estado.

os maquinistas da CP (e que sorte haver maquinistas, servem para tanta coisa), infelizmente não encaixam no 'estado' a que eu me referi.

o empobrecimento generalizado dos funcionários públicos é a solução... não acompanho.


De PR a 20 de Outubro de 2011 às 14:07
Não. Há um limite abaixo do qual do qual não é possível preencher todos os lugares da função pública.

E há um patamar a partir do qual a função pública consegue preencher todos os lugares e ainda deixa muita gente de fora. É esse o patamar em que estamos, que deve ser revertido. Não concebo outra lógica para a administração pública que não seja pagar o que é preciso e não mais do que isso.


Comentar post

autores

Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

comentários recentes
Great post, Your article shows tells me you must h...
You’ve made some really good points there.I looked...
دردشة سعودي ون (http://www.saudione.org/) سعودي و...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
http://www.chat-palestine.com/ title="شات فلس...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
كلمات اغنية مين اثر عليك (http://firstlyrics.blogs...
o que me apetecia ter escrito. mas nao o faria mel...
good luck my bro you have Agraet website
resto 5resto ya 5waga
posts mais comentados
125 comentários
114 comentários
53 comentários
arquivo

Fevereiro 2013

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

links
subscrever feeds