Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
Tiago Moreira Ramalho

Aposto todas as letras deste texto que ninguém sabe ao certo quantos «opinadores» habitam a nação. A opinião publicada tornou-se um direito adquirido e a pátria uma colmeia. A  zumbideira às tantas torna-se infernal. Daí tornar-se necessário um darwiniano processo de selecção natural. Neste tempo, cabe-nos, como humanos, escolher duas coisas essenciais: parceiros sexuais e companhias intelectuais. E eu escolhi, há já algum tempo, o Henrique Raposo para fazer parte da segunda. E é também por isso que não consigo ler o Portugal do Avesso sem ser em termos comparativos com tudo o resto que li dele.

A Capirinha de Aron, que guardo lá em casa na estante do Pedro Mexia, do António Barreto e do Gore Vidal, era uma colectânea que me dava para a releitura. Aquela coisa tinha uma subtileza literária, um rigor analítico, uma qualidade na selecção dos temas que me fazia recomendá-la prontamente quando um amigo ou conhecido se prestava ao bonito ritual iniciático de quem procura um «livro para aprender sobre política». Porque a Caipirinha de Aron, em muitas partes, permitia franca aprendizagem, no sentido académico do termo.

Este bolo tão equilibrado de forma e conteúdo deteriorou-se, infelizmente. Em Portugal do Avesso, a literatura perdeu subtileza. É agora uma gorda de roupa justa, muitas vezes velha, que se abana no meio da rua e que toda a gente vê. As frases curtas e repetitivas dão uma ideia de febre argumentativa, como se o autor estivesse num debate aceso (a crónica é palestra), as metáforas e as adjectivações são muitas vezes forçadas e pouco felizes. E a análise perdeu o rigor, pelo menos o rigor explícito, que tinha no passado. Há momentos nas crónicas em que a hipérbole, no meio de tanto estilo, se torna facto. As simplificações levam a conclusões toscas e francamente questionáveis. E isto não é por as qualidades intelectuais do autor terem diminuído. Parece-me, sim, que a percepção das qualidades intelectuais dos leitores é que piorou. As crónicas do Henrique Raposo são crónicas para um público diferente do do passado. São para um público que procura na opinião escrita um entretenimento, não uma fonte de aprendizagem ou de reavaliação da realidade. São, atrevo-me, para um público mais burro. E isto, sendo certo que aumenta a população elegível para se fidelizar, diminui a qualidade intrínseca do autor.

Mas nem tudo é mau, nem tudo é triste. Aliás, se o parágrafo anterior fosse de tudo o mais relevante, esta crónica nem estaria a ser escrita. O Henrique Raposo continua a estar lá. No entanto, o conteúdo tornou-se uma espécie de depósito de petróleo brasileiro, cheio de água e terra e sal em cima. É preciso escavar. As causas continuam a ser as certas – uma sociedade menos corrupta nos valores, um Estado menos corrupto (tout court), um optimismo racional. De resto, falta quebrar o mito de que o ódio gerado é consequência da boa crónica (não é) e o mito da simplificação. Até porque o Henrique Raposo é, diga-se o que se disser, um referencial para pelo menos um par de gerações: a dele e a minha. E perder isso seria terrível.


1 comentário:
De chat a 14 de Julho de 2014 às 20:19

شات مصريه (http://www.maasrya.com/)
منتدي صور مصريه (http://www.maasrya.com/vb)
منتدي صور (http://www.maasrya.com/vb)
منتديات مصريه (http://www.maasrya.com/vb)


Comentar post

autores

Bruno Vieira Amaral

Priscila Rêgo

Rui Passos Rocha

Tiago Moreira Ramalho

Vasco M. Barreto

comentários recentes
Great post, Your article shows tells me you must h...
You’ve made some really good points there.I looked...
دردشة سعودي ون (http://www.saudione.org/) سعودي و...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
http://www.chat-palestine.com/ title="شات فلس...
شات فلسطين (http://www.chat-palestine.com/) دردشة ...
كلمات اغنية مين اثر عليك (http://firstlyrics.blogs...
o que me apetecia ter escrito. mas nao o faria mel...
good luck my bro you have Agraet website
resto 5resto ya 5waga
posts mais comentados
125 comentários
114 comentários
53 comentários
arquivo

Fevereiro 2013

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

links
subscrever feeds